Vi a foto de Samuel L. Jackson no pôster e pensei em Pulp Fiction, Jackie Brown e Unbreakable.
Vi Robert Carlyle e logo pensei em Trainspotting e Full Monty.
Qual o quê! The 51st State (canhestramente traduzido aqui como Baladas, Rachas e Um Louco de Kilt, vejam só) é uma bela porcaria. Entrei no cinema curioso para saber se seria um filme mais puxado para o americano ou para o britânico. Ao sair, estava convencido de ao menos uma coisa: os realizadores do filme podiam ter poupado Liverpool de tamanha vergonha. Hong Kong seria um cenário melhor, embora eu ainda ache que cidade nenhuma mereça o acinte de ter uma excrescência como essa rodada em seu território.
Filmeco sem-vergonha, roteiro nenhum, coisa mais triste. Espero que Paulo Vivan faça o sacrifício de assistir a essa coisa, para poder esculachar com o filme daquele jeito que só ele sabe. Quanto a mim, peço a opinião de Nossa Senhora da Cabeça, minha padroeira. Diga, minha santa!


— Peeeeeeeeeense num filme ruim…

Pois é.

Meu coração tem braços, pernas e rosto. Sim, ele tem. As pernas são curtas e grossas demais, os braços são longos demais, o rosto é feio e os dentes são tortos. Muito parecido comigo, meu coração.
Dormiu durante anos, então foi um susto imenso quando, há quase oito meses, ele foi acordado por uma voz e resolveu sair para ver de quem era: escalou pelo esôfago, dependurou-se na glote, usou a língua como trampolim e saltou. Muita disposição para quem dormia ainda há pouco. Quando pensei que ele ia esborrachar-se no chão — o que seria merecido, dado o atrevimento — ele abriu um par de asas. Feias, murchinhas, encardidas, mas ainda assim! Asas! Deu duas voltas pelo bar e veio pousar em meu ombro. Olhou para a dona da voz e resolveu nunca mais voltar aqui pra dentro, encantado por sei lá que tom de azul nos olhos e sei lá que tom de fina ironia na voz.
Agora ele vive assim, orbitando minha cabeça por onde eu vou. Às vezes ele sai, anda um pouquinho até ali, depois volta. Agora mesmo está tomando café lá na copa enquanto escrevo. Sinto-me meio constrangido com esse coração desavergonhado, sem pudor nenhum de mostrar-se a todo mundo. Eu olho para as outras pessoas, e todas elas têm corações disciplinados e obedientes, muito bem trancados dentro de suas caixas torácicas. Por que justo o meu tinha que ser assim rebelde?
Vez em quando ele pousa aqui no meu ombro, para ler algo que ela tenha escrito, ou então — mais raro — para ouvir sua voz. Às vezes o que ela escreve ou diz o deixa num estado de júbilo insano, e ele sai dando piruetas, fazendo acrobacias no ar, exibindo-se para espanto dos outros e para minha total vergonha. Em outras ocasiões, o que ela diz — ou, mais freqüentemente, o que ela deixa de dizer — o deixa cabisbaixo. Então ele vai para um canto, encolhe as asas e fica lá retorcendo as mãozinhas e resmungando.
Nessas horas, eu bem sei, ele pensa em voltar aqui pra dentro e retomar seu sono confortável. Mas seu orgulho é muito grande, e ele jamais aceitaria tal derrota.
Vai ficando por aí, portanto. As pessoas apontam para mim, cochicham, riem. Aos poucos eu me acostumo.

Eu pego o fretado para o trabalho às 6h20min da manhã. Já deveria estar dormindo há horas. Só que o cabeção aqui resolveu pensar tudo ao mesmo tempo hoje. Circuitos congestionados na esponja cinzenta que ocupa minha grande caixa craniana.
Aí depois diz que não sabe por que é hipertenso…
ARGH! Preciso dormir!

Eu sei que minhas cuecas têm sido assunto recorrente por aqui, só perdendo para os ombros femininos que, cá entre nós, são bem mais interessantes que minhas roupas de baixo. Mas é que eu tenho passado por um drama muito sério, e queria compartilhar isso com meus leitores fiés.
— Foda-se.
Não fala assim com o titio…
Pois bem, tudo começou com aquela cueca frouxa na cintura, que toda hora ia parar no meio da bunda. Resolvi o problema com um clipe e no mesmo dia comprei na Renner um pacote com cinco cuecas por dezesseis reais. Fiquei feliz, mas durou pouco: à primeira lavagem, as cuecas de tamanho GG (é grande a minha bunda) reduziram-se a mero M, tornando-se insuficientes, portanto, para acomodar minhas nádegas, além de ficarem apertando as ferramentas que não uso mas pelas quais muito zelo. A primeira conseqüência foi que eu comecei a escrever períodos longos demais, como este último. É difícil montar frases quando se tem seu saco espremido; experimentem. A segunda conseqüência foi a decisão de comprar mais cuecas.
Comprei dois pacotes de duas cuecas por dez reais cada na C&A. Como se vê, uma evolução. De fato, são cuecas de boa qualidade. Pelo menos ainda não encolheram. A desgraça, nesse caso, ocorreu na ocasião da compra: no afã de renovar minha gaveta de underwear, comprei duas cuecas GG e duas PP. Triste. Oras, cuecas PP sequer passam pela minha batata da perna.
Dias depois, tendo esquecido de abastecer a mochila da academia com essa indispensável peça de vestuário, dei uma passada na Renner. Escaldado pelo episódio das cuecas encolhedoras, comprei uma cueca de sete reais. Coisa fina, toda esticável, preta e com aquele elástico largo, coisinha mais sexy. Minha alegria durou até a noite: depois de muito ralar na academia, tomei banho e fui vestir minha cueca nova. Um sacrifício. Só quando cheguei em casa percebi o engano: havia mais uma vez comprado uma peça de tamanho errado, dessa vez M.
EU NÃO AGÜENTO MAIS!
Sei lá. Vou comprar uma calcinha rosa para o reveillon, depois eu penso nisso.

Pronto. Desabafei.
Voltamos à nossa programação normal.

Então toma!

Gostou?

Tá. Sério, agora. A primeira foto é da leitora Bárbara Kawasaki, que diz que a parte de seu corpo de que mais gosta são justamente os ombros:

Por que será? E ela, comovida com o desespero dos leitores que queriam ver o rosto das modelos até agora, enviou uma foto de seu rosto também:

Prestem atenção ao ROSTO, porra!
Humpf. E então a mundialmente famosa e mui querida aqui da casa Cris Camargo resolveu também enviar a foto de seus lindos ombros, costas, tatuagem e coisa e tal:

Por fim, os ombros da Lila, em frente e verso:

E então, estão esperando o quê para enviarem suas fotos? O próximo concurso, de fotos de peitos? Hehehe.

(Juízes 7)

Tendo recebido de Javé todos os sinais que solicitara, Gideão não teve outra alternativa senão sair com seus homens para atacar os midianitas. Então eles saíram e acamparam numa tal fonte de Harode, ao sul do acampamento dos midianitas. E Javé foi até lá para falar com Gideão.
— Quanta gente, hein?
— Tá vendo, Senhor? O povo tá disposto mesmo a libertar Israel.
— Sei, sei… Mas você não acha que é muita gente não?
— Er… Como assim?
— Ah, Gideão, eu não nasci ontem. Aliás, eu não nasci nunca. Se você atacar os midianitas com esse exército enorme, depois o povo vai começar a dizer que derrotou os caras e ninguém vai se lembrar da minha interferência. Não: precisamos reduzir o número de soldados.
— Com todo respeito, Javé: cê tá doido??? Estou aqui com 32 mil homens. Você sabe quanto são os midianitas? São como gafanhotos e seus camelos…
— … São como os grãos de areia da praia. Tô sabendo. Mas você está se esquecendo de um detalhezinho…
— Qual?
— Tá esquecendo que eu sou é Deus, tá me ouvindo? DEUS!!! Comigo não tem essa de gafanhotos, de areia do mar, porra nenhuma. Agora você trate de convocar seus homens e dar o seguinte recado: quem for medroso, bunda-mole, mocorongo, tímido e zé-mané, pode voltar pra casa.
— Porra, Javé, e quem é que vai vestir uma carapuça dessa???
— Tenta…
Gideão juntou seus homens e passou o recado de Javé. Resultado: 22 mil bravos soldados israelitas enfiaram o rabo entre as pernas e voltaram pra debaixo da saia da mamãe.
— Puta que pariu, Javé! Meu exército foi reduzido a menos de um terço. Tá feliz agora?
— Hum… Ainda não. Gente demais.
— GENTE DEMAIS??? São dez mil caras contra uma caralhada de midianitas!
— Blibliabliblas®… Fala com a minha mão, Gideão. Tô dizendo que não tem pra ninguém, nós vamos derrotar esses caras aí. Mas o crédito será meu.
— Tá, tá… Que recado eu dou pros caras agora? Quem for canhoto, vá pra casa? Quem for míope? Quem tiver pau grande?
— Nah… Se você falar pra todo mundo que tiver pau grande ir pra casa, não fica um. Sabe como homem é mentiroso com essas coisas. Não, não: leve seus homens até a fonte para beberem água. Observe bem o jeito que cada um bebe. Aí você vai separar seu exército em dois grupos: de um lado, os homens que bebem levando as mãos em concha até a boca e lambendo a água; do outro, os que se ajoelham para beber.
— Testezinho esquisito esse, hein?
— Pois é. Pra descontar aquele da lã que você fez comigo…
— Tá bom, tá bom. Vou lá.
Gideão fez como Javé havia ordenado e separou os homens em dois grupos, tendo o primeiro apenas 300 homens e o segundo 9.700.
— Pronto, Javé. Fiz o teste. O exército foi reduzido a 9.700 homens. Tá bom agora?
— NOVE MIL E SETECENTOS??? Tá doido?
— Mané doido! Pode ver aqui, ó: é o número dos caras que se ajoelharam para beber.
— E eu lá vou querer um exército de homens que ficam de bunda pra cima por qualaquer coisa? Não senhor: você vai atacar os midianitas é com o outro grupo.
— Com os 300 homens, Javé?
— É.
— COM OS TREZENTOS HOMENS, JAVÉ?
— Não grita, porra. É, com os trezentos.
— COM OS TREZEN…
— PUTA QUE PARIU! Cê não acredita? Desce até o acampamento dos caras e ouve o que eles andam dizendo por lá.
— O que eles andam dizendo?
— Vai lá e vê, oras. Estão com medo de você.
— Sei, sei…
Gideão, desconfiado como sempre, resolveu ir mesmo até o acampamento dos midianitas. Chamou seu criado, Purá, e foram os dois até o primeiro posto avançado de sentinelas. Logo de cara, ouviram dois guardas que conversavam:
— Rapaz, tive aquele sonho hoje de novo.
— O do camelo?
— É. E dessa vez tinha um desses beduínos também.
— Putz, com um beduíno?
— É.
— Você precisa de mulher urgente.
— Eu sei, eu sei…
— Porra! Um camelo e um beduíno… Eu, hein… Ah, tive um sonho esta noite também.
— É mesmo? De putaria? Conta! Conta!
— Não, nada de putaria. Um sonho bem absurdo, na verdade. Sonhei que um pão de cevada torrado descia rolando ali do morro. Vinha rolando na direção do nosso acampamento. Veio vindo, veio vindo, e bateu na tenda do comandante. A tenda se desmontou toda e ficou estendida no chão.
— Ixe. Que sonho besta.
— Pois é.
— Mas, olha só… Acho que faz algum sentido.
— Faz?
— Parece. Cê ficou sabendo do tal Gideão? O cara juntou um exército pra lutar contra a gente. É um exército pequeno. Pequeno feito um pão de cevada…
— Oras, não fale bobagens!
— Sei não, sei não… Esses israelitas são malucos, e dizem que o deus deles é mais doido ainda.
Gideão ouviu isso e empolgou-se: voltou para o acampamento e convocou rapidamente seus homens. Repartiu os trezentos soldados em três companhias de cem e entregou a cada um trombetas e cântaros com tochas acesas dentro.
— Nós vamos lá para o acampamento dos midianitas agora. Vocês olhem para mim e façam tudo o que eu fizer.
As três companhias desceram silenciosamente até onde os midianitas estavam. Cada homem levava uma trombeta numa das mãos e um cântaro na outra. Chegaram ao acampamento inimigo pouco depois da meia-noite, logo após a troca das sentinelas. Então Gideão tocou sua trombeta e quebrou seu cântaro, descobrindo assim a luz da tocha. Os cem homens de sua companhia o imitaram, assim como as outras duas companhias: todos tocaram suas trombetas, quebraram seus cântaros e gritaram: “Por Javé e Gideão!”.
Imaginem agora a cena do ponto de vista dos midianitas: era tudo silêncio e paz no vale. De repente soam trombetas, ouve-se o barulho de coisas se quebrando, e vê-se a luz de tochas surgidas como que por milagre, ao mesmo tempo em que trezentas vozes gritam o nome do deus e do líder de Israel. Meia-noite, todo mundo com sono, bêbado ou ambos, e não deu outra: confusão no acampamento, susto generalizado. Começaram a lutar uns contra os outros, uns fugiram.
— Puxa vida! Aí os trezentos israelitas acabaram com a raça dos milhares de midianitas?
É claro que não! Homens das tribos de Naftali, Aser e Manassés foram chamados, e eles ajudaram os homens de Gideão na perseguição ao inimigo. Mensageiros foram enviados a Efraim, convocando-os para tomarem todas as fontes de água e o Jordão, para assim matarem os midianitas de sede. Os efraimitas assim fizeram e ainda prenderam os dois príncipes midianitas, Orebe e Zeebe. Ambos foram mortos e suas cabeças levadas até Gideão.
Com essa impressionante vitória sobre os midianitas, até então tidos como invencíveis, Gideão começou a experimentar as dores de cabeça e também a glória de estar numa posição de destaque. Veremos como foi isso no próximo capítulo.