As idéias precisam encontrar outras idéias diferentes delas, de outra linhagem. Aí elas podem se conhecer e ter ideiazinhas filhotes. Só que o que mais se vê é gente que só convive com quem tem idéias iguais. Essas idéias da mesma linhagem ficam se reproduzindo.Essa reprodução consangüínea é que gera as ideiazinhas retardadas que a gente é obrigado a aturar todo dia.
Todo mundo conhece gente que votou no outro candidato. Vai lá, conversa, tenta entender. Tem coisas boas lá, garanto.
Categoria: Política
A casa no Butantã
Agora que os mensaleiros foram julgados e presos, a onda é tentar desviar a atenção do público para fatos acessórios que nada têm a ver com o caso. Um deles é o sobradinho do José Genoíno no Butantã. A massa difusa de militantes petistas nas redes sociais começou a compartilhar as fotos do sobrado com o título irônico de “A mansão de Genoíno”. O argumento: se Genoíno roubou como estão dizendo, por que continuava morando nessa casinha de merda?
Esse pessoal acha que a gente é retardado.
O negócio do Mensalão não era pagar uma mesada a parlamentares de OUTROS PARTIDOS para que votassem com o governo? Não era um esquema do PT para ganhar força e apoio político? Então por que caralhos essa gente compartilha no Facebook a foto do sobradinho do Genoíno? Genoíno não foi condenado por enriquecimento ilícito. Foi condenado por formação de quadrilha e corrupção ativa (por oferecer vantagem indevida a outras pessoas).
Isso não é uma exceção. O PT funciona assim: seus quadros entram em esquemas de corrupção assim que sobem ao poder. Não para enriquecer, mas para enriquecer o partido. De orelhada, lembro do esquema de coleta de lixo em Ribeirão Preto e do outro em Santo André, que acabou na morte esquisita do Celso Daniel.
Políticos comuns roubam para enriquecer. O PT rouba para comprar voto e passar as leis que estão na agenda do partido.
Genoíno está velho, doente e com depressão. É triste, só um monstro não sentiria compaixão. Mas o que a história da casa dele não é compaixão: é a tentativa de criar um mártir. Querem plantar na mente do público a idéia de que a justiça condenou um inocente.
Genoíno não é inocente. Era presidente de um partido que comprava voto de parlamentares. Como presidente do partido, participou do esquema, assinou papéis. A casa do Butantã não entra nessa conta.
Teste fajuto
Quem lia este blog no tempo em que ele ainda estava vivo sabe que eu não resisto a um teste. Sim, esses testezinhos safados de internet. Você responde umas perguntas e no final sai lá o resultado: que personagem de Friends você é, que planeta do Sistema Solar, para que círculo do inferno você vai, essas coisas.
Um tipo de teste que eu adoro é o de ideologia. Eu conhecia o Politicômetro da Veja e o Political Compass; em ambos me saio como liberal de direita:
Esta semana a Folha de S. Paulo publicou seu próprio teste de tendências políticas e é claro que eu não resisti. Fui fazendo, estranhando as perguntas, e no final veio a surpresa desagradável: centro-esquerda.
Então percebi que o teste foi feito já pensando nisso mesmo: tudo o que é bom, bonito, moderno é de esquerda. Tudo o que é ruim, feio e retrógrado é de direita. A Folha acha que eu sou retardado. Querem ver? Vamos às perguntas.
1. Posse de armas:
- Arma legalizada deve ser um direito do cidadão para se defender
- Deve ser proibida, pois ameaça a vida de outras pessoas
Eu não quero ter arma, não gosto de arma, não sei nada sobre armas. Tenho vontade de fazer umas aulas de tiro, imaginar várias pessoas que me irritam no lugar dos alvos, mas só isso. Esse sou eu. Os outros são os outros. Entendo quem se sente mais seguro tendo uma arma em casa. Eu moro numa casa, é muito fácil entrar lá. Às vezes penso que seria bom ter uma arma. O ladrão entra no escuro, eu desço a escada sem fazer barulho e engatilho minha Schwimm-Larson .45 (sei nada de arma) e o cara se caga de medo. Eu mando ele deitar no chão, amarro o sujeito com pedaços de varal, chamo a polícia. O cara vai preso, eu dou entrevistas posando de herói humilde.
Tá, minha cabeça funciona assim, eu sou doente, não vem ao caso. Armas são perigosas, mas a vida anda perigosa também. Num jogo assim, é bom ter algum cacife. Uma criança pode pegar a arma e se matar? Pode. Ela também pode morrer afogada na piscina ou entornando uma panela de água fervendo. A vida é perigosa.
Bom: sou a favor da legalização das armas, com as restrições cabíveis. Isso me faz um monstro reacionário direitista do inferno? Que seja. Próxima pergunta:
2. Migração
- Pobres que migram contribuem com o desenvolvimento
- Pobres que migram acabam criando problemas para a cidade
É claro que os migrantes contribuem com o desenvolvimento, diabo. Meus pais e tios vieram da Bahia e fizeram muito mais por São Paulo do que São Paulo fez por eles. Isso para mim não tem discussão. Todo mundo é livre para ir aonde estão as oportunidades de trabalho. Isso é liberdade individual, bandeira do liberalismo. Mas é óbvio que a Folha pensa que minha opinião faz de mim um esquerdista. Paciência.
3. Homossexualidade
- Deve ser aceita por toda a sociedade
- Deve ser desencorajada por toda a sociedade
Aceita. Deve ser aceita. Liberdade individual. O que é que a sociedade tem que se meter no que o indivíduo faz na cama (ou no chão, ou no carro, ou no banheiro da boate enquanto cheira cocaína)? Quem disser que a homossexualidade deve ser “desencorajada” (como faz?) não é de esquerda nem de direita: é idiota.
4. Pobreza
- Boa parte está ligada à falta de oportunidades iguais
- Boa parte está ligada à preguiça de pessoas que não querem trabalhar
Só existem essas opções? O mundo não é justo, lide com isso (eu ia escrever “deal with it”, mas aí iam me acusar de vendido ao capital americano ou sei lá que ofensas a esquerda usa hoje em dia). Há oportunidades, mas elas não são iguais, assim como as pessoas não têm todas a mesma capacidade, talento, sorte etc. Voto na primeira opção porque é nojento dizer que o pobre é pobre por ser preguiçoso. Quem acha isso, mais uma vez, é idiota. E aí dou essa opinião e a Folha, contra minha vontade, me empurra um pouquinho mais para a esquerda.
5. Pena de morte
- Não cabe, mesmo que a pessoa tenha cometido um crime grave
- É a melhor punição para indivíduos que cometem crimes graves
Sou contra a pena de morte pelo mesmo motivo por que sou contra o aborto: algo muito forte dentro de mim me diz que a vida é sagrada. O ex-artista Caetano Veloso fala do cardeal “… que vê tanto espírito no feto e nenhum no marginal”. Eu vejo tanto espírito no feto quanto no marginal e sou contra terminar deliberadamente a vida de qualquer um dos dois. Essa coisa de achar que a vida é sagrada tem um quê de religião, eu sei. Religião, segundo a Folha, é coisa de direitista. Só que sou contra a pena de morte, então dou mais um passo à esquerda. É um caralho.
6. Sindicatos
- Servem mais para fazer política do que para defender os trabalhadores
- São importantes para defender os interesses dos trabalhadores
Os sindicatos existem para defender os interesses dos trabalhadores, e houve época em que faziam isso mesmo. Isso acabou. Líderes sindicais querem fazer carreira política e ganhar dinheiro. Estou falando de orelhada, dos sindicatos que já conheci. Talvez ainda exista algum à moda antiga. Como só posso falar do que conheço, primeira opção.
7. Criminalidade
- A maior causa é a falta de oportunidades iguais para todos
- A maior causa é a maldade das pessoas
Durante muito tempo eu fiz muito esforço para acreditar na primeira opção. Mas não, né? Tem gente ruim no mundo, muita gente ruim. Há quem não seja exatamente mau, mas que prefira o caminho mais fácil de roubar. E existe gente que é levada ao crime pelas circunstâncias, claro que existe. Gente que comete um crime e depois não dorme de consciência pesada. É a maioria? Já tentei achar que sim. Hoje acho que não. Há maldade no mundo. Esse negócio da esquerda de achar que todo mundo é bonzinho seria até bonito se não fosse uma mentira consciente e sem-vergonha.
8. Adolescentes
- Aqueles que cometem crimes devem ser reeducados
- Aqueles que cometem crimes devem ser punidos como adultos
Vocês podem não acreditar, mas eu já fui adolescente. Tinha total consciência de tudo o que eu fazia, e noção de causa e efeito. Eu sabia que se fizesse merda ia me acontecer merda. Adolescentes devem ser punidos, só tenho dúvida quanto a esse adendo “como adultos”. Se significa ir pra cadeia junto com os marmanjos, discordo porque NÃO CABE MAIS NINGUÉM NA CADEIA, PORRA. Se significa ser preso, cumprir pena, pagar a tal dívida com a sociedade ao lado de outros dimenors, concordo.
9. Drogas
- Uso não deve ser proibido, pois o usuário é o mais penalizado
- Uso deve ser proibido, pois a sociedade é a mais penalizada
Libera tudo. Liberdade individual. “Ah, mas a saúde pública…” O sistema público de saúde é uma merda e vai continuar sendo uma merda. Além do mais, não vão ser 190 milhões de brasileiros trincadões de cocaína ou chapados de maconha. Quem usa vai continuar usando, alguns que não usam vão experimentar.
10. Religião
- Acreditar em Deus torna as pessoas melhores
- Acreditar em Deus não necessariamente torna uma pessoa melhor
Ah, sim, porque ESSA é a questão mais importante sobre religião. Pergunta idiota. Só acreditar em Deus não faz ninguém ser melhor. Deixar de acreditar também não.
E aí vem o resultado:

Ô, Folha, vai à merda. A única coisa que eu tenho de centro-esquerda é o pinto.
Quem acordou esse gigante?
É tanto barulho que até este blog saiu do coma. Vou escrever umas coisas que estou pensando agora, depois vou atualizando este post (enquanto a Abin deixar).
Desde que começou a onda de protestos, eu tenho me manifestado no Twitter apenas com estupefação. Não entendo o que está acontecendo. Lá no começo, tipo quinta-feira passada, parecia que era só eu. Depois do que aconteceu na terça-feira e do que acontece agora mesmo no país inteiro, cada vez mais gente entende cada vez menos.
Era pelos 20 centavos de reajuste na tarifa de ônibus. Aí depois não era mais pelos 20 centavos, até a Lady Gaga teve o cuidado de me informar isso. Haddad e Alckmin reduziram as tarifas em São Paulo, Paes e Cabral no Rio, e o povo disse que ia sair hoje para comemorar. Foi aí que eu não entendi mesmo nada: se era pelos 20 centavos, por que falaram que não era? Se não era pelos 20 centavos, comemorar o quê?
Hoje de manhã, li a notícia que pela primeira vez me deixou preocupado: o PT e outros movimentos de esquerda preparavam uma “Onda Vermelha” pelo país. Todos os protestos até agora estavam hostilizando os partidos. Gente do PSTU e PCO foi escorraçada nas ruas. Essa atitude do PT, convocada pelo cacique Rui Falcão, só podia ser provocação.
Acho que era provocação mesmo. Hoje em São Paulo, cenas de manifestantes queimando bandeiras do PT. Não é só a bandeira de um partido: há 10 anos, PT e governo são uma só coisa, e o governo tenta fazer o povo acreditar que governo e Nação também são uma só coisa. Quem queimou bandeira do PT prestou um serviço ao próprio PT. Fingindo um embarque tardio nas manifestações, o PT conseguiu pretexto para sair amanhã posando de vítima. Vai ser a brecha que o governo esperava para adiantar pontos que estão na agenda desde 2003, a começar pelo controle dos meios de comunicação.
Há quem diga que os acontecimentos de agora profetizam um golpe da direita. Filhos, a direita não consegue organizar nem uma quermesse, que dirá um golpe. O único golpe que pode surgir agora é de dentro do próprio governo. O Estado, que já vive com dois dedos no cu da gente, se prepara para enfiar os dois braços e bater palma. E conheço um monte de tonto que, já com o rabo anestesiado depois de tanto tempo, vai aplaudir junto.
Um post todo torto para declarar meu voto
Antes que o presidente Lula venha acusar este blog de omissão (sei lá, até dia desses a Abin acompanhava o JMC) ou que os blogueiros progressistas (aquele pessoal que vive caçando uma teta estatal) me enfiem no saco da tal mídia golpista, declaro logo meu voto: no segundo turno, vou de José Serra.
Blé.
Saudade de 2002, quando eu sabia bem o que queria. Foi a última vez que votei de verdade. Os leitores que estavam por aqui já naquela época vão se lembrar de minha campanha ativa pela eleição do Luiz Inácio. Eu fui à posse do Luiz Inácio. Eu sou uma besta.
Veio o mensalão, que muita gente tratou como só mais um escândalo de corrupção. Eu vi o mensalão como coisa mais séria: quem tramou aquilo não dá a mínima para democracia, instituições, divisão entre poderes. Quem tramou aquilo quer mais é foder com tudo e comer a gente na rua.
Eu, hein.
Em 2006, anulei tudo. Entre Lula e Alckmin, eu queria mais é que se lascassem os dois. Este ano, não deu. Dilma ameaçava ganhar no primeiro turno. Dilma, uma mulher sem passado nenhum, sem experiência nenhuma e, vamos falar a verdade, burrinha que dói. Lula é ignorante e grosseiro, mas nunca foi burro. Botar gente burra no poder é um perigo. Gente burra é muito manipulável (eu sei do que estou falando, já fui muito mais burro do que sou hoje). Gente burra acha que está decidindo quando a decisão foi tomada na véspera e sem consulta. Pior de tudo: gente burra é chata pra caralho.
Então fiz minha parte para levar a eleição para o segundo turno: votei em Levy Fidélix. E agora, como eu dizia, vou de José Serra. Tenho orgulho disso? Não. Não gosto do PSDB, acho um partido besta. O vampirão é teimoso, autoritário (já falei da lei antifumo aqui) e feio que dói. Mas a alternativa me assusta muito mais. Dilma é mais teimosa e mais autoritária — só não digo que é mais feia porque aí a briga é acirrada. Dilma não responde perguntas. Dilma é um boneco de ventríloquo. Dilma é autoritária daquele jeito meio atravessado da esquerda, que finge que não é autoritário enquanto te pisa na garganta — Lula e Zé Dirceu (epa) já deram o tom do que vai ser a liberdade de imprensa no que depender deles.
Em 2002, eu sabia exatamente o que era melhor para o país. Hoje eu não sei nada de nada. Lá vou eu, pois, apertar o tal do 45 dia 31 de outubro. Vai ser um voto sem graça pra danar. Zé Serra não me diz muita coisa. Não é um cara que eu convidaria para entrar na minha casa, se é que vocês me entendem. Se eleito, vai passar quatro anos ali sem feder nem cheirar — talvez ainda pegue mais quatro anos, vai saber. Ainda prefiro isso à Dilma.
O que eu queria mesmo era o Levy Fidélix.
Não.
O que eu queria mesmo era que essa história do Laerte fosse verdade:

Dilma é Dunga
Do Claudio Manoel, o Seu Creysson do Casseta & Planeta:
Quando um cara que está no ramo das piadas há duzentos anos precisa recuar diante da fúria militante, e um jornalão aprecia o ato, é porque estamos vivendo tempos estranhos. Cláudio Manoel disse:
Quando se “sacaneia” alguma celebridade sempre se deve contar com a reação até raivosa dos fãs, mas acabei provocando uma ira santa, uma jihad.
De volta às trevas
Em fevereiro deste ano, o Google resolveu inventar moda de novo. A Gringolândia tem lá seu plano nacional de banda larga. O Google resolveu palpitar nesse plano de um jeito bem legal: vai construir e testar uma rede de fibra óptica em algumas cidades que se inscreveram no projeto. O negócio é levar a fibra até a casa do usuário com banda de 1Gbps, e os provedores de serviço que se virem para decidir o que vão vender. Com tanta banda, dá pra colocar internet muito rápida, televisão, telefonia e o que mais o cara imaginar.
Fibra óptica é das coisas mais legais que já inventaram. Não tem nada de mais: é um tubo de vidro esticado até ficar bem fininho. Com vários tubinhos desses juntos e encapados, faz-se um cabo de fibra óptica. Esse cabo transmite dados na forma de pulsos de luz. É um negócio resistente, relativamente barato, eficiente. E serve para levar dados de um lado para outro.
Aqui no Brasil a gente demorou para conhecer as maravilhas da fibra óptica. Até o meio da década de 90, as telecomunicações estavam nas mãos gordurentas do Estado. Eu era estagiário da Telesp em 1993 e entrei numa central telefônica uma vez. Ficava no subsolo e você tinha de usar um protetor de orelha para entrar lá. A central chaveava todas as ligações dos bairros do Ipiranga, Liberdade, Cambuci e outros que não lembro mais. Cada ligação feita nesses bairros chegava à central por fios de cobre e fazia aquele tec-tec-tec de telefone de disco. Coisa da Idade das Trevas do estatismo, do Sistema Telebrás que vocês, jovens, tiveram a sorte de não conhecer.
Veio a privatização, hoje tem fibra óptica por todo canto. Só que as empresas são malandras: vendem pra gente pacotes de internet + TV por assinatura + telefone como se fossem necessariamente três coisas diferentes. Pois não são, ué. Tudo isso é informação. Com largura de banda suficiente, dá pra trafegar esses bits todos na mesma fibra óptica e vender como uma coisa só.
Daí vai que o governo brasileiro anunciou agora o Plano Nacional de Banda Larga. E quem foi que apareceu aí no meio? A Telebrás, que era a guardiã da Idade das Trevas, e que todo mundo achava que já tinha morrido. Eu achava também. Até o final de 2008, quando o povo da redação da revista onde eu trabalhava descobriu uma alta absurda nas ações da Telebrás. Não conseguimos levantar nada na época. Parece que essas ações já subiram 22.000% desde que o Lula assumiu; quem tinha mil reais em ações da Telebrás na época pode vender tudo por 220 mil hoje e comprar uma casa. E agora ficou claro o porquê: segundo o tal plano, é a Telebrás que vai coordenar o negócio todo.
O governo diz que quer levar banda larga pra todo mundo, quadruplicar o acesso até 2014. Acontece que fibra óptica é que nem partido político: aceita qualquer coisa. Uma rede estatal de telecomunicações espalhada pelo Brasil com preço subsidiado. Sei não, sei não… Nada impede serviços de voz e TV por assinatura de trafegar por essa rede. O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, está todo empolgadinho com o projeto. Vi ele falando hoje na televisão; só faltou revirar os olhinhos. E falou um troço interessante hoje: “se a iniciativa privada tiver condição de fazer a última milha e fizer isso bem conectado com o nosso plano, com os incentivos do governo, ótimo. Se não fizer, nós vamos dar um jeito de fazer”. Olha aí o pensamento da Idade das Trevas.
Dia desses o Lula falou a mesma coisa da hidrelétrica de Belo Monte: “se as empreiteiras não fizerem, eu faço”, ou algo assim. A cada dia que passa, sinto mais forte um cheiro de repartição pública no ar, um futum de naftalina. É o Estado botando as manguinhas de fora, e não tem um Google que venha nos salvar.
Fundamentalistas
Por mais de sete anos eu tenho agüentado comentários furibundos de fundamentalistas cristãos que odeiam meus escritos hereges. Agora, depois do post sobre a Yoani, tenho de agüentar também os fiéis devotos de São Fidel, São Guevara, São Stalin. Esses são ainda mais fanáticos. Religião é uma coisa do capeta mesmo.
Desce até o chão, Yoani
Essa moça magriiinha aí do lado é Yoani Sanchez. Você já ouviu falar dela. É uma cubana, autora do blog Generación Y. Vejam a foto do perfil dela no blog. A mulé é zuada, tadinha. Mas também, o que eles comem lá? Cana e charuto?
Yoani quer vir ao Brasil. Yoani quer dançar funk rebolando até o chão. Yoani quer mais é beijar na boca. Quer conhecer as pessoas, quer ver as praias, quer entrar numa churrascaria pra depois ter as histórias mais incríveis pra contar em Havana (“Aí o cara vem com um espeto de carne DESTE tamanho e te dá quanto você quiser”, ela diz para os cubanos incrédulos). Mas ela não pode.
No blog dela, Yoani escreve sobre a vida em Cuba. Não é uma boa vida. Depois de 30 anos dependente da União Soviética, Cuba passou por um perrengue desgraçado nos anos 90. Hoje, depende do petróleo de Hugo Chávez. Sei não, acho que era melhor depender dos russos. Pelo menos as roupas deles eram melhores. Tem aquela história da Itália fascista, que o Mussolini era bom porque os trens chegavam na hora certa. Numa entrevista à Época, a Yoani diz que algo parecido aconteceu em Cuba quando Raul Castro assumiu o poder: sem os discursos compriiiidos de Fidel Castro, as novelas brasileiras começam na hora certa. Fora isso, não mudou nada: a comida ainda é pouca, e a Yoani cada vez mais magrela. Ó a foto. Tadinha.
Yoani escreve lá o blog; também escreve artigos para publicações mundo afora. Ganhou prêmios, apareceu na Time como a 31ª pessoa mais influente do mundo. Depois de mais de dois anos de blog, ela tomou o caminho natural: lançar um livro com um apanhado de posts e tentar faturar uns caraminguás. Só que, é claro, essa coletânea do Generación Y é muito mais relevante do que a média dos livros baseados em blogs.
A Editora Contexto vai lançar o livro dela no Brasil. A edição brasileira do livro escapou por uma sílaba de ter nome de filme pornô: De Cuba Com Carinho. O lançamento é este mês. A editora quer trazer Yoani para o Brasil e ver se ela, fraquinha como é, agüenta uma tarde de autógrafos. Mas está difícil da mulher vir para cá, e não é porque ela tenha medo de ser assaltada ou atacada por jaguatiricas.
Cuba é igual a Coréia do Norte, só que mais animadinho. Duvido que na Coréia do Norte as pessoas saiam às ruas dançando mambo. Fora isso, os dois países são prisões para seus cidadãos. Eu não vou discutir se o regime é bom ou ruim. É uma merda, é uma aberração, mas não vou discutir. Só digo o seguinte: da única vez que eu precisei sair do Brasil, meu único empecilho foi o visto de entrada no país de destino. Ninguém por aqui disse que eu não podia sair do país. Fui lá, fiz meu trabalho, voltei. Mas em Cuba não é assim. Nego sai e não volta, porque a vida por lá é uma merda. Sabendo que a é uma merda, o governo não deixa neguinho sair. Fácil.
MENSAGEM SUBLIMINAR: Quando você se sentir tentado a agradecer ao Estado por interferir na sua vida, lembre-se de Cuba.
Yoani quer rosetar no Brasil, só que ela não pode sair de Cuba. Ninguém pode, ela pode menos ainda. O blog dela é bloqueado em Cuba. Ela só arruma empregos ilegais, como dar aulas particulares (sim, isso é ilegal em Cuba). Em entrevista à Veja, ela fala da campanha suja que o governo faz contra ela. Sair do país seria impensável.
Tia Cris está acompanhando o caso e participa da campanha para trazer a mulézinha ao Brasil. Tem muita gente querendo a mulher aqui para o lançamento do livro; basta fazer uma busca no Google que você acha. E vai achar também esse povinho esquisito dizendo que a direita quer trazer Yoani Sanchez para o Brasil como um troféu do imperialismo e da série B do Paulista. Sei lá, papo de comunista é muito confuso. Essa gente diz que Cuba é um país livre, com eleições democráticas. Devem ter confundido com outra ilha. Tem muita ilha na América Central, é fácil confundir. Essa gente também diz que a direita brasileira está em campanha aberta para trazer Yoani ao Brasil e assim desmoralizar o regime livre e democrático de Cuba. Com vocês, uma das vozes da direita brasileira:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=CDnTxt1mb-E&w=320&h=265]
O Suplicy! O Suplicy ama Cuba, meudeusdocéu. Quando não está fazendo seu gabinete de albergue nem levando a namorada para passear com dinheiro público, o senador sonha com a brisa socialista que sopra nas praias cubanas. Pois até ele quer Yoani no Brasil. Sem muita convicção, falando com cuidado para não criticar o regime cubano em nenhum momento, mas mesmo assim: até o Suplicy quer que a mulézinha (tadinha) venha ao Brasil para o lançamento do livro dela. Eu também quero. Não li o blog dela, nem sei se ela é boa bisca. Mas a mulher quer viajar. As pessoas devem poder viajar. Né?
A mão peluda do Estado bolinando os negócios particulares

Corre, pega a estaca!
Todo mundo achando linda essa lei que proíbe o fumo em ambientes fechados. Eu não fumo, então poderia não dar a mínima pro assunto. Mas o caso é que não gosto de ver o Estado se metendo na vida das pessoas. O Estado que cuide do que é público: do que acontece na minha casa, cuido eu. No meu bar. Na minha empresa. Se eu resolver fumar, minha marida vai me mandar fumar na rua. E eu vou acatar, que não sou besta. Esse acordo vale para todos os lugares. Numa empresa:
— O que vocês acham, os funcionários devem fumar dentro da empresa ou não? Não? Então o que acham da gente reservar aquela sacada ali como fumódromo? Legal? Então pronto.
Eu trabalhei numa empresa que ocupava dois prédios de 20 andares. Havia uma área para fumantes no térreo e outra no 16º andar. Os que fumavam (eu fumava, na época) tinham que ir para uma dessas áreas quando queriam pitar um bocadim. No 16º tinha até uma lanchonete onde era permitido fumar — quem não tolerava fumaça podia ir a uma das outras lanchonetes do prédio, ué. Só que a lei do Serra proíbe os fumódromos, claro, e tira das pessoas o direito de decidir se vão tolerar ou não o cigarro, e em que nível.
Se o tabaco não é droga ilícita, então as pessoas devem decidir onde seu uso é tolerado ou não. A nova lei trata as pessoas como débeis mentais, e elas aceitam esse papel de bom grado. E se eu quiser abrir um bar só para fumantes? Por que o dono do bar não pode decidir se é permitido fumar lá no bar dele? Ou se é permitido só numa área? Quem achar ruim, que não vá ao bar dele. Outro dono de bar vai proibir o cigarro. Fumantes que achem outro lugar pra ir dar suas baforadas. Outro vai permitir o fumo totalmente e vender maços de Marlboro a dez reais pra encher o cu de dinheiro. O bar é dele, o cu é dele, o dinheiro também será.
Mas nãaaaaaaaao. O negócio é estimular o dedurismo (tem um 0800 pros dedos de seta), é jogar as pessoas umas contra as outras, é gastar dinheiro público pra fazer propaganda dessa lei tão legal. Tem até uma ampulheta, e eu imagino que começou a juntar gente em volta às onze da noite, tudo de ancinho e tocha na mão pra sair caçando fumante à meia-noite — sendo que há um ser muito mais perigoso à solta. Zé Serra quer proibir coxinha nas escolas, quer proibir quentão em festa junina, quer proibir cigarro nos bares. Daqui a pouco ele proíbe água benta na igreja e todo mundo vai achar bonito.






