Acabo de ver Erasmo Carlos na TV. “Como está velho!”, dizem as pessoas. Não é que ele esteja velho. Gasto parece ser o termo mais exato, e não falo isso com intenção pejorativa. Vendo suas olheiras, seus ralos cabelos de algodão, suas rugas, a impressão que tenho é que Erasmo viveu demais. Todo mundo fala em viver intensamente, mas ninguém quer ficar com aquela cara. O arauto das palavras simples e certeiras é um ancião precoce.
Olhem para Roberto Carlos. O Rei está velho, sim. Mas é uma velhice serena, apolínea. Roberto é triste, mas tranqüilo. Erasmo parece possuído pela tristeza, parece um escravo da tristeza. Roberto pode cantar louvores a Jesus Cristo e a Nossa Senhora, ou celebrar a eternidade do amor. Só Erasmo pode dizer “Minha sombra me acompanha e vê que eu estou morrendo lentamente”. É como se ambos fossem uma só pessoa. Cabe à metade que é Erasmo Carlos carregar o fardo, sofrer, ter insônia, para purgar a gigantesca fama de seu Outro. Erasmo é a tristeza dos olhos do Rei.
Roberto Carlos é Dorian Gray; Erasmo é o retrato que envelhece na solidão.
Categoria: Teorias
Tomé
Tomé é um dos personagens mais fascinantes da Bíblia. Discípulo de Jesus Cristo, acompanhou o mestre desde o início de seu ministério, mas nunca deixou de lado seu espírito crítico, sua leve desconfiança. Lendo as poucas falas do apóstolo nos evangelhos, parece que estamos diante de um mineiro.
Quando Jesus foi ressuscitar Lázaro, por exemplo. Recém saído da Judéia, onde fora ameaçado de apedrejamento, o Filho do Ôme decidiu voltar ao saber da morte de seu bom amigo. Os discípulos tentavam dissuadí-lo, mas o mestre estava irredutível. Então Tomé comentou com os outros, a meia voz:
— Vamos lá então. Pelo menos morremos todos juntos.
O sujeito tinha testemunhado as maiores maravilhas operadas por Jesus, mas mesmo assim tinha certeza de que seria morto assim que botasse o pé na Judéia. Ele, seus onze colegas e o temerário mestre. Aconteceu, no fim das contas, que entre mortos e feridos salvaram-se todos e, como um bônus, Jesus ainda ressuscitou Lázaro.
Ver um morto levantar-se de sua sepultura após quatro dias era o milagre definitivo, a cura para o maior ceticismo do mundo. Bem, não para Tomé. Pouco tempo depois, Jesus falava sobre a sua partida iminente:
— Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também. Mesmo vós sabeis para onde vou, e conheceis o caminho.
Essa exortação podia ser suficiente para os outros discípulos. Não para Tomé.
— Peraí, peraí. Cê vai pra onde agora? Se a gente não sabe, como é que vai saber o caminho?
A reação de Jesus Cristo à dúvida era oposta à de muitos de seus seguidores de hoje em dia. Em vez de desprezar o cético, ou acusá-lo disso e daquilo, ele contemporizava. Diante da questão de Tomé, ele formulou uma de suas grandes frases:
— Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.
Tomé continuou a conviver com Jesus até o fim, e ainda testemunhou muitos milagres. Mesmo assim, quando se deparou com Cristo ressuscitado, não se satisfez com as aparências nem com o que seus colegas lhe diziam. Em vez disso, exigiu provas concretas: queria tocar as feridas nas mãos do mestre para comprovar que aquele era o mesmo que fora crucificado. Em vez de execrá-lo como herege, Jesus o convidou a aproximar-se e tocar as feridas o quanto quisesse. Só depois disso o discípulo cabeça-dura se deu por vencido. Caindo de joelhos, exclamou:
— Senhor meu e Deus meu!
E Jesus, ligeiro como sempre, mandou um de seus petardos:
— Por que me viste, creste? Bem aventurados os que não viram e creram!
Agora vejam minha situação: eu nunca vi milagre nenhum, nunca vi Jesus de perto, nunca andei com ele para cima e para baixo. Tomé, que teve essa oportunidade toda, tinha o direito à dúvida. E eu não? É justo?
Pobres filhos de uma égua
Você acha que sofre? Sofre porra nenhuma. Sabe quem sofre? Os cavalos.
Um cavalo nasce sem saber seu destino: se será um rei das canchas, um garanhão reprodutor de esperma mais valioso que o ouro, uma montaria para reis ou um reles puxador de carroça. O eqüídeo só tem uma certeza na vida (ou deveria ter): a de que será sacrificado.
Não há cavalo que morra de velho. Quebrou a pata: sacrifica. Cortou a barriga: sacrifica. Está com enxaqueca: sacrifica. A rainha está em perigo, os dois bispos já se foram e você prevê um xeque-mate em cinco lances: sacrifica.
Estava vendo dia desses uma reportagem num haras. Um sujeito limpava o casco do cavalo e explicava que, se a limpeza não fosse feita a certos intervalos, o casco ficaria propício à proliferação de fungos. Se isso acontece, adivinha o que fazem com o bicho? Sacrificam, claro.
Não, não. Pare pra pensar: você tem micose, passa Vodol que passa. O cavalo tem micose, vai comer capim pela outra extremidade (do capim, mente poluída!).
O cavalo é o único bicho que o homem domesticou para depois encurtar-lhe a existência. Hoje em dia os cachorros vivem mais de 20 anos, os gatos vivem mais de 15. Se seu cachorro espirra, você diz “saúde”. Se seu cavalo espirra, você diz “adeus, amigo”, e já sai à procura de um veterinário.
Se eu fosse cavalo, seria o bicho mais hipocondríaco do mundo (aliás, esse prefixo hipo-, sei não…). Qualquer coceira me tiraria o sono.
Se um dia eu tiver um cavalo, botarei nele o nome de Eutanásio.
Pergunta
Sabe quando você vai contar um diálogo que teve? Uma conversa qualquer? Então, estava reparando: na hora de contar a história, o interlocutor sempre tem voz de retardado. Tipo:
— Então eu falei pra ele, “Esse negócio é pra botar aqui, não lá!”, e ele, [voz de retardado]”Ahhh. Não sabia…”
Por quê, hein?
Conselho de graça
Apesar de meus vetustos 31 anos, não sou de dar conselhos. Hoje, porém, após uma experiência terrível, ofereço-lhes um graciosamente. Vocês sabem em quem confiar ou não? Não sabem, né? Manés… Pois eu lhes digo: não confiem em gente que precisa de todo um intróito antes de dizer que estava assistindo a um canal de TV aberta. Sabem do que estou falando? Aquele povo que diz “Eu estava passando pela sala e meu irmãozinho estava vendo o Chaves, aí…”, ou “A empregada estava vendo a Luciana Gimenez, então eu dei uma espiada e…”, ou ainda “Eu assisto muito TV a cabo, mas nesse dia eu estava zapeando a TV aberta só para passar o tempo e parei no programa do Ronnie Von”. Sacaram? Pois então: não confiem nessa gente. Nego que tem toda essa necessidade de parecer bem aos olhos alheios não pode prestar pra muita coisa.
De nada.
Uma outra idéia
Já repararam que sempre que nos acontece algo de ruim, somos obrigados a reviver o acontecimento constantemente por uns dias. Pensem, por exemplo, no meu caso: graças a uma fechada de um feladaputa e à minha inexperiência atrás do volante, enfiei o carro num poste sábado à noite. O carro bateu de frente no poste, rodou uns 45 graus e estacionou graciosamente sobre a calçada. Eu saí bem, exceto pelos hematomas causados pelo cinto de segurança.
Pois bem: já é ruim o bastante passar por isso menos de um mês depois de tirar a habilitação. Pior ainda é ter que contar a todo mundo. E perguntam o que aconteceu, como foi, se eu anotei a placa do carro do feladaputa, se eu estou bem. E dizem que é normal, que acontece, que todo mundo passa por isso.
Bom. Então eu estava pensando que poderíamos todos andar com chips implantados sob a pele da palma da mão. Nesses chips, gravaríamos nossos blogs públicos, que poderiam ser lidos por todos. O chip viria acompanhado de um relógio que serviria para ler as informações armazenadas. Então todo mundo que cumprimentássemos receberia imediatamente as mais recentes notícias sobre nós: que batemos o carro, que levamos um pé na bunda, que estamos na TPM, que temos hemorróidas.
Ok, talvez isso não fosse adequado para um blog público.
O caso é que um sistema assim facilitaria muito nossa vida.
Um sistema alternativo a esse seria:
— Oi. Que cara é essa? O que aconteceu?
— NÃO INTERESSA, CARALHO! VAI TOMAR NO CU!
A vantagem desse sistema é que o investimento em novas tecnologias é zero.
Invocando
Depois de muito pensar, de muito meditar, jejuar e orar a todos os deuses, foi numa prosaica viagem de ônibus que encontrei a razão para o caos desde nosso mundo velho sem porteira. Estava eu indo para a Penha quando li o seguinte lema na porta de uma Igreja Universal do Reino de Deus:
AQUI SE INVOCA O DEUS VIVO
Uns quinhentos metros a frente, notei uma frase parecida na fachada de outra igreja — esta de uma seita com laivos católicos:
AQUI INVOCAREMOS O DEUS DA CRIAÇÃO
Comecei a pensar: se num trecho tão curto da avenida Amador Bueno da Veiga pude encontrar pelo menos dois templos dedicados à invocação de Deus, quanto outros lugares como estes devem existir mundo afora? Vão invocando, vão invocando, o resultado é inevitável: o Bichão fica invocado, e aí já se viu. É Tsunami mandando um monte de gente pra terra do Bob Esponja, é papa nazista, é Marco Aurélio fodido, sem amigos e sem vintém.
Faço, então, um apelo aos religiosos do mundo: PAREM DE INVOCAR O HOMEM! Por que não adotar lemas que sejam mais agradáveis aos olhos do Senhor? O que há de errado com “Aqui exaltamos o maravilhoso Deus”, “Aqui elogiamos o Senhor até que Ele fique sem graça”, “Aqui dizemos que Jeová é bonitão”, ou mesmo “Aqui babamos o ovo de Javé descaradamente”? Quem lê a Bíblia sabe que é isso mesmo que o Senhor dos Exércitos quer. O negócio é bajular, o resto é acessório.
Viveremos num mundo melhor, vocês vão ver.
Vida de pobre
Cá estou eu, insone, fodido e desempregado, acessando a internet às três da manhã através de linha discada. E enquanto passo por tal provação, penso nos milhares de miseráveis das ruas de São Paulo. Como é que eles conseguem ter paciência com acesso dial up, meu Deus??? O cara passa o dia arrastando uma carroça cheia de papelão, ou vendendo balas no semáforo, ou exibindo suas feridas sórdidas na Rua Direita esperando que seu sofrimento lhe traga esmolas despertando a compaixão dos transeuntes, ou simplesmente assaltando os bacanas na Praça da Sé. Como se não bastasse todo esse suplício, chega em casa e tem que esperar que seu modem o conecte ao provedor para enfim poder ler seus e-mails, postar em seu blog, navegar pelo Orkut. Vida difícil, a dos pobres. Amanhã mesmo eu começo a contribuir com alguma instituição de auxílio aos carentes. Antes, porém, vou ligar lá na Telefonica para cancelar o cancelamento do meu Speedy. Credo.
Sobre Garcia Márquez, a Grande Guiana e a Farsa do Maracanã
Terminei esta madrugada de ler Viver Para Contar, do Gabriel Garcia Márquez. No meio de tanta coisa para se notar, percebi algo que me incomodou bastante: a quase absoluta ausência de qualquer alusão ao Brasil. Só quando fala de uma reportagem sobre futebol, menciona um jogador brasileiro então contratado por um time colombiano. De resto, são citados diversos países da América Latina: Peru, Argentina, Chile, Equador, México, Cuba, até o Panamá. Brasil? Que é isso? O que é aquele pedação de terra no qual as pessoas não falam espanhol como as pessoas normais? Quem são esses mulatos que preferem consumir a cultura européia e norteamericana a tentar ao menos conhecer o que é produzido na vizinhança?
Assim, para nossos irmãos de continente somos uma espécie de Guiana com mania de grandeza, um Suriname que pensa ser os Estados Unidos. O idioma é um obstáculo, claro, mas há um problema de identidade nacional e contextualização: se nossa geografia correspondesse à nossa mentalidade, o Brasil seria uma faixa de terra pouco mais larga que o Chile ao longo da costa Atlântica. Os outros? Ah, os outros são cucarachas, são latinos, são hispânicos. E ainda reclamamos quando somos confundidos com eles. “Pera lá! Eu sou BRASILEIRO! Eu falo PORTUGUÊS!”. Um orgulho besta que só nos afasta de nossos “países irmãos”, como nos referimos a eles com uma boa carga de ironia. E enquanto isso ensina-se inglês nas escolas públicas, sem que sequer se avente a possibilidade de cursos de espanhol em larga escala.
Blablablá. Estava pensando em tudo isso e então me lembrei que ontem vi Roberto Rojas no shopping center Morumbi. Rojas, para quem não sabe, é técnico do meu glorioso São Paulo Futebol Clube, que agora ocupa uma honrosa terceira colocação no campeonato nacional. Mais que por isso, porém, ele será sempre lembrado como um dos protagonistas da Farsa do Maracanã, ao lado de Rosemary Fogueteira.
3 de setembro de 1989, Rio de Janeiro, estádio do Maracanã, eliminatórias para a Copa do Mundo. Brasil e Chile estão jogando. O Chile precisa ganhar a partida para ainda ter chances de classificação, mas a seleção brasileira vence por 1 X 0, gol de Careca. Aos 23 minutos do segundo tempo, a então anônima torcedora Rosemary Mello — depois foi capa da Playboy e hoje é evangélica — usa um sinalizador da marinha como rojão, atirando-o no campo. O foguete cai dentro da grande área chilena, e Rojas, o goleiro, se joga no chão, simulando ter sido atingido. Para dar maior realismo à cena, ele corta o supercílio com uma lâmina que levava escondida na luva, causando abundante sangramento. Um dramalhão bem ao gosto dos cucarachas…
O jogo foi cancelado e começou a polêmica: quem ganhou? Haverá outra partida? Ficamos nesse impasse até a farsa ser descoberta. O resultado de 1 X 0 ficou valendo e a seleção chilena foi punida, proibida inclusive de disputar as eliminatórias seguintes, para a Copa de 94. Para Roberto Rojas foi pior ainda: o goleiro foi execrado por todo o mundo, e especialmete aqui en Latinoamerica. Era reserva do São Paulo na época, mas não podia jogar. O que fazer? Era desprezado em seu país natal e odiado no país de adoção. A solução foi dada pelo próprio São Paulo: o chileno foi contratado como preparador de goleiros, e pelos resultados — Zetti e Rogerio Ceni, quem precisa mais que isso? — foi muito bem sucedido.
Depois de uma série de acontecimentos, e juntando competência a golpes de sorte, Roberto Rojas chegou finalmente ao cargo de técnico do clube mais importante da história do futebol brasileiro, quiçá mundial. Então eu me pergunto: e se fosse o contrário? Se um goleiro brasileiro aprontasse a presepada que Rojas aprontou naquela ocasião, teria alguma oportunidade no Chile? Duvido muito que sequer estivesse vivo.
Ah, pau no cu desses cucarachas então!
BRASIIIIIIIIIIIIIIIL, Ê-Ô!
BRASIIIIIIIIIIIIIIIL, Ê-Ô!
BRASIIIIIIIIIIIIIIIL, Ê-Ô!
BRASIIIIIIIIIIIIIIIL, Ê-Ô!
Tá no sangue
Meu irmão veio me perguntar o que significava sarcasmo. Expliquei e tal, e ele: “Vixe, então eu sou sarcasmado toda hora”. Tão vendo? Sarcasmado é uma palavra melhor ainda que sarcasmo.
