Como já foi dito, estava concluída a parte mais importante da conquista de Canaã. Ainda havia um ou outro povo a ser expulso, mas isso podia ser deixado a cargo de cada tribo, não constituindo motivo de preocupação para todo o povo de Israel. Sendo assim, Josué reuniu o povo das tribos de Rúben, Gade e Manassés Oriental e fez um pequeno discurso de despedida pra eles:
— Muito bem, cambada, muito bem! Vocês cumpriram sua promessa direitinho: mesmo tendo suas terras garantidas lá do outro lado do Jordão, vieram até aqui e arriscaram seus rabos junto com seus irmãos israelitas para conquistarem Canaã. Agora estamos em paz, e vocês podem ir cuidar de suas terras. Vocês voltam ricos, cheios de despojos de guerra. Parabéns e muito obrigado. Agora ocupem a terra, sejam felizes e continuem servindo a Javé, senão ele fode com a vida de vocês. Adeus!
Os líderes das duas tribos e meia agradeceram, se despediram e partiram para suas terras. Ao chegarem em Gelilote, ainda na margem oeste do Jordão, resolveram parar e construir um altar de pedra. Não um altar qualquer: via-se o bichão de longe. Capricharam mesmo. Quando a notícia do altarzão chegou aos ouvidos dos outros israelitas eles ficaram putos. Começou o diz-que-diz:
— Que porra significa aquele altar?
— Os caras não sabem que o único altar pra se oferecer sacrifícios é aqui no Tabernáculo?
— Javé vai ficar puto com isso, e vai sobrar pra gente.
— Isso não pode ficar assim!
— Vamos foder com a vida desses feladaputas!
A indignação crescia conforme a notícia se espalhava, e logo todo o povo estava reunido em Siló, preparando-se para guerrear contra seus irmãos do leste. Antes, porém, resolveram mandar mensageiros até eles. Enviaram Finéias, filho do sumo-sacerdote Eleazar, acompanhado de dez líderes, um para cada tribo (tá, eram nove tribos e meia. Mas os caras não iam mandar meio líder, né?). A mensagem que mandaram era simples: se eles achavam que a terra a leste do Jordão era impura, que pedissem terras do lado de cá, e seriam atendidos. Mas que não cometessem a burrada de erguer outro altar, já que o próprio Javé deixara bem claro que os sacrifícios só deveriam ser oferecidos no altar do Tabernáculo.
Quando ouviram a mensagem trazida pelos onze emissários, os líderes das tribos orientais ficaram espantados:
— Ué, cês são burros ou o quê???
— …
— Viram a gente oferecer algum sacrifício naquele altar que construímos?
— …
— Vamos explicar direitinho o que aconteceu, e se vocês ainda acharem que estamos errados, podem nos matar. O negócio é que começamos a pensar: e se um dia os descendentes de vocês, do ocidente, começarem a botar em dúvida a ligação dos nossos descendentes com Javé, o Tabernáculo e toda a cultura israelita? Sabem como é, esse rio aí bota a maior banca de fronteira, é bem possível que venham a nos considerar um outro povo. Então construímos esse altar como um memorial. Se um dia as tribos do ocidente começarem a querer discriminar as do oriente, sempre teremos o altar como sinal de que somos um mesmo povo.
— Ê, mas que é isso? Que absurdo! Por que é que os da margem oeste discriminariam os da margem leste?
— Ué… Não é isso mesmo que vocês estão fazendo agora?
— …
— Pois então.
— Tá, tá, vocês estão certos. É que a gente precisava ter certeza.
— Nós entendemos.
— Sem rancores então?
— Claro!
Então os mensageiros voltaram a Siló e contaram tudo para os israelitas ali acampados. Eles ficaram contentes com a explicação dada pelas tribos do leste. Não foi dessa vez que Israel foi dividido. Mas vocês não perdem por esperar…
Mês: dezembro 2003
Tom
Há nove anos eu trabalhava num colégio de padres e passava o dia todo na frente de um computador, às vezes trabalhando, na maior parte do tempo escrevendo ou jogando. Ao meu lado um rádio Toshiba que tenho até hoje, sempre sintonizado na Musical FM, que então tocava MPB. O problema é que os programadores da rádio tinham a irritante mania de revelarem novos talentos da MPB. Jabaculê das gravadoras, é claro. Era um inferno ouvir aquelas musiquinhas chatas, letras cheias de falsa grandeza e pretenso lirismo. Hoje posso dizer na maior felicidade que nenhuma daquelas revelações sobreviveu. Mas na época era um inferno: um monte de compositores que se achavam o Caetano Veloso, um monte de cantoras com a voz da Leila Pinheiro. Então foi com alegria que naquela tarde do dia 8 de dezembro de 1994 recebi a surpresa de ouvir quatro músicas de Tom Jobim em seguida. “O que estará acontecendo?”, pensei, “Resolveram ter bom gosto, os malditos?”.
Não, não era um surto de bom gosto: Antonio Carlos Jobim havia morrido naquela manhã, em Nova Iorque, quando se reestabelecia de uma cirurgia à qual se submetera para tirar um tumor da bexiga. A seqüência de músicas do maestro era um tributo, logo depois veio alguma coisa da “nova geração”.
Eu não ouvia mais, no entanto: saí andando pelos corredores do colégio — vazios nas férias escolares — chorando e assoviando “Chega de Saudade”. Eu não conseguia aceitar que Tom houvesse morrido.
Mesmo hoje, nove anos depois, ainda não acredito. É muito triste este mundo sem o Tom Jobim. Muito triste.
Ó merda…
Impressão minha ou os comentários deste blog estão leprosos? Hum…
Tombadilho
Aê, cambada! Anotem aí o novo endereço do Menezes (depois eu explico):
http://tombadilho.blogspot.com
Sem medo
Lúcia é uma menina magrinha, riso fácil, boa filha e irmã. Na véspera de seu aniversário de doze anos ela pega Clotilde, sua boneca preferida, toma chá de mentirinha com ela, conversam um pouco, rezam e vão dormir. Na manhã seguinte, Lúcia acorda sentindo-se estranha. Percebe que ficar deitada de bruços é incômodo e, quando se vira, descobre que lhe cresceu um par de peitos. Peitos que doem, assim como a barriga. Ela vai ao banheiro e descobre pêlos que até o dia anterior não estavam ali. Não tem tempo de ficar notando isso porque há algo mais importante acontecendo: Lúcia está menstruada. Ao sentar-se no vaso, percebe que seus joelhos estão mais altos que de costume. Não é para menos: ela cresceu 25 centímetros durante a noite. Levanta-se e faz uma careta de desgosto ao ver as espinhas em seu rosto. Começa a chorar um pranto estranho, amargo. Volta para o quarto, joga Clotilde longe, bate a porta, liga o rádio numa emissora de rock e se deita na cama, olhando para o teto. A mãe vem ver o que está acontecendo mas é recebida aos gritos. Lúcia se assusta com a própria agressividade, mas a mãe compreende de imediato: é o aniversário de doze anos da filha e ela acaba de se tornar adolescente.
Já imaginaram que coisa amedrontadora seria a adolescência se acontecesse assim, de repente? Penso em como teria sido para mim acordar um dia com pêlos no saco, de pau duro, um bigodinho ridículo, uma voz esquisita, espinhas na cara e toda a insegurança do mundo. Mas não: como tudo na vida, a adolescência é um processo paulatino e você tem tempo de se acostumar a ela conforme vai acontecendo.
Estava pensando nisso a propósito de outro aspecto importante da vida: relacionamentos. Um relacionamento não começa de repente, “Veja só, estamos namorando a partir de agora!”, como um par de tetas surgidos num tórax até ontem liso. Não: há beijos, conversas, encontros, idas à casa um do outro, apresentação às famílias e aos amigos, ciuminhos, essas coisas. Aos poucos ambos vão percebendo que fazem parte de uma mesma coisa, que são uma sociedade de duas pessoas. Um dos dois um dia pergunta: “Ei, estamos namorando?”. O outro pensa um pouco e responde: “É… Acho que sim.”. Então os dois escolhem um dia para ser o marco inicial do relacionamento (geralmente o dia do primeiro beijo). Passa a ser o aniversário dos dois, que serve apenas para que gastem dinheiro. Não significa — NÃO SIGNIFICA — que no dia tal do mês tal ele tenha feito a ela (ou ela a ele, ou ele a ele, ou ela a ela) um pedido formal ou qualquer coisa assim. Quando já sentia cólicas pela terceira vez e seus peitinhos já estavam chamando atenção na rua, Lúcia finalmente se deu conta: “É. Sou adolescente.”.
Sendo assim, não entendo como é que tantas pessoas — homens principalmente — sentem tanto medo. No segundo ou terceiro encontro já estão arredios, olhando para os lados procurando possíveis rotas de fuga para o caso de precisarem sair correndo e gritando “O PROBLEMA NÃO É COM VOCÊ! É COMIGO!”. Não entendo, mas durante quase três anos eu não me comportei de modo diferente: pensava que toda mulher que conhecia estava doida para casar comigo e me prender pro resto da vida. Vaidade das vaidades, tudo é vaidade! E burrice também: custa nada relaxar, aproveitar os bons momentos. Um terceiro encontro não significa compromisso, encontro nenhum, aliás: são apenas encontros. Lúcia pensou que talvez tivesse entrado na adolescência, mas descobriu que era apenas um mal estar passageiro.
Por que o medo, então? Por que ficar encolhido dentro de uma concha? Protege da dor, é verdade, mas do ar puro também. Chega. Eu quero é ser ridículo, romântico, meio bobo e, mais que tudo, correr o risco.
Deixa eu te amar
A Anne (irmã da Fer) ficou com ciúme porque eu botei aqui a foto minha que ela mais gosta, aquela de Agey Pee (em fernandês). Então para aplacar a ira de HÂNne, resolvi gravar uma bela canção. Anne, é pra você, delícia:
Marco Aurélio – Deixa Eu Te Amar
As terras de Josué, as cidades para os fugitivos e para os levitas
Divididas as terras, faltavam só uns detalhezinhos para dar por concluída a tarefa. Pra começar, Josué recebeu suas bem merecidas terrinhas. Ele havia pedido uma cidade chamada Timnate-Sera, na região montanhosa de Efraim, e foi atendido. Já estava sossegado, mas ainda faltava um último trabalho: escolher as cidades de refúgio (para aqueles que matassem alguém acidentalmente) e as cidades para os levitas. Para as primeiras foram escolhidas Quedes, na Galiléia, Siquém, em Efraim, Hebrom, em Judá, Bezer, em Rúben, Ramote, em Gade e Golã, em Manassés do Leste.
Para os levitas, as cidades foram divididas entre os três grupos: para os coatitas descendendentes de Arão foram dadas treze cidades de Judá, Simeão e Benjamim; para os outros coatitas, dez cidades de Efraim, Dã e Manassés do Oeste. Os gersonitas receberam treze cidades em Issacar, Aser, Naftali e Manassés do Leste. Para os meraritas foram cedidas doze cidades em Rúben, Gade e Zebulom. Em seguida são listadas cada uma dessas cidades, mas vocês não vão querer saber, né? Puta negócio chato.
Bom, estava terminada a divisão da terra e os israelitas começaram a distribuir-se por Canaã, cada um conforme sua tribo. Agora só faltava as três tribos que tinham territórios a leste do Jordão voltarem para ocupar suas terras. Mas isso deu uma confusão danada. Nossa, menina, que babaaaaaaado… No próximo capítulo eu conto.
Agepê

Quero te pegar no colo, te deitar no solo e te fazer mulher.
Mais Profetas
Dois novos links ali do lado: ChickenDog e Na minha humilde opinião… O primeiro já era pra estar nos Profetas há décadas, mas o Sr. Paulo Vivan às vezes passa tanto tempo sem postar que a gente pensa que ele vai desistir. Mas ele sempre volta, e sempre se supera. O segundo é o blog do cara que mencionei no post anterior. O Rafael sempre comenta por aqui e eu nunca tinha ido até o blog dele. Sim, sou um relapso. Resolvi começar a ler por esses dias e já viciei.
Divirtam-se.
Situação
Alguém escreve um texto genial. Você lê, fica embasbacado e, como boa pessoas desprovida de inveja e outros sentimentos baixos, elogia. O autor, em vez de agradecer, pergunta o quanto de ironia contém seu elogio. Agora me digam: uma cara que dá uma dessas é ou não é uma biba muito da safada e chupeteira? Pois então! Leiam o último post do Sr. Rafael Batata e digam se não é indiscutivelmente genial. Se concordarem, por favor, mandem o puto tomar no cu.
(Se bem que eu já desconfiava da baitolagem desse rapaz. Aquele link pra cá, “Jesus, me chicoteia! (com paixão e fúria)” deixa entrever uma certa tendência ao cultivo da perobagem)
