Lendo o Asimov’s Guide To The Bible, descobri que a palavra “chibolete”, que os gileaditas usavam para descobrir quem era de Efraim, significava “córrego”, “corrente de água”. E também aprendi que, em inglês, o termo shibboleth é usado para definir qualquer palavra que sirva para distinguir um grupo de pessoas de outro. A frase “Espera a pêra”, por exemplo, que o Jô Soares — achando que é engraçado — faz qualquer um que fale espanhol pronunciar (“Espêra pêra”), é um shibboleth.
Mês: janeiro 2004
I’m going through changes

Acabei de botar esse troço. Fiquei mais BONITO ainda…
Jefté e a tribo de Efraim
No capítulo em que Gideão derrotou os midianitas, ficamos sabendo que os homens de Efraim eram os melhores guerreiros de Israel. Tudo muito bem, mas tinha um detalhezinho chato: eles gostavam de ver sangue e não admitiam de forma alguma serem deixados de fora de qualquer batalha. Jefté os convocou para a guerra quando os amonitas já estavam praticamente derrotados, o que os emputeceu deveras. O exército efraimita atravessou o Jordão e os líderes foram falar com Jefté:
— Porra, Jefté! Agora cê vem chamar a gente pra guerra? Tá doido? Isso não vai ficar assim! Vamos queimar sua casa com você dentro, filho da puta!
— Ei, peraí! Primeiro: sou filho da puta mesmo, e tenho muito orgulho da profissão de mamãe. Segundo: eu mandei um e-mail convocando vocês para a guerra. Não receberam não? Mandei o e-mail e fiquei esperando. Como vocês não vieram me ajudar, vim com os soldados que tinha e derrotei os amonitas, com ajuda de Javé. Sinto muito.
— MENTIROSO! NÓS VAMOS ACABAR COM A TUA RAÇA!
— Ei, não fiz nada contra vocês! Que negócio é esse?
— Vocês, gileaditas, vivem nas terras de Efraim e Manassés, e no entanto são uns traidores! Você é um desertor de Efraim!
Jefté não tinha metade do jogo de cintura de Gideão, então nem tentou uma solução diplomática:
— EU QUERO MAIS É QUE EFRAIM SE FODA! E AÍ? VÃO ENCARAR?
O clima ficou bem pesado, e a guerra foi declarada, Gileade contra Efraim. Como estratégia, os gileaditas tomaram todos os pontos de travessia do Jordão, para evitar que os efraimitas passassem. Então, sempre que alguém chegava por ali, a sentinela perguntava:
— É efraimita?
Se o cara respondesse “sou”, era morto na mesma hora. Se negasse ser efraimita, a sentinela fazia um teste:
— Fala “Chibolete”.
— Como???
— FALA “CHIBOLETE”, CARALHO!
Parece absurdo, mas na verdade era um jeito simples e eficaz de saber se o sujeito era efraimita ou não: devido ao sotaque de Efraim, qualquer um nascido naquela terra pronunciaria “Sibolete”. Algo como pedir a um carioca para falar “sinistro” (“sinishtro, aê!”) ou a um paulistano para dizer “evento” (“evêinto, meu!”). E o que aconteceu ali às margens do Jordão foi mesmo um evêinto sinishtro: 42 mil efraimitas mortos por causa de seu sotaque. Diabólico, não?
A vitória sobre Efraim foi o último feito digno de nota na vida de Jefté. Depois disso, ele governou Israel por seis anos, após os quais morreu e foi enterrado em Gileade.
Jefté foi sucedido por um certo Ibsã, da cidade de Belém (aquela). Ibsã tinha trinta filhas e trinta filhos, para os quais arrumou noivos e noivas de outras tribos. Governou Israel por sete anos. Depois que Ibsã morreu e foi enterrado em Belém, foi a vez de Elom tornar-se juiz. Ele governou por dez anos, e foi enterrado em Aijalom, na tribo de Zebulom, sua terra natal. Abdom, filho de Hilel, sucedeu a Elom, e seu governo (se é que podia se chamar assim) durou oito anos. Foi enterrado em Piratom, sua cidade de origem, na tribo de Efraim.
Três juizezinhos muito dos sem-vergonhas, que nada fizeram de notável. Em compensação, depois de Abdom (o inventor dos abdominais, rá!), vem o cara que fez algumas das coisas mais impressionantes de toda a Bíblia, um verdadeiro herói. Começaremos a falar dele no próximo capítulo.
Inagaki
No lançamento do livro Depois Que Acabou, de Daniela Abade, uma garota veio falar comigo:
— Marco Aurélio, você sabe se o Inagaki já chegou?
— Sei não. Não o conheço pessoalmente.
— Puxa… Eu fui falar com aquele japonês ali, perguntei se ele era o Inagaki, e o cara respondeu um “não” bem seco.
— Putz! Então é o Inagaki mesmo! Ele adora fazer essa brincadeira, tava me falando que sempre faz isso. Vai lá e fala pra que você sabe que ele é o Inagaki e que tá de sacanagem.
— Sério?
— Sério, o japonês é cheio de mumunhas.
— Legal, vou lá.
Bom, claro que o tal japonês era o fotógrafo contratado para o lançamento, e claro que eu me diverti bastante às custas da garota. O Inagaki chegou logo depois, com seu largo sorriso e nível zero de antipatia.
Digo isso porque fiquei muito feliz em conhecê-lo e trocar algumas palavras com ele naquele dia, e fico muito feliz agora em pedir a vocês que votem no Pensar Enlouquece. Pense Nisto. para o prêmio iBest Blog 2004.
— CLARO QUE ESTAVA! EU VOTEI! VOCÊ ENCHEU O SACO PRA TODO MUNDO VOTAR! PERDEDOR! PERDEDOR! PERD… EI! Por favor, não atire! Não! NÃAAAAAAAAA……..
Aham… De volta à nossa programação normal.
BBBah!
Eu odeio o Big Bother Brasil. Não, nunca assisti. Assisti às duas primeiras versões da Casa dos Artistas, no SBT, confesso. Mas o BBB nunca me atraiu; devo ter assistido a uns dez minutos do primeiro, e foi o que bastou para pegar nojo.
Nem é por isso que eu odeio o programa, no entanto: o que me faz ter convulsões de raiva é saber que até o fim desse negócio eu vou me sentir ainda mais alienígena do que o costume. Porque todo mundo só fala disso, comenta que fulana mostrou os peitos, que beltrano agarrou sicrana, que a outra lá está fazendo intrigas na casa, que aquele um quase que sai na mão com aquele outro. E eu sem entender nada. Ô, merda…
21 gramas
O filme é sobre morte, claro, mas também sobre redenção. Benicio Del Toro e Sean Penn (per brindare un en… AAARGH) estão magníficos. A estrutura não-linear, que me irritou no começo, acaba por justificar-se. Assistam.
— Uma inteira pro Vinte e Um Gramas, por favor.
— Vinte e UMA Gramas? — me corrigiu grosseiramente a bilheteira.
Ignorância? Onde?
Andróides
Lendo este post do Instante Anterior, lembrei-me da vez em que presenciei (ou quase isso) uma mulher sendo atirada aos trilhos do metrô (post aqui). As reações das pessoas que estavam na plataforma variavam: umas ficaram indiferentes, outras impacientes (“Ah não, vou chegar tarde em casa!”), outras ainda curiosas (houve quem se deitasse de bruços na plataforma tentando ver a mulher sob o trem). Porém, assim como no caso descrito pelo Bruno Medina no post dele, também no metrô pouca gente pareceu importar-se com o mais importante: um ser humano — o semelhante, o próximo — provavelmente acabara de sofrer uma morte horrível. Bruno assim diagnostica tal insensibilidade generalizada:
Concordo que tais fatores contribuam para piorar o problema, mas não são sua causa: pelo que percebo da Literatura e da História, pessoas insensíveis ao sofrimento alheio sempre foram regra, não exceção. Talvez Darwin tenha alguma explicação para isso, algo relacionado à garantia do bem-estar do indivíduo a curto prazo, sei lá. O fato é que pessoas que se sensibilizam com o que acontece aos outros (e a princípio não as afeta) são uma minoria horrorizada diante da monstruosidade de seus pares.
Pensar nisso me fez lembrar de uma passagem do livro Blade Runner, de Philip K. Dick (não sei se foi transposta para o filme), em que o caçador de andróides faz um teste padrão para discernimento entre seres humanos e cibernéticos. Li esse livro no tempo em que Satanás era criança, então não me lembro de detalhes. Sei que o teste era uma espécie de psicotécnico com auxílio de um aparelho parecido com um detector de mentiras. Só que, em vez de mentiras, o aparelho detectava empatia, a maravilhosa capacidade que os seres humanos teoricamente possuem de se colocarem no lugar dos outros. A certa altura, ele disse ao indivíduo sendo testado:
— Viu que bonita a minha pasta? Sabe do que é feita?
— Não.
— Pele de bebê. Bebê humano. É o melhor couro que existe.
O aparelho não registrou qualquer reação de empatia, embora o que fazia o teste demonstrasse todas a atitude de horror esperada. Era andróide, portanto, e foi pro saco.
Er… Era mais ou menos assim, faz mais de quinze anos que li esse livro. Mas o que eu comecei a matutar quando me lembrei dele foi: se a empatia for realmente o que difere homens de máquinas (ou monstros), quantos seres humanos de fato há por aí? Quantos passariam no teste do caçador de andróides?
E no teste da farinha, por falar nisso?
Tá, parei.
Até o Fim
Quando nasci veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim
Inda garoto deixei de ir à escola
Cassaram meu boletim
Não sou ladrão, eu não sou bom de bola
Nem posso ouvir clarim
Um bom futuro é o que jamais me esperou
Mas vou até o fim
Eu bem que tenho ensaiado um progresso
Virei cantor de festim
Mamãe contou que eu faço um bruto sucesso
Em Quixeramobim
Não sei como o maracatu começou
Mas vou até o fim
Por conta de umas questões paralelas
Quebraram meu bandolim
Não querem mais ouvir as minhas mazelas
E a minha voz chinfrim
Criei barriga, minha mula empacou
Mas vou até o fim
Não tem cigarro, acabou minha renda
Deu praga no meu capim
Minha mulher fugiu com o dono da venda
O que será de mim?
Eu já nem lembro pronde mesmo que vou
Mas vou até o fim
Como já disse era um anjo safado
O chato dum querubim
Que decretou que eu tava predestinado
A ser todo ruim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim
(Chico Buarque)
Música
Quando comecei na academia, até Pearl Jam se ouvia naquela pocilga, agora nem o repertório musical se salva mais: o tempo todo aquelas músicas cujo estilo não sei definir. Algo que, no tempo em que eu era jovem (e o Mar Morto ainda estava doente), chamávamos de bate-estaca. Bom, então ontem eu estava lá na academia, andando na esteira (puta troço chato, meu Deus!), sem porra nenhuma para fazer, nada para olhar, uma tristeza do tamanho da minha testa, quando minha atenção foi atraída por uma dessas músicas. Uma batida manjada sublinhava a voz que cantava algo em inglês, mas que me soou como:
U-SEU-PAI
CHUPARRÔLADOMEUPAI!
U-SEU-PAI
CHUPARRÔLADOMEUPAI!
Quase caí da esteira. Alguém sabe que música é essa?
Perguntinha
Entre 4 e 6km de caminhada em ritmo acelerado três vezes por semana já tá bom, né?

