Façam de conta que tem um capítulo bíblico novo aqui, ou qualquer outra coisa que lhes apeteça. Não dormi, e passei o dia todo tentando prestar atenção num curso. Preciso dormir. Volto amanhã.
Não chorem. Suas bichas.

(I Samuel 8)

Samuel governou Israel durante muitos anos, sendo sempre muito respeitado. Também, com aquele mau humor todo, ninguém tinha coragem de desrespeitá-lo. Foi ficando velho e cada vez mais rabugento, até o dia em que percebeu que estava na hora de treinar alguém para assumir seu lugar quando morresse. Escolha natural: seus dois filhos, Joel e Abias. Botou os dois para serem juízes em Berseba. O resultado foi desastroso: os filhos de Samuel tinham um conceito um tanto brasileiro do termo “juiz”, então aceitavam subornos e não davam a mínima pelota para a justiça. O povo de Israel, porém, não era o povo brasileiro, e começou a reclamar. A situação foi se complicando, e os líderes israelitas decidiram ir falar com Samuel em Ramá, e expor a ele uma idéia que já estava na cabeça de todos havia muito tempo. Samuel, mais ranzinza que o Ariano Suassuna, não os recebeu muito bem. Eles acharam melhor não ir direto ao assunto:
— Seu Samuel, é por nada não, mas o senhor já está ficando velho…
— Ficando velho o cacete. Eu estou velho FAZ TEMPO. Oras. Não comecem com frescura.
— Pois então… O senhor está velho e seus filhos não seguem seu exemplo.
— Não seguem meu exemplo??? Se fosse só isso estava muito bom! Aqueles estrupícios que Deus me deu como filhos são uns meliantes, uns larápios, uns gatunos. Não seguem meu exemplo, essa é boa… Chega de eufemismos, os senhores façam logo o favor de me dizerem que diabos vieram fazer aqui. Tenho mais o que fazer além de ficar ouvindo meia dúzia de velhos babões. Isso aqui tá parecendo um baile da terceira idade ao qual as velhas reumáticas faltaram.
— Er… Então. Nós… Quer dizer, o povo de Israel… Os… Os israelitas, sabe? Eles… Eles querem um rei. Como nos países vizinhos, sabe?
— Um… UM REI??? Oras, vão todos às putas que os pariram! Sou um homem ocupado, não posso dar ouvidos a tal sorte de bazófias!
Escorraçados, os líderes se picaram dali. Samuel foi falar com Javé:
— Viu só o que aconteceu, Javé? A canalha agora resolveu que quer um rei.
— Ah, é? Pois quer saber de uma coisa, Samuel? Dê-lhes um rei.
— COMO É QUE É?
— É isso mesmo. Eles querem um rei, não querem? Pois atenda o pedido deles.
— Mas Javé, assim eles estão me rejeitando!
— Não, Samuel. É a mim que eles rejeitam, como têm feito desde que eu tirei esse povinho bunda lá do Egito. Às vezes se arrependem e vêm chorando e fazendo sacrifícios para me agradarem, mas na maior parte do tempo o negócio deles é mesmo seguir os costumes das nações vizinhas. Adorando seus deuses, rejeitaram a mim. Agora, pedindo para serem governados por um rei, como nos outros países, rejeitam a mim e a você. Tem jeito não, Samuel. Atenda o pedido, dê-lhes um rei.
— Mas assim, de mão beijada?
— Não, não. Você vai explicar pra eles detalhadamente como é que o rei vai tratá-los. Se ainda assim eles não desistirem da idéia, paciência.
Samuel passou a noite toda preparando seu discurso, pois queria convencer os israelitas a desistirem de suas idéias monarquistas. No dia seguinte, convocou os líderes e disse a eles:
— Vocês tiveram a cara-de-pau de virem aqui para me pedirem um rei. Tudo bem: falei com Javé e ele concordou com a idéia.
— Que beleza, que beleza!
— Calma, ainda não terminei. Quero dizer a vocês como o rei os tratará. Ele tomará seus filhos para serem soldados de infantaria e cavalaria, como generais e capitães. Cultivarão as terras dele, farão suas colheitas, forjarão suas armas e fabricarão os seus equipamentos de guerra. As filhas de vocês farão os perfumes de Sua Majestade, serão suas cozinheiras e padeiras. E não é só isso! Ele tomará de vocês as melhores terras e plantações, entregando tudo a seus funcionários de confiança. Cobrará impostos de vocês, para manter o luxo de sua corte, tomará de vocês os servos, o melhor gado e os melhores jumentos, para que trabalhem para ele. Vocês serão escravos do rei que pediram, e quando isso acontecer chorarão amargamente, mas Javé não ouvirá as suas queixas.
— Sei, sei… Que mais?
— Er… Era isso mesmo, acho.
— Só isso?
— ACHAM POUCO??? AINDA ASSIM VOCÊS QUEREM TER UM REI?
— Hum… É, queremos sim.
— COMO É QUE É?
— Tudo bem, ué. Queremos que Israel seja uma nação moderna. Esse negócio de ser governado por juízes é muito antiquado, Seu Samuel, com todo o respeito. É preciso que Israel avance, mas para isso precisamos de um rei, de uma dinastia que nos guie na direção do futuro.
— ESSE É O MAIOR MONTE DE BOSTA FUMEGANTE QUE JÁ OUVI NA MINHA VIDA!
Samuel saiu pisando duro, e os líderes foram embora. Pelo jeito teriam que esperar pela morte daquele anacrônico juiz, para aí sim começarem a tecer seus planos para a instauração da monarquia. Eles não sabiam que Javé, de certa forma, estava ao lado deles:
— Faça o que eles querem — disse ele a Samuel. — Dê um rei a eles.
— Mas, Javé…
— Ah, Samuel, não torra!
Pelo jeito, Javé começava a simpatizar com a idéia de ter um rei em Israel. A Samuel, portanto, nada mais restava do que obedecer. Como, porém, seria escolhido o primeiro rei? Logo veremos.

Pois muito bem. Eu e Paula chegamos ao Bar Balcão por volta das oito da noite. Fomos recepcionados por um feliz Polzonoff:
— E aê, como vai essa força? Olha, melhor vocês subir logo, que o negócio tá pegando fogo lá em cima!
Ele vestia uma camiseta justa com uma foto do Che Guevara — que deixara levantada até o peito para poder coçar o umbigo à vontade —, calção de futebol e sandálias de imitação de couro. Na mão que não coçava o umbigo, segurava um copo de Jurubeba Leão do Norte.
Subimos e encontramos Paula Foschia no meio do pagode que estava mesmo pegando fogo. Sambava em cima da mesa, de shortinho Bad Boy (aquele que faz a bunda das mulheres olharem feio pra gente) e blusinha de strass (é assim que se escreve?). Acenamos para ela e fomos apresentar nossos cumprimentos à figura central da noite: o autor.
Alexandre Soares Silva estava sentado na roda de samba, tocando seu inseparável cavaquinho apoiado na barriga. Cantava mais alto que todo mundo; aparentemente o palito na boca não atrapalhava. Vestia-se em seu estilo inconfundível de aristocrata: camisa de viscose estampada aberta até o peito (para mostrar seus cordões de ouro), pochete na cintura, anel de ouro no mindinho de estimação (aquele de unha comprida), calça de moleton, havaianas. A cabeleira prateada estava empastada de gel. Uma beleza.
— Boa noite, Alexandre. Parabéns pelo lançamento.
— Queisso, rapaz, queisso! Abundem-se aí. Ô MANÉ! TRAZ UMA LOIRA GELADA AQUI PRO MEU CAMARADA E SUA COMPANHEIRA, FAZ FAVOR! E aí, Marco, como vai essa força?
— Er… Força? Bem. Acho. Sei lá.
— Hehehe. Sempre um piadista! — aqui ele me deu um soco no ombro — E aí, já comprou o livro?
— Vou comprar assim que a Paula descer da mesa…
— Ah, sim. Claro. Mas compra sim, viu? Pra me ajudar, sabe como é. Além do mais, você vai gostar.
— Vou, é? E sobre o que é o livro?
— Ah, é um soco no estômago, sabe? Um SOCO NO ESTÔMAGO! É um romance transgressor, visceral, sórdido. A história se passa na cidade de Cabrobó Roxo, sertão do Piauí. O personagem principal é Dundas, um filhote de jegue metido a detetive.
— Peraí. Filhote do quê?
— Jegue, o animal símbolo do nosso Brasil e de seu povo sofrido.
— Ah, sei.
— Então. A investigação da morte de vários animais da caatinga. São mortos um calango, dois caburés-de-orelha, três jegues, dois carcarás, um acauã e um tatu-peba. No entanto, Dundas só é chamado quando um veado-catingueiro elitista é assassinado. Ele começa sua investigação e… Bom, mas tudo isso é só um pretexto para denunciar as reais condições da grande massa de miseráveis nesse interiorzão de meu Deus.
— Ah, é?
— É! Veja, o romance é uma alegoria do que acontece nessa sociedade injusta e cruel.
— Sei, sei… E você espera vender bastante?
— Estou contando com isso! Não vejo a hora de ler o que vai sair sobre o livro nos jornais. Tomara que dessa vez a crítica se lembre de me elevar ao patamar de Marcelo Mirisola e Fernanda Young…
— Puxa. Estou torcendo por você, Alexandre.
— Obrigado, obrigado. E, Marco?
— Sim?
— Não deixe de comprar o livro, ok?
— Vou comprar.
Fui até a mesa onde estavam empilhados os exemplares e peguei dois. Levei-os para que Alexandre os autografasse. A dedicatória que ele fez para mim:

Marco Aurélio,

Um soco no estômago. A vida é assim, cara! É assim!

Abraço do seu camarada,

Alexandre.

E foi assim.
Juro.

(I Samuel 7)

Um problema já estava resolvido: a Arca estava de volta a Israel, guardada por um certo Eleazar, filho de Abinadabe, numa casa no alto de um morro em Jearim. A Arca ficou na casa de Abinadabe durante quase vinte anos, sem que ninguém bulisse com ela. Deixemo-la quietinha, portanto, porque outro problema mais complicado permanecia sem solução: a opressão dos filisteus. Todos os dias o povo se lamentava e rogava a Deus por ajuda (a Edição Contemporânea da Tradução João Ferreira de Almeida diz que “… toda a casa de Israel suspirava pelo Senhor”, o que traz uma certa carga de veadagem).
Samuel crescera e tornara-se um homem taciturno e mal humorado. Cansado de ouvir tanta reclamação por todo canto, começou a brigar com o povo:
— Ah, vocês querem a ajuda de Javé, né? Então porque continuam adorando a outros deuses? Destruam suas imagens de Astarote e de outros deuses, e dediquem-se só a Javé. Porra, eu não precisava nem falar isso pra vocês, está tudo nos Dez Mandamentos e na Lei de Moisés. Mas vocês se fazem de burros, não é mesmo? Ô, povinho bunda!
O discurso contundente de Samuel, reforçado pela excelente reputação de que gozava, acabou convencendo os israelitas a largarem os deuses pagãos. Concluída a limpeza, Samuel convocou o povo para uma reunião em Mispa, e disse que ia falar com Javé e ver se tinha jeito de livrar a barra de Israel. O povo atendeu à convocação. Já em Mispa, os israelitas tiraram água e ofereceram como oferta a Javé. Vejam que situação: a miséria era tanta que os caras já estavam sacrificando até água. Eles jejuaram o dia todo — até por falta de alternativa — e confessaram seus pecados a Deus.
A notícia da reunião dos israelitas em Mispa não tardou a chegar aos ouvidos dos governadores filisteus. Todo o povo de Israel reunido em uma só cidade era uma oportunidade boa demais. Então os cinco governadores juntaram seus exércitos e marcharam na direção de Mispa. Estavam certos de impor a derrota final a Israel, e ocupar todo o seu território.
Quando os israelitas souberam que os filisteus vinham para atacá-los, entraram em pânico e foram falar com Samuel:
— Ô, Samuel! Tá falando com Javé?
— Estava, até vocês me interromperem. Caralho. Que foi, hein?
— Os filisteus vêm aí, Samuel!
— Tá. E eu com isso?
— Ô bicho grosso… ELES VÃO ACABAR COM A NOSSA RAÇA!
— Não vão não. Eu só preciso falar com Javé.
— Então fala!
— FALAREI ASSIM QUE VOCÊS ME DEIXAREM EM PAZ, SEUS PUTOS!
— …
— HUMPF!
Assim que o deixaram em paz, Samuel arrumou um carneirinho (mirrado, tadinho) e o queimou em sacrifício a Javé. Pediu mais uma vez a Deus que ajudasse o seu povo. Ele ajudaria? Samuel e todos os israelitas estavam para descobrir, porque os soldados filisteus continuavam avançando, seguros da vitória. Quando estavam quase chegando a Mispa, porém, foram surpreendidos por uma forte trovoada. O barulho e os raios os assustaram, e eles saíram correndo. Vendo que sua debandada, os israelitas saíram atrás, perseguindo-os até Bete-Car (uma cidade, embora pareça nome de concessionária), e matando muitos deles no caminho. Samuel, querendo gravar o acontecimento na memória do povo, botou uma pedra grande entre as cidades de Mispa e Sem, como memorial, dizendo:
— Até aqui Javé nos ajudou. Vamos ver daqui pra frente…
O lugar passou então a se chamar Ebenézer, que significa “Pedra de Ajuda”.
E foi assim que os filisteus, tendo infernizado a vida dos israelitas por tanto tempo, foram derrotados. Samuel passou a governar, aclamado pelo povo, e enquanto ele viveu a Filistia não voltou a incomodar Israel. Todas as cidades tomadas pelos filisteus, de Ecrom até Gate, foram devolvidas.
Samuel foi chefe de Israel por toda sua vida. Todos os anos ele ia a Betel, Gilgal e Mispa, e nessas cidades julgava as questões que lhes eram apresentadas pelo povo. Depois voltava para Ramá, sua cidade natal, onde também era juiz. Finalmente cumprira seu destino óbvio, o de ser Juiz de Israel. Em agradecimento, construiu um altar em Ramá. Tudo muito bom, tudo muito bem, e assim permaneceu por muitos anos. Depois de velho, porém, ele voltou a enfrentar problemas. E não estou falando de impotência sexual.

Eu não queria falar aqui sobre espiritualidade nem nada assim. Não gosto muito de falar de minha intimidade, e a vida espiritual é o que cada pessoa tem de mais íntimo.
(Há quem pense que é a vida sexual. Pessoas que pensam isso são imbecis. Voltemos.)
Pois então. Só que é cada vez mais comum que me classifiquem como ateu. Ateu, e só. Acho estranho isso, e me incomoda. Porque fica parecendo que eu estacionei num ponto: “Deus não existe, pronto, acabou”. Oras, tal postura é inimaginável parar mim. Sou cético, é verdade. Mas não quero que o meu ceticismo me impeça de reconhecer Deus caso um dia ele resolva aparecer. Eu considero a possibilidade de sua existência, mesmo porque não considerá-la é mais do que mesquinho: é estúpido. Só que eu não vou sair por aí proclamando que creio só porque essa é a atitude socialmente aceitável. Não vou! Passei a maior parte da minha vida mantendo uma fé capenga, originada da minha criação e da freqüência à igreja. É claro que esse tipo artificial de crença não poderia sustentar-se por muito tempo: livrei-me dela, e fico feliz com isso. É ruim não ter um Deus para o qual apelar às vezes, mas pior ainda seria fazê-lo duvidando.
Entenderam? Não sou ateu: sou só um cara no meio de uma busca, assim como qualquer um que não seja um completo idiota.

Tá, eu sei que estou devendo posts. Tenho que falar do lançamento, tenho que escrever capítulos novos, queria tratar de uns assuntos aqui e tal. Mas é que eu estou fazendo uma manutenção meio complicada no blog (invisível para vocês), então não tenho como escrever agora. Não se desesperem, suas bichas safadas.

(I Samuel 6)

Já fazia sete meses que a Arca da Aliança estava na Filistia, passando de cidade em cidade e deixando atrás de si um rastro de homens que não podiam se sentar. A situação tornou-se insuportável. “Não tem cu que agüente”, como diz aquela bela canção. Então os filisteus foram pedir conselho a seus sacerdotes e magos:
— Olha, não tá dando mais. Manter esse baú israelita aqui na Filistia é loucura. Queremos mandar esse troço de volta.
— Mandem, ué. Mas não mandem sem um presente, pelo menos, que é para os israelitas saberem que é de boa fé que vocês estão devolvendo o baú deles.
— Hum. Que presente?
— Algo que demonstre que reconhecemos a derrota: mandem cinco hemorróidas de ouro e cinco ratos de ouro.
— Er… HÃ???
— Isso mesmo: vocês vão mandar fundir hemorróidas e ratos de ouro, e este será o presente para os israelitas e para o deus doido lá deles. Cinco de cada um, representando os governadores filisteus. Porque a praga que atingiu o povo atingiu a eles também. Ah, atingiu! É bonito de se ver um governador se arrastando por aí, suando frio levando na mão uma almofadinha de rosca.
— Hehehehe.
— É, até uma praga tem seu lado bom. Pois então, com esse presente talvez o deus israelita deixe nossos cus em paz. Não vale a pena sermos teimosos. Há muitos séculos os egípcios resolveram ser teimosos, e o tal Javé os infernizou até o limite. O cara não desiste.
— Tá bom. E aí a gente vai até lá e entrega o baú junto com os presentes?
— Estão doidos? Os israelitas acabam com a raça de vocês. Não, não: vocês vão botar o baú numa carroça. As hemorróidas e os ratos de ouro vão numa caixa ao lado. A carroça será puxada por duas vacas. Vocês vão deixar as vacas irem por onde bem entenderem. Se elas forem para Bete-Semes, em Israel, isso significa que o que aconteceu foi mesmo um castigo do deus deles. Caso contrário, a praga terá vindo por acaso.
— Não é um procedimento meio esquisito não?
— Procedimento meio esquisito é fazer banho de assento todo dia. Somos seus sacerdotes, confiem em nós.
— Tá bom, então.
Os filisteus seguiram o conselho dos sacerdotes e magos. Para começar, fizeram os ratos e as hemorróidas de ouro. Cabe uma dúvida aqui: fazer um rato de ouro é fácil, mas e uma hemorróida? Será que usaram os governadores como modelos? Fico imaginando… Bom, não importa: fizeram as tais esculturas e botaram numa carroça junto com a Arca. Então a carroça foi andando conforme a vontade das vacas, sendo seguida pelos governadores filisteus.

É.
Como diz aquela música, sabe? Aonde a vaca vai / o governador vai atrás.
AHAM!
Perdão, perdão.

As vaquinhas foram mugindo, cagando e andando, e acabaram justamente em Bete-Semes, terra natal de Josué, na fronteira com a Filistia. Os filisteus seguiram a carroça até os limites da cidade, e ficaram observando.
Os habitantes de Bete-Semes estavam colhendo trigo no vale quando viram ao longe a Arca da Aliança se aproximando. Ficaram extremamente felizes, é claro, e correram para o objeto sagrado. As vacas devem ter ficado muito contentes ao verem que sua chegada era recebida com tamanha alegria. Mas não durou muito: os israelitas retalharam as pobrezinhas e, usando a madeira da carroça como lenha, queimaram sua carne como sacrifício. Vendo que tudo terminara bem, os governadores filisteus voltaram para casa, já sentindo algum alívio em suas “partes secretas”. Os israelitas festejavam e comentavam os estranhos presentes:
— Tá. Mandar esses ratos de ouro foi um negócio bem esquisito, mas pelo menos a gente sabe o que são. E essas outras esculturas aqui?
— Sei lá. Parecem com nada.
— Deixa eu ver… Ei, isso aqui não parece um cu com hemorróida?
— COMO???
— É! Olha só: o cu está aqui, aqui a hemorróida…
— Ah, você acha que é engraçado, não é?
— Er…
— Você acha que humor e escatologia são sinônimos, não é mesmo?
— Mas…
— DEVE MORRER DE RIR QUANDO ALGUÉM PEIDA, NÃO?
— Mas é que parece mesmo..
— ORAS, CALE-SE!
A festa em Bete-Semes foi até tarde, e teve apenas um pequeno contratempo: setenta homens foram fulminados porque olharam para dentro da Arca. Bobagem. O povo percebeu que a relíquia podia ser perigosa se continuasse ali, então enviaram mensageiros à cidade de Jearim, cerca de vinte quilômetros ao norte, com a seguinte mensagem:

Queridos amigos de Jearim,

Vocês não vão acreditar! Os filisteus mandaram a Arca da Aliança de volta. Não é o máximo? Ah, estamos tão felizes! Mas estávamos pensando: Jearim é uma cidade tão mais importante, não é justo que um objeto tão santo fique aqui em Bete-Semes. Então queríamos saber se vocês não gostariam de ter a honra de ficarem com a Arca.

Shalom!

Povo de Bete-Semes

Os homens de Jearim morderam a isca direitinho, e no dia seguinte mandaram um caminhão de mudanças para Bete-Semes.