Sim, meus caros: concluí o quarto livro da Bíblia. E depois de lamberem minhas bolas e dizerem o quanto eu sou genial, vocês podem baixar a versão em formato PDF. Ficou maior que os outros três por causa do grande número de figuras que eu inventei de botar aqui e ali.
Mês: setembro 2003
A herança das mulheres casadas
Sei não, mas o tal Zelofeade ou tinha muito dinheiro ou suas filhas eram umas beldades incomparáveis. Só assim para se explicar que o livro dos Números tenha dois trechos grandes dedicados a Macla, Tirza, Hogla, Milca e Noa, filhas de Zelofeade. No primeiro, ficou decidido que as cinco moças teriam direito à herança do pai. Neste agora, os chefes da meia tribo de Manassés que ficara com o território de Gileade vieram falar com Moisés a respeito das irmãs:
— Seu Moisés, deus ordenou que nossos territórios fossem distribuídos por sorteio, e também que as filhas do Zelofeade herdassem as terras do pai, certo?
— Ce-certo.
— Então. Agora suponha que elas se casem com homens de outra tribo. A terra delas passará a pertencer aos maridos, e portanto à sua tribo. E então no próximo Ano de Libertação, a propriedade será deles definitivamente. Se a moda pega, vai ser um troca-troca danado de terras entre as tribos. Imagine o senhor as tribos de Israel espalhadas pelo mapa do país, e não cada uma em seu lugar, como deve ser.
— P-putz… Não t-tinha p-pensado nisso. V-vou f-falar com o Ja-Javé s-sobre isso.
Moisés assim o fez e Javé deu razão as homens da tribo de Manassés. Para evitar que um país dividido politicamente em tribos se transformasse a longo prazo num território caótico disputado entre pequenos grupos familiares, determinou que toda mulher israelita que possuísse terras deveria se casar com homens de sua própria tribo. Então as cinco donzelas de nomes estranhos se casaram com filhos de seus tios paternos.
* * *
E assim termina o livro dos Números. Não, não estou brincando: o livro termina dessa forma besta mesmo, falando mais uma vez das filhas de Zelofeade. Mas consigo enxergar uma razão para isso: Conforme ficara combinado, depois que os homens das duas tribos e meia a se assentarem a leste do Jordão tivessem construído as cidades para abrigarem suas esposas e filhos e os estábulos para protegerem seu gado, cruzariam o rio para batalharem junto com o resto do povo de Israel. O fato de já estarem discutindo assuntos familiares (como esse das cinco irmãs), demonstra que o processo de assentamento já estava avançado. Sendo assim, já estava quase tudo pronto para a invasão de Canaã. Moisés, porém, não pisaria em Canaã, como sabemos. Então quer dizer que Moisés morre agora? Hum… Não exatamente. Aos 120 anos de idade, Moisés era tudo menos bobo. E tinha um truquezinho na manga para engambelar Javé por algum tempo ainda. Que truque era esse? Falaramos dele no próximo livro, o Deuteronômio.
Constatação
Para quem não ia escrever a respeito, eu até que ando bem verborrágico… Bom, se meu medo era de dissolver o sentimento ao escrever sobre ele, então este é justamente o momento de escrever.
Tatá-TÁ
Ok, Los Hermanos é uma banda e tanto. A melhor do rock nacional em anos, é verdade. Mas o baterista, puta que pariu! O cara só sabe fazer aquele tatá-TÁ? Isso é ruim demais! É primitivo! Sabem aquele macaco de 2001 – Uma Odisséia no Espaço? Esse, ó:

Então, antes de jogar o osso ele tava fazendo tatá-TÁ com ele.
The Wrong Girl
I went looking for my darling,
I went looking for a sign
and I found her in the morning,
somewhere in the back of my mind
I’m not what I could be,
I need a true love
I went looking and I found one
The wrong girl
The wrong kind
The wrong hand to be holding
The wrong eyes to go searching behind
The wrong dream to have on my mind
(Belle & Sebastian, é claro)
As cidades dos levitas e para os fugitivos
— Putz, Moisés, ia me esquecendo de um negócio!
— O q-quê?
— As cidades para os levitas.
— P-para os le-levitas? Mas v-você não vi-vive d-dizendo que os le-levitas não vão t-ter di-direito a t-território, que os l-levitas são s-seus e o c-caralho a q-quatro?
— Ô, Moisés… Eles não vão receber um território grande como das outras tribos, mesmo porque têm que viver espalhados por todo o Israel. Mas você quer o quê, que eles vivam como ciganos?
— Q-que mal t-tem em ser ci-cigano? Vê o Si-Sidney M-Magal, ou o B-Benito Di P-Paula, ou o… Er… E-esquece.
— Pois é. E você também é levita, esqueceu? Ia querer viver vagando por aí?
— P-peraí! Q-quer dizer q-que eu vou e-entrar na T-Terra P-prometida???
— Ah, é! Tinha esquecido. Que cabeça, a minha…
— Hu-humpf!
— Hehehe. Olha, tá aqui a planta das cidades para os levitas:

— D-desenhozinho t-tosco, hein, Ja-Javé? P-puta que p-pariu…
— Não torra, Moisés. Fiz isso às pressas só pra você entender. A parte em ocre é a cidade, um quadrado de 900 metros de lado. A parte em verde são os pastos que ficarão em volta da cidade, a uma distância de 450 metros da muralha nas quatro direções. Vocês vão construir 48 dessas cidades espalhadas por todo o território de Israel, sendo seis delas cidades para fugitivos.
— Ci-cidades para f-fugitivos???
— Já explico, porra. Não me interrompe. Bom. Cada tribo terá um número de cidades de levitas proporcional ao tamanho do seu território.
— …
— Que foi?
— Já a-acabou?
— Hum… Já, ué.
— D-dá pra e-explicar que n-negócio é esse de ci-cidades para os fu-fugitivos?
— Ah, é. O negócio é o seguinte: todo assassino será condenado à morte, já falamos bastante disso. Mas pode acontecer de algum zé-mané aí matar outro por engano, sem querer. Acidentes infelizes acontecem. Nesses casos, o povo julgará a favor do que matou, e este vai se refugiar numa dessas seis cidades, ficando lá até a morte do Sumo Sacerdote. Isso será feito para evitar que algum parente da vítima resolva vingar-se. Mas aí o cara tem que ser esperto: se sair da cidade de refúgio e o tal parente da vítima o encontrar, este poderá matá-lo e não será culpado. Neguim vacilou, amanhece com a boca cheia de formiga, é um-dois pra subir.
— Q-que p-porra de l-linguagem é e-essa, Ja-Javé???
— Aham… Foi mal, tava ouvindo uns raps hoje. Então é isso, Moisés. Estamos quase terminando. Ao final você poderá descansar bastante.
— É o q-que ve-veremos…
— Moisés, Moisés… Que cê tá aprontando?
— Ué, v-você não é o s-sabichão? T-tenta a-adivinhar…
Metástase
“Arranca!”, você disse, ao mesmo tempo em que fazia o gesto brusco de quem tira com força e raiva algo de dentro do peito e o lança longe. Referia-se, claro está, ao tumor que é este sentimento que tenho por você. Nem sabia que o tumor ainda estava lá, mas apenas porque ele tinha parado de doer nos últimos tempos. Ausência de sintoma nem sempre significa cura, e nesse caso a pausa era apenas preparação para um ataque pior. Você sabe que isso só pode me fazer mal, daí o seu enfático “Arranca!”.
Pois bem, vou arrancar. Não assim, de repente. Gostaria que fosse assim. Mas outros tumores do mesmo tipo já corroeram muito aqui por dentro, e não resta muito tecido saudável; não posso me dar ao luxo de perder mais nada. Preciso de uma cirurgia cuidadosa, delicada e lenta. Não sei se vale a pena também: a cirurgia já foi feita incontáveis vezes, e a metástase sempre ocorre. O câncer demora cada vez mais a se manifestar, não porque eu tenha ficado mais resistente, mas sim pela falta de lugar para plantar suas raízes.
Ainda dói quando você vai embora. Ainda sinto o velho nó na garganta, mas o empurro de volta com um copo d’água: homens não choram. Pensei em fazer quimioterapia a base de tabaco e álcool, mas o tratamento já se mostrou ineficaz em outras ocasiões. Não: a cura vem pela cirurgia, então arranco. Mas com cuidado, porque autoflagelação não é comigo. E preciso deixar espaço para que o próximo tumor se sinta confortável aqui dentro.
O retorno
Tomado por ondas de tristeza, corri para o fumódromo e fiquei olhando pela janela e tomando café, já que não fumo. Em poucos minutos ele apareceu, vindo lá dos lados da Hípica.
— Aê, mané. Me arruma um cigarro.
— Parei de fumar.
— Hum. Tá explicado o sumiço então.
— Sentiu saudades?
— Claro que não. Senti falta de filar um cigarrinho vez em quando. E de dar nó na sua cabeça, que é o mais legal. Aliás, tá fazendo o que aqui hoje?
— Nada. Vim só olhar a paisagem.
— Que paisagem, mané? Esse concreto todo aí? Fala a verdade, você veio me esperar. Desembucha, vai. Que se passa agora?
— Ué, você não é o sabe tudo?
— É, acho que sou. Mas é que gosto de ver você se rebaixando.
— Espere sentado.
— Eu não sento. Não tenho bunda, esqueceu?
— Nem bunda nem capacidade de entender figuras de linguagem.
— Cê tá se achando esperto, né? Pois bem, não quer falar nada? Então eu falo. Você parece uma garça, sabia?
— Teu rabo.
— Deixa eu falar, porra. Você já reparou nessas garças que sobrevoam o rio às vezes? Branquinhas, elegantes, vôo suave, uma beleza.
— É, são bonitas mesmo.
— Bah, bonitas o quê! Mera superfície! Que que um bicho desse vem fazer no Rio Pinheiros? Vem fuçar na merda! Todo mundo tem asco de nós porque somos feios e agourentos. Mas jamais nos humilhamos a ponto de ficarmos revirando merda à cata de migalhas. Nosso negócio é com a morte. Ser urubu é um sacerdócio, ser garça não é nada.
— Tá. E eu com isso?
— Já disse, você é uma garça. Fica aí querendo parecer limpinho e correto, mas vive chafurdando na merda alheia, esperando encontrar como recompensa de seu trabalho sujo um resto de carinho aqui, um pouco de atenção ali, até amor talvez, embora não acredite que sua sorte chegue a tanto. Oras, seu mané! Você é feio, desengonçado e pardacento. Seja um urubu, voe alto, saia da merda.
— Você acha que ser urubu é mesmo grande coisa, não é?
— Melhor do que ser um mané sem vida feito você.
Ia responder, mas nesse momento uma garça passou voando na direção do rio. Ele fez um muxoxo de desprezo e voou para o lado oposto.
Cantada?
Tá, eu tinha esquecido que preciso explicar tudo: o que eu disse não foi uma cantada, foi uma piada com a garota. Eu não passo cantadas. Não sei passar cantadas. Ok?
Política da boa vizinhança
A Andreza resolveu ressuscitar o Cópia Barata e não avisou ninguém. Feladaputa. No último post, ela transcreve o meu texto aí da casa muito engraçada. O que, por vias tortas, me fez lembrar do quanto me orgulho do bom relacionamento que mantenho com TODAS as minhas ex-namoradas (ela e a Bárbara).
Lembro-me de um dia em que estávamos num bar, eu sentado entre as duas. Na minha frente, a garota por quem eu estava meio que interessado na época. Lá pelas tantas soltei essa:
— Olha aí. Estou aqui no bar, com minhas duas ex-namoradas, me divertindo muito. Veja como eu sou um cara legal. Você não acha que vale a pena, fulana?
É claro que não colou. Bah.
