(I Samuel 5)

Depois de pegarem a Arca em Ebenézer, os filisteus a levaram até a cidade de Asdode e a colocaram no templo, perto da imagem do deus Dagom. Com isso, pensavam trazer o deus israelita como oferta ao deus filisteu. Javé, porém, vivia dias de moleque, pregando peças e aplicando trotes. Foi com surpresa, então, que no dia seguinte os filisteus viram a imagem de Dagom caída de cara no chão, prostrada diante da Arca. Os sacerdotes a endireitaram novamente e não deram grande importância ao episódio. Na manhã seguinte, porém, a imagem estava prostrada novamente, e dessa vez sem os braços e sem a cabeça, que estavam caídos na soleira da porta. Os filisteus começaram a considerar a hipótese de que talvez não tivesse sido uma boa idéia mexer com o deus maluco de Israel. Supersticiosos, não quiseram entrar no lugar onde ficava a imagem de Dagom, e o lugar foi tabu por séculos.
Mas eu dizia que Javé andava brincalhão por aqueles dias. Pois é. Sua brincadeira seguinte foi mandar uma praga de hemorróidas contra todos os moradores de Asdode e vizinhanças. Sob um castigo tão doloroso quanto constrangedor, o povo começou a chiar:
— Ninguém mandou a gente mexer com os israelitas. Aquele povo é esquisito, todo mundo sabe. E agora o deus deles castigou ao nosso deus, e está castigando a nós.
A indignação começou a aumentar, até que alguém resolveu mandar mensageiros aos cinco governadores filisteus para uma reunião urgente. Os governadores de Gaza, Asquelom, Gate e Ecrom vieram e foram recebidos pelo governador de Asdode em seu gabinete. Os quatro sentaram-se em volta da mesa.
— Vossa Excelência não vai se assentar?
— Vossas Excelências hão de compreender que na minha situação…
— Qual situação?
— Então não sabem?
— A mensagem só dizia para virmos aqui para discutirmos algum problema a respeito de Israel.
— Ah. Então. Nós conseguimos pegar a Arca sagrada lá deles, como os senhores bem sabem. Mas aí coisas estranhas começaram a acontecer…
— É, fiquei sabendo do que ocorreu no templo. Lamentável.
— E isso nem foi o pior!
— Não?
— Não. Parece que o deus deles mandou um castigo contra nós.
— Castigo? Que castigo?
— Er… Hemorróidas.
— Perdão?
— Hemorróidas. HEMORRÓIDAS! Todo o povo de Asdode foi acometido por hemorróidas.
— HAHAHAHAHAHAHAHAHA!
— NÃO RIAM! ISSO É MUITO SÉRIO!
— Claro, claro. Não podemos admitir que um deus estrangeiro castigue toda uma cidade da Filistia com… Com… PFFFFFFFFFFHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!
— Oras, cale-se.
— Mantenha o senso de humor, Excelência. Então o problema é a presença do tal baú de Javé? Pois podem mandar o baú lá para Gate.
— Olha…
— Podem mandar, eu garanto.
No mesmo dia, então, a Arca foi transportada para a cidade de Gate. As notícias de Asdode chegaram antes, porém, e o objeto sagrado israelita foi recebido com temor. No dia seguinte, todos os habitantes acordaram com uma leve coceira em certa parte do corpo — não digo que foi no cu para não ser grosseiro. A coceira foi piorando, e todos já sabiam: a praga das hemorróidas chegara a Gate. Enviaram a Arca para a cidade de Ecrom, e a praga repetiu-se com maior intensidade. Mais uma vez mensageiros foram enviados aos governadores, e agora com uma mensagem bem clara: o povo exigia que a Arca fosse mandada de volta a Israel. Não era para menos: a praga foi muito mais forte Ecrom do que em em Gate ou Asdode, e algumas pessoas morreram. Morrer de hemorróidas, vocês hão de concordar, é algo bem vergonhoso. Por toda a cidade ouviam-se altos gritos de dor, que chegavam até o céu. E, lá do céu, Javé ouvia com prazer os gritos de dor. E ria.


Nota: Na maior parte das traduções modernas da Bíblia, é dito que Deus mandou tumores contra os filisteus. A edição Revista e Corrigida da Tradução João Ferreira de Almeida diz:

E sucedeu que, assim que a levaram, a mão do SENHOR veio contra aquela cidade, com mui grande vexame; pois feriu aos homens daquela cidade, desde o pequeno até ao grande; e tinham hemorróidas nas partes íntimas.

A Edição Contemporânea da mesma tradução suaviza os termos:

Desde que a levaram para lá, a mão do Senhor veio contra aquela cidade, com grande terror. Feriu os homens daquela cidade, desde o pequeno até o grande, e nasceram-lhe tumores.

Enquanto a Tradução na Linguagem de Hoje, da Sociedade Bíblica do Brasil, é mais eufemística ainda:

Mas depois que a arca chegou ali, o Deus Eterno castigou a cidade e pôs medo nos seus moradores. Apareceram tumores em todas as pessoas da cidade, tanto nas mais importantes como nas mais humildes

Pois bem: eu pensava que as traduções mais modernas da Bíblia foram atingidas por uma praga bem pior que hemorróidas: o tal do politicamente correto. Não parecia adequado falar em hemorróidas, então trocaram por tumores e pronto. Porém, pesquisando um pouco, descobri um artigo do Dr. Jairo Bueno, publicado no site da Sociedade Brasileira de Clínica Médica do Rio Grande do Sul. O Dr. Jairo diz que o que ocorreu de verdade nas cidades da Filistia foi um surto de peste bubônica, e explica:

A referência a hemorróidas teria sido um equívoco de tradução, como muito bem argumentou Pitanga Santos em seu artigo “O termo hemorróidas na Bíblia” (JBM 12:511-513,1967). A palavra Epholim do texto original hebraico tem o sentido de inchação, tumefação, e poderia referir-se a gânglios enfartados (bubões na região inguinal) e não a uma afecção benigna como as hemorróidas. Os gânglios inflamados ou bubões, que caracterizam a peste é que lhe valeram o nome de peste bubônica.

A explicação me convenceu, mesmo porque no capítulo seguinte fala-se em ratos, que não haviam sido mencionados ainda. Se levarmos em conta a associação entre esses roedores e a peste bubônica, fica claro que a possibilidade de tratar-se de inflamações e não de hemorróidas é bem mais lógica.
Mas é claro que eu não ia perder a oportunidade de fazer minhas piadinhas, por isso mantive as hemorróidas. Não em mim, credo!

Eu preciso de um emprego. Informática e tal. Redes. Suporte. Manutenção. Servidores. Roteadores. Firewalls. Coisas assim, entendem? Não gosto do que faço, mas preciso de um emprego.
Esses dias sem fazer nada têm me feito pensar demais.

(Ou então algum maluco por aí talvez queira me pagar para escrever…)

(I Samuel 4:12-22)

Depois que os filisteus levaram embora a Arca, um homem da tribo de Benjamim saiu correndo do acampamento de Ebenézer e só parou ao chegar em Siló. Chegou com as roupas rasgadas, todo sujo, e tratou de espalhar pela cidade as más notícias. Eli estava na porta da cidade, sentado em sua inseparável cadeira. Preocupado com a Arca, havia se postado ali para ser o primeiro a ver um eventual mensageiro vindo da frente de batalha, e portanto o primeiro a saber do que acontecera por lá. Só tinha um detalhe: Eli já estava com 98 anos de idade e completamente cego, então o mensageiro benjamita passou por ele sem que fosse percebido. Porém, o velho notou que havia algo muito errado quando ouviu choro e gritos cada vez mais altos na cidade.
— O que está acontecendo aqui?
O mensageiro ouviu sua voz e reconheceu o velho sacerdote. Veio falar com ele:
— Seu Eli, eu fugi da batalha e vim correndo até aqui, sem parar nenhum instante.
— Hum… E o que aconteceu por lá?
— Ai ai… Não sei como contar isso ao senhor.
— Deixe de frescura! Sou velho mas ainda sou homem, cáspita. Não me esconda nada!
— Hum. Tudo bem. Seguinte: O povo de Israel fugiu dos filisteus. Foi uma derrota vergonhosa.
— MEU DEUS! Péssima notícia, rapaz, péssima notícia! Agora entendo sua preocupação, não consigo imaginar nada pior do que isso.
— Er… Então melhor ir tentando imaginar, seu Eli…
— Por quê?
— Porque eu ainda não acabei.
— Aconteceu alguma outra desgraça? O que poderia ser pior do que uma derrota para os filisteus?
— Ah, sei lá. A morte de seus filhos, por exemplo.
— HOFNI E FINÉIAS MORRERAM?
— Ou isso ou os abutres do deserto estão mais cegos do que o senhor…
— QUE DESGRAÇA! QUE DESGRAÇA!
— Desgraça? O senhor ainda não sabe da pior…
— HEIN? MEUS FILHOS MORRERAM, O QUE PODE SER PIOR DO QUE ISSO, SEU MEQUETREFE?
— Os filisteus levarem a Arca embora…
— O QUÊ? A ARCA? A ARCA? A ARCA? A AAAAAAAAaaaaaaaaaaaaaaa…
Descontrolado diante de tanta notícia ruim num pacote só, Eli ficou muito agitado e sua cadeira caiu para trás. Ele já estava velho, como já foi dito, e também muito gordo. O velho sacerdote quebrou o pescoço na queda, e morreu em seguida, depois de quarenta anos como líder em Israel. Uma das mortes mais ridículas da Bíblia, convenhamos.
Nesse mesmo dia, a mulher de Finéias estava sentindo as dores do parto de seu primeiro filho quando soube que o marido, o cunhado e o sogro estavam mortos, e que a Arca da Aliança estava nas mãos dos filisteus. A comoção foi forte demais. A parteira e outras mulheres que ali estavam ainda tentaram animá-la, mostrando-lhe o filho recém-nascido. Ela não se interessou, e não disse nada. Mas deu ao menino o nome de Icabô. Algumas traduções da Bíblia grafam Icabode ou ainda Ichabod, mas eu acho Icabô melhor, porque é bem próximo do significado original, em hebraico: Ih! Cabô a glória em Israel.

Ok, perdão. Voltemos.

A viúva morreu em seguida, desgostosa com as péssimas notícias. Javé prometera acabar com a família de Eli e, como acabamos de ver, tratou logo de cumprir sua promessa.

Fui ontem assistir ao bom (só bom) “Revelações” (The Human Stain), com Anthony Hopkins, Nicole Kidman, Gary Sinise e Ed Harris. Saí do cinema com uma pergunta em mente: qual é o ser que, estando acima dos platelmintos na escala evolutiva, não se comove — é esse mesmo o termo — com a imagem de Nicole Kidman? Olhando para ela eu compreendo os homens que morreram, mataram, enlouqueceram, fizeram guerras e revoluções, inventaram, tudo por causa de uma mulher.

Nicole não parece real, NÃO PODE ser real.

(I Samuel 4:1-11)

Parecia que ia ser tudo fácil para Samuel: era amado e respeitado pelo povo, e recebia uma baita moral de Javé. Mas acontece que os filisteus começaram a ameaçar o norte de Israel, e a guerra teve que ser declarada. Então os soldados israelitas acamparam em Ebenézer, os filisteus em Afeque. Ficaram naquela guerra de nervos, lançando provocações de um lado para o outro, até que os filisteus se encheram e resolveram lutar: atacaram os israelitas e os derrotaram, deixando quatro mil mortos. Os que escaparam do ataque filisteu voltaram ao acampamento, e alguns deles foram falar com os líderes de Israel:
— Por que é que Javé deixou os filisteus nos derrotarem? Talvez ele não estivesse aqui no meio de nós. Mas e se a Arca da Aliança fosse trazida para cá? Duvido que os filisteus conseguiriam alguma coisa, com Deus presente por aqui.
Os líderes acharam a idéia pelo menos tão boa quanto qualquer outra — os filisteus eram fortes, e provavelmente derrotariam os israelitas de qualquer maneira —, então enviaram mensageiros a Siló com o pedido. A Arca veio para o acampamento, trazida pelos sacerdotes Hofni e Finéias. Ao verem seu maior símbolo religioso chegando ao acampamento, todos os soldados israelitas deram um forte grito de alegria, que foi ouvido no acampamento inimigo. Os filisteus começaram a demonstrar alguma preocupação:
— Eita. Que porra foi essa? Que que essas frangas hebréias tão gritando?
— Tão dizendo que o deus deles chegou para lutar contra nós.
— Puta merda. Aquele deus maluco, que mandou pragas para o Egito e tal?
— Sim. O tal Javé.
— Ai ai ai… Agora tem um deus pra lutar contra a gente. Fodeu, fodeu!
— Controle-se, sirigaita! Os deuses dos israelitas são fortes. Mas nós os derrotamos antes, e vamos derrotá-los novamente. Ou vocês preferem ficar com medo, perder a guerra, e serem para sempre escravizados por Israel?
— DE JEITO NENHUM!
— Então sejamos homens, PORRA!
— SIM!
— HOMENS!
— SIM!
— HOMENS!
— Já entendemos, porra…
— Ah. Ok.
Assim motivados, os filisteus saíram para lutar novamente. E nem a Arca ajudou os israelitas: foram derrotados, e fugiram para suas casas com o rabicó entre as pernas. Trinta mil homens foram mortos, e pior ainda: os filisteus mataram os sacerdotes Hofni e Finéias, tomaram a Arca e a levaram para a Filistia. O que foi muito ruim para Israel, mas pior ainda para os filisteus, como veremos mais adiante.

Ouvi um barulho esquisito lá fora e pensei: “Puxa, será um morcego? Que guincho mais bonito tem esse morcego…”. Então notei uma luz estranha entrando pelas frestas da janela. Hum… “Que horas serão?”, perguntei a mim mesmo, na ausência de pessoa mais interessante. E eu, estupefato depois de constatar o horário, respondi: “SEIS DA MANHÃ! VAI DORMIR, IMBECIL! MORCEGO PORRA NENHUMA, ERA UM SABIÁ!”.
É, vou dormir. Meu Deus, eu preciso de um emprego…

(Mas pelo menos o blog tá carregando mais rápido, né? Pois é, tava trabalhando nisso. E ripando CDs. E arrumando o micro da minha mãe. E lendo coisas do Alexandre Soares Silva. Pô, foi um dia cheio)

(I Samuel 3)

Os tempos em que Deus vivia falando com os homens, fosse diretamente ou com mensagens enviadas através de anjos e profetas, já havia passado. Muitos até consideravam as narrativas antigas como meras alegorias. Alguém que dissesse ter falado com Javé, como os livros diziam que Moisés e Gideão haviam feito, receberia logo o epíteto de doido. Pois bem: mas acontece que Javé resolveu que ia falar com Samuel. Este ainda era menino, e estava dormindo no Tabernáculo, enquanto Eli (que já estava quase cego) dormia em seu quarto, quando ouviu alguém chamando:
— Samuel! Ô, Samuel!
O garoto se levantou e foi ao quarto de Eli:
— Pois não, seu Eli?
— Hum? Hã? Hein? Que foi, moleque?
— O senhor me chamou?
— Eu? Eu? Claro que não! Vai dormir e me deixa em paz, cacete!
— Tá. Desculpe.
— Bah!
Samuel voltou para a cama, resmungando. Provavelmente Eli falara seu nome durante o sono. Enquanto isso, escondido atrás de uma cortina, Javé ria baixinho. Esperou Samuel dormir e retomou a brincadeira:
— Psiu! Ô! Samuel!
Ele acordou e mais uma vez foi ao quarto de Eli.
— O senhor chamou?
— Hein? Porra, Samuel, de novo??? Vai dormir, moleque doido!
Samuel voltou ainda mais indignado. Quando ia se deitar, julgou ouvir um riso abafado. Mas até vozes já andava ouvindo, então começou a encarar o fato de que talvez estivesse mesmo ficando maluco. Já estava quase dormindo quando ouviu a voz outra vez:
— Ô, Samuel! Vem cá!
Dessa vez o menino ficou nervoso, e foi batendo os pés até o quarto de Eli.
— Seu Eli, eu tenho muito trabalho pra fazer amanhã, preciso dormir. Pára de brincadeira besta, porra.
— Brincadeira? Que brincadeira, seu insolente?
— Fica me chamando, aí eu venho até aqui e o senhor diz que não chamou. Perdeu a graça, já.
— Ei, calma! Tô dizendo que não te chamei… Ei. Peraí. Será possível? Não, não, de jeito nenhum… É, mas… Hum…
— Que foi, seu Eli?
— Olha, cê vai dizer que eu tô gagá, mas foda-se: eu acho que talvez seja Javé te chamando.
— Javé? Javé, nosso Deus?
— Não. Javé, o travesti. CLARO QUE É JAVÉ, NOSSO DEUS!
— Sei não, sei não…
— Faz o seguinte: se você ouvir a voz de novo, em vez de vir aqui me encher o saco, apenas responda e veja o que acontece.
— Hum. Tá bom.
Samuel voltou para sua cama, e não demorou para ouvir seu nome novamente:
— Ô, Samuel!
Só que dessa vez ele, seguindo o conselho de Eli, respondeu:
— Oi. É você… Digo, é o SENHOR, Javé?
— Bah. Me descobriu.
— PERAÍ! É JAVÉ MESMO???
— Er… Sim…
— PUTAQUEOPARIU! Opa. Digo, LOUVADO SEJA O TEU NOME, JAVÉ! Puxa, eu não acredito! É Deus falando comigo! UAU!
— Tá, tá, chega! Que moleque deslumbrado, credo. Sou eu, Javé. Sou Senhor dos Exércitos, Criador do Céu e da Terra, Pai Celeste, essa coisa toda. Mas também não precisa tanta veadagem. Vim aqui pra te dizer um negócio…
— Pode dizer, Javé!
— Eu por acaso pedi sua autorização?
— …
— Humpf. É o seguinte: vão acontecer coisas em Israel, coisas tão terríveis que deixarão espantados todos os que delas ficarem sabendo. Vou fazer a Eli tudo o que disse que ia fazer, a parada toda da família e tal.
— Hein?
— Ah, ele não te contou, é? Pois então, vou acabar com toda a descendência de Eli, porque os filhos dele são uns sem-vergonhas e o velho não faz nada a respeito. E agora é tarde: já tomei minha decisão, e sacrifício nenhum vai me fazer mudar de idéia.
— Hum… Que mais?
— Que mais? Xeu ver… Nah, mais nada. Era isso mesmo. Vai dormir, Samuel. A gente se fala depois, com mais tempo.
Javé foi embora, e Samuel pegou no sono depois de algum tempo pensando no que acontecera. No dia seguinte, acordou e começou a exercer suas tarefas. Estava com medo de falar com Eli sobre o que Javé dissera. Mas percebeu que não conseguiria evitar quando o velho mandou chamá-lo.
— Pois não, seu Eli.
— E aí, Samuel? Era Javé mesmo?
— Era.
— Ué… Pra falar comigo ele manda um profeta, com você ele fala diretamente. Estranho… Mas e aí, o que ele disse?
— Ah, nada de mais… Perguntou como eu estava, se gostava do trabalho aqui, essas coisas…
— Moleque, moleque! Não me esconda nada, que Deus o castigue se você não me contar tudo!
— Pô, seu Eli, não é pra tanto…
Então Samuel contou toda a conversa, sem omitir nada. Eli ficou em silêncio por algum tempo, e enfim disse:
— É… Foi isso mesmo o que ele me disse através do tal profeta. Bom, ele é Deus, o que se há de fazer? Paciência…
Samuel ficou triste ao ver a situação em que Eli se encontrava, mas não tanto a ponto de não perceber sua própria situação: se Javé falava com ele diretamente, e se ia matar todos os descendentes de Eli, então era bem provável que ele, Samuel, viesse a ser sacerdote. Não se deixou levar por esse pensamento, porém: continuou fazendo seu trabalho no Tabernáculo normalmente. De vez em quando Deus vinha falar com ele, e nessas ocasiões lhe revelava o que estava para acontecer. O povo começou a observar que tudo o que Samuel dizia acabava acontecendo, e não demorou a perceber que ali estava um verdadeiro profeta. O tempo foi passando, Samuel crescendo e sendo cada vez mais respeitado em Israel.

Digam-me se não parecem dois lados da mesma história:

Adeus Você

Adeus Você
Eu hoje vou pro lado de lá
Estou levando tudo de mim
Que é pra não ter razão pra chorar
Vê se te alimenta e não pensa que eu fui
Por não te amar
Cuida do teu
Pra que ninguém te jogue no chão
Procure dividir-se em alguém
Procure-me em qualquer confusão
Levanta e te sustenta e não pensa que eu fui
Por não te Amar
Quero ver você maior
Meu bem
Pra que minha vida siga adiante
Adeus você
Não venha mais me negacear
Seu choro não me faz desistir
Seu riso não me faz reclinar
Acalma esta tormenta e se agüenta
Que eu vou pro meu lugar
É bom as vezes se perder
Sem ter por que, sem ter razão
É um dom saber envaidecer, por si
Saber mudar de tom,
Quero não saber de cor
também
Pra que minha vida siga adiante

(Marcelo Camelo)


Olhos Nos Olhos

Quando você me deixou, meu bem
Me disse pra ser feliz e passar bem
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci
Mas depois, como era de costume, obedeci
Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer
Olhos nos olhos, quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais
E que venho até remoçando
Me pego cantando
Sem mas nem porque
E tantas águas rolaram
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você
Quando talvez precisar de mim
‘Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim
Olhos nos olhos, quero ver o que você diz
Quero ver como suporta me ver tão feliz

(Chico Buarque)