Terminado todo aquele lenga-lenga de leis e castigos do Levítico, Moisés e Arão resolveram descansar um pouco. Merecido descanso, diga-se: Imaginem o stress de lidar diariamente com uma divindade com alma de prima donna.
Mas é claro que Javé não ia deixar os dois descansarem por muito tempo. Uma noite estavam os dois jogando Doom em rede (ainda não existia Counter Strike naquela época), quando Moisés ouviu o inconfundível “Oh-oh” do ICQ. Era deus:

O fodão (08:45 PM) :
E aí, Moisés. Blz?
Moisa (08:45 PM) :
Blz.
O fodão (08:47 PM) :
Jogando Doom, né?
Moisa (08:48 PM) :
Como cê sabe?
O fodão (08:48 PM) :
Eu sei tudo. Eu sou é deus, porra. DEUS!
Moisa (08:48 PM) :
É, tô ligado. Que que manda, Javé?
O fodão (08:52 PM) :
Pois é, rapaz… Tava pensando num negócio aqui. Acho que seria importante a gente fazer um censo aí no acampamento, ver quantos homens em idade para o serviço militar nós temos.
Moisa (08:52 PM) :
Ué, pra quê?
O fodão (08:55 PM) :
Oras, pra quê! Cê acha que entrar em Canaã vai ser um passeio? Vai ser pedreira o negócio lá, os caras não vão entregar as terras deles de graça pra vocês. Cês vão ter que guerrear.
Moisa (08:56 PM) :
É, faz sentido. Mas então cê quer que eu e o Arão contemos o povo todo, é isso?
O fodão (09:00 PM) :
Porra, Moisés, cê tem uma puta imagem negativa a meu respeito. Nunca que eu ia botar dois velhos caducos feito vocês pra fazerem esse trabalho sozinhos. Escolhi um cara de cada tribo pra ajudar vocês. Quer anotar?
Moisa (09:01 PM) :
Não preciso anotar, porra. ICQ tem histórico.
O fodão (09:08 PM) :
Ah, é. Então lá vai:
Ruben – Elisur, filho de Sedeur
Simeão – Selumiel, filho de Zurisadai

Moisa (09:08 PM) :
Eita nomezinhos… rs…
O fodão (09:13 PM) :
Moisés, esse negócio de “rs” me irrita profundamente. Deixa eu continuar essa porra…
Judá – Nasom, filho de Aminadabe
Issacar – Netanel, filho de Zuar
Zebulom – Eliabe, filho de Helom
Efraim – Elisama, filho de Amiúde

Moisa (09:13 PM) :
Peraí! Sério que o nome do pai do cara é Amiúde?
O fodão (09:18 PM) :
Pois é, não sei de onde tiraram esse nome. Deve ser daquela música do Zé Ramalho. Mas pára de me interromper, caralho…
Manassés – Gamaliel, filho de Pedasur
Benjamim – Abidã, filho de Gideoni
Dã – Aiezer, filho de Amisadai
Aser – Pagiel, filho de Ocrã
Gade – Eliasafe, filho de Deuel
Naftali – Aira, filho de Enã
Pronto, são esses.

Moisa (09:20 PM) :
Legal. Então, quando começamos?
O fodão (09:20 PM) :
Com assim “quando”??? Amanhã mesmo!
Moisa (09:20 PM) :
Bah.
O fodão (09:21 PM) :
Não reclama… Ô, Moisés. Gosto de falar com você pelo ICQ.
Moisa (09:21 PM) :
É mesmo? Por quê?
O fodão (09:25 AM) :
Porque aqui pelo menos você não gagueja. Sua gagueira me irrita… Bom, vou nessa. Té mais.
Moisa (09:26 PM) :
Falô.

— Ô A-Arão!
— Quié?
— P-pára de a-atirar em m-mim, po-porra! O Ja-Javé tem um t-trabalho p-pra n-nós.
— Mas já??? Que trabalho?
— P-peraí que v-vou t-te m-mandar o hi-histórico do ICQ… R-recebeu?
— Vixe. Contar macho? E ainda com a ajuda de um monte de nego com nome esquisito? Trabalhinho feladaputa…
— P-pois é. M-mas cê v-vai q-querer di-discutir com o c-cara?
— Eu não.
— N-nem eu. B-bom, vou d-dormir. A-amanhã va-vamos precisar a-acordar b-bem ce-cedo.
— É, também vou.
No dia seguinte, Moisés, Arão e os doze chefes tribais reuniram o povo e começaram a contagem e cadastramento de todos os homens com mais de vinte anos. Findo o trabalho, tinham nas mãos este resultado:

— U-ufa… D-demorou mas t-terminamos.
— É. Hum… 603.550 homens. É homem a dar com o pau. Mas… Moisés, não tá faltando nada não?
— A-acho que n-não.
— Claro que tá! Cadê a nossa tribo? Esquecemos de contar os levitas!
— A-ai ca-caralho… P-peraí, vou li-ligar pro Ja-Javé… Alô, Ja-Javé?
— Fala, Moisés.
— Sa-sabe a-aquela li-lista que cê me pa-passou?
— Sei. Que tem ela?
— Cê e-esqueceu de i-incluir os le-levitas nela.
— Esqueci nada, Moisés. Cê não lembra daquele negócio que a gente combinou sobre a tribo de Levi? Que eles não iam ter um território para eles em Canaã, porque vão ser totalmente dedicados ao trabalho do Tabernáculo? Putz, isso deu uma trabalheira, tive até que dividir a tribo de José em duas, Efraim e Manassés, para permanecerem doze tribos no mapa. Mas então: Os levitas são sacerdotes, não soldados. Eles não vão lutar quando vocês chegarem a Canaã, então não precisam ser contados.
— Ah… E-entendi.
— Eu não dou ponto sem nó, Moisés. Mas avisa pros levitas que nem por isso a vida deles vai ser mole. Quando a tenda tiver que ser desarmada pra vocês viajarem, os levitas farão esse trabalho, assim como a rearmação dela quando acamparem novamente. E ao contrário dos outros israelitas, que acamparão cada um perto da bandeira de sua tribo, os levitas vão acampar ao redor do Tabernáculo, para guardá-lo.
— T-tá bom e-então.
— Mais alguma dúvida?
— N-não.
— Então já tá pronto o censo?
— J-já.
— Assim que eu gosto, Moisés! Eficiência. Bom, então já podemos partir pra outras atividades.
— Q-que que é a-agora?
— Ah, vai descansar um pouco. Vai com o Arão até o Tabernáculo amanhã à tarde, aí a gente conversa.
— Be-beleza.
— Até amanhã, Moisés.
— T-tchau.

ó camilinha por que estás tão triste, mas o que foi que te aconteceu
foi o corélio que caiu do galho, deu dois suspiros e não me escreveu
vem camilinhaaaa, vem sua pentelha
não fique triste, o icq não é seu, e o corélio já vai
dar a atenção que não te deu

Cada um tem a musa que merece…

Eu não bebo, não fumo, não cheiro
Não danço, não jogo, não namoro em pé
Mas no caminho que eu estou vou me acabar na mão
Eu não deixo, não aceito, não abro
Não permito, não tolero
Botar a perder essa bendita ereção
Um padre certa vez me disse:
“O que não é bom certamente é mau
O que não é doce com certeza é fel
E o que não é inferno talvez seja o céu.”
Eu rezo novena, trezena,
Eu encho o bucho de hóstia
E até como bosta
Pra pagar promessa
Eu peco, eu fresco, eu minto
Eu caio em tentação, eu como carne de porco
Eu juro o santo nome em vão
O papa já devia ter dito
Que a castidade não importa mais
Deve ser quebrada na frente ou por trás
Pois tem certas coisas que não se concebe
Porque é dando que se recebe.
Grande Falcão.

Números é o quarto livro da Bíblia. Tem esse nome porque nele existem dois censos, um feito no segundo ano depois da saída do Egito e outro, já perto do final, quando os israelitas estavam prestes a chegar a Canaã. Entre os dois censos, muitas historinhas interessantes, que eu espero que rendam mais caldo do que aquela monotonia sem fim do Levítico. E que eu termine logo, porque o livro seguinte, Deuteronômio, é uma pedreira quase tão dura quando o Levítico, ainda mais por causa das repetições.

Hoje era pra ter sido um dia muito triste. Mas há momentos em que parece que existe mesmo alguém cuidando da gente: Justamente hoje — eu achando que ia mergulhar no poço de novo — moskito e Thiagão resolveram ressuscitar seus blogs.
Meus amigos, vocês não têm idéia da alegria que deram a este alquebrado coração. Muito obrigado.
(E ao Pedro, muito obrigado por ser portador de boas notícias. E vê se segue o exemplo dos caras, porra)

— Pois então, meus filhos, é isso aí.
— A-acabou, Ja-Javé?
— Quase. Só falta uma coisinha… Esse negócio todo que eu falei pra vocês precisa de infraestrutura. E pra termos infraestrutura, precisamos de dinheiro. Então pra encerrar de vez, vamos ver aqui um jeito desse negócio de Tabernáculo, sacrifícios, leis e o diabo a quatro dar dinheiro. Hum… Por exemplo, as pessoas podem se dedicar ao serviço do Tabernáculo. E quem fizer esse tipo de compromisso, além de trabalhar de graça, vai ter que pagar pra se libertar.
— Bah, Javé! Quem é que vai entrar numa fria dessa?
— Vai por mim, Arão. É só dizer que é um negócio sagrado, que á para o serviço de deus; insinuar que isso trará recompensas na outra vida, e pronto: Vai fazer fila de neguinho aí na porta do Tabernáculo, todo mundo doido pra se dedicar a deus.
— Hum… Mas e aí, suponha que o cara resolva que não quer mais? Vai ter que pagar quanto?
— Boa pergunta. Bora fazer uma tabela, peraí. Hum… Hum… Pronto, taí:
tabelaresgate.jpg
— O q-que s-são e-esses n-números?
— Moedas de prata. Por exemplo, se um cara de 25 anos se dedicar ao trabalho do Tabernáculo e depois perceber que é roubada, só poderá sair pagando 50 moedas de prata.
— Mas Javé… Isso aí dá mais de meio quilo de prata. É uma boa grana.
— A idéia é essa, Arão. Precisamos de dinheiro. Se o cara não tiver essa prata toda, podemos até quebrar um galho: Ele vai, bate um papo com o sacerdote, e aí os dois acertam um preço que o cara possa pagar. Mas de graça é que não vai sair.
— Saquei. Então vai ser essa nossa fonte de receita?
— Sim, mas não a única! Tô bolando outras coisas aqui. Olha só: Se alguém prometer um animal que pode ser oferecido em sacrifício, o bicho passa a ser considerado sagrado. A partir do oferecimento, não poderá ser trocado por outro melhor ou pior. Se o cara quiser dar uma de espertinho e trocar, os dois animais passam a ser dedicados a mim.
— B-boa e-essa…
— Eu sou foda, Moisés. Mas continuando: Se o animal que o cara for oferecer for impuro, então levará o bicho ao sacerdote, que avaliará o preço de acordo com sua condição. Se o dono quiser comprar o bicho de volta, deverá pagar esse preço mais vinte por cento.
— Pô, mas pra que a gente vai querer um animal impuro, que não se pode oferecer em sacrifício nem comer?
— Oras, o quê! Vender para os estrangeiros! Ganhar dinheiro!
— Espertinho você…
— Espertinho é porra nenhuma, eu sou é deus! E vamos em frente: Se um fulano aí resolver que quer dedicar sua casa a mim, o sacerdote fará a avaliação da casa e pagará o preço. Se o cara quiser a casa de volta, pagará este preço acrescido de vinte por cento.
— T-taxa p-pesada, hein?
— Claro, Moisés! Senão fica fácil! E olha que ainda tem mais: Se alguém quiser oferecer um terreno que recebeu de herança, o sacerdote avaliará a terra de acordo com a quantidade de sementes necessárias para semeá-la. O valor será de 570 gramas de prata para cada cem quilos de cevada.
— Pô, então vai dar pra ganhar uma grana com isso aí.
— Nem sempre, porque esse será o preço máximo possível. Porque preço final será calculado de acordo com o tempo que falta para o próximo Jubileu, percebe?
— Ah, faz sentido.
— Pois é. E aí se o cara quiser o terreno de volta, a mesma pataquada de sempre: o preço mais vinte por cento.
— M-mas aí no p-próximo Ju-Jubileu o t-terreno v-volta pro do-dono, n-né?
— Claro que não! Só me faltava essa… No Jubileu o terreno passa a ser definitivamente dos sacerdotes. Precisamos de patrimônio, Moisés! O cara só vai ter direito ao terreno no Jubileu no seguinte caso: Ele oferece a terra ao sacerdote, e paga o preço estipulado.
— Peraí! O cara vai pagar para dar o terreno pra gente???
— Não, oras! Vai pagar pelo direito de ter o terreno de volta no próximo Jubileu.
— Que sacanagem…
— Ixe, cê ainda não viu nada… Vamos continuar. Bom, a primeira cria dos animais não poderá ser oferecida a mim porque, como vocês sabem, já é minha segundo a lei. A não ser, é claro, no caso da primeira cria de animais impuros. Com essas a gente até faz negócio.
— Zóio de lula, hein, Javé?
— Porra, Arão, tô ajudando vocês! Sacerdote vai ter a vida mansa com essas leis aí. Ainda mais que a gente vai cercar essas coisas dedicadas a mim de uma aura sagrada e coisa e tal. Nego vai respeitar muito isso aí, e vocês vão ficar numa boa. E ainda tem o dízimo…
— T-tava de-demorando…
— Ô, Moisés, não tem coisa mais eficiente pra se ganhar dinheiro do que o dízimo! É proporcional, todo mundo pode dar, uma beleza! Dez por cento de todas as colheitas e de todos os rebanhos serão dedicados a mim. Ou seja, vai pros cofres do Tabernáculo. Putz, essa religião nova aí vai ser um sucesso, cês vão ver!
— Se-será m-mesmo?
— Pode acreditar, Moisés! E se alguma coisa der errado, eu mando meu fi…
— M-manda q-quem?
— Er… Meu fi… Meu fisioterapeuta, já falei dele. Oras. Bom, acho que podemos parar por aqui. Muito obrigado a vocês, viu? Me ajudaram bastante.
— Bom, então quer dizer que acabou?
— Acabou nada! Cês podem tirar umas férias, descansar um pouco. Mas ainda tenho muito o que falar com vocês.
— Quando?
— Pode deixar que eu telefono.