(Rute 4)

Como vimos no último capítulo, Rute e Noemi ficaram num impasse, ansiosas enquanto esperavam que Boaz resolvesse o assunto com o parente recém-aparecido na história. Numa coisa Noemi estava mesmo certa: Boaz não dormiria enquanto não resolvesse tudo. Tanto que, logo pela manhã, foi até a porta da cidade e sentou-se ali. Quando o tal parente de Elimeleque ia passando, Boaz gritou para ele:
— Ô, fulano! Venha até aqui!
— E aí, Boaz? Tudo bem?
— Beleza… Espera aí um pouquinho. Tenho um assunto para tratar com você, um negócio sério que vai precisar de testemunhas. Já volto.
Ele saiu e em pouco tempo voltou acompanhado de dez homens dos mais importantes de Belém-Efrata. Os doze assentaram-se, e Boaz expôs o assunto:
— Negócio seguinte: Noemi voltou de Moabe e está vendendo as terras de Elimeleque, seu finado marido e nosso parente. Quando soube disso, achei melhor falar com você, já que é o parente mais próximo do falecido. Portanto, se você quiser comprar essas terras, assuma o compromisso aqui, na frente das autoridades. Porque se você não quiser, eu compro, já que sou o segundo parente mais próximo.
— Hum. Taí, gostei da idéia. Vou comprar as tais terras.
— Muito bem, muito bem. É uma excelente aquisição. Mas tem uma condição para a compra.
— Ah é, é?
— É. Se você comprar a propriedade de Noemi, também deverá se casar com Rute, sua nora viúva, para que as terras permaneçam com a família do finado Elimeleque.
— Epa. Casar, é?
— É.
— Não, peraí. Não tô nessa de casar, não. Nem conheço a moça. Além do mais, isso poderia prejudicar meus herdeiros. Compre você as terras, eu tô fora.
Parece mera covardia do sujeito, mas não: de acordo com uma antiga tradição, uma viúva deveria casar-se com um irmão ou parente próximo de seu falecido marido. Os filhos dessa união seriam considerados filhos do morto. Por uma situação assim é que Deus castigou Onan, lá no Gênesis: tendo se casado com a viúva de seu irmão, ele não queria lhe dar filhos. Então praticava o coitus interruptus, derramando o sêmen na terra sempre que tinha relações com sua esposa. Deus ficou muito puto com isso, e mandou-lhe um raio na cabeça. Bah, a história toda está aqui, voltemos a Boaz.
Bom, já que o tal sujeito não queria casar-se com Rute (e, por conseqüência, dar filhos ao falecido Malom), Boaz não teve outro remédio senão assumir a responsabilidade. Como era costume na época, o tal fulano entregou a Boaz sua sandália como sinal de que o trato estava feito (assinar uns papéis seria bem mais simples, mas quem é que vai querer simplicidade na Bíblia?). Então Boaz, erguendo a sandália para que todos vissem, dirigiu-se a eles:
— Hoje vocês são testemunhas de que comprei de Noemi tudo o que era de Elimeleque e de seus filhos, Quiliom e Malom. Também me casarei com Rute, viúva de Malom, para que seu nome seja sempre lembrado.
Os outros assinaram embaixo (devem ter entregado suas sandálias a Boaz, também):
— Sim, somos testemunhas. Que Javé faça com que essa mulher seja para você como foram Raquel e Léia, que deram muitos filhos a Jacó, tornando-se assim as mães do povo de Israel. Que a sua família seja como a família de Perez.
— Peraí. Perez não é aquele que nasceu porque Judá achou que sua nora era uma prostituta e passou-lhe a vara?
— É.
— Essa nora não era Tamar, que conseguiu ser viúva de dois dos filhos de Judá?
— É.
— Cês precisam melhorar essas bênçãos aí…
— É…
— Humpf.
Apesar da bênção torta, o trato estava feito. Boaz voltou para a casa (e deve ter tido um trabalhão para explicar que não, não tinha entrado para o comércio de calçados, com tantas sandálias nas mãos) e desposou a Rute. Foi um mero casamento de conveniência, como vimos, mas isso não tem importância. O que interessa é que os dois não perderam tempo, e nove meses depois nasceu-lhes um filho. As mulheres da vizinhança, umas fofoqueiras (as mulheres da vizinhança são sempre fofoqueiras) vieram visitar o recém-nascido. E, com a mania de bênçãos que aquele povo tinha, sapecaram logo a delas em cima de Noemi:
— Louvado seja Javé, que lhe deu um neto para cuidar de você! Que ele venha ser famoso em Israel, que saia na Caras e coma tudo quanto é vagabunda! Ele será o consolo de sua velhice, graças à mãe, essa sua nora que é melhor do que sete filhos!
— Er… Tá. Amém.
Noemi pegou o menino no colo, e pôs nele o nome de Obede. Se Obede foi importante? Não, mas ele teve um filho chamado Jessé, que também não teve grande importância. Em compensação, o filho de Jessé foi Davi, aquele que matou Golias e veio a ser o maior dos reis de Israel.


MARCURELINHO
O amuleto dos blogueiros

Várias pessoas que botaram São Marcurelinho em seus blogs receberam — até antes do que esperavam — graças inauditas. Teve muito nego se dando bem na festa de dois anos do JMC graças ao poderoso amuleto. Pois bem, é hora de demonstrar gratidão: descreva aí nos comentários a graça alcançada.
Obrigado.

— Ask me the secret of comedy.
— What is the secret of…
— Timing!

(Eric Idle, em seu livro Road To Mars)

Fazer humor (ou pelo menos tentar, que é o que eu faço) é chapinhar num terreno bastante perigoso. Você está no alto de um minarete. De um lado, o Abismo da Histeria, do outro, a Garganta do Ridículo. Lá embaixo, o Monstro da Tristeza, que foi o que o fez subir até aqui, pra começo de conversa. Qualquer passo em falso o fará escorregar ou para a histeria ou para o ridículo. Em ambos os casos, será devorado pela tristeza.
Falava sobre isso com a Fer no fim-de-semana, depois de assistirmos Kung Pow. Quem já viu o filme sabe: as cenas mais caras, aquelas que envolvem os efeitos especiais mais sofisticados, são justamente as que não têm graça alguma. O bebê lutando, depois aquela luta com a vaca, e a cena da língua no final: quem ri disso? Parece que Stevie Oedekerk, o idealizador, roteirista e diretor do filme, ficou inseguro com o que tinha nas mãos e resolveu enfiar umas cenas que sublinhassem que o filme é puro non sense. Não precisava: tais cenas parecem golpes de um desesperado, um palhaço que, com medo de que a audiência não ria das piadas de sempre, de repente bota o pau pra fora e o chacoalha para a platéia. É ridículo, é histérico. E, acima de tudo, é triste.
Ter a medida exata do humor deve ser a arte mais refinada que existe, e é por isso que eu cultuo Monty Python. É obrigação de qualquer um que pense em fazer humor (desde o despretensioso palhaço da turma, no estilo Chandler Bing, até o comediante profissional que ganha montes de dinheiro, como Matthew Perry) buscar o exemplo do sexteto britânico. Nada (ou quase nada) do que os Pythons fizeram saía da medida. Eles conseguiram, por anos, equilibrarem-se lá no alto do minarete (aliás, o que Eric Idle aprendeu no Monty Python serviu para que ele escrevesse Road To Mars, um ensaio primoroso sobre o humor e sua estreita relação com a melancolia).
Nessa conversa com a Fer, acabei me lembrando das coisas que escrevo aqui. Disse a ela que há gente que acha minha sátira bíblica engraçada por causa dos palavrões. Não acreditam? Pois vejam:

Uhauahauahuah!!!! Dá até gosto de ler passagem bíblicas com palavrões!!!! uuahauahuahauah!!!

Esse foi um comentário feito pela Eudora na minha versão do primeiro capítulo do livro de Rute (notaram as risadas histéricas? Coincidência?). E no último capítulo, um tal Phillipe comentou o seguinte:

Poha [sic], cade os palavroes? Isso aqui antigamente era mais engracado…

Muito bem: alguém pode me explicar o que há de tão engraçado num palavrão? Eu fui criado numa família baiana. Portanto, quando ainda bebê, as primeiras palavras que falei foram “mamãe”, “papai” e “porra”. Não escrevo palavrões para chocar, nem por achá-los engraçados: eles fazem parte do meu vocabulário cotidiano desde sempre. Tenho, porém, tentado maneirar nas palavras ditas “de baixo calão”, justamente para afugentar pessoas como o Phillipe, que dão risinhos nervosos sempre que lêem ou ouvem “caralho”, “puta que pariu”, “vai tomar no cu”, “boceta”, e outros menos cotados.
Oras, faça-me o favor, qual a graça? Os palavrões fazem parte do vocabulário humano há séculos, e eu aposto que até mesmo os grandes heróis bíblicos soltavam um “puta que pariu” nos dois momentos que justificam qualquer palavrão: a relação sexual e a topada com o dedão do pé. Lembro-me de pelo menos um exemplo: em I Samuel 20:30 (o próximo livro a passar por aqui, aliás) o rei Saul, irado com seu filho Jônatas, o chama de “Filho da perversa em rebeldia” (a Bíblia na Linguagem de Hoje traz “filho de uma mulher à toa”). Deve ser o exemplo mais antigo (Saul reinou de 1.065 a 1.025 a.C.) do sempre popular “filho da puta”.
Não estou dizendo que eu tenha a medida exata do humor (não tenho medida alguma, infelizmente), apenas que reconheço que o ideal é obtê-la, e me esforço para isso. De resto, uma dica para o Phillipe e outras pessoas cujo senso de humor alcança apenas a escatologia: conheçam Monty Python. Por favor.

Muita gente reclama do bloqueio imposto por mim à impressão dos livros da Bíblia em formato PDF. Eu fiz isso porque achava que minha sátira poderia um dia ser publicada, e não seria legal ter nego por aí imprimindo a seu bel prazer. Hoje, com minha autocrítica mais afinada, sei que não vou publicar nada disso. Portanto, fiquem felizes: podem ir ali nas “Escrituras”, baixar e imprimir os PDFs.

(Rute 3)

A época da colheita terminou, e Rute voltou à vida de sempre. Não agüentando mais ver a nora ali sem fazer nada, só criando bunda, Noemi foi falar com ela:
— Rute, preciso arranjar um marido pra você. É por nada não, mas cê já tá meio passada, não temos tempo a perder. Cê lembra do Boaz, né? Aquele da cevada?
— Claro.
(Infelizmente)
— Pois muito bem. Se eu bem o conheço, esta noite ele vai debulhar cevada. E você vai tomar um banho (tá precisando, hein?), botar perfume e vestir sua melhor roupa. Depois, vá até o lugar onde ele está trabalhando, mas sem que ele a veja.
Noemi explicou todo o plano a Rute, e ela seguiu as instruções da sogra. Ao chegar à propriedade de Boaz, viu enquanto ele debulhava os grãos (da cevada, não dele, por favor!). Depois do trabalho, ele jantou pão de cevada com espigas secas e tomou cerveja. Estando já um tanto bêbado, deitou-se num monte de cevada. Gostava de cevada, o danado.
Ao ver que ele dormia, Rute foi se aproximando devagarinho, levantou a coberta de Boaz e deitou-se aos pés dele. No meio da noite ele acordou de repente (com uma puta dor de cabeça e uma sede infernal), e ficou espantado de ver uma mulher deitada ali com ele.
— Er… Quem é você?
— Sou Rute, sua empregada.
— Ah. Rute. Hum. O que aconteceu? Quero dizer… Bom. Você sabe.
— Você é nosso parente próximo, e tem que nos proteger.
— Hum. É. Tá. Então. Puxa, que coisa, não? Eu sabia que você era leal à sua sogra, mas não tinha nem idéia de que sua lealdade à família do seu sogro fosse grande a esse ponto…
— Hehehe.
(Trouxa)
— Mas é sério! Podia ter ido procurar um homem mais moço, mas veio aqui. Puxa… Olha, não tenha medo, viu? Todos aqui em Belém sabem que você é moça direita. Não se preocupe, vou fazer o que você quiser.
— Puxa, seu Boaz. Obrigada.
(Trouxa)
— Que é isso, que é isso… Só que tem um negócio: de fato, eu sou parente próximo da Noemi, mas tem um cara aqui na cidade que é parente mais próximo ainda. Então vamos fazer o seguinte: você fica aqui comigo o resto da noite, e amanhã eu falo com o tal sujeito. Se ele quiser ficar responsável por você, tudo bem. Caso contrário, eu juro por Javé que assumirei minha responsabilidade.
— Er… Obrigada, seu Boaz. Muito obrigada.
(Mas que grande filho da puta!)
Percebem? Rute deitou-se aos pés de Boaz, que acordou ainda meio bêbado, viu a mulher e deduziu que ele a levara para a cama. O plano de Noemi seria perfeito, não fosse o detalhe de Rute ser viúva. Se se tratasse de uma virgem, seria uma situação mais complicada. Como era viúva, Boaz ainda teve a presença de espírito para lembrar-se do outro parente de Elimeleque.
Bom, Rute voltou a dormir, mas acordou quando ainda estava escuro, para sair enquanto não havia ninguém acordado. Ela não podia correr o risco de ser vista, não agora que o casamento de Boaz não era tão garantido como Noemi calculara.
— Já vai, Rute? Peraí. Tire a sua capa e estenda-a aqui no chão.
Rute o fez e, adivinhem? Sim, sim: Boaz despejou uns vinte quilos de cevada sobre a capa, ajudou Rute a ajeitar o fardo sobre os ombros e despachou-a. Ela foi de lá até a casa de Noemi maldizendo todos os homens e todos os grãos do mundo. Ao chegar, foi recebida por Noemi:
— E aí, minha filha? Como foi?
— Hum. Mais ou menos. Ele disse que há um outro parente do seu finado marido, ainda mais próximo que ele.
— Ah, não! Não pode ser! Não p… Putz, é verdade. Tem aquele fulaninho lá. Ah, mas que merda! Como é que eu fui me esquecer disso?
— Pois é. Ele vai falar com o tal fulaninho. Por enquanto, mandou essa cevada pra gente.
— ARGH! Tira esse negócio da minha frente, que se eu comer mais cevada vou começar a produzir cerveja no estômago.
— É, também não agüento mais. Puxa vida, Dona Noemi. Que que a gente faz agora?
— Agora é ter paciência, Rute. Boaz não vai dormir enquanto não resolver esse assunto, pode ter certeza.
O golpe tramado por Noemi, que parecia tão garantido, acabou esbarrando num problema inesperado. Seja como for, Rute arrumou um marido. Mas quem será? Boaz ou o tal fulano?

“I reject anyone who’s crazy enough to actually go out with me,
and then I bitch about the fact that there aren’t any great women out there.”

(Chandler Bing)

É bem batida aquela frase de Groucho Marx: “Jamais ingressaria num clube que me aceitasse como sócio”. A graça da frase está em sua natureza paradoxal e também no alto teor autodepreciativo. Aplicada noutro contexto, porém, talvez a afirmação torne-se trágica. A relacionamentos, por exemplo.
Assim como Chandler Bing, eu passei os últimos anos rejeitando qualquer mulher louca o bastante para ficar comigo, e depois reclamava que não há mulheres legais no mundo. Acho que cheguei mesmo a escrever aqui no blog que só me apareciam mulheres malucas. É claro: eu achava doida qualquer mulher que manifestasse um certo interesse por mim. Enquanto isso, corria (ou rastejava) atrás de mulheres impossíveis, das quais eu via mais a personagem criado por mim e menos a pessoa de verdade.
Bom, já basta disso: depois de alguns momentos de autoanálise, concluí que tenho, sim, meus atrativos. Não físicos, isso é óbvio, mas tenho cá minhas graças. Portanto, uma mulher que se venha a se interessar por mim não será necessariamente maluca. Meio desregulada talvez, mas não maluca. Ou pelo menos não por isso. Pode ter batido a cabeça quando era criança, ou ter nascido em Cubatão no começo da década de 80, ou ter recebido uma alimentação insuficiente, ou… Ok, ok, estou divagando. O ponto é: pode se apaixonar por mim. Acho que aprendi a aceitar.

(Rute 2)

Onde é que estávamos? Ah, sim: começou a colheita de cevada em Israel, depois de anos de fome. Rute, sempre disposta a ajudar, foi falar com a sogra:
— Dona Noemi, eu estava aqui pensando num jeito de ajudar a senhora aqui, de botar comida dentro de casa, essas coisas.
— Ah, minha filha, que bom! Já escolheu o ponto, ou vai trabalhar em boate?
— Er… Na verdade eu estava pensando em ir catar espigas.
— Ah. C-claro, claro. Excelente idéia, Rute.
Então Rute foi para o campo e começou a andar atrás dos trabalhadores que faziam a colheita, apanhando as espigas que eles deixavam cair no chão (de acordo com a lei mosaica, o segador estava proibido de voltar atrás para pegar o que sobrava: o que caía no chão era destinado aos pobres). Rute foi indo atrás de um e de outro, e acabou entrando na propriedade de um certo Boaz. Esse Boaz, vejam só, era parente de Elimeleque, o finado esposo de Noemi. Pois bem, Rute estava naquela labuta quando o dono da plantação chegou e foi falar com os empregados:
— Que Javé esteja com vocês.
— Nah, com você.
Notando a presença tímida de Rute logo atrás de seus funcionários, Boaz perguntou ao chefe dos segadores:
— Ei. Quem é aquela moça ali?
— É a moabita que veio para cá com a Dona Noemi. Ela pediu para que eu a deixasse ir atrás da gente, catando as espigas que fossem caindo. Eu não achei nada de mais, autorizei. Ela está trabalhando desde cedo e só parou pra descansar um pouquinho na sombra.
— Hum… Rute, não é?
Sim Senhor…
— Escute, minha filha: não vá catar espigas em nenhuma outra plantação. Fique por aqui, e trabalhe perto das minhas servas, ficando com elas quando forem cortar espigas. Eu já dei ordem aos empregados para não mexerem com você, não se preocupe. E quando você sentir sede, pode beber a água que os empregados tirarem para beber.

[A partir de agora, Rute (assim como Noemi, mais tarde) passa a falar o velho e universal idioma chamado mulherês. Sabe aquele negócio de dizer uma coisa que significa o contrário, um filho do sarcasmo e sobrinho-neto da ironia? Pois então: nos próximos diálogos, transcreverei normalmente o que foi dito, e botarei entre parênteses e em itálico (a la Stephen King) o verdadeiro significado das palavras. Preparados?]

Quando Boaz terminou de falar, Rute ajoelhou-se, encostou o rosto no chão e disse:
— Por que foi que o senhor reparou em mim, e é tão bom assim para uma mera estrangeira?
(Sim, sim, quanta bondade! Podia me dar um emprego decente, ou então alguma comida, mas não! Me dá autorização para sair catando espigas caídas, como se isso já não estivesse previsto na lei de seu país. Cara-de-pau…)
Boaz não falava mulherês (nenhum homem fala), então apenas respondeu à pergunta:
— Eu ouvi falar do quanto você ajuda sua sogra, e que deixou sua família em Moabe para vir viver em Israel com ela, no meio de gente desconhecida. Que Javé a recompense, minha filha, que o Deus de Israel, que você veio procurar, te dê uma grande recompensa.
— Ah, mas assim já é demais! O senhor está sendo muito bom para mim. O senhor me dá ânimo, falando assim com tanta bondade. Eu bem sei que mereço menos do que uma de suas empregadas.
(Pelo jeito eu não mereço mesmo é nada. O negócio por aqui é na base do ‘Deus lhe pague’. Já vi tudo…)
Rute continuou trabalhando. Na hora do almoço, Boaz mandou chamá-la.
— Rute, venha aqui. Não se acanhe. Olha aí, pode comer.
Rute sentou-se entre os trabalhadores, e Boaz lhe deu cevada torrada para comer. Cevada torrada. CEVADA TORRADA! Sei não, tenho cá pra mim que cevada só presta se for assada com água e fermento, em forma de pão, ou então fermentada, como cerveja. Cevada torrada deve ter gosto de cabeça de alfinete. Mas Rute, sempre muito educada, empanturrou-se de grãos. E quando ela se levantou para voltar ao trabalho, Boaz ordenou aos empregados:
— Deixem a menina pegar espigas onde bem entender, e não mexam com ela. Aliás, deixem algumas espigas caírem de propósito, se puderem.
E assim Rute catou espigas até de tarde. Depois debulhou os grãos das espigas e os pesou: vinte e cinco quilos, nada mal para um dia de trabalho (fora a diversão que deve ser trabalhar o dia todo curvada sob o sol do Oriente Médio). Ela pegou sua cevada, assim como o que lhe sobrara do almoço (CEVADA TORRADA, MEU DEUS!), e levou tudo a Noemi. A sogra ficou espantada com a quantidade de grãos:
— Rute do céu! Onde é que você foi catar espigas hoje? Que Deus abençoe o homem que se interessou por você!
(Tomara que esse sovina pelo menos tenha o azar de engravidar você; só assim pra gente sair da merda)
— Um tal de Boaz, Dona Noemi, um homem muito bondoso.
(Filho da puta nojento…)
— Que Javé abençoe Boaz, que é bondoso tanto com os vivos como com os mortos. Rute, não sei se você sabe, mas Boaz é nosso parente próximo, e um dos responsáveis por nós.
(Filho da puta nojento…)
— Não sabia, Dona Noemi! Que maravilha! E sabe da maior? Ele disse que eu posso continuar trabalhando lá!
(Mas que bosta!)
— É bom que você vá mesmo, filha, porque se você for trabalhar na plantação de outro homem, é capaz que seja humilhada.
(Esse é parente, pelo menos tem obrigações)
Assim Rute continuou trabalhando nas plantações de Boaz até o fim da colheita da cevada e do trigo. Mas o fim da colheita não seria o fim da história de Rute e Boaz, como veremos.

Estou cada dia mais apaixonado por Sarah Martin, violinista, vocalista e compositora do Belle & Sebastian. Como ela pode falar as coisas mais lindas do jeito mais simples, nunca escorregando para a pieguice ou para a presunção? Por exemplo:

Waiting For The Moon To Rise
All the way back home
I’m telling you I caught the sun
Creeping up behind my shoulder
And another day’s begun
I was following a trail
I’d never been along before
Chasing darkened skies above me
Looking like the spring
Like the winter
And the morning
If there’s a place I want to go
Then I’ll be there with you
‘Cos in my dreams the things
I’m wishing for
Keep coming true
Now a new day comes
Clears the darkness out of sight
And the shadows that were sleeping
Come and dance beneath the light
And I’m trying hard to hide
Keeping the sun out of my eyes
Close them tight
And now I’m waiting for the moon to rise
Don’t try to say to me
That this was never meant to be
‘Cos the days are long where I come from
The next few days I’m free
There’s a train I want to catch
But it won’t leave here for a while
Till darkness fills the eastern sky
And streetlights stretch for miles
Through the spring
And the winter and the morning

Lindeza! Lembra um pouco as letras do Rodrigo Amarante, mas com certas nuances que só mesmo uma mulher (e talvez só mesmo escocesa) consegue expressar.
Sarah, eu te amo!