Hoje, em piulas:

  • Minha sobrinha inventou de jogar joquempô hoje. Durou pouco. Joguei tesoura, ela também. Joguei papel, ela fez um arco com os bracinhos e gritou: “BURACO NEGRO! GANHEI!” Por mais que eu pensasse, não consegui achar nada que vencesse o buraco negro.
  • Eu estava tentando pensar em um texto em que eu usasse a expressão “um lote de bauxita” como tradução de “a lot of bullshit”. Quando inventei, me pareceu genial. Aí falei em voz alta e vi que não tinha graça nenhuma. Fiquei triste.
  • Sabe aquelas piadas que começam falando em “droga”, dando a entender que se trata de substância entorpecente, mas na verdade se trata de uma banda, um time de futebol, um político etc? Tipo: “Resolvi parar com as drogas. Comecei dando ao porteiro minha camisa do Corinthians”. Sabe? Então. O negócio da piada é ter uma virada surpreendente. Essas piadas não surpreendem mais ninguém. Já eram velhas no tempo do Barão de Itararé.
  • Falando nisso, não agüento mais piada com a Preta Gil e o Rubens Barrichello.
  • Eu queria ouvir, ler e ver mais piadas ofensivas. Piadas racistas, piadas com aleijado, piadas com religião. Quando dizem “com isso não se brinca” é porque o assunto oferece muito material pra quem quiser fazer graça. Além do mais, quem fala “com isso não se brinca” é sempre profundamente babaca. Repare.
  • O título deste post tem nada a ver com o conteúdo.

Corre, pega a estaca!

Corre, pega a estaca!


Todo mundo achando linda essa lei que proíbe o fumo em ambientes fechados. Eu não fumo, então poderia não dar a mínima pro assunto. Mas o caso é que não gosto de ver o Estado se metendo na vida das pessoas. O Estado que cuide do que é público: do que acontece na minha casa, cuido eu. No meu bar. Na minha empresa. Se eu resolver fumar, minha marida vai me mandar fumar na rua. E eu vou acatar, que não sou besta. Esse acordo vale para todos os lugares. Numa empresa:
— O que vocês acham, os funcionários devem fumar dentro da empresa ou não? Não? Então o que acham da gente reservar aquela sacada ali como fumódromo? Legal? Então pronto.
Eu trabalhei numa empresa que ocupava dois prédios de 20 andares. Havia uma área para fumantes no térreo e outra no 16º andar. Os que fumavam (eu fumava, na época) tinham que ir para uma dessas áreas quando queriam pitar um bocadim. No 16º tinha até uma lanchonete onde era permitido fumar — quem não tolerava fumaça podia ir a uma das outras lanchonetes do prédio, ué. Só que a lei do Serra proíbe os fumódromos, claro, e tira das pessoas o direito de decidir se vão tolerar ou não o cigarro, e em que nível.
Se o tabaco não é droga ilícita, então as pessoas devem decidir onde seu uso é tolerado ou não. A nova lei trata as pessoas como débeis mentais, e elas aceitam esse papel de bom grado. E se eu quiser abrir um bar só para fumantes? Por que o dono do bar não pode decidir se é permitido fumar lá no bar dele? Ou se é permitido só numa área? Quem achar ruim, que não vá ao bar dele. Outro dono de bar vai proibir o cigarro. Fumantes que achem outro lugar pra ir dar suas baforadas. Outro vai permitir o fumo totalmente e vender maços de Marlboro a dez reais pra encher o cu de dinheiro. O bar é dele, o cu é dele, o dinheiro também será.
Mas nãaaaaaaaao. O negócio é estimular o dedurismo (tem um 0800 pros dedos de seta), é jogar as pessoas umas contra as outras, é gastar dinheiro público pra fazer propaganda dessa lei tão legal. Tem até uma ampulheta, e eu imagino que começou a juntar gente em volta às onze da noite, tudo de ancinho e tocha na mão pra sair caçando fumante à meia-noite — sendo que há um ser muito mais perigoso à solta. Zé Serra quer proibir coxinha nas escolas, quer proibir quentão em festa junina, quer proibir cigarro nos bares. Daqui a pouco ele proíbe água benta na igreja e todo mundo vai achar bonito.

O UOL vai abandonar o pop-up (aquela janelinha de propaganda que abre sempre que você entra no site) em janeiro de 2009. Tem gente comemorando. Eu acho que essa notícia teria sido legal em 2002. Além do mais, tem a diferença entre o que eles falam e a verdade subjacente.
Os caras do UOL dizem que tinha mais gente clicando no pop-up do que reclamando. Só que agora eles perceberam que a maioria dos internautas usa algum tipo de bloqueador de pop-up. Isso significa, eles dizem, que o pop-up é intrusivo, chato e cuzão. Então vão acabar com o popup porque o público não gosta, e eles trabalham para satisfazer o público. No seu lugar, vão colocar uma coisa bem mais legal e agradável, chamada anúncio dhtml. Segundo os caras do UOL, o dhtml é muito mais legal, porque fecha sozinho. Muito bom, né?
Né não.
O dhtml também aparece na frente do conteúdo que você quer acessar. Fecha sozinho? Fecha, mas depois de uns segundos. Ou seja, é igualzinho o pop-up. Com uma diferença: os bloqueadores de pop-up não bloqueiam anúncios dhtml.
Havia mais gente clicando no pop-up do que reclamando. Ora, mas é claro. Estranho mesmo seria o contrário. Para clicar num pop-up, você move o ponteiro do mouse até ele e clica. Diabo. Para reclamar, você tem que escrever um e-mail, ou pegar o telefone e ligar para a central de atendimento ou para a ouvidoria do UOL. São níveis de esforço diferentes.
Só que os caras do UOL perceberam que 65% dos visitantes do portal usavam bloqueador de pop-up. Eles dizem que isso mostrava que o pop-up era intrusivo. Na verdade, isso mostrava que o pop-up não estava mais aparecendo, portanto as pessoas não estavam clicando, e portanto o UOL ia ter de baixar o preço desse espaço publicitário. Então aposentaram o pop-up e colocaram no lugar dele um formato de anúncio mais irritante e difícil de contornar.

O povo clama para que eu me manifeste sobre o seqüestro de Santo André. E eu nem sabia que tinham seqüestrado o apóstolo…

Tá, mentira. Ninguém me perguntou nada. Mas digo mesmo assim: consegui passar a semana inteira docemente ignorante sobre o que acontecia num buraco qualquer de uma cidade-dormitório. Outras coisas aconteciam em outros buracos de outras cidades-dormitório, e é claro que não me interessavam. Então por que eu daria atenção a esse caso específico? Só porque a imprensa ficou falando nisso?
Bom, não consegui manter minha total ignorância, infelizmente. Matei aula na sexta-feira porque já sabia qual seria o tema: há anos os professores de jornalismo se desesperam em busca de um assunto diferente dos casos Escola Base e Bar Bodega. Esse novo caso de trapalhada midiática deve ter sido um alívio para eles. Atenção: se você pretende estudar jornalismo algum dia, prepare-se para debater o seqüestro de Santo André à exaustão.
De resto, minhas opiniões permanecem mais ou menos as mesmas desse outro post. E o rato de Green Mile ainda me comove mais.

Web 2.0, Era da Participação, Cauda Longa. Só eu tenho vontade de vomitar quando alguém começa com essas conversinhas? Parece que sim. Parece que tem gente por aí que acredita tanto no poder das mídias sociais (?) que está vendo se tira uma casquinha dessa onda. Vejam: se eu compro um produto com defeito, ligo para quem me vendeu, explico a situação, vejo se tem conserto. Se me enrolarem, exijo que troquem o produto. Se não trocarem, devolvo e pego meu dinheiro de volta. Simples. Né?
Né não. Segundo Ian Black, né não. Ele teve lá um problema com um notebook. Imagino a irritação, a frustração por não poder usar um brinquedo novo. Eu mesmo comprei um brinquedo esta semana e estou que não me agüento, esperando a entrega. Então entendo, é claro. O que eu não entendo é o Ian querer que a Dell:

  1. mande um técnico até a casa dele para consertar o notebook
  2. devolva o dinheiro que ele pagou

Ele diz que dar o notebook de presente seria um bom negócio para a Dell. Que ele vai falar bem da Dell pra todo mundo se isso acontecer. E ainda vai doar o bicho para uma ONG. Eita!
Precisa acreditar muito nesse papo de Web 2.0 para fazer uma proposta dessas em público. Ora, imaginem se a Dell resolve dar notebooks para todo mundo que tiver problemas com seus produtos. Vai ser o cão de saias!

Minha amiga Ieda e os leitores Daniel e Rafael me deram um toque sobre a resposta da livraria para a história toda. Vocês podem ler a resposta aqui e aqui. Nessa comunidade do orkut há toda uma discussão sobre o assunto. Na íntegra:

Gostaríamos de esclarecer alguns pontos sobre a acusação feita por Leonardo Cuisse Araújo em carta publicada no DCI de quinta-feira, 8 de maio de 2008, na coluna assinada por Sebastião Nery. Leonardo é funcionário da Livraria Cultura e está afastado desde abril de 2007 por motivos de saúde. Ele iniciou tratamento médico contra um câncer em agosto do ano passado e teve todos os custos cobertos pela seguradora de saúde com a qual a Livraria Cultura mantém contrato desde abril de 2006. Como a quimioterapia oral (uso do medicamento Temodal) prescrita para Leonardo não tinha cobertura do plano de saúde, conforme cláusula contratual, e seu custo era extremamente elevado, a Livraria Cultura decidiu arcar com esta despesa para que Leonardo pudesse seguir seu tratamento adequadamente. A Livraria Cultura pagou a quimioterapia oral de Leonardo por seis meses e, neste período, se ofereceu para pagar os honorários de um advogado para que ele acionasse judicialmente o Estado para receber dele o medicamento. Afinal, este é um direito constitucional de todo cidadão brasileiro. O funcionário não quis acionar o Estado, sem qualquer justificativa. Mas, em março de 2008 a Livraria Cultura descobriu o porquê. Leonardo já havia acionado o Estado e, através de uma tutela antecipada, já tinha assegurado o direito de receber o Temodal gratuitamente. Dessa forma, tornara-se desnecessário o fornecimento do medicamento pela Livraria Cultura, o que era feito por mera liberalidade.
Diferentemente do que o Leonardo afirma, ele continua associado ao referido plano de saúde. A Livraria Cultura também não mudou de plano de saúde, como Leonardo menciona em sua carta. A seguradora apenas trocou a rede credenciada e, inclusive, Leonardo dispõe agora de duas redes de atendimento, a própria da seguradora e uma rede terceirizada com cobertura nacional. Ou seja, Leonardo continua tendo todo seu tratamento pago pela seguradora e ainda tem o direito de receber a medicação prescrita pelo Estado.
A Livraria Cultura é uma empresa idônea e todos os comprovantes necessários para a verificação da veracidade do que afirmamos nesta carta estão disponíveis em nossa sede, como a tutela do Estado e a apólice em vigor de seu plano de saúde. O seguro saúde empresarial contratado pela Livraria Cultura está de acordo com a Lei 9656/98 e cumpre todas as exigências da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
Sem mais,
Livraria Cultura S.A

Ou seja, é possível que eu, tão metido a cético, tenha caído numa armadilha. Pior: posso ter influenciado outros. Por isso, peço desculpas a vocês. A história pode ser verdadeira ou não, mas eu não tinha o direito de publicar só um dos lados. Nada a ver com regras do jornalismo, mesmo porque este não é um blog de jornalista. Por decência mesmo. Agora releiam a história do funcionário, a resposta da livraria, e tirem suas conclusões. Eu, de minha parte, concluo que vou esperar mais desdobramentos e comprar pipoca pra ver a briga.

Leiam isso.
O que dizer? Sou cliente fiel da tal livraria há anos. Se há uma razão para essa preferência, são os funcionários: educados, informados, dão dicas de leitura aos clientes. Mas se é dessa forma que a empresa os trata, eu ainda tenho Saraiva, Submarino, Amazon. Se vocês puderem me acompanhar no boicote e espalhar a mensagem, agradeço.