A derrota de Absalão

(II Samuel 18)
Sentado numa cadeira entre os portões da cidade Maanaim, Davi pensa na situação em que se encontra e sente-se desgostoso. O reino que ele tanto lutou para unificar está novamente dividido. Pior: tudo por causa de seu filho, aquele moleque irresponsável com quem ele foi tão bondoso. Agora está aqui, do outro lado do Jordão, longe de Jerusalém. Jerusalém, que antes dele era apenas uma cidade grande e sem graça, bem ao gosto dos jebuseus, graças a ele tornou-se uma capital digna dos maiores reinos. E agora a Cidade de Davi é o valhacouto de Absalão e seus cupinchas. É triste, é injusto. Longe, lá na floresta de Efraim, mais uma vez há uma guerra entre irmãos: seus soldados enfrentam os homens fiéis a Absalão. Enquanto isso, ele, o rei que tornou Israel forte, fica sentado, só esperando. Que aporrinhação…
— Majestade! Vejo um homem correndo nesta direção!
É o sentinela que interrompe seus pensamentos. Tanto melhor, ao menos alguma coisa está acontecendo.
— Um homem sozinho?
— É.
— Então traz boas notícias. Que bom.
— Epa! Lá vem outro, um negão.
— Cheio de paixão?
— Como?
— Nada, nada. Se o crioulo também vem sozinho, traz mais boas notícias.
— O outro já está perto. Olha como corre! Ah, deve ser Aimaás, filho de Zadoque.
— Ah, Aimaás é um bom garoto. São notícias boas, tenho certeza.
O primeiro homem já entrou no campo de visão do rei. É, de fato, Aimaás. Vendo o rei, grita:
— Tudo vai bem!

* * *

Nem tudo ia bem, porém. Naquela manhã, Davi dividira seu exército em grupos de mil e de cem. Juntou esses grupos, comandados por oficiais, em três grupos maiores, sob o comando dos irmãos Joabe e Abisai, e de Itai, o giteu. Com tudo pronto, Davi chamou os três comandantes e disse:
— Muito bem. Vamos.
— Vamos? Mané vamos! O senhor fica.
— Tá doido, Abisai? Acha que eu vou perder essa? Seu irmão endoidou, Joabe.
— Majestade, eu concordo com ele. Se o negócio ficar ruim para nosso lado no campo de batalha, se precisarmos fugir ou se os homens de Absalão acabarem com metade do nosso exército, isso não fará diferença para eles. Mas se eles pegam o senhor, aí acabou-se. Sua vida vale dez mil das nossas. O melhor mesmo é o senhor ficar por aqui, e nos mandar reforços se precisarmos.
— Hum. Tá bom. Mas só peço uma coisa a vocês.
— Pode dizer, majestade.
— Se vocês gostam mesmo de mim, tratem bem ao meu filho Absalão.
Davi disse isso olhando firmemente para Joabe. Sabia que o excesso de zelo de seu general o fazia partir sempre para a solução mais simples e segura. Enquanto Abisai e Itai assentiam, Joabe apenas sustentou o olhar do rei.
Davi postou-se junto ao portão, e assistiu à saída de seu exército. Exército esse que não fez por menos: chegando ao bosque de Efraim, não deu tempo para a reação do inimigo. Vinte mil homens foram mortos, e muitos mais morreram enquanto fugiam, em prosaicos acidentes na floresta. O próprio Absalão, que fugia montado numa mula, de repente se viu como que flutuando no ar, enquanto a montaria disparava bosque adentro. Levou um tempo para perceber o que lhe acontecera: seus cabelos, tão longos e bem cuidados, haviam se enroscado nos galhos de uma árvore de tal forma que ele, por mais que se esforçasse, não conseguia se desvencilhar. Um soldado do exército de Davi que passava por ali à caça de inimigos o viu naquela situação e foi falar com Joabe:
— Comandante, acho que vi Absalão pendurado numa árvore.
— Pendurado numa árvore? Aquele puto acha que isso é hora de brincadeira?
— Hum… Acho que não foi por querer não, comandante. Ele estava preso pelos cabelos.
— HAHAHAHAHAHA! Ridículo! E você matou o desgraçado?
— Er… não.
— COMO NÃO? Porra, se você matasse, eu te daria aí uns cem gramas de prata, mais um cinto.
— Um cinto muito?
— Acha que estou de brincadeira aqui, cavalgadura?
— Não senhor. Desculpe.
— Humpf.
— Mas, comandante, veja só: todo mundo viu quando o rei disse que Absalão devia ser bem tratado e coisa e tal. Suponha agora que eu fosse lá e acabasse com a raça dele. O rei ia saber, ele sabe tudo. E aí o senhor ia se lembrar de me defender? Ia nada! Pois então: nem por dez quilos de prata!
— Bah, não vou perder meu tempo com você. Onde foi que você viu o Absalão?
— Praquele lado ali, ó.
Joabe começou a andar na direção que o soldado apontara, e logo deu com Absalão pendurado num carvalho, esperneando. O comandante saboreou o momento: sorrindo de leve, foi se aproximando lentamente, enquanto brincava com sua lança. Dava-lhe gosto ver a expressão de pavor na face do príncipe.
— Com medo, Absalão? Você não parece tão poderoso agora, pois não? Ai, ai… Um lindo dia. Podíamos estar todos em Jerusalém, tomando sol no terraço do palácio, bebendo umas cervejas. Afinal de contas, foi para isso que eu fiz aquele esforço todo para que você e seu pai se reconciliassem. E você mostrou alguma gratidão? Claro que não! Precisava estragar tudo, não é? Precisava usurpar o trono, botar o velho para correr, humilhá-lo. E tudo isso para quê? Para acabar com sua linda cabeleira enroscada numa árvore, olhando em volta como um coelho assustado. Puxa, você precisava ver sua cara agora. Que situação ridícula, majestade! Tão ridícula que me deixa até constrangido. Vamos acabar logo com isso.
Ainda com o sorriso no rosto, Joabe cravou três lanças no corpo de Absalão. O príncipe ainda ficou estrebuchando, de modo que dez dos homens de Joabe o cercaram e terminaram o serviço.
Com Absalão morto, não havia razão para continuar a luta. Então Joabe tocou a corneta para chamar as tropas de volta. Quando todos voltaram, alguns foram designados para sepultar o corpo de Absalão. Nada muito elaborado: apenas pegaram o cadáver e o jogaram numa cova funda no meio da floresta, cobrindo-a com um montão de pedras. Assim, ridícula e violenta, foi a morte de Absalão. A esse tempo ele já não tinha mais filhos, e só deixou para a posteridade um monumento que mandara construir em homenagem a si mesmo no vale dos Reis.
Joabe ainda pensava num jeito de contar ao rei o que acontecera quando foi abordado por Aimaás, filho de Zadoque:
— Comandante! Peço permissão para ir a Maanaim dizer ao rei que Javé o livrou de seus inimigos.
— Não, de jeito nenhum. Notícia boa, só amanhã. Hoje lamentamos a morte do filho do rei.
— Como? Lamentamos? Mas não foi o senhor mesmo que…
— … Você ouviu o que eu disse?
— S-sim, comandante.
— Só estou querendo preservar sua imagem, rapaz. Vou mandar um crioulo qualquer levar as notícias. Negão! Cadê aquele etíope quando eu preciso dele?
— Aqui, general.
— Ô, negão. Corre lá pra Maanaim e conta ao rei o que você viu.
— Sim senhor.
O escravo etíope de Joabe saiu correndo na direção de Maanaim. Aimaás continuou por ali, olhando para o general com cara de cachorro sem dono.
— Ai, meu saco… Que foi, rapaz?
— Ô, seu Joabe. Deixa eu levar a notícia também…
— Mas pra quê, meu filho? O negão já foi, que diferença faz? O que você ganha com isso?
— Eu só queria dar as notícias ao rei.
— Tá, tá! Vai logo, então.
— Sério? Sério MESMO? Puxa, seu Joabe! Muito obrigado! Muito, muito obr…
— VAI LOGO!
Entusiasmado, Aimaás saiu correndo pela estrada do rio Jordão, e logo ultrapassou o etíope. Quando viu de longe o rei às portas da cidade, gritou:
— Tudo vai bem!
Aproximou-se, fez uma reverência ao rei e completou sua notícia:
— Louvado seja Javé, que deu ao senhor a vitória sobre seus inimigos.
— Ganhamos? E meu filho, está bem?
— Seu filho? Er… Qual deles?
— Oras, qual deles! Absalão, rapaz!
— Ah. Esse filho. Então. Ah, não sei. Absalão, né? Sei não. Quando Joabe me mandou vir, eu vi uma agitação lá, mas não sei o que era.
— Tá bom. Fica aí do lado, descansa um pouco. Vamos ver se o outro mensageiro sabe mais detalhes. Obrigado pelas boas notícias, filho.
— Não tem de quê, majestade.
O etíope chegou logo depois com sua mensagem:
— Majestade, tenho boas notícias! Javé acabou com a raça daqueles que se revoltaram contra o senhor.
— Tô sabendo. Mas e Absalão, tudo bem com ele?
— Olha, majestade… Eu queria que o que aconteceu com ele acontecesse com todos os seus inimigos!
— PRETO FILHO DA…
Oooooooooolha…
Epa.
Bom, não vamos permitir que o rei acabe cometendo crime de racismo. Encerremos o capítulo por aqui.

14 comments

  1. Esses etíopes ja foram melhores… Como é que o Aimaás sai depois do negão e chega antes? Ah se o Paul Tergat ja tivesse nascido nessa época.

  2. Tá, talvez você não precise ler isso, mas talvez você possa fazer algo além de limpar a bunda com o que eu vou escrever:
    Há muito tempo eu não lia nada tão bom escrito por você. Mas o que realmente chama a atenção e demonstra sua, digamos, ressurreição, não é a parte do humor (que de uns tempos pra cá tem andado bastante “marromeno”) mas sim a qualidade e a vida que você devolveu ao seu texto, mostrando sua visão da bíblia de uma forma tão legal e interessante quanto a original.
    E no final eu acabei foi lambendo suas bolas igual a todo mundo (além de ter feito um textinho formal escroto)…

  3. Epa: que história é essa de “mostrando sua visão da bíblia de uma forma tão legal e interessante quanto a original”, Rodrigo? Acho que tem uma contradição aê, porra. Ou então não entendi chongas de tudo que já li até hoje nesse blogue.

  4. Aitel (se é que você vai voltar aqui pra ler isso),
    Até onde eu endenti, a idéia do Marco era recontar a bíblia, que, ao meu ver, é um reconto da tradição de um povo (grosso modo). Tenho lido o blog ao longo de um ano e nunca li nada que divergisse da versão original. Posso escrever uma tese sobre o “Jesus, me Chicoteia”, dizendo que é um reconto humorístico da bíblia sem descaracterizar suas passagens (chamo de descaracterizar: inventar coisas e fatos que o original não descreve), mas isso seria ofender a inteligência do autor, que já cansou de explicar isso aqui.

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