Hoje a Bárbara faz 25 anos. VINTE E CINCO ANOS! Está velha, tadinha. Mas nem parece: desde quando a conheci ela tem a mesma cara, e pelas fotos acho que ela não mudou nada desde que nasceu. Ainda pedem identidade para ela nos bares. Sei não, acho que há um retrato envelhecendo dentro de algum armário na casa dela. Namoramos por pouco mais de três anos. Enquanto eu engordava, enfeiava e encarecava, ela continuava exatamente a mesma. E continua até hoje. Constrangida por isso, às vezes muda o cabelo, e é só.
Há quem pense que ela se resume a isso. Quem a conhece sabe que não; quem não a conhece pode tentar entender lendo sua auto-análise:

Eu sou pequenininha como a minha timidez. Eu sou delicada como minha visão estética. Eu tenho contradições entre corpo e rosto – magra mas com grandes e saudáveis bochechas rosadas, e tenho um rosto mais branco que meu corpo. Minhas olheiras (de família e de nascença) contam a vida desegrada que eu levo. Minhas sardas são a manifestação física da minha ironia e da minha eventual esperteza. Mas o centro de tudo é o meu nariz. Meu nariz abatatado lembra que eu não sou a bonequinha de porcelana que algumas pessoas acreditam que eu sou. Meu nariz é a prova da minha resistência e da minha miscigenação. Eu lembro de uma história, acho que dos irmãos Grimm, em que descobrem que uma moça é mesmo uma princesa quando ela acorda toda dolorida e cheia de marcas após dormir em uma cama cheia de colchões, lençóis, etc, mas com uma ervilha embaixo de tudo. Eu não tenho essas frescuras, eu não sou nenhuma princesa. Eu sou o meu nariz.

E é verdade. Pois quem a vê com aquela cara de menina nem desconfia da mulher que ela é. Inteligente e culta ao extremo, engraçada, bom caráter, corajosa pra caralho. Resiste a tudo, até a um namoro de tanto tempo com um caso perdido feito eu. Uma mulher admirável, enfim.
Bárbara, feliz aniversário para você. E para o seu nariz também.
(Pronto, mulé. Não teve cartão mas teve post, então não me torre. E não esquece de pegar seu urso lá na Funhouse…)

Estou ouvindo (pela quarta vez hoje) o CD Olhos de Farol do Ney Matogrosso. O CD é muito bom, mas a música que eu mais ouço é Poema. Em 1974, aos 16 anos, Cazuza escreveu um poema para a avó. Quando ela morreu (anos depois da morte do neto), a família encontrou o poema e Lucinha Araújo, mãe do Cazuza, deu de presente para o Ney Matogrosso. Ele pediu ao Frejat que o musicasse e gravou.
Tenho esse CD desde 99. E sempre ouço essa música pensando na minha avó, a quem eu devo tudo.
“Poema”
Eu hoje tive um pesadelo e levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo e procurei no escuro
Alguém com seu carinho e lembrei de um tempo
Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo
Hoje eu acordei com medo mas não chorei
Nem reclamei abrigo
Do escuro eu via um infinito sem presente
Passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim, que não tem fim
De repente a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua
Que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio mas também bonito
Porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu
Há minutos atrás

Lembram que eu falei que uma garota escreveu um poema para mim. Não lembram? Ai, meu caralho… Tá aqui o post. Então, a autora acaba de autorizar a publicação. Menina, eu só gostaria de ter uma pequena parcela do seu talento para poder retribuir. Mas não tenho, então contente-se com um muito obrigado.
Publico o poema, mesmo sabendo que ele diz mais sobre mim do que eu gostaria que minha meia dúzia de leitores soubesse:
Menino dos olhos procuradores
Por que desvia o olhar?
Medo do outro,
de si,
ou de finalmente encontrar?

Um dia estragou tudo com a palavra
A frase por anos elaborada
E na hora não dita
Estragou tudo com os atos
Que no momento exato
Foram deixados de lado.

Ei, menino, não tema
Você tem a palavra certa
Quando é dita.
Tem o toque suave
Quando suas mãos não hesitam.
E a dor,
não precisa mais procurar
Permanece ao seu lado
No medo
Na fragilidade tão escondida
Nas máscaras por você criadas,
Personagens da sua História,
Parte constante em sua vida.

Não, eu não escrevo poesia. Não levo jeito, me falta talento, sensibilidade, sei lá. Mas escrevi um poema para o Tom Jobim quando ele morreu. Nunca que eu o publicaria, mas hoje uma menina me falou que achou legal, então aí vai:
Silêncio
Silêncio.
Cesse o cantar dos pássaros,
Silencie o murmúrio das águas,
Que os bêbados não cantem na madrugada.
Silencie o silvar do vento,
Seja abafada a voz das crianças,
Rasguem-se todas as partituras,
E que o eco se cale
Constrangido pela ausência de som.

Desapareceu o Tom Maior
E a música já não faz sentido.

Riam, riam.

Aliás, se vocês quiserem podem ouvir esse poema na voz do próprio Drummond. É só dar play:
clicar aqui
MÃOS DADAS
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida
presente.

Ah, deixa, vai! Só mais um! É centenário do Drummond, porra!
Consolo na praia
Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.

Esse especial para o Risadinha, meu amigo de infortúnios:
Convite Triste
Meu amigo, vamos sofrer,
vamos beber, vamos ler jornal,
vamos dizer que a vida é ruim,
meu amigo, vamos sofrer.

Vamos fazer um poema
ou qualquer outra besteira,
Fitar por exemplo uma estrela
por muito tempo, muito tempo
e dar um suspiro fundo
ou qualquer outra besteira.

Vamos beber uísque, vamos
beber cerveja preta e barata,
beber, gritar e morrer,
ou, quem sabe? beber, apenas.

Vamos xingar a mulher,
que está envenenando a vida
com seus olhos e suas mãos
e o corpo que tem dois seios
e tem um embigo também.
Meu amigo, vamos xingar
o corpo e tudo que é dele
e que nunca será alma.

Meu amigo, vamos cantar,
vamos chorar de mansinho
e ouvir muita vitrola,
depois embriagados vamos
beber mais outros seqüestros
(o olhar obsceno e a mão idiota)
depois vomitar e cair
e dormir.

Centenário de Carlos Drummond de Andrade. Eu, que nem sou tão chegado em poesia, tenho a obra completa dele aqui na minha frente. Porque Drummond não é bem poesia. É mais uma coisa que fica entranhada na gente e nunca mais sai. A melancolia por que passo ultimamente tem um pouco a ver com isso: Todo mundo falando em Drummond, o danado resolveu acordar aqui dentro. Então fico pensando nele, nos poemas dele. E penso especialmente nesse aí embaixo, que uma vez a Bárbara disse que tinha a ver comigo. Não sei se tem, mas sempre gostei muito. Aí vai:
Os ombros suportam o mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.