Há dias tento escrever alguma coisa sobre minha sogra e não consigo. Começo, apago. Tudo soa insuficiente perto do que ela era para mim e do que sinto agora. Então digo só que sinto muito a falta dela. Ela era minha cupincha, minha camarada.

Há meses eu vivia a expectativa de ser vizinho da minha sogra. Quando finalmente nos mudamos, há três semanas, ela estava no hospital se recuperando de uma cirurgia. Estava bem, até. Dias antes eu tinha ido ao hospital, fui ajudá-la a se ajeitar na cama. Enquanto fazia isso, disse: “nada mudou, hein Dona Vera? O preto aqui fazendo o trabalho pesado e a portuguesa deitadona aí, só na moleza”. Ela conseguiu rir disso. Acho que era isso que eu mais gostava nela: ela sempre conseguia rir das bobagens que eu falava.

Aí ela morreu e uma parte muito importante da minha vida não existe mais. Às vezes eu penso em fazer um comentário qualquer à mesa e desisto: era um comentário específico pra Dona Vera, algo que a faria rir, ou se escandalizar, ou — o mais freqüente — as duas coisas. Lembro da primeira vez que cantei “No Cume” para a família reunida. Primeiro ela fez aquela cara de “que horror!”, depois se levantou e começou a dançar. A música virou um clássico obrigatório sempre que um violão aparecia, e Dona Vera sempre dançava. Tenho isso em vídeo; ainda não criei coragem de assistir.

Todo canto daquela casa me lembra dela. Dona Vera era uma pessoa muito inteligente, culta. Falava muito bem, gostava de ouvi-la falar. Gosto de ouvir meu sogro também, passamos horas conversando. Ele tem muita história, passou por muita coisa nesses 73 anos. Só que agora as histórias dele são como todo o resto — a casa, os objetos, os filhos, ele próprio — porque tudo me faz pensar na minha cupincha que foi embora.

E aí que no sábado eu e Ana Cartola passamos na casa dos meus pais e fomos todos ao Ca’d’Oro para ver os lotes do leilão. “Eu não acredito que isso está acontecendo”, disse Seu Lindauro ao ver todos aqueles objetos que fizeram parte da vida dele amontoados por todo canto, com pedaços de papel informando o número de cada lote. “Parece um sonho.” Dona Ana, minha mãe, chorou ao ver os quadros. Dona Antonieta, esposa de Seu Fabrizio Guzzoni, era quem cuidava dos quadros. Minha mãe gostava de Dona Antonieta. Gostava da família toda, na verdade. “Deus dá dinheiro pro Seu Fabrizio”, ela me explicou uma vez, “e Seu Fabrizio dá dinheiro para o seu pai”. Eu imaginava o Seu Fabrizio saindo do escritório de Deus com aqueles sacos de dinheiro de desenho animado, dividindo tudo em pacotinhos e distribuindo aos funcionários.
Bom. Chegamos ao hotel, tinha fila. Pessoas esperavam sentadas em poltronas de couro dispostas de quatro em quatro em volta de mesas de madeira. Poltronas e mesas estavam à venda também. A espera era longa, então fomos olhar o lugar onde estavam expostos alguns dos quadros. Meu pai parou na frente de um deles e comentou:
— Esse quadro aqui tem uma história. Uma vez que o Figueiredo se hospedou aqui…
— Seu Lindauro, tá se escondendo da gente?

O quadro que não tinha uma história


Era um funcionário do hotel que chegou para interromper a históra. Os Guzzoni pediram a alguns funcionários que continuassem por lá até o fim do leilão. Meu pai o cumprimentou, nos apresentou, sumiu. Quando fui ver, ele já estava atrás do balcão da recepção. Dava informações aos visitantes e tudo, estava no ambiente dele. Outros funcionários chegaram para cumprimentá-lo. Anotei o lote do quadro que tinha a história do Figueiredo para dar um lance mais tarde. Só depois descobri que o quadro a que meu pai se referia não era aquele. A história foi assim: o presidente estava no hotel, faltou luz. Meu pai foi consertar o disjuntor, mas a imprensa estava ali por perto. Ele teve o cuidado de ficar de costas para as câmeras, mas mesmo assim apareceu na edição do Jornal Nacional daquela noite.
— Mas e o quadro, pai? O quadro apareceu também, você estava do lado do quadro, é isso?
— Não. Eu estava em frente ao quadro, vendo o disjuntor que caiu.
Levei um tempo para entender que ele estava falando do quadro de luz. Voltei para o lugar onde ele tinha começado a história e lá estava o quadro de luz na parede, logo acima da pintura de praia com coqueiros. Só meu pai é capaz de falar em quadro numa sala cheia de quadros e esperar que a gente entenda que ele está falando do quadro de luz. Eu já estava cansado dos quadros, ainda bem que chegou nossa vez de fazer o tour pelo hotel. “Vocês deram sorte, vão ser acompanhados pelo Fabrizio”, disse a recepcionista, referindo-se ao neto de Seu Guzzoni. “Ele é da família e tem esse sorriso lindo.” Ou ela estava muito a fim do cara ou achou que eu tinha cara de bicha.
Fabrizio nos acompanhou pelo restaurante, por alguns andares de apartamentos, passamos pela biblioteca. A biblioteca, meu pai me contou mais tarde, tinha importância estratégica para o hotel: quando um hóspede morria, levavam o corpo por dentro da biblioteca, que tinha uma saída para a rua Caio Prado. Assim se evitava o escândalo de um cadáver saindo pela entrada principal, na Rua Augusta — o que provavelmente não seria muito bom para os negócios. Uma vez uma mulher se jogou de uma janela. A camareira chamou meu pai quando a mulher ameaçava se jogar; quando ele chegou, era tarde. Um outro sujeito estava numa reunião. Foi ao banheiro e por lá ficou. Seu Lindauro ajudou a carregar o corpo.
“Se meu avô pudesse escolher um lugar pra assombrar, não ia escolher a casa dele”, comentou Fabrizio Neto enquanto passávamos pelo restaurante. “Ia escolher o hotel, tenho certeza”. Olhei em volta para ver se notava alguma manifestação sobrenatural. Se o fantasma estava por lá, achou melhor se fazer de besta. O pai do Fabrizio, Eugênio Guzzoni, morreu também. Era um bom sujeito. Minha mãe contou ao Fabrizio que meu pai estava trabalhando no dia em que minha irmã nasceu. Quando o Eugênio soube, botou ele pra correr. “A família primeiro, Lindauro.”
Andamos mais um pouco, anotei os números de lote dos produtos que me interessavam. Dei alguns lances, todos já foram superados. Vamos ver se até o final do leilão eu consigo arrematar alguma coisa.

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Na volta para casa, meu pai me explicou a cronologia da família no Ca’d’Oro. O primeiro cidadão de Monte Santo a trabalhar para Fabrizio Guzzoni foi um amigo de meu avô chamado Ático Alves de Souza. O Ático começou como ajudante de garçom no primeiro restaurante Ca’d’Oro em 1953. Deve ter feito uma propaganda danada lá na Bahia, porque em 1956 meu avô, dois irmãos dele e um amigo da família vieram para São Paulo. Meu avô trabalhou um ano e meio no hotel. Valia a pena, mas ele tinha nove filhos para sustentar e não tinha como trazer todos para cá. Então voltou para a Bahia e a história acabaria por aí. Mas o filho mais velho resolveu vir para São Paulo no começo da década de 60, e foi logo trabalhar no Ca’d’Oro. Meu pai veio em 1963 e foi trabalhar numa padaria na Rego Freitas. Ficou só um mês no emprego. Meu tio comentou no hotel que havia outro membro da família morando em São Paulo. “Seu irmão tá morando aqui?”, comentou alguém. “Traz ele pra cá logo!”
Meu pai trabalhou um ano no Ca’d’Oro, até o irmão mais velho decidir voltar para Monte Santo. Ele foi junto, mas ficou pouco tempo: achou a cidade pequena demais, sem perspectivas e voltou para São Paulo. Tinha emprego garantido. Nos anos seguintes, os irmãos foram saindo de Monte Santo direto para a folha de pagamento do Ca’d’Oro. O Ático foi promovido a garçom, depois a maître. Hoje, aos 83 anos, ele é maître do Fasano.

Foi Dona Nilda quem cantou a bola no Twitter: o Grand Hotel Ca’d’Oro, que fechou em dezembro, está leiloando de tudo: móveis, utensílios, objetos de decoração, máquinas — tudo. Isso é meio triste para todo mundo em São Paulo, eu acho. O hotel tinha lá sua importância pra cidade.

Até o chafariz está no leilão.


Fabrizio Guzzoni, o fundador, vinha de uma família de Bergamo, norte da Itália, que estava no negócio de hotelaria desde o século XIX. O hotel teve sua primeira encarnação como restaurante em 1953 e virou hotel em 1956. Tanto o hotel quanto o restaurante viraram símbolos de tudo o que havia de sofisticado em São Paulo.  O Ca’d’Oro, parece, foi o primeiro cinco estrelas da cidade. Todo mundo se hospedava lá: o rei da Espanha, o presidente Figueiredo, o Raul Seixas.  Dez anos depois da inauguração do primeiro restaurante, um baiano de 19 anos chamado Lindauro entrou para a folha de pagamento de Fabrizio Guzzoni como faxineiro. Lindauro, vocês sabem, é meu pai.
Meu pai foi faxineiro, almoxarife, apontador de obras e não sei mais o quê. Foi por muitos anos gerente de manutenção, seu trabalho preferido até hoje. Foi também gerente de compras por algum tempo. Ganhava mais, mas não gostava do cargo. Pediu demissão, abriu uma floricultura, não deu muito certo. Voltou uns anos depois, a pedido de Fabrizio Guzzoni, para ser novamente gerente de manutenção. Trabalhou no hotel por quase 40 anos, com alguns intervalos. Quando eu e meus irmãos éramos crianças, meu pai levava a família para Itanhaém. Ficávamos hospedados na casa do Seu Guzzoni (ou Seu Fabrizio, como minha mãe preferia) na Praia do Sonho — na época em que a Praia do Sonho era chique.
Só aos catorze ou quinze anos de idade eu só fui conhecer Seu Guzzoni. Foi estranho ver de perto aquele homem de que meu pai tanto falava; aquele homem que tinha para mim uma imagem de rico honesto, trabalhador e que tinha confiança absoluta no meu pai e em quem ele recomendasse.  Acho que pelo menos seis dos oito irmãos do meu pai trabalharam no Ca’d’Oro. Dois irmãos da minha mãe também trabalharam lá, e até meu avô paterno teve seu período de funcionário dos Guzzoni. Um tio que mora em Itanhaém era o caseiro na Praia do Sonho.

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Em 2005, Seu Guzzoni chamou meu tio Zé (José Augusto, mas só meu pai o chama assim) à sua mansão no Morumbi. Esse meu tio carrega os genes artísticos da família da minha mãe: entalha coisas em madeira, pinta, canta, monta geringonças eletrônicas, o diabo. Pois Seu Guzzoni o chamou lá para encomendar um serviço. Entregou a ele uma tábua de madeira de lei. A madeira, ele explicou, era usada como tábua de carne ou para cortar limão para as caipirinhas nos churrascos que servia aos amigos — no tempo em que tinha amigos. Pediu ao meu tio que envernizasse a tábua e entalhasse nela a inscrição La Rialta em letras góticas.
O Zé voltou dias depois com a tábua pronta e Seu Guzzoni o convidou para entrar. Ele nunca tinha entrado no escritório do velho. Ficou impressionado com os móveis, as pinturas, os tapetes e que-sei-eu. Seu Guzzoni falou da vida, da recente viuvez. Meu tio conta que ficou triste ao vê-lo daquele jeito: riquíssimo, mas sozinho no mundo. Depois de um tempo conversando, o velho pagou o combinado e pediu um último favor: que ele dependurasse a tábua na entrada da mansão. Meu tio pegou uma corda, uma escada, e ajustou a tábua acima da porta de acordo com as instruções do dono da casa (“Mais pra lá… Mais pra cá… Tá bom aí”). Desceu da escada e reparou que o velho olhava fixamente para a tábua, emocionado.
— Seu Guzzoni… O que é “La Rialta”?
— Era o nome da casa onde eu nasci, lá na Itália.
Fabrizio Guzzoni morreu duas semanas depois.

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Os cinzeiros do Ca'd'Oro: Raul Seixas mijou num desses


Mesmo ano passado, aposentado já há alguns anos, meu pai ainda pensava em voltar ao Ca’d’Oro. “Bom mesmo seria se o hotel me chamasse”, ele falava às vezes. Então, como eu dizia, esse leilão das coisas do hotel deve ser triste para todo mundo em São Paulo, mas é bem triste para mim. Parece que pegaram uma foto minha pelado aos dois anos de idade e botaram na internet: não chega a ser um escândalo, mas incomoda um pouco. Todo mundo sabe da importância do Ca’d’Oro, mas só lá em casa sabemos da vez que o Raul Seixas (“umas perninha fiiiina…”) passou uma manhã inteira encolhido na beira da piscina, para se levantar à tarde, ir até o hall de entrada e mijar num daqueles cinzeiros de saguão de hotel. Outra exclusiva: meu pai era gerente de compras quando o Luciano Pavarotti veio para o Brasil e se hospedou no hotel. O Pavarotti inventou que queria cozinhar no quarto, e Seu Lindauro que teve de correr atrás de comprar o que ele precisava — fogão, panelas de ferro, dúzias de tomates.
Teve uma vez que uns africanos entraram no elevador e o sujeito que estava com meu pai comentou:
— Ó o tamanho desses negão. Um feladaputa desse pega leão na unha, Lindauro.
Quando eles desceram, meu pai explicou ao cara que eram angolanos, falavam português e tinham entendido tudo.
Em outra ocasião, Seu Guzzoni apareceu na manutenção com o zíper da calça aberto.
— Ô, Seu Guzzoni — avisou um funcionário mais gaiato. — O passarinho vai voar.
— Fica tranqüilo, meu filho, que esse passarinho aqui não voa faz tempo.
Tem também a história de um funcionário do hotel que enfiava um dente de alho no cu para ter febre e ir pra casa mais cedo.

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Contei para minha mãe o negócio do leilão, para minha irmã, para o Zé. Todo mundo ficou triste. Meu pai ficou mais ainda, é claro. Sábado nós vamos até o hotel olhar as peças que estão no leilão e ver se tem alguma coisa que valha a pena. Quero pelo menos comprar uma lembrança pro meu pai, algo que lembre o lugar onde ele passou a maior parte do tempo, durante a maior parte da vida, para que eu e meus irmãos pudéssemos ser alguma coisa.

Hoje, em piulas:

  • Minha sobrinha inventou de jogar joquempô hoje. Durou pouco. Joguei tesoura, ela também. Joguei papel, ela fez um arco com os bracinhos e gritou: “BURACO NEGRO! GANHEI!” Por mais que eu pensasse, não consegui achar nada que vencesse o buraco negro.
  • Eu estava tentando pensar em um texto em que eu usasse a expressão “um lote de bauxita” como tradução de “a lot of bullshit”. Quando inventei, me pareceu genial. Aí falei em voz alta e vi que não tinha graça nenhuma. Fiquei triste.
  • Sabe aquelas piadas que começam falando em “droga”, dando a entender que se trata de substância entorpecente, mas na verdade se trata de uma banda, um time de futebol, um político etc? Tipo: “Resolvi parar com as drogas. Comecei dando ao porteiro minha camisa do Corinthians”. Sabe? Então. O negócio da piada é ter uma virada surpreendente. Essas piadas não surpreendem mais ninguém. Já eram velhas no tempo do Barão de Itararé.
  • Falando nisso, não agüento mais piada com a Preta Gil e o Rubens Barrichello.
  • Eu queria ouvir, ler e ver mais piadas ofensivas. Piadas racistas, piadas com aleijado, piadas com religião. Quando dizem “com isso não se brinca” é porque o assunto oferece muito material pra quem quiser fazer graça. Além do mais, quem fala “com isso não se brinca” é sempre profundamente babaca. Repare.
  • O título deste post tem nada a ver com o conteúdo.

Ana Júlia gosta quando eu viro bichão.
Ana Júlia, vocês sabem, é minha sobrinha de quatro anos. Bichão é um monstro qualquer, um conceito vago de ser assustador. Basta arregalar os olhos, arreganhar os dentes e engrossar a voz: pronto, sou um bichão. Ela berra e sai correndo. Às vezes variamos: eu viro um vampiro, ela vira uma bruxa. Eu viro um lobisomem, ela vira uma mula-sem-cabeça. Nós dois viramos caveiras. Em todos os casos, bebemos sangue da família toda e tomamos tinta de polvo (coca-cola).
Faz um tempo, eu estava deitado na rede lá na casa da minha mãe, lendo Stephen King. Ana Júlia desceu a escada, chegou perto.
— Marco, você ainda tá lendo livro de bichão?
— Tô.
— Hum. Vira um bichão, então.
Eu não queria virar bichão. O livro estava bom, a rede estava boa.
— Depois, Ana Júlia.
Ela apelou:
— Por favoooooooooooooor.
Eu continuei dizendo que não, que estava lendo, que depois a gente brincava.
— Então eu vou embora — ela disse. Amarrou a cara e subiu a escada batendo os pézinhos. No meio do caminho, fez cara de quem lembrou de alguma coisa. Parou, enfiou a mão no bolso, abriu um sorriso e voltou correndo.
— Toma — ela berrou, estendendo uma moeda de um real.  — Pra você virar um bichão.
Depois dessa, virei o bichão de graça, e com gosto.

Não posso reclamar de 2008. Tive três empregos, dois endereços, dois estados civis. Foi um ano agitado. Eu e Cartola nos casamos — decidimos de repente, muita gente pensou que ela estivesse grávida. Não estava. Eu ganhava X num emprego que não suportava mais. Pedi demissão, arrumei um emprego para ganhar 1,25X. Esse 0,25X dava para o aluguel, então pedi minha namorada em casamento. “E aí? Vamos casar?” Foi na casa do irmão dela. Ele e a esposa devem ter pensado que eu estava brincando. Não estava. Fomos à casa dos pais dela dar a notícia. Os dois ficaram de boca aberta. “Não estou grávida”, disse minha então namorada. Eles se tranqüilizaram e ficaram muito felizes.
Então veio a parte de procurar apartamento. Ouvíamos falar em gente que ficava um ou dois meses procurando casa. Nós levamos quatro horas. Chegamos aqui sem esperar nada, acabamos nos apaixonando pelo apartamento, pelo prédio, pela rua. Íamos morar na rua das bichas. Tanto melhor: ninguém ia mexer com minha mulher.
Ela quase morreu de ansiedade quando esperava a papelada do aluguel (aluguel é um bom negócio, acreditem). Mas deu tudo certo, e eu me mudei em maio — ela é moça de família, e só viria para cá depois de casada. Na minha primeira noite, dormi em um colchão inflável, emprestado pelo irmão dela. Depois, ele me emprestou uma cama inflável muito chique, que até hoje não devolvi. Aprendi a fazer arroz e macarrão, comecei a lavar roupa e comprar pão. Uma receita de lombo na cerveja, ensinada por uma amiga e nunca usada, virou minha especialidade para ocasiões especiais.
No meio disso tudo, ainda surgiu uma viagem a Orlando — a trabalho, é claro. Dei vexame no aeroporto e vi pela primeira vez os americanos em seu habitat.
Compramos nossa pia lindíssima no Mercado Livre. Compramos por uma merreca uma mesa, quatro cadeiras e um baú de uma peruana que estava voltando para o Peru. Minha mãe nos deu o balcão que usava na floricultura — com uma pequena adaptação, ele virou armário de cozinha com uma prateleira e ganchos para pendurar nossas canequinhas de ágata. A mãe de Daniela nos deu esta mesa que estou usando agora, e vendeu por um preço simbólico o canto alemão. Nossos irmãos e pais nos deram o fogão, a geladeira, o forno de microondas (que será “micro-ondas” a partir de amanhã, vejam que ridículo), o box do banheiro, a máquina de lavar, prateleiras, pratos, copos, talheres, um monte de coisa. Um mês depois da minha mudança, nos casamos.
O casamento não teve nada de mais, e foi muito legal por isso mesmo. Nos casamos num cartório aqui perto, depois a família e os amigos mais próximos vieram almoçar crepes no salão de festas. O salão fica na cobertura do prédio, e a vista vai ficando mais bonita conforme anoitece. Minha marida comprou noivinhos bem adequados para o bolo: o noivo puxa a noiva de dentro da tela do computador. Foi assim que eu a conheci. Bom, mais ou menos.
Não tivemos lua-de-mel: eu estava de volta ao trabalho na terça-feira seguinte. O emprego novo pagava mais, mas era um porre. Eu não conseguia disfarçar meu descontentamento; nunca consigo. Fiz entrevistas em algumas empresas. Em uma delas, disse que aceitaria ganhar menos. O chefe de redação não me contratou porque me achou qualificado demais. Fiquei mais contrariado ainda. O clima da redação, com todo mundo reclamando de tudo o tempo todo, só piorava meu estado. Eu discutia com a chefe em todas as reuniões. Discordava dela em tudo. Menos de um mês depois do casamento, perdi o emprego.
O mês de julho foi o mais difícil. Passei o mês todo fazendo uns bicos. Graças a um colega jornalista de bom coração, consegui um trabalho para ganhar mil reais em três dias. Depois consegui outros dois, cada um pagando 350 reais. Em dez dias, eu tinha 1.700 reais. Achei que daria para viver assim, até descobrir que: a) os prazos para pagamento são muito elásticos e b) não é todo dia que aparecem trabalhos assim.
Então, logo no começo de agosto, recebi duas propostas de emprego. Primeiro, me chamaram para cobrir férias em uma assessoria de imprensa. Um dia antes de começar, me ligaram de uma editora onde eu havia feito uma entrevista quase um mês antes. Eu nem pensava mais naquela vaga. Quando me chamaram para a entrevista, fiquei empolgado. Era uma editora muito diferente das duas anteriores. A redação era independente. O chefe valorizava o texto acima de tudo, e tinha lá suas técnicas de redação. Eu não acreditava muito em técnicas, mas estava curioso. Depois de um mês, no entanto, eu nem lembrava mais. Mas me ligaram, marcaram uma entrevista com o dono da editora. Acertei os detalhes com ele, comecei uns dias depois.
O começo foi bem difícil. A empresa anterior me deixara desconfiado, então eu não conseguia me empolgar com o emprego novo. Além disso, havia as tais técnicas de redação. Eu não acreditava que aquilo fosse funcionar. Eu escrevia, escrevia, e achava um texto pior do que o outro. Entrei em crise. Minhas primeiras matérias grandes ficaram ruins, o chefe queria me bater. E tinha outro problema: eu voltara a ganhar X; não contava mais com o 0,25X extra que me garantiam o aluguel. Um mês de desemprego desequilibrou minhas contas. Fiquei dois meses sem pagar a faculdade nem o cartão de crédito, e sempre estourando o limite do cheque especial. Achava que resolveria isso no fim do ano: terminaria de pagar o carro em novembro, venderia o carro, usaria o dinheiro para pagar as dívidas e comprar um carro velho. Veio novembro, veio a crise, ninguém queria comprar meu carro. Quem queria, oferecia preços ofensivos.
Hoje, último dia do ano, eu penso em tudo isso e acho que tudo acabou dando certo. Eu sempre penso no que faria se ganhasse na Mega Sena; acho que todo mundo pensa nisso. Antes, eu pensava em comprar uma casa, uma chácara, carros, comprar casas e carros para a família, aplicar o dinheiro, viajar, largar o emprego. Continuo com as mesmas fantasias, mas com uma exceção: se eu ganhasse na Mega Sena hoje, acho que continuaria no emprego. Trabalho com pessoas legais, aprendo muito e, pela primeira vez na vida, vejo sentido no meu trabalho. Continuo ganhando X, mas é só questão de tempo. Mesmo em crise, conseguimos comprar o sofá mais legal do mundo. Não consegui vender o carro (ainda, OPORTUNIDADE ÚNICA), mas consegui um empréstimo a juros baixos — cunhados estão aí para isso.
2008 foi o ano em que aprendi a ajudar quando posso e, o mais difícil, a aceitar ajuda quando preciso. Foi o ano em que aprendi a aprender.
E foi o ano em que me tornei devoto de São CPAP.
Hoje vamos à casa de Daniela e Daerson para ver o ano novo começar. Foi um ano agitado para eles também, mas nada que se compare a 2007. Outros amigos vão também, outros casais que passaram por grandes mudanças em 2008. Vou fazer o já famoso lombo na cerveja. Em 2009 eu dou a receita. Por enquanto, feliz ano novo a todos vocês, e obrigado pela paciência.

A história é velha e bem conhecida, só os detalhes variam. Em uma versão são colheres gigantes, em outra são palitos e por aí vai. A versão de minha avó, porém, é muito mais legal.
Diz que no inferno todo mundo vive triste. Ninguém conversa, as pessoas mal erguem os olhos do chão. Isso porque têm os cotovelos ao contrário e não conseguem comer. Passam a eternidade desejando morrer de inanição. Não podem, então vivem tristes.
No céu todo mundo é feliz. Brincam, conversam, riem. O engraçado é que lá também todos têm os cotovelos ao contrário, exatamente como no inferno. Só que, chegada a hora das refeições, cada um leva o alimento à boca do vizinho e todos se fartam.
É uma história bonita, sempre fiquei fascinado com esse negócio de uma diferença besta mudar tudo. Mas ontem eu comecei a pensar nas implicações da situação e fiquei mais triste ainda por não ter minha avó a meu lado. Se ela estivesse por aqui, perguntaria a ela. Como não está, pergunto a vocês.
O que é pior: não limpar a bunda nunca ou passar a eternidade limpando a bunda alheia?

Como disse minha futura esposa, temos vivido dias interessantes. Procurar apartamento. Negociar com imobiliária. Comprar móveis no estilo “família vende tudo” (pechinchando, sempre). Aceitar móveis e presentes de amigos e família. Procurar estacionamento na região. Comprar gabinete para a pia da cozinha. Contratar quem instale a pia. Planejar a mudança. Ir ao cartório dar entrada na papelada matrimonial. Comprar geladeira, sofás, vassouras, papel higiênico, lençóis, cabides, cestos de lixo. Contratar telefone, internet, TV a cabo.
Como é que meu pai fez tudo isso e sobreviveu? Essa vida de adulto é muito cheia de coisas, credo…

— Maicon! Maicon!
Acordei aos poucos, me espreguicei. “Maicon” sou eu, de acordo com Ana Júlia, minha sobrinha de três-quase-quatro anos. Ela descia a escada gritando meu nome, claramente tinha algo muito urgente para me dizer, algo que não podia esperar pelo meu despertar natural num fim-de-semana (depois da uma da tarde). Do meio da escada, ela adiantou o assunto:
— Ninguém cuida da natureza!
Terminei de acordar e me sentei na cama. O assunto prometia. Esperei ela entrar no quarto para ver se tinha entendido direito.
— Como é?
— Ninguém cuida da natureza!
— É mesmo?
— É! Os homens jogam lixo no rio e agora não tem mais peixe, só tem mosquito — aqui ela fez uma careta — e barata.
— Hein?
— É! Ninguém cuida, ninguém! Aí aquela água suja entra nas casas e nos carros e estraga tudo.
— Que água, Ana Júlia?
— Do Tietê! Do Tiquatira!
— Ah… E o que a gente faz?
— A GENTE CUIDA DA NATUREZA! — ela já estava perdendo a paciência — Você cuida?
— Claro que cuido. Eu não jogo lixo no chão, nem no rio.
— Eu também. Todo mundo tem que cuidar. Fala pra Carlota que tem que cuidar da natureza!
— Eu falo, pode deixar.
— E que a gente pega os homens feios que fazem isso e joga no rio.
— No rio?
— É. Aí o tubarão pega eles. E os gorfinho.
Mais tarde fui perguntar à minha irmã de onde surgira essa repentina consciência ambiental. Ela me contou que a família estava passando pela Marginal Tietê quando Ana Júlia perguntou se tinha tubarão no rio. Minha irmã explicou que não tinha tubarão, nem peixe, nem nada. Só mosquitos, baratas, ratos. Após uma série de “por quês?”, minha sobrinha formou em sua mente a imagem de um mundo no limiar do desastre e de pessoas que, mesmo assim, não cuidavam da natureza.

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Dias depois, outra preocupação: debatendo o assunto com os amiguinhos na escola (imaginem a cena), Ana Júlia ficou sabendo do perigo que representam os vulcões e furacões.
— Vem o fogo do vulcão, arranca a pele das pessoas e elas viram estátua!
Muito bem, já não era mais uma preocupação tão real. Minha irmã deu risada da história das estátuas e eu briguei com ela:
— O menino que contou isso para ela deve ter visto alguma coisa sobre a destruição de Pompéia. Isso aconteceu de verdade, sua burra.
Ana Júlia me fulminou com os olhos. Eu acabara de ofender a mãe dela. Péssima idéia. Tentei mudar de assunto:
— Mas e a natureza?
— Ninguém cuida, todo mundo suja. Mas todo mundo vai morrer e a gente vai limpar.
— Quem vai morrer? Os adultos?
— É.
— E só vai ficar as crianças?
— Só vão ficar as crianças, Maicon…
O “seu burro” ficou subentendido.