O Risadinha lembrou muito bem a virada do Jânio sobre o Fernando Henrique nas eleições para a prefeitura de São Paulo em 1985. FHC chegou a se sentar na cadeira do prefeito antes do pleito (pleito!). No fim das contas, Jânio saiu vencedor, e desinfetou a cadeira no dia da posse, para desmoralização do adversário.
E lembrou coisa melhor ainda: A virada do São Paulo sobre o Vasco ontem. Não me entendam mal: Sou são-paulino, gosto de futebol e me emociono quando meu time apronta dessas. Também fico nervoso assistindo jogo. Só não consigo ser apaixonado por futebol, não tenho problema nenhum em deixar de assistir as partidas do São Paulo. Agora perguntem se eu perco UM debate em época de eleição. De jeito nenhum! Não sou doido de perder!

Fico espantado, até meio escandalizado, quando ouço nego dizendo que não gosta de política. Como pode??? Como é possível alguém preferir acompanhar novelas, seriados, campeonatos de futebol ou gamão, se temos a política, meu deus do céu?
Meu interesse pela política foi despertado precocemente: Aos sete anos, nas eleições para governador de 1982. Aquele, aliás, foi um ano de descobertas para mim: fui ao cinema pela primeira vez (Lagoa Azul num dia, Loucos De Dar Nó no outro), a primeira Copa do Mundo (tinha apenas três anos em 78, não ligava para futebol, não ligo muito até hoje). Dentre todas essas pequenas revoluções, no entanto, o que mais me impressionou foi saber que as pessoas podiam juntar-se num determinado dia para escolher seus governantes. E foi então que peguei gosto pelo Horário Eleitoral, que mantenho até hoje. Lembro-me até do resultado daquela eleição: Franco Montoro, então no PMDB (depois fundou o PSDB, e agora que morreu partido nenhum o aceita), foi eleito. Reynaldo de Barros, do PDS (que depois mudou pra outro nome que não me vem a memória, e hoje é o PPB do Maluf) ficou em segundo. Em terceiro, o ex-presidente Jânio Quadros, do PTB. Em quarto, nosso presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT. Por último, Rogê Ferreira, do PDT. Meus pais votaram no Montoro, mas lembro-me muito claramente do meu pai dizendo que se Hélio Bicudo fosse o candidato petista, com Lula de vice, votaria no PT sem dúvida. Guardei aquilo na cabeça e comecei a prestar atenção naquele barbudo que não me parecia tão assustador quanto diziam.
Com a vitória esmagadora da oposição por todo o país, o regime militar estava definitivamente enfraquecido. E em 1984 surgiu a campanha pelas eleições diretas para presidente. O “Diretas Já” tomou conta do Brasil, a frase “Eu quero votar pra presidente” virou o mote de todos os cidadãos. Chorei quando a emenda pelas diretas, de autoria do deputado Dante de Oliveira, foi derrubada pelo Congresso. Mas não havia tempo para chorar: Começava a briga no Colégio Eleitoral, com Tancredo Neves candidato da oposição. Não lembro direito como funcionou isso, houve preliminares, parecia um campeonato na base do mata-mata. Só sei que acompanhei junto com minha amiga Luciene (eu com 9 anos, ela com 13) a disputa entre Tancredo e Paulo Maluf. Terminou com a vitória de Tancredo, e saímos gritando para a rua. Fizemos um monte de músicas bobas xingando o milico da vez, João Figueiredo.
Chegou o dia da posse de Tancredo, em 85, mas ele não foi empossado: teve um piripaque e foi internado, enquanto seu vice, José Sarney, o substituía. No dia 21 de abril (dados oficiais, ninguém sabe nada), morria Tancredo. E lá ia eu chorar de novo. Foram cinco anos de Sarney, e todos sabemos o desastre que foi. Mas ainda tínhamos esperança em 28 de fevereiro de 1986, quando foi lançado o Plano Cruzado. A economista Maria da Conceição Tavares chorava na TV, emocionada com os novos rumos do país. O presidente convocava os “brasileiros e brasileiras” para uma batalha contra a inflação. E no primeiro momento foi isso mesmo que se viu: consumidores munidos de tabelas de preços fiscalizando os estabelecimentos, gente fechando supermercados e cantando o Hino Nacional. Enlouquecemos todos: Não havia mais inflação, nossa moeda valia mais que o dólar, maravilha! Mas desandou, a inflação voltou mais forte que nunca, nada deu certo. No final do ano houve eleições novamente, com o PMDB se consolidando na posição de maior partido do país. Naquelas eleições o mais importante era eleger bons representantes para o Legislativo. Afinal, seriam eles os homens responsáveis pela nova Constituição. Ninguém foi bem informado sobre isso, no entanto, e os picaretas de sempre acabaram eleitos, com honradas exceções, como Ulysses Guimarães, que veio a ser presidente da Assembléia Constituinte e Lula, então deputado federal mais votado da história. A nova Constituição ficou pronta em 5 de outubro de 1988.
E finalmente, em 1989, o povo teve a oportunidade de eleger seu presidente. Tudo corria bem, com políticos tradicionais (Ulysses, Covas, Maluf, Aureliano Chaves, Lula, Brizola) na disputa. Mas a mídia descobriu o então governador de Alagoas, Fernando Collor de Melo, emprestando a ele a figura de austero, moralizador, messias. A disputa foi acirrada entre ele e Brizola até a última semana. Mas Lula surpreendeu na última hora e acabou indo para o segundo turno com Collor. O povo votou com medo e deu no que deu: Um maluco na presidência, confisco das cadernetas de poupança, bandalheira nunca vista em Brasília, e impeachment depois de dois anos de mandato. Nossa primeira eleição presidencial depois de quase trinta anos fora um fracasso. Dela ficou o fortalecimento de Lula e os candidados folclóricos: Há quem não se lembre de Marronzinho e Pedreira, mas não há como esquecer o Enéas, por mais que se queira. Surgido naquele ano, o candidato do PRONA ganhou visibilidade nacional e hoje é o deputado federal mais votado da história, suplantando o recorde de Lula (ou de Maluf, não lembro direito).
Com o impeachment, foi a vez de Itamar. Topete, a volta do Fusca, Lilian Ramos sem calcinha ao lado do presidente. Tempos engraçados, os do Itamar. Mas foi então que surgiu o Plano Real, que ficou definitivamente associado ao Ministro da Fazenda na época, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que soube muito bem deitar na cama.
Primeiro em 1994, quando ganhou já no primeiro turno, deixando Lula a comer poeira. Motivo de festa: O povo havia aprendido, e elegia um intelectual, um homem equilibrado e honesto para a Presidência. FHC tinha tudo para ser a maior figura da política nacional de todos os tempos, mas preferiu trocar seu lugar na História pela garantia de mais um mandato. Vendeu a alma (suspeito que até o corpinho) para conseguir fazer passar a emenda da reeleição. Triste. Concorreu em 1998 novamente, contra um Lula desmotivado. Ganhou novamente no primeiro turno, mas não com a mesma folga de 94. O povo começava a perceber que nem só de Plano Real vivia o “hômi”.
No segundo mandato, a base de apoio a FHC foi se esfacelando. O PSDB tinha dificuldades para escolher o candidato à sucessão. A morte de Mario Covas abriu um rombo no partido, que demorou para recuperar-se. E com tanta gente boa no tucanato, foram escolher justo o Zé Serra. Oras, todo mundo sempre soube que uma levantada de sobrancelha do Covas (ou do Paulo Renato, com aquelas sobrancelhas imensas) tem mais carisma que o Serra, mesmo que ele se esforce muito.
Deu no que deu: escaldado pelas derrotas, com o comando de sua campanha e uma ampla base de apoio, cercado de pessoas confiáveis e com um bom histórico, Lula finalmente chegou lá.
Porra, eu não sei como tem gente que não se emociona com essas coisas e prefere assistir corrida de fórmula 1…

Acordei tarde hoje, perdi o fretado e tive que encarar mais de uma hora e meia de transporte público. Quando isso acontece, boto um CD no discman, aumento o volume e vou ouvindo música. Já no terminal Bandeira, esperando o ônibus dentro do qual gastaria 40 minutos até o Brooklin, estava ouvindo Tim Maia. E vocês sabem como é a música do Tim, não tem como não dançar e cantar junto. Não ligo pra isso: Canto alto e fico balançando a cabeça em público mesmo, já que ninguém me conhece. Só que hoje aconteceu que eu estava protagonizando essa cena ridícula quando adivinhem quem apareceu na minha frente? Maconhado! Digo, meu cunhado! Coitado, não sabia o tipo de genes que estava enfrentando quando se casou com minha irmã…

Enfim, fui assistir Fale Com Ela, novo filme do Almodóvar.

— VOCÊ????
Não enche, caralho.
Arram.
Fui lá. Gosto pra caralho do Almodóvar. Assisti poucos filmes dele, mas posso dizer que o cara tem a manha. Não sei o que são as tais “cores de Almodóvar” de que fala Adriana Calcanhoto. Não sou sensível a esse tipo de coisas, e tudo o que me interessa num filme é a história. Claro que a forma como a história é contada e a qualidade dos atores é importante, mas tudo isso para ajudar a história a ser agradável. E os filmes do diretor espanhol são assim: Cheios de alegria, dor, amargura, loucura, absurdos, diálogos banais recheados de uma sabedoria esparsa, coincidências improváveis. Você assiste e nem parece filme. Parece a vida mesmo.

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Belos peitos os daquela mina em coma…

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Caetano Veloso está no filme, numa cena comovente, acompanhado pelo indefectível Jacques Morelembaun (acho que são xifópagos), pelo menor baixista do Brasil, Jorge Hélder e por um Zé lá no violão. E tem mais música brasileira: Elis Regina cantando “Por Toda a Minha Vida”, de Tom e do Vinícius e uma citação a “Amor em Paz”, dos mesmos autores, feita pelo personagem Marco, um xará muito gente boa.

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Eu só queria lembrar quem foi que escreveu que a Maria Bethânia faz o papel da toureira. Se foi uma piada, queria congratular o autor, muito boa. Se não, queria esmurrar a fuça do fulano.

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Assistam.