Acabo de fazer uma descoberta que nem toda a modéstia do mundo vai fazer calar: eu sou brilhante. Cliquem aqui para ver e ouvir este que vos fala tocando e cantando Refazenda, do Gilberto Gil. Se minha interpretação é brilhante? Claro que não! Só desafinando e maltratando meu pobre violão, como sempre. Mas minha careca brilha que é uma boniteza, podem reparar.

Tá, tá, eu sei que todo mundo sempre reclamou que o PT não fazia alianças, e agora chegou a hora. Mas tinha que ser justo com o PL? Não vejo vantagens nessa aliança. Quando o PSDB uniu-se ao PFL em 1994 para levar Fernando Henrique ao poder, todo mundo criticou, e com razão. Um partido que se dizia social-democrata ficar de namorico com o maior símbolo da oligarquia no Brasil, isso era absurdo. Mas pelo menos era pragmático: O PFL é um partido grande, garantia de muitos votos. O que é o PL? Não chega a ser uma legenda nanica, mas também não é nenhum partido respeitável.
Lula pensa que atrairá o voto dos evangélicos, mas não é bem por aí. Talvez alguns fiéis da Igreja Universal acabem mesmo votando no PT, já que são literalmente um rebanho (não se esqueçam que nas últimas eleições os pastores da Universal apregoavam que Lula era a encarnação do Satanás, vejam como são as coisas). Mas o pessoal da Assembléia de Deus, por exemplo, vota no Garotinho, e acho que os Presbiterianos também. Os Batistas votam no Lula, mas não por causa da aliança com o PL: Batistas e Petistas têm muita afinidade, falo por experiência própria.
Talvez a intenção do PT seja mais sutil: Mostrar com este gesto que é um partido maduro, responsável. Mas não sei se muita gente vai entender o recado.

Sim, a invasão da fazenda do presidente foi abusiva. Nisso todos concordamos, até o Lula disse isso. Só acho ridículo o Fantástico dar destaque ao telefone quebrado. Vocês viram o telefone? É aquele preto de teclas grandes, que se pode comprar por 25 reais em qualquer loja. E ninguém garante que o tal telefone vagabundo já não estivesse quebrado. Mas tudo bem. Os sem-terra que invadiram a fazenda exageraram. Isso não torna ilegítimo o MST. A organização não pode controlar o que faz cada um de seus membros, e não pode ser responsabilizada por tais atos. Por exemplo: Se o Inocêncio Oliveira é um safado, sem-vergonha, ladrão e corrupto, como todos sabemos que é, ninguém tem coragem de sugerir que o PFL seja extinto. E vejam que estamos falando de um dos caciques de um grande partido político, e não de meia-dúzia de peões que, empolgados pelo fato de estarem na sede da fazenda do presidente, resolveram direcionar sua vingança cega para o lado errado.
Ah, e não é que o rico não seja preso no Brasil. É preso sim, mas a polícia vai até a casa dele, espera que ele tome seu banho e pegue umas roupas, e vão conversando com ele até a delegacia. Como vimos no caso do Jáder Barbalho, mesmo quando isso acontece, até juiz trabalha de domingo pra soltar o cara. Onde já se viu, um rico na cadeia? Ser criminoso ou não é o de menos, o cara é rico e poderoso, onde estamos! Mas quando são uns miseráveis que ousam levantar a cabeça por um momento, pronto: Deita no chão vagabundo, rasteja na lama, pobre tem que andar de cabeça baixa, será possível que você ainda não aprendeu isso? E eu sei que tem muita gente que viu aqueles sem-terra deitados no barro e achou bonito.
Bom, resumindo meu pensamento, apelo para Bertold Brecht:
Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário. E agora não contente querem
privatizar o conhecimento, a sabedoria,
o pensamento, que só à humanidade pertence.
A corrente impetuosa é chamada de violenta
Mas o leito do rio que a contém
Ninguém chama de violento.
A tempestade que faz dobrar as betulas
É tida como violenta
E a tempestade que faz dobrar
Os dorsos dos operários na rua?
Quem se defende porque lhe tiram o ar
Ao lhe apertar a garganta, para este há um parágrafo
Que diz: ele agiu em legítima defesa. Mas
O mesmo parágrafo silencia
Quando vocês se defendem porque lhes tiram o pão.
E no entanto morre quem não come, e quem não come o suficiente
Morre lentamente. Durante os anos todos em que morre
Não lhe é permitido se defender.
Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de
hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem
sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.

Deixamos o servo de Abraão na beira do poço esperando que as moças da cidade viessem buscar água. Pois ele mal acabou de estabelecer o critério pelo qual escolheria a noiva de Isaque quando viu Rebeca aproximando-se, carregando um cântaro no ombro. Rebeca, lembrem-se, era neta de Naor, irmão de Abraão. O servo ficou de queixo caído: a moça era linda. Esperou que ela tirasse a água do poço e, quando já estava indo embora, correu até ela.
— Moça! Ô, moça! Tô com uma sede danada, será que a senhorita não podia me dar um golinho d’água?
Rebeca deixou que ele bebesse e se ofereceu para tirar água também para os camelos. Despejou o conteúdo do cântaro no bebedouro dos animais e voltou várias vezes ao poço até que os camelos estivessem saciados (e sede de camelo não é brincadeira, vocês sabem). Enquanto ela ia e voltava com o cântaro, o servo ficou só na miúda, observando a moça. Quando os camelos terminaram de beber, ele pegou uma argola para nariz pesando 6 gramas de ouro puro (vejam que já existia piercing naquela época) e duas pulseiras de mais de cem gramas cada uma, também de ouro, e deu os presentes a Rebeca. Em seguida perguntou:
— Você é daqui? Quem é o seu pai? Será que tem lugar na casa dele para os meus homens e eu passarmos à noite?
Hum… Embora isso não tenha sido dito antes, o servo não foi sozinho. Acho que nem era necessário dizer: Partir para uma viagem longa, passando pelo meio do deserto sozinho seria suicídio. Ou então esse negócio de “meus homens” significa outra coisa, e o servo era coleguinha de Lot. Vai saber…
Mas Rebeca, muito educada, respondeu:
— Meu pai é o Betuel, filho de Naor. Lá na nossa casa tem lugar para dormir e bastante palha para os camelos também.
Ao saber disso, o homem se ajoelhou e adorou a deus, agradecendo por tê-lo guiado até dar de cara com alguém da parentela de Abraão. Olhando lá de cima, deus ficou meio envergonhado: não tinha interferido em nada, e parecia que os homens podiam se virar muito bem sem ele. Pela primeira vez na História, deus duvidou da própria existência.
Rebeca correu para a casa dos pais para contar o que havia acontecido. Notem que ninguém ainda falou em Isaque, então dá pra imaginar que a moça tava de olho era no servo. Pensando bem, aquele negócio de “Pode beber, e vou pegar água para os camelos também” e “Sem problema, vocês podem dormir lá em casa”, sei não… Acho que o tal servo perdeu uma excelente oportunidade de se passar por rico e faturar a donzela. Coitado…
Rebeca tinha um irmão chamado Labão.
— Lobão?
Não, Labão.
— Ah, Lobão!
NÃO, porra, Labão! Prestem atenção nesse cara. Até agora os personagens da bíblia eram ou bonzinhos ou malvados. Creio que Labão é o primeiro a ter um caráter dúbio, o que o torna mais convincente como personagem. Labão viu a irmã com uma argola de ouro no nariz e duas pulseiras enormes, ouviu a história toda, fez uns cálculos rápidos de cabeça e foi depressinha ao encontro do servo de Abraão, que ficara esperando em pé ao lado do poço.
— Meu senhor, como vai? O que o traz até essas quebradas, um homem tão distinto, tão elegante? E por que está aqui ainda? Simbora, já preparei a casa para recebê-los.
O empregado foi com ele até a casa. Lá chegando, Labão descarregou os camelos e lhes deu palha e capim. Depois trouxe água para que os homens lavassem os pés e mandou trazer a comida. Puro interesse, claro.
O servo, no entanto, disse que só comeria depois de contar o que o levara até ali. Doido de curiosidade, Labão pediu que ele se sentasse
— Sou todo ouvidos, senhor.
O servo contou toda aquela história que já sabemos, do juramento para Abraão, do critério que inventara para escolher a moça, do encontro com Rebeca.
— E foi isso. Agora é com vocês.
Nem era preciso dizer. Abraão era aquele tio rico do qual raramente tinham notícias. Era a oportunidade para saírem da pindaíba.
— Meu senhor — disse Labão, todo bajulador — quem somos nós para decidir alguma coisa, se tudo isso veio de deus? Pode levar a Rebeca para que ela se case com o filho do seu patrão, como deus determinou.
Então o servo tirou da bagagem vários objetos de prata e de ouro e vestidos e os deu de presente a Rebeca. Deu também presentes caros para Labão e sua mãe. Vejam que o velho Betuel não apitava nada nessa casa: não tomou parte na decisão de dar a filha em casamento e também não ganhou nenhum presentinho…
Os homens comeram, beberam e passaram a noite na casa de Betuel. No dia seguinte, quando se preparavam para a viagem de volta, Labão veio falar com eles:
— Cês vão levar minha irmã embora? Mas já? Queisso! Acho melhor ela ficar por aqui mais uns dez dias e depois ela vai. Sabe como é mulher, demora pra arrumar as coisas, não pode ser assim, de uma hora pra outra.
Claro que o velhaco do Labão estava querendo mais presentes. Se Rebeca ficasse mais dez dias, os homens também ficariam, porque a viagem era longa e não valia a pena ir para Canaã e voltar depois. Além disso, o servo tinha feito um juramento a Abraão, não queria chegar dizendo “Olha, achei uma noiva para Isaque, lindíssima, virgem e neta do seu irmão, do jeitinho que o senhor queria. Mas deixei ela por lá mesmo”. Já imaginaram a reação do velho? Por isso o servo bateu o pé e disse que estava indo e pronto.
— Tudo bem, tudo bem. — disse Labão — Vamos chamar Rebeca, ela que decida. Rebeeeeeecaaaaaaaa! Ô, Rebeca. Cê quer ir com eles?
Pensando na vida de fartura que levaria dali pra frente, ela não pensou duas vezes:
— Ôpa! Tamozaí!
Rebeca chamou a mulher que havia sido sua babá para ir com ela, montaram nos camelos e começaram a viagem.
* * *
Isaque vinha andando cabisbaixo, no caminho de volta do poço de Laai-Roi (que significa Aquele que vive e me vê). Ele saíra à tardinha para meditar. Ainda estava muito triste com a morte da mãe. Não tinha irmãos que o ajudassem a superar essa dor, e não era de muita conversa com o velho, todos sabemos por quê. Aos quarenta anos de idade, permanecia solteiro, e sem perspectiva de encontrar alguém. Perdido nesses tristes pensamentos, olhou para o horizonte e viu uns camelos se aproximando. Rebeca também olhou e viu aquele homem tão bonito e tão triste, e perguntou ao servo de Abraão quem era aquele.
— É Isaque, filho do meu patrão.
Rebeca pôs o véu no rosto e foram ao encontro de Isaque. O servo contou a ele tudo o que ocorrera desde sua partida, mas Isaque mal ouviu sua história: Estava hipnotizado pela beleza de Rebeca.
Naquele tempo e lugar o casamento não era essa coisa chata de hoje, com uma pilha de papéis para assinar, roupas desconfortáveis para vestir e festas intermináveis para ficar até o fim sem tirar da cara o sorriso de noivos felizes: Isaque apenas pegou Rebeca pela mão e a levou para tenda que havia sido de Sara (e se Sara tinha uma tenda só dela, é mais um indício forte de que ela e Abraão haviam se separado). Isaque foi consolado, enfim, da perda da mãe. Os dois viveram felizes, mas não posso dizer que tenha sido para sempre. Rebeca também aprontou as dela, como veremos mais tarde.

Hoje em dia quando alguém quer te fazer jurar alguma coisa, só diz “Jura?”. Aí você responde “Juro” e a pessoa se dá por satisfeita. Mas nos tempos de Abraão não era assim, como veremos agora.
Abraão já era bem velho. Quando Sara morreu, o patriarca contava 137 anos de vida. Sabendo que ia morrer e Isaque não arrumava mulher de jeito nenhum, e preocupado com a possibilidade de o filho estar indo pelo mesmo caminho cor-de-rosa trilhado por seu sobrinho Lot, Abraão tratou de acelerar as coisas: Chamou seu servo mais antigo, o que administrava tudo o que tinha e disse a ele:
— Põe a mão debaixo da minha coxa para me fazer um juramento.
Coisa mais esquisita essa fórmula de juramento, né não? Bom, tentem entender, Abraão estava viúvo, sozinho, melancólico. Precisava de um pouco de calor humano e foi buscar isso com seu servo mais fiel. Ah, vai, todo mundo está sujeito a uma escorregada… Mas vamos ao juramento:
— Jura por deus que você não vai arrumar mulher pro meu filho aqui na terra dos cananeus, mas irá até minha terra pra trazer pra ele uma namorada que seja da minha família.
O servo, que era bastante prático, levantou logo uma objeção:
— E se a mulher não quiser vir comigo? Vou ter que fazer o Isaque ir lá pra sua terra pra se casar? Trabalheira da porra…
— Não, de jeito nenhum! Deus me tirou de lá há tantos anos, e a terra que ele me prometeu é esta aqui. Vai pra lá, e que deus te ajude nessa empreitada. Mas se a mulher for ranheta mesmo e não quiser vir, paciência, você fica livre do juramento, só não faça Isaque ir pra lá.
Então o servo colocou a mão sob a coxa de Abraão (que coisa!) para fazer o juramento solene. E foi logo tratando da viagem: pegou dez camelos e foi pra Mesopotâmia (Síria), para a cidade onde morava Naor, irmão de Abraão. Chegando perto da cidade, fez os camelos se ajoelharem perto de um poço aonde as moças da cidade iam à tarde para fazer fofoca, trocar dicas de beleza e, claro, tirar água. Pô, o cara era um administrador de fazenda, e não tinha o mínimo dom para alcoviteiro. Então resolveu apostar na sorte mesmo:
— Ô, deus do meu chefe Abraão! Faz assim: quando as moças começarem a chegar eu vou começar a pedir a elas que me dêem um gole d’água. A primeira que me der água e também se oferecer para tirar água para dar de beber aos camelos, essa será mulher do Isaque, beleza?
Bom, era um critério como outro qualquer. O servo ficou em pé perto do poço e pôs-se à espera da caravana de donzelas.
E deus, lá de cima, pensou que esse negócio de arrumar casamento pras pessoas até que daria um bom programa de televisão. Mas pensou melhor, virou para o outro lado e voltou a dormir.

Antes de contar mais essa história triste, temos um trecho falando que Abraão recebeu notícias de casa. Naor, seu irmão, tivera oito filhos com Milca: Uz, Buz, Quemuel, Quésede, Hazo, Pildas, Jidlafe e Betuel. Além desses, Naor ainda tivera quatro filhos com sua concubina Reumá: Teba, Gaão, Taás e Maaca. Qual a relevância disso pra nossa história? Bom, primeiro várias sugestões de nomes para os filhos de meus leitores. Imagina que chique, ter gêmeos e chamá-los de Uz e Buz. Dá até uma dupla sertaneja. Mas o importante mesmo é que Betuel teve uma filha chamada Rebeca. Além de ser a única em toda essa família a ter um nome normal, ela ainda desempenhará importante papel em nossa história. Aguardem.
* * *
Mas é isso, Sara, nossa velhinha encrenqueira, morreu aos 127 anos de idade. Confessem que vocês já estavam criando uma certa simpatia por ela. Ela morreu em Quiriate-Arba e veio Abraão chorar por ela. Reparem nisso, o cara veio. Vejam que aquele negócio do sacrifício de Isaque pode ter sido mais sério ainda, causando a separação dos pais.
Depois de chorar a morte de Sara, Abraão foi falar com o povo de Hete (que era onde ficava Quiriate-Arba) para arranjar sepultura para a morta. E a cena que se segue mostra bem a característica do negociante oriental, cheio de cerimônias:
— Olha, povo de Hete, vocês sabem que eu sou estrangeiro e tal e coisa. O negócio é que morreu minha velha, que ficou a vida inteira comigo, e estou procurando um lugar para sepultá-la.
E o representante deles respondeu:
— Abraão, você é um princípe de deus aqui pra gente. Escolhe a sepultura que você quiser entre as nossas, e será nosso presente.
E Abraão se reclinou em respeito a eles e disse:
— Já que é assim, falem com Efrom, filho de Zoar. Ele é o dono da cova de Macpela; falem com ele para que ele me venda a sepultura pelo preço justo.
O tal Efrom estava no meio dos caras e se manifestou:
— Queisso, Abraão? Você é gente boa, e sua finada esposa também era, todo mundo gostava dela. Eu te dou a cova e o campo onde ela está de presente, deixa de viadagem. Tá todo mundo aqui de testemunha.
— Ah, Efrom, eu agradeço muito — respondeu Abraão, reclinando-se novamente —, mas faço questão. Me fala o seu preço, eu compro o campo e a sepultura.
— Pára com isso, Abraão! — Agora vem a malandragem — O valor dessa tera é de quatrocentos siclos de prata, uma ninharia, o que é isso diante da nossa amizade?
Abraão entendeu o recado: Pesou a quantidade de prata estipulada e pagou a Efrom. E sepultou Sara na cova de Macpela.

Já tem gente achando que eu sou algum tipo de evangelista enrustido, divulgando a bíblia e disfarçando isso com piadas. A verdade é que eu tive uma formação protestante e gosto das histórias da bíblia. Quanto a deus, eu prefiro pensar que ele não existe. Porque imaginar que exista um ser capaz de tanta crueldade, de tantas piadas de mau gosto, ah, é assustador demais.