marcelocamelo.jpgDaniela veio almoçar comigo e me surpreendeu dizendo que não tem conseguido dormir por causa das músicas do Los Hermanos. Minha surpresa é compreensível: de uns dias para cá, tenho enfrentado exatamente o mesmo problema. Posso estar com o sono que for, basta me deitar e apagar a luz para que a voz do Marcelo Camelo comece a cantar MUITO ALTO dentro da minha cabeça (como se já não fosse afronta suficiente ter se tornado noivo da Fer). Daniela me contou que vai dormir e começa a ouvir Tá bom ressoando dentro do crânio, enquanto no fundo soam os metais de Samba a Dois.
Conversando sobre esse fato, eu e ela chegamos a uma série de conclusões alarmantes e, pior, incontestáveis. Por exemplo: No DVD Luau MTV – Los Hermanos (COMPREM AQUI!), a VJ Sarah, mulherzinha irritante, pergunta ao Marcelo se ele algum dia sonhou com o sucesso atingido por Anna Julia. Ele, emprestando um tom de ironia à voz, responde:
— Ah, Sarah, eu sabia! Eu sempre soube que eu… Pô, não, claro que não. E esse negócio de o George Harrison ter gravado, pô!, ainda não consegui compreender direito isso, a grandiosidade da coisa.
Parece inocente, não? Mas isso por que vocês não prestam atenção! Da fala do vocalista do Los Hermanos, depreende-se o seguinte:
1. Ele sabia que Anna Julia seria um sucesso espantoso, executada à exaustão em todas as rádios do país, tocada em forrós e bailes de carnaval, aprendida por todos os moleques tocadores de violão. Sim, ele sabia. Porque a música foi composta pelo próprio Satanás, e trocada pela alma de Marcelo Camelo!!!
2. George Harrison gravou Anna Julia. E o que ele fez depois de gravar Anna Julia??? Exatamente! MORREU! (Outro grande artista internacional — Frank Aguiar, o Cãozinho dos Teclados — também gravou a música maldita. E eu pergunto: POR ONDE ANDA FRANK AGUIAR, O CÃOZINHO DOS TECLADOS???)
É assustador, não? Pois então, e mais ainda se torna se nos lembrarmos que os esquimós do século V consideravam o camelo como a mais plena manifestação do Diabo (que eles chamavam de Dong) na terra, respeitando e evitando tal animal o máximo possível. Ou vocês acham que eles foram morar no Pólo Norte à toa? “Ah, estamos precisando de um ambiente mais clean, menos elementos na paisagem”. Oras, é TÃO ÓBVIO que só mesmo pessoas cegadas pelas artimanhas do Tinhoso não percebem.
Precisamos salvar nossa juventude da influência nefasta dessa banda e de seu vocalista satânico. Muitos de nossos jovens já foram perdidos para o Mundo das Trevas. Rafael Capanema, por exemplo, desenvolveu uma voz em tudo idêntica à de seu ídolo Marcelo Camelo. Quando olho para suas costeletas, já sei de tudo: aquilo ainda vai se tornar uma barba cerrada, tão logo comecem a crescer pêlos no queixo do pobre Rafael. Esse já está perdido, mas ainda há tempo para salvar os jovens brasileiros.
ABRAM OS OLHOS! AVISEM SEUS AMIGOS! MANDEM ESTE POST PARA TODAS AS PESSOAS QUE VOCÊS CONHECEM! SÓ ASSIM EVITAREMOS A INSTALAÇÃO DEFINITIVA DO REINO DE BELZEBU SOBRE A TERRA!

— MEU NOME É GAL
E PROCURO ME CORRESPONDER COM UM RAPAZ
QUE SEJA O TAL

[abre a blusa mostrando as muchibinhas]
— E NÃO FAZ MAL
QUE ELE NÃO SEJA BRANCO, NÃO TENHA C…

Ô! QUE PORRA É ESSA!
A revolta de Gal, ué…
COMO??? Ah. Putz, errei o título. Foi mal aê, vou começar de novo. Minha senhora, guarde esses peitos, pelamordedeus…

A revolta de Gaal

(Juízes 9:22-57)

Aham.
Governar Siquém era só o primeiro passo: em pouco tempo Abimeleque se tornou governante de todo o Israel. Só que ele era um ditador, claro, e depois de três anos os habitantes de Siquém, seus primeiros aliados, começaram a se rebelar, chegando mesmo a colocar homens escondidos no alto das montanhas para matar Abimeleque. Esses homens assaltavam quem passasse pelo caminho, espalhando pânico pela região. O ditador ficou sabendo disso e tomou a única providência que sua mesquinhez permitia: não chegar nem perto do caminho que passava pelas montanhas, permanecendo o máximo possível em Arumá, sua cidade de residência. Esse Abimeleque só era macho mesmo na companhia de seus capangas, porque sozinho…
E é nesse ambiente de total insegurança, quase de guerra civil, que surge Gaal.
— MEU NOME É GAL…
GAAL! GAAL, PORRA!
— Ah…
Não se sabe muito sobre Gaal: só que era filho de um tal Ebede, que se mudou com seus irmãos para Siquém e logo conquistou a simpatia do povo, chegando mesmo a considerar-se um nativo da cidade. Numa das festas patrocinadas por ele no templo de Baal-Berite, Gaal bebeu um pouco mais do que devia e soltou a língua:
— Coé a desse tal de Abimeleque, hein? Quem esse mano pensa que é? Tá, é filho de Gideão e tal, mas e daí? E nós, somos o quê, um bando de covardes? E nosso governador, Zebul, que só falta empinar a bundinha pro Abimeleque? Que palhaçada! Ah, se eu mandasse alguma coisa por aqui… Ia lá peitar o feladaputa. “Ô, se você é tão macho e seu exército é tão bom, por que você não sai daí pra lutar, hein?”. Mas vou fazer o quê? Mando em nada…
É regra bastante conhecida a que diz que em todo lugar há pelo menos um dedo-duro, e a festa no templo de Baal-Berite não seria exceção: o fio desemcapado correu pra despejar nos ouvidos de Zebul tudo o que Gaal dissera. O governador ficou com muita raiva, e mandou uma mensagem a Abimeleque:

Meu Grande Soberano Abimeleque, Cuja Glória Ofusca o Brilho do Sol

Sinto muito perturbar a graciosa paz de Vossa Magnificência com assuntos mundanos, mas a situação não me deixa alternativas. Vossa Luminescência ouviu falar de um tal Gaal, filho de Ebede, que hoje mora aqui de Siquém? Saiba que esse fulano anda atiçando o povo da cidade contra Vossa Rejubilescência. Como se os problemas que Vossa Magnânima Pessoa já não fossem suficientes!
Sei que nada sou, apenas um reles servo e admirador de Vossa Reverendíssima. Mesmo assim, atrevo-me a sugerir um plano de ação, que Sua Santidade não me leve a mal. Eis o plano: durante a noite, Vossa Circunferência sai com seu magnífico exército, e todos se escondem nos campos em volta de Siquém. Amanhã, assim que nascer o sol, vosso exército de bravos ataca a cidade. E quando Gaal sair para lutar com seus homens, aí Vossa Beligerância ataca com tudo o que tiver.
Apenas uma sugestãozinha de seu mui humilde servo,

Zebul

Descontando o tom um tanto quanto bajulatório — e ignorante — da mensagem, o plano de ataque era bom. Então Abimeleque mandou uma mensagem a Zebul:

Z,

Tá.

A.

À noite Abimeleque saiu com seu exército dividido em quatro grupos, e fez tudo exatamente conforme a idéia de Zebul. Só que aconteceu um imprevisto: bem antes do nascer do sol, talvez pressentindo algo de errado, Gaal juntou seus homens e foi para o portão da cidade. Zebul, vendo que seu plano corria um sério risco, foi junto para ver o que acontecia. Enquanto isso, vendo movimentação nos muros em hora tão imprópria, Abimeleque ordenou a seus homens que se aproximassem devagar da cidade, rastejando e fazendo o mínimo possível de barulho.
— Ih, Zebul, olha lá! Tem gente descendo das montanhas na nossa direção!
— Cê tá com sono, Gaal. São as sombras das montanhas, só isso.
— Mané sombras! Tá doido? Olha ali, ali, ali e ali. São quatro grupos. Acho que é um ataque! Será que o filho-da-puta do Abimeleque criou coragem de repente e resolveu nos atacar?
— Ué… Não foi você que falou que não sabia por que nos deixávamos governar por Abimeleque, que ele era covarde e coisa e tal? E então, cadê toda aquela conversa?
— H-hein??? Como você… SE EU PEGAR O DEDO-DURO DESGRAÇADO QUE ANDOU FALANDO COISAS POR AÍ, EU JURO QUE…
— Calma, Gaal, Calma! Você fala demais, quero ver se serve para agir também. Aqueles são os caras de quem você tirou sarro no dia da festa; vá até lá e lute com eles. Se é que você tem coragem…
Percebendo que responder à provocação de Zebul só daria mais tempo ao inimigo, Gaal tratou logo de chamar seus homens para atacarem o exército de Abimeleque. E no fim das contas o negócio de Gaal era só falar mesmo: levou um coça inesquecível, e fugiu correndo para a cidade. Abimeleque, então, resolveu voltar para Arumá, e Zebul expulsou Gaal e seus irmãos de Siquém.
Fim dos problemas? É óbvio que não. De fato, passada a refrega (refrega!), os ânimos se acalmaram em Siquém. Os homens até saíram para trabalhar nos campos normalmente no dia seguinte. E aí começaram os problemas: Abimeleque ficou sabendo que os habitantes da cidade estavam desprevenidos, então saiu de Arumá com três grupos de soldados. Enquanto Abimeleque e seu grupo atacavam de surpresa nos portões da cidade, os outros dois grupos atacaram quem estava no campo, matando todo mundo. Os chefes da Torre de Siquém souberam do que estava acontecendo, e foram depressa se esconder dentro do templo de Baal-Berite, a construção mais resistente da cidade. Arrombar a porta do templo e depois matar as cerca de mil pessoas que estavam lá dentro seria muito trabalhoso. Então Abimeleque subiu ao monte Salmon, cortou um galho de árvore e ordenou a todos seus homens que fizessem o mesmo. Depois desceram até a cidade, empilharam os galhos contra a parede do templo e atearam fogo. O templo incendiou-se, e todos os que ali se abrigavam morreram carbonizados.
Embrigado com o cheiro de sangue e carne queimada, Abimeleque decidiu que ainda queria mais carnificina. Devia ser cedo ainda, sei lá. Sei que foi com seus homens até Tebes, cercou a cidade e a conquistou. Todos os habitantes correram para se esconder na torre da cidade, e ficaram no terraço. Abimeleque resolveu fazer o mesmo que fizera com o templo em Siquém. No entanto, quando ainda empilhava a lenha perto da porta da torre, uma mulher jogou lá de cima uma pedra de moinho. A pedra caiu em cheio sobre a cabeça do ditador, abrindo-lhe o crânio. Ainda consciente, ele gritou para seu ajudante de ordens:
— Rápido, moleque! Tire a sua espada e me mate. Não quero que digam por aí que fui morto por uma mulher, seria desmoralização demais.
Oras, quem não ficaria feliz em matar um sanguinário desses? O rapaz cumpriu logo a ordem, e assim acabaram-se os dias de glória de Abimeleque em Israel.
O que nos lembra aquela história sem pé nem cabeça do Jotão, das árvores, que ele concluiu dizendo que sairia fogo de Abimeleque para queimar os homens de Siquém e vice-versa. Pois é… Não parece tão absurda agora, não é mesmo?

(Juízes 9:1-21)

Abimeleque, como eu disse no último capítulo, era filho de Gideão com sua amante de Siquém. A fama de seu pai era imensa, mas era difícil para ele aproveitar-se disso: era apenas um filho bastardo tendo que concorrer com setenta filhos legítimos. No entanto, ele era esperto e não tinha medo de nada. Então, depois que Gideão morreu, Abimeleque começou a conspirar com seus parentes:
— Olha, eu tenho uma idéia muito boa. Vocês vão sair pela cidade, assim como quem não quer nada, perguntando a todo mundo: “É melhor ser governado por setenta filhos de Gideão ou por um só homem de sua própria terra?”.
Seus parentes gostaram da idéia, e saíram botando essa pulga atrás da orelha de cada habitante da cidade. A insegurança causada pela perspectiva de ter setenta irmãos disputando o poder, aliada ao bairrismo fez com que os homens de Siquém decidissem seguir Abimeleque. Deram a ele oitocentos gramas de prata (retirados do templo de Baal-Berite, o deus da moda então). Com a prata, Abimeleque contratou meia dúzia de vagabundos como capangas e foi para Ofra, terra de seu pai. Lá chegando, tratou de botar em prática a segunda parte de seu plano para tomar o poder, matando seus setenta irmãos sobre uma pedra. Bonzinho, né? Apenas Jotão, o caçula, conseguiu esconder-se, fugindo assim ao massacre.
Quando perceberam que Abimeleque não estava para brincadeira, os homens de Siquém acharam melhor não arriscar: reuniram-se com os homens de Bete-Milo e coroaram Abimeleque rei das duas cidades. Ao saber disso, Jotão ficou muito puto e subiu até o alto do monte Gerizim, de onde falou para eles, aos berros:
— Ô, seus filhos da puta! Escutem o que eu tenho a falar, prestem atenção, e Javé ouvirá vocês.
— Javé? Que Javé???
— Bah! Prestem atenção na história que eu vou contar. Aham… Uma vez as árvores resolveram que queriam ter um rei. Então…
— Peraí… As ÁRVORES resolveram que queriam um REI? Ah, Jotão, vai enganar outro!— Não, porra! É só uma PARÁBOLA!
— Er… Hein?
— BAH! Deixa eu terminar, cês vão entender no final. Então, as árvores resolveram escolher um rei. Logo de cara foram falar com a Oliveira, mas ela desdenhou o convite: “Governar vocês? Mas para isso eu ia ter que deixar de fornecer meu azeite, que honra aos homens e aos deuses, e dedicar todo o meu tempo a vocês. Nah, falem com outra árvore, eu não quero”. Ainda animadas, apesar da negativa da Oliveira, foram falar com a Figueira, que respondeu: “Eu não, credo! Ia ter que abandonar meus figos, tão docinhos, por vocês. Tô fora”. Já meio desanimadas, as árvores foram falar com a Parreira. E ela: “Tão doidas? E deixar homens e deuses sem vinho? De jeito nenhum!”. Em desespero de causa, e sem alternativa melhor, foram falar com o Espinheiro, que disse: “Querem que eu seja rei de vocês é? Hum… Tá bom. Tô fazendo nada mesmo… Mas é o seguinte: se vocês querem mesmo que eu seja rei, venham para debaixo da minha sombra. Se não o fizerem, sairá fogo do espinheiro e queimará os cedros do Líbano”.
— …
— …
— Tá, e daí?
— E daí o quê??? Acabou a história, é isso.
— Que merda de história!
— Ô seus burros! Será que não conseguem compreender uma metáfora?
— Uma o quê???
— Ai meu saco… O que eu quero dizer é: será que vocês foram sinceros ao escolherem Abimeleque como rei de Siquém? E será que respeitaram a memória do meu pai? Lembrem-se do quanto ele lutou por vocês, arriscando a própria vida para expulsar os midianitas de Israel. E como vocês retribuíram?
— Com trinta quilos de ouro…?
— Er… Tá, mas isso foi há muito tempo.
— A expulsão dos midianitas também!
— Tá, tá, não importa! O negócio é que vocês mataram meus setenta irmãos. É assim que vocês honram a memória de Gideão?
— …
— Pois é! Mataram meus irmãos e depois escolheram Abimeleque, um filho de escrava, para ser o rei de vocês. Bonito, hein? Agora, se vocês acham que o que fizeram foi algo bom e sincero, então sejam felizes com seu novo rei. Do contrário, que saia fogo de Abimeleque para queimar os homens de Siquém e Bete-Milo. E vice-versa!
— Hein? Sair fogo? Jotão, acho que cê anda assistindo muito seriado japonês… Jotão…? JOTÃO?
Mas Jotão já havia fugido. Não era besta nem nada, sabia que Abimeleque não desperdiçaria nenhuma oportunidade para matá-lo. Então fugiu e foi morar em Beer, a cidade de nome mais legal de toda a Bíblia.

Sexta-feira fui até Sorocaba para passar momentos agradáveis com meus sobrinhos Thiago e Rafael. Lá pelas tantas o Thiago começou a ouvir trechos invertidos de músicas, num site desses de mensagens subliminares e sei lá o quê. É o chamado backmasking, uma técnica que permitiria esconder mensagens (geralmente satânicas) invertidas em letras de músicas aparentemente inocentes. Todas bem forçadas, é claro: entender algo que faça sentido num disco girado ao contrário é o mesmo que procurar formas de animais nas nuvens: pode ser divertido, mas não passa disso.
Bom, depois de muito ouvirmos mensagens satânicas ocultas, minha mente foi influenciada, e me lembrei de um backmasking da música Maluco Beleza, do Raul Seixas. Sabem aquele trecho É tão fácil seguiiiiiiiir? Pois bem, se ouvirmos esse pedaço aí ao contrário, notaremos Raul cantando claramente:


(Clique na imagem para ouvir)

Que perigo para nossa juventude desavisada! Jesus tá foda!

(músicas retiradas daqui)

Com essa história de mudança de cores, um dos logos que pensei em usar foi esse:


(Clique para ampliar)

Eu sei que parece apenas uma combinação arbitrária de tons de marrom. Só PARECE! Porque essas cores não foram escolhidas ao acaso. Não, meus caros! Peguei uma foto minha e, no Photoshop, selecionei para padrão de fundo um pedaço da minha face direita, e para as letras a cor dos meus olhos na parte mais perto da pupila(#412F2F).
Meu narcisismo vai bem, obrigado.

(Juízes 8:22-35)

Depois de ver de que maneira espetacular Gideão derrotara os invasores midianitas, alguns homens foram falar com ele:
— Gideão, cê é foda.
— Que é isso…
— Nah, sem falsa modéstia: cê é foda. O que você fez com os midianitas foi impressionante. Então pensamos, conversamos e decidimos que queremos que você seja rei de Israel, assim como seus descendentes.
— Hum… Rei, é?
— É. Rei. E aí, aceita?
Gideão ficou pensativo. Ser rei era uma honra e tanto. Mas e o trabalho que dava, a dor de cabeça? Pensou bem e se saiu com uma resposta espertalhona, bem ao seu estilo:
— Não serei rei de vocês, nem meu filho: Javé será o rei hoje e sempre. Mas…
— Mas…?
— Sabem aqueles brincos que os midianitas usavam? Se vocês pudessem me dar eles…
— Vai usar brinco agora, Gideão?
— Claro que não, ó caralho! É pelo ouro mesmo. Acho que mereço um pequeno espólio de guerra, não?
— É claro. Daremos os brincos a você então. Uma pena você não querer ser rei de Israel.
— O único rei de Israel é…
— Javé. Tamos sabendo.
Então eles estenderam uma capa no chão, e cada um pôs sobre ela os brincos que havia tomado dos midianitas. Com isso Gideão ganhou quase trinta quilos de ouro. Estava rico, portanto. E duvido que vocês adivinhem o que ele fez com tanto ouro… Ele pegou todos os brincos, mandou fundir e fez um ídolo! Sim, Gideão, que acabara de libertar Israel com ajuda de Javé, descambou pra idolatria assim que pôde. Ele botou o ídolo em Ofra, sua cidade, e todos os israelitas abandonaram Javé e foram adorar o deus de Gideão.
— Vixe. Javé deve ter ficado mais puto do que nunca. O que ele fez?
Nada.
— NADA???
Pois é. Javé, que fizera os israelitas beberem o ouro fundido do bezerro que adoravam enquanto Moisés estava no alto do Sinai, resolveu fazer vista grossa à idolatria de Gideão. Aliás, se pensarmos bem, Gideão é um herói bíblico um tanto atípico: primeiro teve coragem de duvidar de Javé várias vezes antes de cumprir suas ordens, depois equiparou-se a ele (quando ordenou a seus homens que invadissem o acampamento midianita gritando “Por Javé e Gideão!”). Talvez embasbacado por tamanha ousadia, Javé não soube o que fazer com Gideão, e foi deixando. Quando ele resolveu desafiá-lo frontalmente, adorando a outro deus sob suas barbas, por assim dizer, Javé já estava desmoralizado.
Seja como for, Gideão viveu por mais quarenta anos, durante os quais reinou a paz em Israel. Ele teve setenta filhos de várias esposas, e mais um de uma concubina, em Siquém. Esse último, chamado Abimeleque, ainda vai dar muito trabalho. Mas isso fica para os próximos capítulos. Por enquanto, vamos chorar a morte de Gideão, o personagem bíblico que mais desafiou a autoridade divina. E não sofreu qualquer castigo por isso, muito pelo contrário.

Agora falando sério
Eu queria não cantar
A cantiga bonita
Que se acredita
Que o mal espanta
Dou um chute no lirismo
Um pega no cachorro
E um tiro no sabiá
Dou um fora no violino
Faço a mala e corro
Pra não ver banda passar
Agora falando sério
Eu queria não mentir
Não queria enganar
Driblar, iludir
Tanto desencanto
E você que está me ouvindo
Quer saber o que está havendo
Com as flores do meu quintal ?
O amor-perfeito, traindo
A sempre-viva, morrendo
E a rosa, cheirando mal
Agora falando sério
Preferia não falar
Nada que distraísse
O sono difícil
Como acalanto
Eu quero fazer silêncio
Um silêncio tão doente
Do vizinho reclamar
E chamar polícia e médico
E o síndico do meu tédio
Pedindo para eu cantar
Agora falando sério
Eu queria não cantar
Falando sério
Agora falando sério
Eu queria não falar
Falando sério

(Chico Buarque)
[Dias tristes, esses primeiros do ano]

marco_fev76.jpg

Minha mãe achou essa foto aí — reparem no enquadramento perfeito — fuçando nos arquivos da família. Sou eu, aos nove meses de vida, no colo do Zé, meu tio. Fevereiro de 1976. Acho que a maioria dos meus leitores não era nascida então, quase 28 anos atrás. Notem que eu não tinha cabelo. Procurei meu pinto na foto, sem sucesso. Ninguém esperava muito de mim: eu era feio, tinha vários problemas de saúde, era quieto demais e vivia olhando o mundo, em silêncio, com meus olhos enormes.
Há coisas que não mudam muito.