Roteiro, direção, produção, edição, atuações, fotografia, figurino etc. etc. etc.
Pra quê?
O filme é bom, bom de verdade. Excelentes diálogos. O negócio é conseguir se concentrar nas falas quando são proferidas pela boca carnuda de Angelina Jolie.
(I Reis 2:12-46)
Com a morte de Davi, Salomão assentou-se no trono em Jerusalém, e seu governo se fortaleceu muito. Como? Já veremos.
Logo nos primeiros dias após a morte do pai, Adonias foi ao palácio falar com Bate-Seba.
— Adonias! O que você quer? Vem em paz?
— Sim senhora, não precisa se preocupar. Eu queria só dizer uma coisa pra senhora.
— Pois diga, oras.
— A senhora sabe muito bem que eu é que devia ser rei. Sou o irmão mais velho, o primeiro na linha de sucessão, e todo o país contava com minha subida ao trono após a morte de meu pai. Mas Javé quis de outro jeito, Salomão é o novo rei, e não discuto.
— E faz muito bem.
— Eu sei. Eu só queria fazer um pedido, só um.
— O que você quer?
— É essa moça, Abisague. Eu só penso nela o tempo todo, dona Bate-Seba. É um inferno! Durmo pensando nela, acordo pensando nela, passo o dia pensando nela. A menina ficou tanto tempo aí só esquentando meu pai, acho que ela gostaria de se casar, ter uma família.
— Então você quer se casar com aquela lambisgóia?
— Isso, isso! Ô, dona Bate-Seba, peça ao seu filho que me atenda. Eu sei que ele ouve a senhora.
— Bom. Tudo bem. Vou tentar, mas não garanto nada.
— Obrigado, obrigado!
Adonias voltou para casa cheio de esperanças, e Bate-Seba foi falar com seu filho. Ao ver a mãe entrando no salão real, Salomão correu a beijar-lhe a mão.
— Bença, mãe! Tá vendo seu filho, tá vendo? Só nos pano, mó preza.
— Sim, meu filho. Estou muito orgulhosa.
— Se liga ali do lado do trono, véia.
— Ué! Tem dois tronos, filho. O que é isso?
— É seu, mãe! Vai sentar do meu lado e pagá de gatinha, tá ligada?
— Er… Que lindo isso, filho. Fico comovida.
— Da hora, véia!
— Eu só queria te fazer um pedido…
— Desembucha, mãe. Cê tá ligada que aqui a senhora manda.
— Sabe aquela menina, Abisague?
— A que esquentava o véio? Tô ligado.
— Então, filho. Dê a menina em casamento ao seu irmão Adonias.
— TÁ DOIDA, VÉIA? PIRÔ DA CABEÇA? Comé que a senhora vem aqui na minha fuça pedir um troço desse? Vai pedir preu dá o reino pra ele também, junto com aqueles corno do Joabe e do Abiatar?
— Calma, meu filho…
— CALMA É UMA PORRA! O cara quer dá uns futuco na mulé do meu pai, e a senhora vem com esse migué, véia? Aê, eu juro por Javé que esse vacilão vai subir, e é hoje memo. Vou só chegar e PÔU! PÔU! Já era! BENAÍAS! Cadê esse zé mané? BENAÍAS, CARAIO!
— Coé?
— Benaías, cê vai fazê uma fita pra mim, ó.
— Viiiiiiiiiiixe.
— Tá ligado o Adonias?
— Tô ligado.
— Senta o dedo.
— Já é.
Então Benaías foi e matou Adonias. Com isso, Salomão já teria seu reino suficientemente fortalecido: afinal de contas, agora era o único descendente de Davi. Mas ainda tinha assuntos pendentes a resolver.
No dia seguinte, o rei mandou chamar Abiatar, sumo-sacerdote.
— Majestade!
— Majestade é uma porra! Me chama de Mano Preza.
— Er… Mano Preza!
— Seguinte, seu zé-ruela do caraio. Vou te mandar uma idéia, fica esperto: sai no pinote e se muquia lá nas suas quebrada de Anatote. Cê merecia mesmo era levar uns pipoco nos cornos. Só não leva porque eu sei que cê era mano do meu véio no tempo que ele precisou se empirulitar, e só virou traíra depois de véio. Dá linha, mano, antes que eu te dê uma muqueta no seu escutador de Hava Nagila.
Com o exílio de Abiatar, finalmente ficava cumprida a ameaça que Javé fizera a Eli, tantos anos antes, de que seus descendentes não seriam mais sacerdotes. Deve ter se esquecido, sei lá. Quem não se esquecia de nada era Salomão.
Sabedor da boa memória do rei, Joabe resolveu apelar para o mesmo expediente que salvara Adonias no primeiro momento, e correu para o Tabernáculo para segurar nas pontas do altar. Ao saber disso, Salomão mandou chamar Benaías.
— Benaías!
— Coé?
— Joabe.
— Já é.
Benaías foi até a porta do Tabernáculo e gritou:
— Joabe!
— Que é?
— O Mano Preza mandou cê sair daí, véio.
— Quem?
— O REI, CARAIO!
— Não vou sair, não vou! Eu morro aqui, mas não saio.
Benaías voltou ao palácio com a notícia.
— E aí o mano falou que morria lá?
— É.
— Aê, vou atendê o pedido do mano…
— Hum?
— Sobe.
— Pô, Mano Preza. O cara tá lá nas ponta do altar, tá ligado?
— E daí?
— Como assim, e daí? Javé vê uma parada dessa, já era, jacaré me abraça.
— Ô, mano, tá me zoando? Não mandei cê sentá o dedo?
— Mandô, mano, mandô…
— Então pronto, mano! Cê não mata, só dá a facada. Quem mata é Deus.
— Aê, sei não. Mó sinistro isso aí.
— SE LIGA, MANO! Faz o que eu mandei, que eu seguro o B.O.
— Segura?
— Seguro.
— Já é.
Benaías voltou ao Tabernáculo e matou Joabe, a eminência parda do reino de Davi. O filho de Zeruia foi enterrado numa de suas propriedades, em campo aberto.
Com a morte de Joabe, ficava faltando apenas Simei para Salomão terminar de vingar os inimigos de seu pai. Mas Davi jurou que não o mataria quando ele pediu perdão, e mesmo Salomão sabia que matá-lo pura e simplesmente pegaria muito mal, e poderia abalar sua popularidade. Por outro lado, não podia deixar de atender aos pedidos que Davi lhe fizera em seu leito de morte. O que fazer? Depois de muito matutar, Salomão conseguiu chegar a uma conclusão aceitável, e mandou chamar Simei.
— Seguinte, mano. Cê vai fazer um muquifo pra morar aqui em Jerusalém e vai ficar em prisão domiciliar.
— C-como?
— Come, caraio. Come, dorme, caga, toma no cu, faz o que quiser. Só não pode sair da cidade. Se passar do rio Cedrom, mando subir.
Desconfiando que a ordem do rei tinha alguma coisa a ver com as ofensas que fizera a Davi tantos anos atrás, Simei achou melhor não dizer mais nada e construir logo sua casa na capital. Ao menos o rei não o mandara matar, como fizera com Adonias e Joabe.
Simei morou por um bom tempo em Jerusalém, e Salomão nunca o incomodou. Três anos depois, porém, dois de seus escravos fugiram e foram se refugiar na casa de Áquis, rei de Gate, na Filistia. Gate nem era tão longe, o rei o deixara em paz por tanto tempo, era só para buscar uns escravos e voltar logo… Assim pensando, Simei selou seu jumento e foi até a Filistia. Quando chegou em casa com os escravos, já tinha um recado do rei esperando: Salomão queria vê-lo.
— Simei, seu vacilão! Cê jurou por Javé que não ia sair da cidade, mano!
— Eu não jurei…
— CALABOCA, PORRA! JUROU! JUROU! Que que eu te falei, hein? Fica na cidade, tá firmeza. Sai da cidade, mando subir. Não foi?
— Foi.
— ENTÃO POR QUE CÊ SAIU DA CIDADE, ZÉ RUELA? Deu mancada com meu pai, agora comigo. Ah, mano, não dá. Benaías…?
— Viiiiiiiiiiiiiiiiiiiixe…
Para o lugar de Abiatar no Tabernáculo, Salomão nomeou o sacerdote Zadoque. E, como era natural, Benaías substituiu Joabe no comando do exército israelita.
E foi dessa forma diplomática que o reino de Salomão se fortaleceu. Sejamos justos, porém: a sabedoria que tornaria Salomão lendário em reinos distantes ainda não existia. Como foi que Salomão se tornou o homem mais sábio de seu tempo? Veremos no próximo capítulo.
O grande acontecimento humorístico no Brasil este ano é uma nutricionista pernambucana confusa com o ponto eletrônico da TV.
Rá.
Depois dizem que brasileiro tem senso de humor. Quem tem senso de humor é inglês; brasileiro tem é desespero para rir, rir de qualquer coisa. Esta aí como prova aquele site que publica fotos manjadas da internet como se fossem originais. Não vou citar nomes, mesmo porque não gosto de comida árabe.
Outra prova, claro, é aquele outro que faz sátira da Bíblia. Não vou citar nomes porque tenho amor próprio, cazzo.
Hoje eu vi um anão japonês no ponto de ônibus.
Louvemos ao Senhor por esse momento tão lindo.
(I Reis 2:1-11)
Davi não proclamara Salomão como seu sucessor apenas para contrariar Adonias: velho e doente, sentia que não tinha muito tempo de vida. Então chamou o novo rei para uma última conversa.
— Aê, véio. Pela órdi?
— Filho, eu não entendo nada do que você fala.
— Cê tá surdo, véio?
— NÃO, PORRA! VOCÊ QUE NÃO FALA LÍNGUA DE GENTE!
— Ô, pai. Mancada…
— Humpf. Salomão, em breve eu irei para onde todos vão mais cedo ou mais tarde.
— NACREDITO!
— Pois é verdade.
— Vai pra Miami, véio? Pô, me traz um pisante da hora?
— MANÉ MIAMI, SEU BUCÉFALO! ESTOU MORRENDO!
— Tá nada, pai!
— NÃO DISCUTA COMIGO! Se eu tô falando que vou bater as botas, é porque vou mesmo. Mas antes eu quero te dar uns conselhos.
— Manda bala.
— Você precisa ser forte, meu filho. Ser rei de Israel não é nada fácil. Mas obedeça às leis de Javé, seja honesto e justo, e tudo dará certo. Assim Deus cumprirá a promessa que me fez, de manter a minha dinastia por muitos séculos, desde que meus descendentes o sirvam.
— É nóis.
— Além disso… Você conhece o Joabe, né?
— Aquele puta ganso, pilantra, corno manso?
— Esse. Joabe matou dois soldados valentes, Abner e Amasa, em tempos de paz. Esse cara não pode morrer de velho. Entendeu?
— Peraí, peraí… Cê quer que eu mande subir?
— Hein?
— Tá me mandando apagar o cara?
— TÁ LOUCO? EU NUNCA MANDEI MATAR NINGUÉM, TÁ ME OUVINDO?
— Ué… O povo diz que o primeiro marido da mãe bateu a caçoleta porque o senhor…
— CALABOCA!
— …
— Eu só disse que ele não deve morrer de velho, e espero que você me entenda e não faça perguntas.
— Firmeza, véio. Não estressa.
— Eu não mando matar ninguém. Ninguém! Os filhos de Barzilai, por exemplo. Quando eu estava na merda, fugindo de Absalão feito um rato, eles me deram abrigo e comida. Faça o mesmo por eles sempre que precisarem.
— Céito…
— O mesmo eu não posso dizer de Simei, filho de Benjamim.
— Esse não é o traíra que te falou uma pá de groselha quando cê tava dando linha de Jerusalém?
— Que me ofendeu quando eu fugia de Absalão? Esse aí. O desgraçado me xingava, jogava pedras, o diabo. Depois ele veio me pedir perdão, e eu jurei que o deixaria vivo.
— Então esse aí não é pra apagar?
— Você não jurou nada…
— Tô ligado.
— Você é esperto, sabe o que fazer.
— Xacomigo, pai. Se esse truta chega perto, vixe, tem nem idéia. É só pipoco, já era. Tá ligado, pai?
— …
— Ô véio! TÁ LIGADO?
— …
Salomão ainda gritou um pouco antes de perceber que o pai estava morto. Bateu duas vezes no peito com o punho fechado, disse “Paz, mano”, e foi comunicar o falecimento aos funcionários do palácio.
O corpo de Davi foi sepultado em Jerusalém. Seu reinado durou quarenta anos: sete como rei de Judá, em Hebrom, e outros trinta e três em Jerusalém, como soberano de todo o Israel.
Salomão herdou um reino unificado e forte, ao contrário do seu pai. Começaria logo seu reinado, mas antes precisava atender aos últimos pedidos de Davi. Um banho de sangue, como veremos.
Foi publicada uma matéria na Veja com o título “Blog é coisa séria”. Deve ser a terceira vez que a revista “descobre” o mundo dos blogs, e sempre com atraso e de maneira equivocada. Desta vez o assunto são os blogs que tratam de política, cultura, negócios e outros assuntos de gente grande. Escolheram bem o representante brasileiro para a matéria, Alexandre Soares Silva, mas só se publicou besteira: que ele faz de tudo para receber visitas (seria deselegante), que é aspirante a escritor (Alexandre é dos poucos escritores atuais que valem a pena), que tem mais visitas diárias do que exemplares vendidos de seus livros (como se a comparação fizesse sentido — fosse assim, o Balde de Gelo já seria um best seller). Enfim, a foto saiu legal.
O assunto, porém, é bem interessante. E então eu queria saber: alguém aí conhece algum blog que tenha como tema assuntos sérios, principalmente tecnologia e negócios? Algo como o Techboogie, por exemplo (o autor vai me dar um real por visita originada do JMC)? Digam, digam.
E visitem o Techboogie, que eu preciso da grana.
UPDATE: acabo de saber que o dono do Techboogie dar-me-á (me segura!) um real complementar para cada novo comentário no blog dele. Então visitem e COMENTEM.
(I Reis 1:11-53)
Enquanto Adonias dava sua festa, o profeta Natã resolveu que era hora de começar a mexer uns pauzinhos. Para começar, foi falar com a mãe de Salomão:
— Bate-Seba, viu esse negócio todo aí do Adonias?
— E quem não viu, Natã? Só mesmo o rei, que agora vive de safadeza com aquela sunamita sem-vergonha. Quando eu era bonita ele me viu pelada e fez tudo quanto foi loucura para ficar comigo. Agora é o que se vê, o dia todo deitado com a tal Abisague no maior chamego. Velho safado…
— Pois é, pois é! O rei não sabe de nada, é como você diz. E se as coisas continuarem assim, você e seu filho podem se dar mal.
— Epa. Como assim?
— Oras! Adonias não convidou Salomão para a festa. Seu filho é um concorrente, e se Adonias for mesmo reconhecido como rei, o bicho vai pegar. Ele não vai deixar vivo outro herdeiro do trono.
— E o que a gente pode fazer, Natã?
— Engraçado você perguntar. Estava mesmo pensando num negócio aqui…
Minutos depois, Bate-Seba entrava no quarto de Davi. O velho rei ficou surpreso: era raro que qualquer de suas esposas viesse vê-lo depois da chegada de Abisague, e Bate-Seba, com todo seu orgulho, era a menos disposta a fazer uma visita de cortesia. Mas ali estava ela. O rei olhou para aquela matrona que lhe fazia uma reverência, e tentou associá-la à bela moça nua que vira do terraço tantos anos antes. Não conseguiu.
— O que você quer?
— Rei Davi, o senhor jurou por Javé que meu filho seria seu sucessor no trono.
— Jurei?
— Jurou.
— Lembro não.
— Mas jurou.
— Hum. E seu filho é aquele menino, né? Aquele lá. Aquele que teve aquele negócio do… Que pegou aquele troço uma vez lá no… O menino que fez a… Né?
— Salomão.
— Hum?
— O nome dele, do nosso filho. Salomão.
— EU SEI, DIABO, EU SEI! VOCÊ ACHA QUE EU NÃO CONHEÇO MEU PRÓPRIO FILHO?
— Longe de mim pensar uma besteira dessa, majestade.
— Humpf.
— …
— O que você quer?
— O senhor jurou que…
— Já sei, já sei! Tá pensando que eu sou o quê, algum velho caduco?
— Claro que não, que idéia! O negócio é que Adonias se auto-proclamou rei sem que o senhor soubesse.
— Adonias?
— Seu filho…
— EU SEI QUEM É ADONIAS! QUE INFERNO!
— Pois então.
— Que história é essa de rei? O rei não sou eu?
— Claro que é, majestade. Mas Adonias diz que o senhor já está muito velho, e que ele é o herdeiro do trono. Está agora mesmo dando uma festa lá pros lados da Pedra da Cobra. Os irmãos dele estão lá, Abiatar e Joabe também.
— Ué. Abiatar e Joabe?
— Exatamente.
— Então vai ver o garoto tem que ser rei mesmo. Está bem assessorado.
— Mas o senhor jurou que…
— EU SEI O QUE JUREI! Grunf. Olha aí, já chegou mais gente. Quem é?
— Sou eu, majestade. Natã.
— Conheço Natã nenhum.
— O profeta Natã…
— Profeta… Profeta… Ah, sim! Natã, como vai? O que o traz aqui?
— Nada de muito bom, rei Davi. Por acaso o senhor anunciou que Adonias seria coroado rei? Acho que houve alguma falha de comunicação, porque eu não fiquei sabendo de nada…
— Adonias?
— Seu filho…
— EU SEI, CÁSPITA! Essa outra aí já me contou da festa e coisa e tal.
— Pois é! Joabe, Abiatar e toda a corja estão lá gritando “Viva o rei Adonias!”, mais bêbados que o Bukowski.
— Hum. Não vejo nada de mais nisso, mas a Bate-Seba me disse que eu fiz um juramento e não sei quê…
— E o senhor não se lembra? Jurou que Salomão seria…
— Que Salomão seria meu sucessor. Mas que caralho, vocês acham que eu não lembro de nada é? Cadê a Bate-Seba? BATE-SEBA!
— Estou aqui, majestade.
— Bate-Seba, eu vou cumprir o juramento que fiz a você, ou não me chamo Saul.
— Davi.
— DAVI! Chamem lá o Abiatar.
— Ele está na festa do Adonias.
— Ô, diabo. Esse reino está me saindo uma esculhambação sem tamanho. Tem algum sacerdote em Jerusalém?
— Zadoque está ali no corredor.
— Eita! Parece até que vocês planejaram tudo…
— Hahahaha. M-mas que idéia, majestade!
— Hum. Chamem lá o Bodoque, então.
— Zadoque.
— FOI O QUE EU DISSE! Chamem esse puto, mais o Benaías. Não, Natã, você fica aqui.
— Sim senhor.
— Zadoque, meu querido!
— Eu sou o Benaías, majestade.
— Arre, égua!, vocês têm tudo a mesma cara. Esse outro é o Zadoque, então?
— Eu mesmo, majestade.
— Tenho uma missão para os três. Vocês vão pegar aí um punhado de oficiais, botar meu filho Salomão montado na minha mula e levar o menino até a Fonte de Giom. Quando chegarem lá, Zadoque e Natã devem ungir o garoto como rei de Israel. Depois vocês vão tocar as cornetas e sair gritando “Viva o rei Salomão!”. Então venham todos para cá, para que ele se sente no trono. Ele será rei em meu lugar, porque foi a ele que eu escolhi para governar Israel. Ele, entenderam? Salomão. Não aquele Adônis.
— Adonias.
— Que seja.
— Pode deixar com a gente, majestade! Que Javé confirme tudo isso aí, viu? E que ele esteja com Salomão como esteve com o senhor. E que o reinado de Salomão seja ainda maior do que o seu. E que ele faça…
— Tá bom, Zadoque, vai logo!
— Eu sou o Benaías, majestade…
— FODA-SE!
Os três saíram dos aposentos do rei, montaram Salomão na mula de Davi e cumpriram o ritual de unção de acordo com as instruções recebidas. Na volta para o palácio, porém, o povaréu foi se juntando ao cortejo do novo rei. Quando passavam perto da Pedra da Cobra, já eram uma pequena multidão gritando vivas a Salomão, cantando e tocando instrumentos. Adonias e seus convidados ouviram aquela algazarra e não sabiam do que se tratava. Estavam na dúvida quando chegou Jônatas, filho de Abiatar, com as notícias: Davi mandara ungir Salomão como rei, o povo estava com ele e os oficiais congratulavam o velho rei pelo acerto na escolha.
— Não pode ser!
— Mas é, seu Adonias. Dizem até que o rei tentou improvisar uns versos. Assim:
Louvado seja Javé
Porque é o que é
Me deixou ver em pé
Meu filho Salomé
Ser o rei de Israé.
— Mas o nome do moleque não é Salomão?
— Por isso o rei não terminou o salmo. Não é mais o mesmo…
— Sei não, sei não. Esse negócio aí não está me cheirando bem. Isso pode ser perigoso como o diabo. O que você acha, Joabe? Joabe? Cadê esse puto? Abiatar? ABIATAR! PORRA!
Percebendo o isolamento político em que se encontravam, os convidados de Adonias saíram de fininho. Afinal de contas, em pelo menos uma coisa ele acertara: era perigoso ficar isolado politicamente em Israel naqueles tempos (hoje em dia também, mas não vamos falar nisso).
Adonias, que havia pouco conhecera as delícias do poder, viu-se destituído do trono sobre o qual sequer chegara a sentar-se, e com a cabeça a prêmio. O novo rei não perdoaria sua ousadia. Então fez a única coisa que podia: correu para o Tabernáculo e agarrou-se às pontas do altar. De acordo com a lei, ninguém poderia ser morto na presença de Deus, ou seja, dentro da Tenda Sagrada. Lá de dentro, tremendo todo e agarrado com toda a força às pontas do altar, Adonias mandou seu recado:
— Só saio daqui se o rei Salomão jurar não me matar à espada!
Quando soube da reivindicação de Adonias, o novo rei fez seu primeiro pronunciamento público:
— Aê. Se o mano mostrá que é firmeza, eu trombo ele e não tem treta. Mas se vier com crocodilagem, é um-dois, mando subir. Tá ligado?
— C-como, majestade?
— MAJESTADE O CARAIO! ME CHAMA DE MANO!
— M-Mano?
— MANO!
— Mas é que…
— Ah, véio. Manda aquele cu-de-burro sair lá de onde ele tá muquiado, que eu quero dá uma idéia no figura.
— S-sim senhor…
— MANO!
— Mano, mano!
— É foda…
Os funcionários do palácio foram buscar Adonias no Tabernáculo. As mãos do coitado estavam crispadas em volta das pontas do altar, então ele precisou de ajuda para sair. Bom, o medo de encarar o novo rei também não ajudava muito. Mas todo mundo garantiu que estava tudo bem, que nada lhe aconteceria e tal, então ele foi ter com Salomão. Chegou, ajoelhou-se e encostou o rosto no chão.
— Ih, véio! Que parada é essa aê?
— Majestade!
— Ô caraio… Seguinte, mano: vaza.
— Hein?
— VAZA, MANO! RALA O PEITO! SOME!
Adonias não esperou terceira ordem: deu meia-volta e saiu. Estava vivo, surpreendentemente vivo. Mas todo mundo morre um dia. Uns vão mais tarde, outros mais cedo. Mas não vamos nos adiantar, os próximos capítulos serão bem movimentados. Será agitado o reino de Salomano.
Digo, Salomão.
Isto aqui está parado demais, né? Pois então: hoje tem capítulo novo, ou não me chamo Asclepíades Barbosa.
Bem amigos do Marco Aurélio.
Seguinte: procuro personagens para uma matéria sobre mulheres que namoram homens mais velhos. Preciso entrevistar a mulher, o namorado e o pai dela. O pai e o namorado devem ter mais de 50 anos. Quem conhecer um trio com essas características, deixe um comentário aqui ou mande um email para danielamacedo@hotmail.com
Quem me ajudar, ganha um pirulito de goiaba.
Ah, eu sou a tresloucada que topou escrever um livro com o autor desse blog. Nosso filho atende pelo nome de Balde de Gelo.
Obrigada pela atenção.
Câmbio, desligo.
(I Reis 1:1-10)
O primeiro livro dos Reis tem um nome que não faz muito sentido. Afinal, a história da monarquia israelita começa já no primeiro livro de Samuel. Algumas versões da bíblia Católica trazem os livros de I, II, III e IV Reis, em vez de dois livros de Samuel e dois dos Reis. A divisão, seja ela qual for, é arbitrária: como os livros eram originalmente escritos em rolos, seria necessário um carrinho de mão para transportar toda a história da monarquia. Então os estudiosos judeus que fizeram a primeira tradução da Bíblia para o grego (em 250 a.C., no Egito) resolveram dividir cada um dos livros em dois volumes menores. Enfim, vamos à história.
Davi já estava muito velho. Velho mesmo: em 973 a.C., quando começa este livro, o rei estava em seu 40º e último ano de governo. O povo de Israel já estava cansado: então um sujeito dá uma pedrada num jogador de basquete e pronto, é rei por quarenta anos? Não era muito democrático. Além do mais, o rei estava nas últimas: sentia um frio danado o tempo todo. EM PLENO ORIENTE MÉDIO! Um frio incontrolável. O pessoal do palácio trazia cobertas, ponchos, gorros, cachecóis, luvas, máscaras de esqui, e nada do rei se aquecer.
— Por que a gente não toca fogo no velho?
— Tá doido, rapaz?
— Que que tem? Ele não vai viver muito mesmo, pelo menos morre quentinho…
— Oras, deixe de falar besteira. Majestade!
— Hum? Hein? Quem?
— Majestade… Nós vamos procurar uma moça para cuidar do senhor.
— Uma moça, é?
— É. Para cuidar do senhor, dormir na sua cama e mantê-lo aquecido. Que tal?
— Oba!
Então os conselheiros do rei saíram por todo o Israel procurando uma moça que servisse a tal propósito. Acabaram encontrando uma garota chamada Abisague, Miss Suném 975 a.C. Levaram Abisague até o palácio, e ela aceitou de bom grado suas novas atribuições. Passava o tempo deitada ao lado do rei, aquecendo seu velho corpo. Davi sequer tocava a moça. Não que não quisesse, mas qual seria o propósito? Estava velho, seus dias de garanhão haviam ficado para trás.
Enquanto o rei passava seus dias deitado com a bela sunamita-aquecedora, no reino inteiro só se falava da sucessão. Amnom, o primogênito do rei, fora morto por Absalão. Este, o segundo filho, fora morto por Joabe depois de liderar uma rebelião. O terceiro, Adonias, filho de Davi com Hagite, parecia o sucessor natural. Era um rapaz muito mimado, naturalmente: depois de perder dois de seus filhos (isso sem contar o que tinha morrido pouco depois de nascer, num daqueles castigos muito justos de Javé), o rei fazia todas as vontades de Adonias e nunca o repreendia por nada. Tendo crescido dessa maneira, paparicado pelo pai, Adonias queria de toda forma ser o próximo ocupante do trono de Israel. E não demorou a providenciar isso: percebendo que Davi estava mesmo nas últimas, arranjou carros de guerra, cavalos e cinqüenta homens para formarem sua comitiva pessoal. O príncipe sabia que precisava de apoio nas altas esferas do reino, ou acabaria como seu irmão Absalão. Então foi falar com Joabe, o general e braço direito de Davi, e com Abiatar, o sacerdote. Os dois concordaram em apoiá-lo. Não viam sentido em manter no trono um rei moribundo: melhor mesmo seria que Davi se retirasse para sua casa no litoral do Mediterrâneo, e deixasse o reino nas mãos de alguém capaz de conduzi-lo. Outros, porém, foram sondados por Adonias e não o apoiaram: Benaías, chefe da guarda pessoal do rei, Zadoque, o sacerdote mais jovem, o profeta Natã e os guarda-costas Simei e Reí decidiram ficar ao lado do velho rei. Lealdade? Não exatamente: eles também achavam que estava na hora de Davi pendurar sua funda, mas queriam que o sucessor fosse Salomão, um príncipe meio apagado e nascido de uma união reprovada por todos.
Tendo formado seu séquito, Adonias deu uma festa e convidou seus irmãos e os funcionários do rei originários de Judá. Convidou a todas as pessoas influentes da côrte, com exceção dos poucos opositores. Tinha certeza de que seria rei, era só questão de tempo. Não contava, porém, com a astúcia de seus adversários.
Israel tremia com as novidades quentes, e Davi tremia de frio em sua cama. Olhou para a porta e viu uma silhueta familiar.
— Vem cá, minha nêga…
Enquanto Abisague se aninhava a seu lado, a nostalgia tomava conta do rei. Lembrava-se de seus tempos de furor viril. Inocente, nem sabia que sua impotência não mais se restringia ao âmbito sexual.