Este é um capítulo deveras estranho. Começa dizendo que o povo de Israel foi para o deserto de Zim e acampou em Cades, e que ali Miriã morreu e foi sepultada. Só isso. Miriã, a irmã mais velha sem a qual Moisés talvez tivesse sido apenas um príncipe egípcio, Miriã que ajudou o irmão a fazer um som depois da travessia do Mar Vermelho. As mulheres não merecem mesmo muito destaque na Bíblia, ainda mais mulheres bocudas feito Miriã.
Bom, depois dessa menção en passant (é assim mesmo?) à morte da irmã de Moisés e Arão, ficamos sabendo que não havia água ali onde o povo estava. Então os israelitas começaram com o mesmo reme-reme de sempre: Ah, que aqui não tem água, Ah, que vocês nos tiraram do Egito para que morrêssemos no deserto, Ah, que merda, Ah, puta que pariu. Moisés e Arão, pobres coitados, foram até o Tabernáculo para perguntar a Javé o que deveriam fazer.
— O quê??? Esse povinho já tá reclamando de novo?
— P-pô, Ja-Javé, t-tenta e-entender. N-não t-tem á-água aqui n-nesse l-lugar.
— É um DESERTO, Moisés! O que você queria?
— M-mas s-sem á-água vai a-acabar m-morrendo t-todo mundo…
— Ai meu saco… Tá, tá, vou dar um jeito. Cê vai pegar a vara que está na frente da Arca, aquela que brotou e coisa e tal. Então você e Arão vão reunir o povo em volta daquela rocha ali e na frente de todos vocês vão ordenar à rocha que dê água. A água sairá da rocha e esse povo chato vai calar a boca. Entendeu, Moisés?
— E-entendi.
— E vê se faz tudo do jeito que eu falei. Não inventa.
Então Moisés pegou a vara…
Hehehehehe…
Calaboca, porra. Moisés pegou a tal vara e foi, juntamente com Arão, reunir o povo. Quando conseguiram um silêncio razoável, Moisés pronunciou-se:
— Ô p-povo b-bunda! S-será que e-eu v-vou ter q-que ti-tirar água d-dessa r-rocha p-para vocês c-calarem a b-boca?
Dizendo isso, Moisés bateu duas vezes com a vara na rocha, e dela saiu água suficiente para dar de beber a todo o povo e aos animais.
Que maravilha, não? É… Mais ou menos. Vocês não contavam com a veadagem de Javé:
MOISÉS, QUE PORRA FOI AQUELA???
— N-nem vem, Ja-Javé. F-fiz t-tudo do jeito que v-você m-mandou.
— Fez foi porra nenhuma! Do jeito que você fez parece que o milagre foi seu. E ainda bateu na rocha! Eu não mandei apenas ordenar à rocha que desse água? Cê tá querendo ser mais que eu, Moisés?
— L-longe de mim, Ja-Javé!
— Bah! Agora já decidi: Nem você nem Arão vão entrar na Terra Prometida.
— M-m-m-mas…
— E NÃO CHIE!
E assim foi decidido o futuro de Moisés: Conduzir um povo cabeça dura por um deserto desgraçado a troco de nada. É, pelo jeito deus não gosta de improviso… O lugar onde a pedra jorrou água foi chamado Meribá, que é “reclamação” em hebraico.
Peraí, ô Chicoteia! Acho que você já contou essa história…
Pois é. Já contei, vocês podem ler aqui. Mas não é culpa minha: a Bíblia repete mesmo a história do Êxodo 14, com alguns detalhes de diferença. Pra quem busca verossimilhança na Bíblia, tá aí um nó difícil de desatar.

Comentários alimentam nossa vaidade. Leitores inteligentes que fazem críticas pertinentes AO TEXTO nos ajudam a manter a qualidade do blog e ver onde estamos errando e em que podemos melhorar. Comentários nos permitem descobrir novos blogs interessantes. Leitoras interessantes comentam, o que é sempre bom. Ah, são muitas as vantagens dos comentários.
No entanto, há desvantagens muito grandes também. Leitores burros fazem críticas sem base alguma. Imbecis vêm pedir link e comentários em seus blogs de merda. Barangas começam a se insinuar.
E há os stalkers, pessoas sem vida própria que tentam ganhar destaque às custas de pessoas muito mais inteligentes e capazes do que eles, pobres coitados descerebrados. Não me refiro aqui ao Velociraptor, com quem acho que tenho um acordo tácito (e não expresso) de não-agressão depois que brincamos de “Celebridades Mortas” no chat de sexta-feira. Refiro-me a um outro imbecil, que quer chamar a atenção postando centenas de comentários por aqui.
Por causa disso, e para evitar futuros imbecis (eu sempre contei com a imbecilidade humana e nunca me decepcionei), este blog não terá mais espaço para comentários. Já era tempo. Há moscas demais na minha sopa.
E agora o sacripanta diz que está lendo os bugs do Movable Type para tentar invadir isto aqui, ou foder tudo, ou sei lá que porra. Para ele, minha resposta padrão: Invade logo, babaca! Isto aqui não passa de um blog, isto aqui não é minha vida. Se isso vai te fazer bem, ficarei feliz por ter ajudado.
É isso. E vem a propósito a genial campanha de Tia Cris, a qual apóio (agora por pura solidariedade, já que eu mesmo não terei mais que me preocupar com comentários):

Não é porque eu sei que ela não virá que eu nao veja a porta já se abrindo
E que eu não queira tê-la, mesmo não tendo a mínima lógica esse raciocínio
Não é que eu esteja procurando no infinito a sorte para andar comigo
Se a fé remove até montanhas, o desejo é o que torna o irreal possível
Não é por isso que eu não possa estar feliz, sorrindo e cantando
Não é por isso que ela não possa estar feliz, sorrindo e cantando
Não vou dizer que eu não ligo, eu digo o que eu sinto e o que eu sou
O problema é que eu te amo
Não tenha dúvidas, pois isso não é mais secreto

(Nando Reis – Meu Mundo Ficaria Completo)

Bah, ninguém gostou da volta às tradições, com a barra ali do lado esquerdo. Então ela volta pra direita.
Estão felizes? Hein? Gostaram do que fizeram? Eu escrevo aqui para vocês com todo amor e carinho e é da POSIÇÃO DA BARRA que vocês falam? É isso? Eu não tenho valor nenhum pra vocês, não é mesmo? INGRATOS!
Vou chorar embaixo da pia.
Não, não me acompanhem. Deixem-me sozinho com minha tristeza.

Bom, é isso. Barra do lado direito.

Se vocês prestaram atenção na história até agora — do que duvido — terão notado que as cerimônias de purificação até que eram bem simples: o cara tá imundo, toma um banho, lava a roupa que estiver vestindo e ao pôr-do-sol será considerado puro novamente. Fácil, não? Só que agora os israelitas vão passar 40 anos no deserto e deus não pára um segundo de pensar em atividades para manter suas cabeças ocupadas. E quando eu digo “suas cabeças”, refiro-me às cabeças dos israelitas, não às de deus. Se é que deus… Bom, vocês entenderam.
Neste capítulo, por exemplo, ele resolveu complicar o ritual de purificação inventando uma tal água especial a ser usada na cerimônia. E preparar a tal água não era tão fácil assim: o povo levaria ao sacerdote Eleazar (filho de Arão, vocês já deviam saber, tanto pelo nome do cara como pelo fato de todos os sacerdotes serem filhos de Arão, mas vocês não prestam mesmo atenção em porra nenhuma)… Onde é que eu estava mesmo? Eu sempre me perco nesses parênteses muito longos. Ah, sim! O povo levaria ao Eleazar uma vaca vermelha.
Porra, cê se perdeu mesmo. Mané vaca vermelha!
É SÉRIO! UMA VACA VERMELHA! E uma vaca vermelha especial, que nunca tivesse trabalhado na lavoura, vejam só. A pobrezinha da vaca seria levada para fora do acampamento e sacrificada na presença de Eleazar. Feito isso, Eleazar pegaria o sangue com o dedo para borrifá-lo sete vezes na direção do Tabernáculo. Em seguida a vaca seria queimada juntamente com um pedaço de madeira de cedro, um galho de hissopo e um pedaço de lã vermelha. Feita esse despacho, Eleazar deveria tomar um banho e lavar as roupas para poder entrar no acampamento, ficando impuro até o pôr do sol.
E com isso deus mudou a cerimônia: A partir de então qualquer pessoa ou objeto que ficasse impuro por contato com um defunto deveria ser borrifado com a água da purificação, que nada mais era do que água misturada com as cinzas da pobre da vaca.
Pronto, basta de rituais. No próximo capítulo o bicho começa a pegar de novo.

Depois que quinze mil pessoas foram massacradas por causa de incenso, deus quis amainar um pouco o clima pesado falando em vara. Mas esse negócio das varas foi mal interpretado e só fez o povo ficar mais cabreiro, então deus resolveu que precisava repisar algumas regras e estabelecer outras. E aí vem mais um capítulo cheio de leis e rituais, aquela coisa chata que suportamos durante todo o Levítico e de que não conseguimos nos livrar totalmente no livro dos Números. Em resumo, as leis para os levitas e sacerdotes ficaram assim:

– Arão, seus filhos e todos os levitas seriam responsáveis pelo trabalho no Tabernáculo, mas só os sacerdotes pagariam o pato por qualquer cagada feita. Javé fez isso para evitar matar levitas toda vez que algo saísse errado na Tenda Sagrada. Porque se continuasse assim, logo logo ele ia ter que importar levitas
– Os levitas não deveriam chegar perto do Lugar Santíssimo do Tabernáculo (atrás da cortina) nem do altar
– Toda oferta que fosse trazida ao Tabernáculo e não fosse queimada seria dada aos sacerdotes. Isso incluía animais, cereais, azeite e vinho. Tudo do bom e do melhor.
– Os levitas (incluindo-se aí Arão e seus filhos, os sacerdotes) não podiam ter propriedades
– Os dízimos trazidos pelo povo pertenciam aos levitas. Só que tinha uma maracutaia aí: do que os levitas recebessem, deveriam dar dez por cento a Arão, um dízimo do dízimo. Então se um israelita tinha cem ovelhas e dava dez de dízimo, uma delas seria dada a Arão automaticamente e as restantes seriam dos levitas. Cheio de privilégios, esse Arão.
– Os outros israelitas não deveriam se aproximar do Tabernáculo. Isso foi determinado para evitar levantes e tentativas de tomada do poder no acampamento.

Basicamente é isso. Blablablá, chateação. O próximo capítulo também é chatinho, e depois as coisas voltam a acontecer. Tenham paciência.