Discussão

Crianças são seres angelicais que semprem fazem brotar um sorriso em meu semblante cansado. Agora mesmo, no ônibus vindo para casa, ouvia a conversa de dois meninos de cerca de nove anos. Um deles, um pretinho mirrado vestido de rapper, disse ao outro, um gordinho todo cor-de-rosa, com cara de quem é vestido pela mãe:
— Eita, cabeça de paçoca mordida, hein?
Olhei para trás e tive que rir: o moleque tinha mesmo cabeça de paçoca mordida; não me peçam para explicar. O gordinho nem se abalou:
— Cala a boca, macaco, senão não ganha banana.
— Cê vai ver a bananona que eu vou te dar. Coberta de chocolate, do jeito que cê gosta.
— Dá pra sua mãe.
— Não bota a mãe no meio, viado.
— Tá bom. Boto o pai.
— Fica quieto, ô. Sua mãe toca siririca com luva de boxe.
— E a sua… A sua… A sua mãe USA BONÉ!
Não adianta: quando se recebe certos xingamentos certeiros e bem elaborados, o melhor é ficar quieto. Como o que aconteceu com meu amigo Zezinho.
O Zezinho é o melhor contador de histórias que existe. Em qualquer mesa de bar ele se torna o centro das atenções sem esforço. Um invejável talento nato, que deve muito ao fato de ele nunca ficar desconcertado com nada. Bom, quase nunca.
Aconteceu que o Zé — que tem a minha idade, 30 anos — passou um tempo desempregado. Por opção, é claro: sem emprego ele ganhava mais dinheiro do que todos nós, os amigos cansados da labuta. Sem ter muito o que fazer, inventava. E um dia inventou que ia empinar pipa. Pensou em comprar uma pipa, mas a loja era longe. Pensou em fazer uma, mas dava trabalho. Então chegou à solução mais simples e rápida: roubar de alguma criança.
Imbuído desse propósito, saiu para a rua e não demorou a encontrar um grupo de moleques entretidos com seus carretéis de linha. Chegou perto do menorzinho e arrancou a pipa das mãos dele:
— Dá aqui essa porra, moleque.
— Ô! Me devolve meu pipa!
— Devolvo uma porra. Cala a boca.
(Os outros moleques, assustados, tinham atravessado a rua e assistiam de longe à cena)
— Devolve, filho da puta!
— O quê? Do que cê me chamou moleque? CÊ É DOIDO?
— …
— Filho-da-puta é você, moleque do caralho. Sua mãe é uma puta, uma vaca, uma piranha, uma…
— … E sua mãe é uma coruja!
— … cadela, uma horizontal, uma… Hein? Minha mãe é o quê?
— UMA CORUJA!
— Cê é retardado, moleque? Minha mãe é uma coruja?
— É! Senta no pau e arregala uns zoião assim, ó.
Não tinha mais o que dizer. Do outro lado da rua, os moleques aplaudiam. Derrotado, o Zezinho devolveu a pipa ao moleque e entrou em casa novamente.
Ah, as crianças…

47 comments

  1. Fazia tempo que não comentava aqui, desde que levei uma resposta… digamos… não exatamente gentil. Não deixei de vir sabe-se lá porquê. Mas hoje fui recompensada – tô rindo faz uns 10 minutos.

  2. Já cedo ver esse comentário foi demais, principalmente porque o Zezinho que estava cheio de moral não esperava uma resposta destas. Estou rindo faz algum tempo já….
    Como o próprio encerramento diz…
    Ah! as crianças…

  3. No início a gente acha meio engraçadinho, meio legalzinho, mas depois vem a dúvida, de onde virá inspiração suficiente e até mesmo sagaz, para usurpar, humilhar e fazer tantas ilações sobre algo que muitos (assim como eu) acreditam ser Palavra de Deus, reflitamos…

  4. Tive o prazer de ouvir o próprio Zezinho contando essa. Oitocentos e cinqüenta vezes mais engraçado. Sem tirar o teu mérito, Marco (ri tudo de novo).
    Até voltei a comentar!
    Abraços!

  5. Também sou uma franca admiradora da capacidade estupenda dessas criaturas em dar apelidos. Se eles chamam um de “Jacaré” pode ter certeza que a boca do moleque é algo descomunal.

  6. Fantástico. Sem comentários.
    Tirando o comentário do Aldecir (até parece um daqueles nomes bíblicos), foi realmente excelente o comentário do moleque.
    Mas o lance do boné eu também não entendi.

  7. Referindo ao post, o layout novo ficou muito bom.
    Agora, falando sério, isso me fez lembrar a minha doce e tenra infância, em que eu apreciava os peitões da professora e atirava taturnas em quem me irritava.
    Bonzinho, não?

  8. O lance do boné é que fica o dia inteiro em cima da cabeça…
    E tem também a do moleque que falou que o outro era agulha.



    Agulha?



    É! Leva na bunda e não perde a linha.


    Eu sei… foi horrível.

  9. Desde o nome do seu blog até a última história só é possível dizer uma coisa: mto criativo! Sempre leio seus textos, mas nunca deixo comentários. Minha admiração silenciosa.
    Voltarei mais vezes.
    E sim! Crianças são ótimas para conversas sádicas.
    Abraço.

  10. Pow, hoje eu também fui vitima de um desses prodigios. Estavamos almoçando eu, meu pai, mãe e o meu priminho de 5. Ele estava brincando c/ uma motinho que ele tinha pego lá de casa e eu (Ahh, a maldade) peguei-a. O dialogo foi mais ou menos:
    -Me dá a moto!
    -Aliás, por acaso ela é mais tua ou mais minha?
    -É mais do teu pai!
    Fulminante… Devolvi a moto e continuei minha refeição quietinho…

  11. No dia q eu fui assistir Madagascar só tinha pirralho e os pais dos respectivos. Uma das crianças veio passeando pelo cinema (sim, pq criança mesmo de 3 anos não vai assistir ao filme, isso é só desculpa pra os pais assistirem) e ficou bem na minha frente.
    Eu, educadíssima, disse:
    – Ô linda, senta aqui do lado da tia!
    Ela, sem vergonha nenhuma, gritou bem alto:
    – NÃO POSSO TIA, TÔ DE COCÔ!!!!
    Isso segurando a fralda cheia…Eca!!!

  12. hahahahahahahaha
    Hoje, num momento de desvinculação ou não da minha igreja e das minhas crenças, morro de rir com essa piadinha bacana…
    Á procura de algo sobre nosso Deus encontro este blog descontraído…
    Adorei..
    Sucesso e Abraços

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