Risadinha
Passei um tempão adiando a inauguração desta série. Meus amigos são todos uns ciumentos, e eu ia ter que agüentar nego reclamando: “Por que começou com ele(a)?”. Mas hoje, depois de várias conversas agradáveis, percebi que começar com o Risadinha seria mais do que justo. Não, ele não é meu melhor amigo. Eu não tenho UM melhor amigo: Sâo todos igualmente bons. Amizade para mim é coisa séria. Eu começaria, portanto, pelos meus irmãos, que são as pessoas que eu mais amo no mundo. Mas já puxei demais o saco desses dois, então hoje é dia de Risadinha. Ou Leandro, como a mãe dele o apelida.
Em 1991 nos conhecemos, e foi ódio à primeira vista. Tanto eu quanto ele pensávamos que éramos muito diferentes, e que a única ligação entre nós seria uma aversão recíproca.
Quão enganados estávamos! Na verdade tudo o que tínhamos de semelhante era o que nos assustava, e não demorou muito para percebermos isso: No final daquele ano (cursávamos o primeiro ano do segundo grau), ouvi o Risadinha contar uma história engraçadíssima. Ele tinha deixado um Dadinho (aquele doce de amendoim em forma de cubo) na geladeira, e a avó, pensando que se tratava de caldo de carne, havia botado o dadinho no feijão. “Puta feijão horrível com gosto de paçoca!”, ele concluiu. Naquele momento percebi que estava diante de um irmão. E, como bons irmãos, fingíamos ódio porque admitir o quanto gostávamos um do outro era muito complicado.
A partir de então, todo aquele ódio transformou-se numa amizade sólida e duradoura. Hoje em dia, se eu chego sozinho a algum lugar, as pessoas logo estranham: “Ué, cadê o Risadinha?”. Porque eu sempre quero estar ao lado dele. Questão de status, sabe? É sempre bom andar com pessoas mais inteligentes que você, para parecer que você é inteligente também.
Nesses doze anos brigamos incontáveis vezes. Mas sempre voltamos à velha amizade de sempre. Porque somos irmãos, oras.
Ao contrário do que possam pensar, nunca nos entregamos a arrebatamentos de amizade. Primeiro porque somos ambos machos pra caralho, e esse negócio de sentimentalismo não pega bem. E depois porque não precisamos disso. Eu sei tudo o que ele pensa e sente, e vice-versa. Não há necessidade de explicação nem de reafirmação de amizade nem de qualquer outra coisa. Porque somos irmãos, caralho.

Comprar “aquelas” revistas é sempre uma tarefa complicada. E não venham me dizer que são outros tempos, que tudo hoje é natural, que já não vivemos numa sociedade moralista, que etcetera. Porque o fato é que certas publicações não são, digamos, socialmente aceitáveis.
Ontem mesmo precisei comprar uma revista. Tratei logo de ir a uma banca longe tanto de casa quanto do trabalho. Entrei na banca, e já dei de cara com um obstáculo: A balconista era uma mulher. Mas achei que não ficaria bem dar meia volta e sair. Além do mais, não pretendia voltar lá mesmo. Então botei meu plano em prática.
Para começar, peguei a Playboy. A moça do balcão sorriu pra mim.
— Linda essa moça, não?
— Pois é. Peitões.
— Verdade! Lindos!
Devolvi o sorriso e continuei pegando revistas. Peguei a Sexy e a Ele & Ela. Olhei em volta, como se estivesse em dúvida. Cheguei mesmo — ah, eu sou um ator! — a pegar algumas revistas e devolvê-las à prateleira, como se estivesse mesmo escolhendo. Mas ainda estava longe do meu objetivo real, então continuei disfarçando. Peguei um exemplar da Raspa Brazil e uma Hustler. Para reforçar mais ainda as aparências, juntei à pilha uma G Magazine e uma Travestis.
Considerando que já era uma quantidade razoável, dirigi-me ao caixa. No meio do caminho, vendo onde estava a publicação que era a única que me interessava mesmo, parei e fingi procurar dinheiro na carteira. Para facilitar, botei minhas revistas sobre onde estavam os exemplares da Veja. Quando peguei a pilha de volta, trazia uma Veja sob ela. Gênio! Gênio!
A moça continuava sorrindo.
— Puxa, a Sexy está demais esse mês, não? Olha a carinha de safada dessa menina…
— Pois é.
— Hum… Raspa Brazil, boa escolha. UAU! Esse rapaz da G Magazine desse mês é super bem dotado.
— É, fiquei sabendo.
— Nossa, e o Mauricio Suellen na capa da Travestis, nem tinha visto! Ela faz um sucesso danado em Madri. E…
O sorriso sumiu repentinamente de seu rosto. Gelei e me preparei para a reação de intolerância.
— Olha, acho que o senhor pegou isto aqui por engano…
“Isto aqui” era a Veja, que ela segurava na ponta dos dedos com visível repugnância.
— É que… Er… O… É que tem o Verissimo, sabe?
— Sei. Verissimo. É o que todos falam.
— Mas é verdade! Juro!
— Tudo bem, não tenho nada com sua vida.
— Não, não! Eu faço questão de esclarecer! Voto no PT desde sempre! Tenho até um autógrafo do Suplicy em casa. Leio Sergio Buarque de Hollanda e Celso Furtado.
— Ahan. E deve ter um pôster do Marco Maciel na parte de dentro da porta do guarda-roupa.
— Moça, por favor, é sério! Eu…
— Senhor, não vou discutir.
Falou o valor da compra. Paguei e nem esperei o troco: Saí da banca todo ressabiado, olhando para os lados com receio de que mais alguém tivesse visto a cena.
Estão vendo? Não é fácil!

Pô, nem sou muito chegado a piada. Mas meu irmão me contou uma muito boa ontem, que transcrevo aqui à minha maneira.
Pois aconteceu que morreu o dono do bar. Morreu e foi direto pro céu. Passou uns dias lá e não agüentava mais: Tudo muito parado, aquela pasmaceira. Então um dia criou coragem e foi falar com deus:
— Ja-Javé?
— Ai, caralho, outro gago???
— Hum… Não sou gago não. É que eu tô meio nervoso.
— Não fique nervoso não, rapaz. Pode dizer, o que você quer.
— Sabe o que é? Lá na terra eu fui dono de bar a vida inteira. Não sei fazer outra coisa. Aí chego aqui e… Veja bem, não estou reclamando! Isto aqui é um paraíso!
— Isto aqui é O paraíso.
— Ah, é. Mas então. É tudo muito bom aqui. Mas sinto falta, sabe? Queria tanto poder fazer alguma coisa, me sentir útil.
— Você quer abrir um bar aqui. É isso?
— Se não for incômodo…
— Hum… Bah, tudo bem. Pode abrir seu bar.
— Puxa, deus! Cê é foda! Cê é o melhor! Hosana pra você, viu? Hosana!
— Pára de me puxar o saco. Hosana é o caralho. Trinta por cento.
— Er… Tá bom.
E lá foi o sujeito abrir seu bar. Vendeu dez caixas de cerveja logo na inauguração. No segundo dia, doze caixas. No terceiro, oito caixas. E assim todo dia. Sucesso absoluto. O cara se sentia no céu. O que não era para menos.
Mas, ah, a ambição humana! Dois meses depois, o cara já estava matutando: “Se aqui no céu eu vendo isso tudo, que dirá no inferno? Putz, vou lotar o rabo de dinheiro”.
Foi alimentando essa idéia na cachola, e a idéia crescendo. Um dia decidiu e lá foi falar com deus de novo.
— Diz aê, Jeová.
— E aí, cara? As vendas continuam boas?
— Uma beleza, uma maravilha! Aliás, já depositei os vinte por cento na sua conta.
— TRINTA!
— É, é. Trinta. Então. Mas eu tava pensando: Se abrir um bar aqui dá tanto dinheiro assim, no inferno então deve ser uma beleza, não?
— Sei não. Meu negócio é aqui, de lá eu não sei nada.
— Hum… Ô, Javé, quebra essa! Me arruma uma transferência pro inferno. Tô querendo ampliar meus horizontes, me aventurar pelo desconhecido, ser um empreendedor de verdade.
— Tem certeza? Olha que é sem volta…
— Certeza!
— Então tá.
Deus assinou os formulários necessários e despachou o cara pro quinto dos infernos. E ele não perdeu tempo: Foi logo pegando alvará com o diabo para abrir seu bar. Logo chegou o dia da inauguração. Ele não cabia em si de tanta expectativa.
Vendeu duas cervejas.
No segundo dia, uma cerveja.
No terceiro, outras duas.
Foi falar com o diabo:
— Porra, Satanás! Eu saí lá do céu, onde vendia uma média de dez caixas por dia, pra vir pra cá prestigiar seu território. Aí chego, abro meu estabelecimento, e vendo uma, duas cervejas, sempre pra você e pro porteiro. Que que tá pegando?
— Rapaz, rapaz! Cê precisa entender que crente não bebe!