Há pouco tempo, Patrícia Köhler escreveu um post (que, aliás, cita esse texto meu) falando sobre o enigma dos outdoors vermelhos que pipocam por São Paulo. Depois da lei do Kassab, os painéis sumiram da Marginal Tietê, só para ressurgir na Radial Leste, meu caminho diário para o trabalho (e para qualquer outro lugar, já que moro no cu da Zona Leste). Patrícia se deu até ao trabalho de fotografar um dos outdoors:

Incompreensível, como sempre. E hoje, preso no agradável trânsito que só uma véspera de feriado pode nos proporcionar, consegui fotografar um outro outdoor, apenas alguns metros à frente do anterior:


FILHOS SINDICAL PODER CRESÇAM

Alguém me explica? Por favor?
(Criei até comunidade pra discutir isso. O negócio é sério)

Sábado à tarde, depois de um almoço de ogros com os amigos, fui à Paulista passear e dei de cara com isso:

manifestacao_direita.jpg

Uma manifestação. Nada incomum: a Paulista é o lugar predileto para tudo o que é manifestação em São Paulo, desde a parada gay até comemorações de títulos do São Paulo (há diferença?). Mas essa passeata em particular tinha algo de diferente. Não era só a classe média cansadinha reclamando da violência, ou cidadãos justamente emputecidos clamando por ética na política: tratava-se, na verdade, de uma manifestação da direita contra o governo Lula.
A passeata me fez lembrar o quanto a direita pode ser assustadora. Das imensas caixas de som saía a defunta voz da dupla Don e Ravel, entoando “Eu te amo meu Brasil, eu te amo”, hino máximo dos tempos da linha dura e do “Ame-ou ou Deixe-o”. Entre os manifestantes (muitos deles inocentes úteis, me parece), sujeitos com cara de malvados distribuíam panfletos alertando para os perigos do Foro de São Paulo e dos planos de Lula para levar o Brasil ao comunismo.
A direita é muito safada; chega a sê-lo mais do que a esquerda. Disfarça suas reais intenções por trás de manifestação pela ética. O ranço de Olavo de Carvalho se deixava entrever nos dizeres de uma das faixas exibidas pelos manifestantes: entre “Mensalão”, “Renan Calheiros” e “Caso Lulinha”, despontava a faixa “Suposta Ligação do PT com as FARC”. Porra, SUPOSTA?! Você está numa manifestação, xingando a mãe do presidente da República, e sapeca um “suposta” numa faixa de protesto? Oras, por favor!
Voltei para casa com medo. Aquilo me parecia a Marcha da Família com Deus, aquelas presepadas todas que antecederam (e desencadearam) o golpe de 64. Lembrei de uma crônica recente do Verissimo, na qual ele alertava para o perigo de se vaiar o governo ao lado das pessoas erradas. Eu pretendo continuar a vaiar os safados, mas aqui do meu canto, sozinho.

Desanimado e frustrado por antecipação, o emissário do rei chega à praça principal do vilarejo para colher as últimas notícias vindas dos mais distantes pontos do reino. No caminho, vinha pensando no quanto Sua Majestade estava desatualizado. Antigamente era outra coisa: cinco ou seis arautos revezavam-se no coreto, liam suas proclamações, alguns menestréis arriscavam cantigas em troca de uns cobres, pequenos contrabandistas vendiam suas bugigangas. Isso até o dia em que algum imbecil declarou que o mundo vivia uma nova era, um tempo de informação para todos e participação geral, um mundo em que todos estavam conectados. A teoria era linda, mas a prática era o que se via na praça agora: uma zona.
Com a chegada do funcionário do palácio, fez-se silêncio na praça — alguma coisa dos velhos tempos havia de permanecer. O emissário suspirou, fechou os olhos e fez sua solicitação:
— Quero informações sobre guerra!
Mal terminou a frase, e fez-se a Babel na praça, com as vozes de mil arautos sobrepondo-se umas às outras:
— Selas, arreios, estribos? Casas Javier Guerra é de confiança!
— Não!
— Agora é guerra! Campeonato regional de gamão!
— Não!
— Fotos de Arminia Guerra nua!
— Er.. Fica aqui do lado, já falo com você.
— Você quis dizer garra?
— NÃO, CARALHO!
— “Já dura três dias a guerra nos Bálcãs. Boatos dão conta de que o rei de França teria interesses na guerra, já que sua esposa é da linhagem da casa montenegrina. O rei nega os rumores, e diz que a soberania francesa não será…”.
— Ah, agora sim! Leia o resto, arauto.
— Xi. Página não encontrada.
— Como?!
— Eu li isso em algum lugar, memorizei e tal, mas não tenho cópia. Quer ler a página em cache?
— Onde?!
— A página que eu memorizei…
— Vá lá.
— “Já dura três dias a guerra nos Bálcãs. Boatos dão conta de que o rei de França teria interesses na guerra, já que sua esposa é da linhagem da casa montenegrina. O rei nega os rumores, e diz que a soberania francesa não será…”.
— Não será o quê?
— Sei lá. Só guardei até aí.
— ARGH!
Exasperado, o emissário voltou para o palácio. Diria ao rei o de sempre: que tudo estava bem.