Eu fui doutrinado para ser comunista. Estudei em escola municipal de periferia. Toda escola tem um professor de História meio comuna, isso não é segredo pra ninguém. Mas minha escola era diferente. Nas eleições de 1986, o professor de Educação Física dizia que a gente tinha de convencer nossos pais a votar no PT. Eu voltava pra casa e falava isso. Meus pais diziam que era uma estupidez. Eu me sentia incompreendido.
O doutrinamento prosseguiu por todo o primeiro grau, atravessou o segundo grau e mostrou a cabeçorra em todas as faculdades que tentei cursar. Funciona mais ou menos assim: esquerdistas autoritários se fazem passar por esquerdistas libertários, a única posição política aceitável. Você acaba aceitando como verdade plena que a única forma de ser libertário é ser um libertário de esquerda. Se você passa para a direita, passa a ser automaticamente um autoritário.
Ficamos com um esquema meio capenga, de apenas dois lados: a esquerda libertária e a direita autoritária. Direita libertária, eles dizem, é uma contradição de termos. Esquerda autoritária, que é o sonho deles, é um conceito negado com ênfase ou, no máximo, aceito como fase de transição para o verdadeiro comunismo. O stalinismo, as execuções na China e em Cuba, tudo isso são dores do crescimento. Mais cedo ou mais tarde, esses países viriam a ser paraísos de igualdade e fraternidade entre os homens — não fosse a nefanda influência do capitalismo com seus dentões amarelos e afiados.
Não entendeu? O tio desenha:

O quadrante-fantasma
Segundo meus doutrinadores de esquerda, só podem existir o quadrante 1 (azul) e o quadrante 3 (verde). O quadrante vermelho pode existir de vez em quando. Quadrante roxo nunca existiu nem existirá, então o que cê tá fazendo aí, menino encapetado?
Direitista, libertário e ateu. Tô pensando em virar travesti e corintiano, só pra ver gente chorando pelos cantos.






