Começou quando eu descobri que Stuart Murdoch, vocalista e principal letrista do Belle & Sebastian, mantinha seu diário online. Comecei a ler mas não vi muita graça. Então comecei a pensar: que celebridade teria apelo suficiente para mim a ponto de seu blog me interessar? João Gilberto, claro! Mas um diário escrito pelo João não seria monótono e rotineiro demais? Não sei… Talvez houvesse umas bizarrices aqui e ali. Comecei a imaginar como seria, e daí para eu mesmo escrever o diário foi um pulo. Apresento a vocês O diário de João Gilberto, mais uma prova da ociosidade de minha mente.
Mês: setembro 2003
O segundo discurso de Moisés
(Deuteronômio 4:44-49 até 28:68)
Não, vocês não leram errado, nem eu endoidei: pretendo mesmo condensar 24 capítulos num só. Por quê? Já disse: a maior parte é mera repetição do que já vimos nos três livros anteriores. Vamos lá.
O primeiro discurso foi só aquecimento. Neste segundo, Moisés reúne o povo novamente e fala mais do que Fidel Castro. Não gosto nem de pensar em quantos dias ele levou para terminar um pronunciamento tão longo. Começa relembrando os Dez Mandamentos, recebidos por ele no alto do monte Sinai. Fala do medo que o povo sentiu durante o tempo em que ele esteve no alto do monte. Enfatiza o primeiro mandamento, dizendo que se deve temer e adorar a deus. No entanto, é no 6º capítulo do Deuteronômio que temos o que eu creio ser a primeira menção da Bíblia à possibilidade (e dever) de se amar a deus. Moisés faz avisos quanto aos perigos da desobediência e dá instruções para a invasão de Canaã, para evitar a contaminação com os costumes dos povos de lá. Desfia bênçãos para os que forem obedientes e maldições para os desobedientes. Faz uma exortação à humildade ao dizer que deus não entregou Canaã aos israelitas porque eles sejam bons, mas antes porque os habitantes da terra é que são maus, não havendo portanto nenhum merecimento na conquista da Terra Prometida, e sim o cumprimento de um plano divino. Moisés lembra de quando desceu do Sinai e se deparou com o povo idolatrando um bezerro de ouro, da raiva que sentiu (levando-o a quebrar as tábuas dos Dez Mandamentos), da intercessão que fez pelo povo para que Javé não o destruísse e das novas tábuas, que ele teve que cortar e talhar à mão.
Depois de contar tudo isso, Moisés começa a repisar várias leis: fala da condenação à adoração de outros deuses, dos animais puros e impuros, da lei dos dízimos, do Ano Sabático, das leis para os escravos, das primeiras crias, da Páscoa, das festas da Colheita e das Barracas, dos deveres dos juízes e dos reis (caso Israel viesse a tê-los; veremos que sim), dos direitos dos levitas e sacerdotes, das cidades para fugitivos e as fronteiras da terra. Fala de leis para a guerra e da condenação para os crimes de morte. Discorre ainda sobre o divórcio, o dever de se casar com a viúva do irmão e outras leis para as famílias. Enfim, um discurso longo que só a porra.
No capítulo 27 parece que Moisés termina seu discurso ao começar a falar dos preparativos para a entrada em Canaã: instrui o povo para que, após cruzarem o Jordão, ergam pedras grandes no alto do monte Ebal, pinte-as com cal e inscreva nelas todas essas leis. Depois disso, o povo deverá erguer altares de pedra e oferecer sacrifícios sobre eles, comendo depois a carne e festejando a entrada na Terra Prometida. Fala ainda sobre as bênçãos e maldições: quando entrarem em Canaã, metade das tribos irá para o monte Gerizim, onde serão proferidas as bênçãos, e a outra metade para o Ebal, para as maldições. E vejam vocês como é bom esse tal de Javé: sobre bênçãos não se fala nada, mas as maldições são detalhadas. Os levitas gritarão as maldições do alto do Ebal (coisas como “Maldito aquele que comer a sogra”) e o povo responderá “Amém”.
Parece ser o final, mas no capítulo 28 Moisés retoma o discurso, falando novamente em bênçãos para os obedientes e castigos para os desobedientes. Aliás, se vocês tiverem paciência, leiam os capítulos originais: toda a ênfase do livro está na obediência as leis. Depois de 40 anos no deserto, vendo milhares de israelitas morrerem a cada crisezinha de raiva de Javé, Moisés deve ter percebido que o negócio era incutir um pouco de medo no povo. Moisés ainda tinha alguma ascendência sobre Javé, e sempre o fazia desistir de seu intuito de destruir os hebreus a cada piripaque. Mas Josué teria o mesmo talento diplomático? Moisés duvidava, por isso resolveu falar tanto em obediência e em castigos para os desobedientes.
Viram só? Já estamos no 28º capítulo de um total de 34. Não falei que ia ser rápido?
Busca
Chegaram aqui procurando curitibanas peitudas. Sinto muito, mas aqui não tem isso não. Eu até sei onde tem, mas não digo. De jeito nenhum.
O Mestre
Há gente que aprende russo para ler Dostoiévski no original. Eu, mais humilde, aprendi inglês para ler as obras originais de meu grande mestre Stephen King.
Posso ver alguns leitores torcendo o nariz diante dessa declaração. Não disfarce, seu filho-da-puta, você fez careta. “Mas Marcurélio! Stephen King?”. Muita gente fica decepcionada comigo quando me vê andando por aí com um dos livros do mestre do terror. Lembro-me do Marco Antônio, na época professor e coordenador de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, que expressou de forma particularmente desagradável essa decepção. Tinha me visto uma semana antes lendo “Os Irmãos Karamazóvi” no bar, e duas semanas antes daquela tinha sido “Cem Anos de Solidão”. Ao me ver empunhando “Trocas Macabras” (Needful Things), disse: “Eu esperaria isso de qualquer um, menos de você”, num tom de marido traído. E esse foi um dentre tantos fatores que me fizeram desistir da faculdade: um lugar onde os professores se sentem no direito de patrulhar o que você lê não pode fazer bem a ninguém.
Porque, acreditem vocês ou não (e eu quero que se foda), Stephen King é um escritor de verdade. Na edição de 1999 do Guinness Book of Records, ele constava como o escritor mais rico do mundo. No entanto, não possui jatinhos nem times de basquete, não faz aparições públicas estrondosas, enfim, não é um super astro: um escritor como outro qualquer, exceto pelo fato de não ter que se preocupar com o aluguel. E isso hoje em dia: ele escreveu Carrie, seu primeiro romance, equilibrando a máquina de escrever sobre os joelhos sentado num caixote atrás da caldeira do trailer onde morava com a esposa e o primeiro filho. É um cara de hábitos simples, que gosta mesmo de ler muito (enquanto pode, já que uma doença degenerativa acaba com sua visão aos poucos) e escrever. Foi atropelado enquanto fazia uma caminhada lendo um livro, coisa que eu pensava que só babacas como eu fizessem.
Bom, acho que já deixei claro o quanto gosto do Sr. Stephen Edwin King. Pois bem, esta semana resolvi que ia comprar From a Buick 8, único romance que me faltava. Entrei na livraria disposto a adquirir o pocket book, mas vi que a tradução já havia sido lançada. A preguiça é minha característica mais forte, então comprei o livro em português. Só o fato de não terem tentado fazer gracinha com o título (que ficou Buick 8), me deu a esperança de estar lidando, finalmente, com uma tradução decente da obra de Stephen King, diferente das publicadas nos anos 80 e 90 pela Editora Francisco Alves. Para vocês terem uma idéia: há em O Iluminado um trecho em que é descrita uma festa no Overlook Hotel. Entre outras bebidas, os convidados tomavam Hi-Fis. Pois bem, na tradução da Francisco Alves diz-se que eles estavam tomando Altas Fidelidades… Só por aí já se justifica meu medo das traduções; mesmo assim resolvi arriscar. Foi um erro: a tradução, feita por uma tal Adalgisa Campos da Silva, comete pecados que nem um aluno do nível básico do Fisk cometeria, como traduzir actually para atualmente, ou to pretend para pretender. Lamentável.
Nem tudo pode ser imputado à tradutora, porém. Eu vinha relutando em admitir o óbvio, mas Buick 8 não deixa escolha: atualmente (argh!), Stephen King vem perdendo a pegada de uns tempos para cá em seus romances. Talvez na ânsia de ser mais e mais assustador, acaba cometendo o mesmo equívoco de seu pai literário H. P. Lovecraft: escorregar para o ridículo com suas tentativas de chegar ao horror absoluto. É uma pena. Bom, pelo menos os contos continuam excelentes, como se pode comprovar na recente coletânea Everything’s Eventual. Fora isso, ele surpreendeu em On Writing, livro que escreveu durante a recuperação pós-acidente, e no qual trata do ato de escrever, dando dicas e macetes que nenhum professor da faculdade de jornalismo jamais me deu.
De forma que fica aqui minha dica: se você ainda não conhece Stephen King, trate de conhecer. Leia Carrie ou O Iluminado. Se a preguiça for demais, comece por um livro de contos (Tripulação de Esqueletos, Pesadelos e Paisagens Noturnas). Se o seu problema é preconceito, você é um leitor dos clássicos e não se rebaixaria a ler um autor de best-sellers, aconselho-o a assistir três filmes: Conta Comigo (Stand By Me), Um Sonho de Liberdade (Shawshawk Shawshank Redemption) e À Espera de Um Milagre (The Green Mile). Se você ainda assim não se convencer que o autor de histórias como essas é um escritor de verdade, pode ir tomar no cu, que eu não tô aqui pra paparicar gente ignorante. Oras bolas.
O primeiro discurso de Moisés
Chega de enrolação, vamos ao Deuteronômio.
O livro começa situando-se no tempo (40 anos depois da saída do Egito) e no espaço (o vale do rio Jordão). Antes da entrada do povo em Canaã, Moisés resolveu fazer uma série de discursos relembrando a eles tudo o que acontecera nesses quarenta anos, assim como as leis e rituais que deveriam seguir. Reuniu o povo e começou:
— P-povo de I-Israel, o-ouçam o que s-seu l-líder tem a d-dizer! Há q-quarenta a-anos, q-quando e-estávamos no pé do m-monte Si-Sinai, um dia Ja-Javé a-acordou p-puto. “Cês j-já tão há t-tempo d-demais a-aqui, p-porra! M-metam o pé na e-estrada a-antes que eu a-acabe com a ra-raça de vo-vocês, c-caralho!”, e a-assim p-por di-diante, c-como é o je-jeito d-dele. E-então c-começamos n-nossa jo-jornada q-que a-agora está q-quase no fi-final. C-Canaã fi-fica logo a-ali, só o r-rio nos s-separa da T-Terra P-Prometida. Mas a-antes de e-entrarmos lá, q-queria c-contar co-como foi n-nosso ca-caminho a-até aqui…
E Moisés falou. E falou. E depois falou mais um pouco: falou dos ajudantes que escolheu, dos espiões mandados para Canaã (cuja covardia irritou Javé a ponto de condenar os israelitas a 40 anos de caminhada pelo deserto), da necessidade que tiveram de contornar Edom quando o rei daquele país não permitiu sua passagem, da guerra contra o rei Seom pelas mesmas razões, da derrota de Ogue, rei de Basã, das tribos que ficariam a leste do Jordão.
— E-então n-nessa ocasião, d-depois da d-derrota de S-Seom e O-Ogue, eu p-pedi a Ja-Javé n-novamente que re-revisse sua d-decisão de não me d-deixar a-atravessar o J-Jordão. M-mas não a-adiantou n-nada: o fi-filho da p-puta c-continuou di-dizendo que e-eu m-morreria no a-alto do m-monte N-Nebo, t-também c-conhecido como P-Pisga. E-então f-foda-se. V-vou m-morrer, t-tudo b-bem, m-mas a-antes v-vou fa-fazer meus di-discursos…
E Moisés continuou seu pronunciamento exortando o povo à obediência das leis e avisando contra a adoração de ídolos.
Agora vocês imaginem o tempo que Moisés, velho e gago, levou para fazer um discurso que já era longo. Lá pelo meio do pronunciamento já tinha nego alugando banquinhos para os israelitas cansados e vendendo cerveja no meio do povo. E tome-lhe falatório.
Terminado este primeiro discurso, Moisés escolheu as cidades para fugitivos a leste do Jordão: Bezer na tribo de Rúben, Ramote em Gade e Golã na Manassés Oriental. Mas isso foi só uma pausa: escolhidas as cidades, Moisés começaria seu segundo discurso, mais longo e detalhado que o primeiro.
Outros blogs
Todo mundo pergunta sobre os três blogs da barra ali de cima. Então deixa eu dar uma geral:
– Balde de Gelo: eu e Daniela estamos trabalhando nos bastidores. Tenham paciência, vale a pena.
– Chicote Verbal: acho que perdi o personagem. Não consigo mais me botar no lugar do músico melancólico; qualquer coisa que eu tento escrever soa artificial (mais ainda)
– Emotionrélio: perdi a senha de e-mail daquela porra. Ou seja, não estou recebendo os pedidos de caretas. Ah, e também não tô no clima de fazer palhaçada.
UPDATE
Pra piorar, acabo de descobrir que não consigo fazer meu logon no Blogger. Parece que algum filho de uma puta roubou minha senha. Quando eu tento recuperá-la e boto meu nome de usuário lá, a danada é enviada para tcarrinho@hotmail.com. Para o Balde de Gelo eu tenho meu usuário de backup, e tem o usuário da Daniela também. Quanto aos outros dois, porém, creio que foram pro saco de vez. Espero que o desgraçado que pegou minha senha se divirta bastante.
Das Coisas Esquecidas Atrás da Estante
Estarei lá, é claro. Senão a autora me corta o saco.
Instinto
Não é costume dos moradores de São Paulo observar a natureza. Primeiro porque não restou muita natureza para ser observada nesta cidade, e depois porque são todos muito ocupados e apressados. Eu, no entanto, aprendi com meu pai a manter os olhos abertos para as manifestações naturais e nunca me arrependi disso.
É quase primavera, as flores começam a surgir, as plantas vão fazer seu sexo anual (quem me dera trepar com tanta freqüência!). Agora mesmo, se você olhar entre os ramos das árvores, verá passarinhos começando a construção de seus ninhos. Daqui a um tempo veremos os rituais de acasalamento: os pombos de peito inflado tentando impressionar pombas exigentes, os bem-te-vis cantando suas serenatas com voz esganiçada, os lagartixos dançando break, os ornitorrincos tocando castanholas de saia rodada.
Porém, o que mais me impressiona quando a primavera vem chegando é o comportamento dos humanos. Todos parecem mais sentimentais, mais propensos ao flerte, ao jogo amoroso, aos seus próprios rituais do acasalamento. Não é ainda aquela coisa escancarada do verão, todo mundo pelado e vamos trepar logo que daqui a pouco chega o outono e a broxada é geral. Não: é algo mais tranqüilo e calculado. Alea jacta est, e por enquanto jogamos pôquer: consideramos cada jogada, mantemos a fisionomia impassível. E blefamos, muito. No verão começa o truco, a gritaria, vale tudo, vale roubar, vale gritar “SEIS, MARRECO!” na orelha dos outros jogadores. Mas não agora: estamos jogando pôquer e ninguém sai. Ninguém sai!
Comecei a reparar nisso porque de uns tempos pra cá não se passa um dia sem que eu ouça histórias do tipo “Um ex-namorado que eu não via há anos me ligou ontem. Sei lá onde arrumou meu telefone!”, ou “Lembra aquela mina maluca do ano passado? Então, me mandou um e-mail. Assim, do nada!”. Posso estar errado (geralmente estou), mas acho que nós somos muito mais controlados pelo instinto e pela influência das estações do que gostaríamos de admitir.
Deuteronômio – Introdução
O nome do quinto livro da Bíblia, e último do Pentateuco, deriva de duas palavras gregas: deuteros (“segundo”) e nomos (“lei”). Isso quer dizer que teremos mais leis? Não exatamente: teremos as mesmas leis vistas pela segunda vez. O Deuteronômio trata da compilação de uma série de discursos proferidos por Moisés às margens do Rio Jordão.
Está aí o truque do velho profeta para prolongar sua vida: resolveu reunir todo o povo e recontar tudo o que acontecera desde a saída do Sinai até aquele momento em que se preparavam para a tomada de Canaã. Além disso, não nos esqueçamos, ele ainda tinha seus cinco livros para escrever (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e o próprio Deuteronômio). Malandro demais esse Moisés…
O Deuteronômio assume grande importância em toda a Bíblia. No começo do reinado de Josias (800 anos depois da morte de Moisés), um pergaminho do Deuteronômio será convenientemente encontrado entre as ruínas do Templo de Jerusalém, dando ânimo ao povo para a obra da reconstrução. Acredita-se hoje que este livro, assim como todas aquelas histórias heróicas do Velho Testamento, tenha sido escrito nessa época como material de propaganda e motivação, utilizando como base escritos mais antigos e velhas lendas orais.
Séculos depois (1.300 anos depois de Moisés, na verdade), quando tentado pelo demônio, é a citações do Deuteronômio que Jesus Cristo vai recorrer para derrotar seu adversário.
Devido a seu caráter repetitivo, creio que minha releitura desse livro será rápida e indolor para vocês. Não sou doido de ficar repetindo todas aquelas leis e rituais. Vamos ver como me saio. Sentem-se, acomodem-se. Vamos ouvir o que Moisés tem a dizer.
PORRA!
Eu sou burro demais. Com essa veadagem toda de tristeza e não sei mais o quê, acabei me esquecendo de um negócio legal pra caralho: conheci o Preacher fim-de-semana retrasado. O cara é muito sangue bom, conta altas histórias engraçadas e é um excelente anfitrião. Desculpa aí, cara, se acabo com sua fama de mau.
Quanto aos imbecis que vivem se babando à espera de alguma briga entre eu e ele, podem ir tomar no cu com areia.
