(II Reis 11)
— Eu sou rei ou não sou?
— Claro que é, majestade.
— ENTÃO EU QUERO UM LEÃO, CARALHO!
— Majestade, essa linguagem não é adequada…
— CA-RA-LHO! CA-RA-LHO! CA-RA-LHO!
— Tudo bem, majestade, vou arrumar seu caral… digo, leão. Só vamos precisar construir um muro bem alto no pátio, senão ele come a girafa que o senhor também pediu. Fora isso, há mais alguma coisa que eu pos… majestade?
O rei tinha adormecido enquanto o sacerdote Joiada falava. Vendo seu senhor jogado daquele jeito no trono, a coroa tombada de lado, um fio de baba no queixo, Joiada questionou seus atos mais uma vez. Talvez a conspiração para levar Joás tivesse sido um erro. Bom, ele consolava-se, pelo menos tinha livrado o coitado da velha maluca.
A velha maluca era Atalia, mãe do rei Acazias e filha de Acabe e Jezabel. Com seus cabelos desgrenhados e olhos constantemente arregalados, ela era o terror e a diversão das crianças de Jerusalém. Quando saía à rua ou ao pátio do palácio, um bando de moleques — seus netos, inclusive — a acompanhava de longe, gritando ofensas e atirando pedras.
Então Acazias morreu e Atalia matou seus netos um por um, proclamando-se rainha de Judá.
Ela reinou por seis anos, malucando no palácio e ignorando a conspiração. Sua filha, Jeoseba, desconfiara ao ver a mãe se aproximando demais dos netos. Então pegou Joás e o levou para casa. Seu marido, o sacerdote Joiada, trancou o menino no templo enquanto pensava no que fazer com ele.
Joiada pensou, pensou, pensou.
Joiada ponderou, pesou prós e contras, consultou sua consciência.
Joiada falou com especialistas e pedagogos, e contratou uma consultoria de análise de risco.
E então Joiada finalmente decidiu: não podia se precipitar.
Então pensou mais um pouco, pesou os prós etc.
Depois de seis anos, resolveu que Joás era herdeiro legítimo do trono de Judá.
Bom, reconhecer que Joás merecia o trono era uma coisa; outra coisa era levá-lo até lá. Atalia era maluca mas não era besta. Sua fraqueza: ela trouxera para Judá a religião de seus pais. O culto a Baal era uma ofensa para os habitantes de Judá, muito menos adeptos da diversidade do que seus irmãos de Israel. Além disso, Atalia não era descendente de Davi. Para Joiada, dava samba.
No dia seguinte à sua decisão, Joiada convocou ao templo os generais do exército de Judá. Primeiro os fez jurar segredo do que veriam em seguida e lealdade a ele, ao Templo e a Javé. Os generais não eram bestas de bulir com Javé, então juraram, e Joiada mandou lhes apresentou Joás.
— Esse é Joás, descendente de Davi e legítimo herdeiro do trono de Judá.
O efeito foi melhor do que ele esperava. Os generais estavam cansados das maluquices de Atalia. Gastavam um tempo precioso todos os dias escrevendo relatórios sobre o andamento dos projetos de expansão da rainha. Na segunda-feira marchavam sobre o Mediterrâneo, na quinta atiravam flechas incandescentes sobre a Etiópia. Num dia informavam que tinham derrubado a lua, noutro reportavam um cerco ao sol. A rainha dava risinhos, dançava e batia palmas. Uma palhaçada. E agora vinha o sacerdote com o rei verdadeiro, da casa de Davi. Não precisava nem tê-los feito jurar: eles fariam qualquer coisa para que a vida voltasse ao normal.
Para aumentar o efeito, Joiada mandou trazer os escudos e lanças que haviam pertencido a Davi, e entregou as armas aos generais e seus soldados. As ordens eram claras: cercar o Templo, proteger o rei a qualquer custo e matar quem se aproximasse. Assim, de guarda, eles passaram a noite.
Na manhã seguinte, Joiada levou Joás para fora do Templo, colocou a coroa sobre sua cabeça e o proclamou rei. O movimento atraiu o povo. Ao atinar no sentido do que acontecia, os habitantes de Jerusalém começaram a cantar e gritar “viva o rei!” A rainha, de camisola mesmo como estava, veio ver o que estava acontecendo. Ao ver a cena, seus olhos se esbugalharam mais ainda e sua boca começou a espumar, enquanto ela gritava:
— TRAIÇÃO! TRAIÇÃO! PUDIM! TESOURA DE PODA! FEDORA COM PENA VERDE!
Joiada ordenou aos soldados que levassem Atalia para fora e a matassem. Eles, é claro, obedeceram. O povo, em êxtase, derrubou o templo de Baal e matou seu sacerdote, Matã. Joiada postou guardas no Templo e, junto com os oficiais, levou Joás ao palácio. Joás sentou-se no trono e deu sua primeira ordem:
— Eu quero uma GIRAFA!
Joás tinha sete anos quando se tornou rei de Judá.

(II Reis 10)

Baal! Baal!
É a festa de Baal
Baal é nosso deus
Um deus muito legal
Amanhã vai ter festança
Vou beber e passar mal
Vai ter música e dança
E um banquete animal
Sacrifício, holocausto
Muito luxo e muito fausto
Lá no templo de Baal
Baal! Baal!
É a festa de Baal…

A população de Samaria já não agüentava mais aqueles alto-falantes sobressaltando a cidade com o jingle em ritmo de funk, composto por Jeú especialmente para a ocasião. A kombi de pamonha alugada pelo rei wannabe estava de volta à capital, depois de vários dias percorrendo todo o Israel para divulgar a grande festa de Baal.
Alguns ficaram desconfiados quando Jeú mencionou a festa pela primeira vez. Ele havia chegado à cidade depois de uma caçada aos descendentes do finado rei Acabe, e muitos atribuíam essa chacina a um zelo excessivo pela religião de Javé. Porém, num rápido discurso feito logo após a matança, Jeú deixara suas motivações bem claras.

Apenas uma semana antes, setenta filhos de Acabe viviam em Samaria, sob os cuidados das autoridades locais. Jeú enviara de Jezreel uma carta aos líderes da cidade:

Prezados chefes de Samaria,
Sei que os senhores estão muito bem aí cuidando dos interesses dos filhos de Acabe. Sei também que vocês têm armas de sobra, cavalos e carros de guerra. Então faço uma proposta: escolham aí o príncipe mais capaz, coloquem o cara no trono, e se preparem para defender a cidade.
Abraços!
Jeú

Os homens fortes de Samaria ficaram apavorados. Jeú tinha acabado de matar dois reis adultos e experientes no campo de batalha; o que faria com um pobre garoto? O encarregado do palácio, o prefeito, os militares, juízes e sacerdotes, todos se reuniram para pensar em uma resposta. Que saiu assim:

Caro rei Jeú,
Somos seus servos, estamos às suas ordens. Não vamos colocar ninguém no trono, o senhor faça o que achar melhor.

Ao receber o bilhete lacônico dos líderes, Jeú sorriu. Aquelas poucas palavras transpiravam medo, e era esse mesmo o efeito que ele queria causar. Então mandou outra carta a Samaria, dessa vez com instruções detalhadas:

Prezados chefes de Samaria,
Fico feliz em saber que os senhores estão do meu lado. Agora quero que provem sua lealdade: se me apóiam mesmo, tragam a cabeça dos filhos de Acabe até Jezreel amanhã.
Jeú

As autoridades leram a carta, releram, discutiram. Seria uma metáfora, uma alegoria? Não, não podia ser. Jeú não era dado a altos vôos de pensamento: se ele pedia cabeças, era isso mesmo que ele queria. E eles acabaram decidindo que era melhor garantir a própria vida. Sendo assim, mataram os setenta príncipes e mandaram suas cabeças em cestos de vime caprichosamente decorados e embrulhados em papel celofane. Depois de alguns momentos constrangedores explicando a remessa ao funcionário do correio, conseguiram mandar as cabeças a Jezreel.
Jeú recebeu a encomenda na noite seguinte e ordenou aseus capangas que empilhassem as cabeças no portão da cidade e as deixassem lá até amanhecer. Ele saiu de manhã e fingiu estar tão surpreso como todo mundo ao ver a cena nas portas da cidade: duas pilhas de cabeças infantis e poças de sangue coagulado sobre os pedregulhos, rostos que guardavam a expressão de surpresa e dor do momento da morte, alguns olhos, orelhas e lábios já removidos pelos abutres do deserto, ossos expostos aqui e ali.
— Vocês estão vendo? Eu comandei a revolta contra o rei Jorão, matei ele e Acazias, mas e esses aí? Quem os matou?
Os jezreelitas reunidos ao redor das pilhas de cabeças mantinham-se em silêncio.
— Do que mais vocês precisam para acreditar no que Javé prometeu? Nosso Deus disse que os descendentes de Acabe seriam varridos da face da terra, e hoje as cabeças dos filhos dele apareceram misteriosamente à nossa porta. É um sinal! Matem todos os parentes de Acabe que moram na cidade, todas as autoridades e sacerdotes ligados a ele!
Levados pela fascinação que vinha em parte do carisma de Jeú e em parte do horror causado por aquelas crianças sem corpo, os habitantes da cidade cumpriram a ordem.
Feita a limpeza em Jezreel, restava a Jeú conquistar a capital, Samaria, e sagrar-se rei de uma vez por todas. Ele juntou seus homens e pegou a estrada. No meio do caminho, ainda encontrou um grupo de pessoas que caíram na besteira de se identificar como parentes do rei Acazias. Eram quarenta e dois; os soldados de Jeú mataram todos. Mais para a frente, encontraram um certo Jonadabe, filho de Recabe, que era simpático à causa de Jeú e se uniu à caravana.

Chegando a Samaria, Jeú tratou de matar os poucos parentes de Acabe que ainda restavam. Depois disso, reuniu o povo na praça principal da cidade e fez seu discurso:
— Vocês estão vendo bem o que aconteceu com a família de Acabe. Isso aconteceu porque ele não foi fiel a Baal, nosso deus. Eu, meus bons samaritanos, sou um servo de Baal, e juro servi-lo por toda a minha vida. Para começar essa nova fase em Israel, vamos fazer uma grande festa no templo de Baal. Todos os adoradores e sacerdotes de Baal estão convidados. Já fiz até uma musiquinha para divulgar a festa. Agora só preciso de uma kombi de pamonha…
E foi assim que, dias depois, todos os baalitas afluíram ao templo de seu deus, alegres e vestindo suas melhores roupas de festa. O templo ficou completamente cheio. Todos conversavam e riam, mas fizeram absoluto silêncio quando a figura de Jeú surgiu no lugar de honra do templo. Jeú desfrutou alguns instantes o efeito, limpou a garganta com um pigarro e disse:
— Atrás de Baal só não vai quem já morreu! [“ÊÊÊÊÊ!”, gritou o povo] Que venham os abadás!
Os sacerdotes de Baal entraram pelas portas laterais, trazendo os mantos sagrados de sua religião e distribuindo-os entre os presentes. Com todo mundo devidamente paramentado, Jeú convidou Jonadabe para juntar-se a ele no altar.
— Viva Baal!
— Viva!
— Todos vocês amam Baaaaaaaaaaaal?
— Sim!
— Alguém aí é servo de Javééééééé?
— Não!
— Quem quer Javééééééé?
— Ninguém!
— Quem quer Baaaaaaaaaaaaaaal?
— EEEEEEEEEEEEEEEEEU!
— VIVA BAAL!
— VIVA!!!
— Agora eu ofereço esses feixes de trigo a quem?
— BAAL!
— Jonadabe mata esses pombos para quem?
— BAAL!
— Nós sangramos esse touro para quem?
— BAAL!
— Esse bando de guardas trucida vocês para quem?
— BA… hein?
Era uma armadilha, e não havia como escapar. Um pelotão dos guardas de Jeú bloqueava as portas, enquanto o resto fazia cantar suas espadas no meio da multidão indefesa. Os soldados empilharam os corpos do lado de fora do templo e destruíram a imagem de Baal que estava no altar. Depois, Jeú transformou o local em um banheiro público.
Javé, desnecessário dizer, ficou inflado de orgulho com a astúcia de Jeú, o novo rei de Israel. Anos depois, porém, Jeú abandonou seu zelo exagerado. O final do capítulo sugere que ele chegou a adorar os bezerros de ouro feitos por Jeroboão. É de se pensar se ele não teria olhado para trás e percebido que, por baixo do verniz das justificativas religiosas, ele não passara de um assassino em série.
Após 28 anos ocupando o trono, Jeú morreu e foi substituído por seu filho Jeoacaz.

(II Reis 9)
Jeú era um idiota.
Amarelo e voluntarioso, atarracado e boquirroto, caspento e santarrão, tinha suas convicções gravadas em pedra, e ai de quem discordasse. Para ele, só pudim de leite era sobremesa, só Amélia era mulher de verdade e só Javé era deus. Pavê, Jezabel e Baal não eram meras divergências de opinião ou gosto: eram aberrações inadmissíveis e que deveriam ser punidas com a morte. Como nem mesmo a lei mosaica chegava ao absurdo de condenar ao apedrejamento quem comesse uma ambrosia, Jeú concentrava seus esforços em buscar maneiras de perseguir os adoradores de outros deuses.
Jeú, o idiota, era tudo o que Javé esperava do próximo rei de Israel.

__________

Com a sunamita de volta e toda propensa a discutir a relação, Eliseu achava mais prudente permanecer amocambado. Para passar o tempo, relembrava Elias, seu professor, e organizava os objetos pessoais deixados pelo velho profeta depois de abduzido por um redemoinho. Sentado no chão com as pernas dobradas, Eliseu lia mais uma vez a lista de coisas a fazer de seu mestre:

  • lavar a túnica
  • comprar leite
  • comprar azeite (o mais baratinho)
  • ungir Eliseu
  • ungir Hazael
  • ungir Jeú

— Puta que pariu!
Com sua partida repentina, Elias deixara algumas coisas por fazer. Além do mais, Hazael estava destinado a criar problemas para os israelitas, e Jeú, como todos sabiam, era um idiota. Talvez Elias tivesse esquecido de propósito de ungir os dois. Eliseu, porém, não tinha a mesma moral com Deus, então precisava cumprir suas ordens. Ungir Hazael nem fora tão difícil, mas ir anunciar àquele pedaço de asno que ele seria o futuro rei de Israel, ah, já era demais.
Sem vontade de ser cúmplice daquela palhaçada, mas também sem ter como evitar cumprir a ordem divina, Eliseu escolheu uma saída que o poupava da melhor forma possível: mandar um estagiário de profeta. Assim evitava o risco de ser interpelado pela mulher e não precisava perder seu tempo besuntando um imbecil.
— Moleque, vem cá!
— Sim, seu Eliseu.
— Conhece Jeú?
— Jeú…?
— Filho de Josafá, neto de Ninsi.
— Ah, sim. O babaca.
— Shhhhhhh… Não fala assim do nosso futuro rei.
— COMO É?
— Fala baixo, porra! Tenho uma missão para você. Você vai até Ramote-Gileade, vai procurar Jeú e levá-lo discretamente para um canto. Aí você vai derramar esse azeite aqui na cabeça dele e falar aquela papagaiada de sempre. Você já teve aula de unção?
— Tive, mas não fiz prova ainda.
— Fica valendo sua nota. Vai lá, fala pra ele que Javé o está ungindo como Rei de Israel, repete a maldição contra os descendentes de Acabe, seja bem específico naquela parte sobre o corpo de Jezabel ser comido pelos cachorros. Feito isso, saia correndo de lá, antes que algum alcagüete do rei o dedure. Entendeu?
— Mais ou menos. Vou precisar estudar mais esse lance da maldição dos cachorros e não sei o que mais.
— Tô fodido…

___________

O moleque até que cumpriu direitinho sua tarefa: foi a Ramote-Gileade, encontrou Jeú em casa reunido com os amigos, separou-o habilmente dos outros, fez seu discurso e saiu correndo. Jeú voltou à sala onde os amigos continuavam a conversa.
— Jeú! O que o estagiário dos profetas queria com você?
— Vocês sabem muito bem!
— …
— RAÇA DE INFIÉIS! O RAPAZ VEIO ANUNCIAR, EM NOME DE JAVÉ, QUE EU SEREI O NOVO REI DE ISRAEL E QUE VARREREI DO MAPA A ESCÓRIA IDÓLATRA QUE EMPESTEIA O AR DE SAMARIA, MOSTRANDO QUE SÓ JAVÉ É O SENHOR DOS EXÉRCITOS, SOBERANO E MARAVILHOSO, AMÉM?
— Ah, isso. Legal.
— VIVA O REI!
— Viva!!!

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— E aí, homem?
— Mesma coisa, majestade. Juntou-se a eles.
— Merda.
Já era o terceiro emissário que o rei Jorão enviava ao encontro dos misteriosos visitantes, e pela terceira vez suas ordens eram desobedecidas e o mensageiro unia-se à horda. O rei estava de cama, ainda recuperando-se dos ferimentos sofridos na batalha contra os Sírios, e recebia a visita de Acazias, rei de Judá. O guarda que estava na torre via o grupo se aproximando, agora já engordado pelos três empregados do palácio.
— O que você me diz, guarda?
— Sei não, majestade. Mas pelo jeito que o chefe deles dirige, eu acho que é Jeú.
— Jeú, o idiota?
— Esse.
— Ai meu cu…
— Pomadinha?
— CALE-SE! Acazias, o que vamos fazer com esse débil mental?
— O rei aqui é você, estou só de visita.
— Ah, é. GUARDA! Mande aprontarem meu carro. Eu mesmo vou até lá ver o que está se passando.
Saíram, então, os dois reis ao campo, cada um em seu conversível. Ao chegar mais perto, Jorão confirmou as suspeitas do guarda: era mesmo o chato do Jeú. Não era à toa que os mensageiros haviam se unido a ele: seu discurso inflamado e impregnado com a chama do fundamentalismo religioso era uma apelo muito forte para o povão.
— Jeú, você vem como amigo?
— AMIGO? COMO PODEMOS SER AMIGOS SE A IDOLATRIA CORRE SOLTA EM ISRAEL? O SENHOR NÃO SE DEIXA ESCARNECER, REI JORÃO! A IRA DE JAVÉ VISITA A INIQÜIDADE DOS HOMENS ATÉ A QUINTA GERAÇÃO! NOSSO DEUS É FOGO CONSUMIDOR!
— Hum. Não vem como amigo, então?
— NÃO!
— Corre, Acazias! Esse puto está aprontando pra gente!
Os dois reis deram meia-volta e saíram a toda. Mas Jeú tinha uma excelente pontaria, e acertou uma flechada nas costas de Jorão. A flecha varou-lhe o coração e o rei caiu morto ali mesmo, dentro do carro. Então Jeú disse a Bidcar (que era seu ajudante, mas também é um nome porreta para um site de leilão de automóveis):
— Jogue o corpo desse pecador no campo que pertenceu a Nabote.
Acazias ainda conseguiu despistar os soldados de Jeú por um tempo, mas acabou ferido na estrada. Conseguiu chegar até a cidade de Megido, onde morreu.

__________

A morte dos dois reis era a parte principal do plano de Jeú, mas não a que mais lhe causava ansiedade. Seu real objetivo desde o começo era Jezabel, a viúva de Acabe e mãe de Jorão. Ela estava em sua casa em Jezreel, chorando a morte do filho, quando soube que o traidor se dirigia à cidade. Então lavou o rosto, maquiou-se e saiu à janela. Sua intenção era não demonstrar fraqueza diante do inimigo, mas é claro que ela entrou para a história como uma biscate que, num último lance desesperado, tenta seduzir um justo. Ao ver Jeú se aproximando, não esperou que ele a encontrasse. Em vez disso, tratou de saudá-lo com sarcasmo:
— Olá, Zinri!
Era uma ofensa muito séria em Israel. Anos antes, Zinri assassinara o rei Elá para assumir o trono. Reinou por apenas sete dias e acabou morto por Onri, que viria a ser pai do rei Acabe. Chamar alguém de Zinri era fazer pouco de suas ambições e desprezar publicamente seu gesto de traição. Mas Jeú estava totalmente imbuído de sua missão purificadora. Isso e o fato incontestável de ser um idiota o tornava imune à ironia. Ele apenas gritou para dentro do palácio:
— SE ALGUÉM ESTIVER AO MEU LADO, QUE JOGUE ESSA MULHER DAÍ!
E, como a estupidez humana é a única força com que se pode contar sempre, três oficiais do palácio obedeceram a ordem e defenestraram a mulher indefesa. O impacto da queda foi tão forte que o sangue de Jezabel respingou nos cavalos. Jeú passou por cima do cadáver e ordenou que a enterrassem, apenas por deferência devida à filha de um rei. Mas os homens que receberam a ordem ficaram enrolando um pouco por ali e, quando saíram, encontraram pouco mais do que os ossos da defunta. Como prometido por Javé, seu corpo havia sido devorado pelos cães.
Ao receber a notícia, Jeú sorriu, satisfeito. Gostava do rumo que as coisas estavam tomando. E era só o começo.

(II Reis 8)
— Conta outra, Geazi…
— Mas é verdade, majestade! Que Javé me fulmine com um raio se for mentira! Eu estava lá e vi tudo: o careca, digo, o Eliseu, deitou em cima do defuntinho e ele viveu de novo!
— Isso me cheira a pedofilia.
— …
— Geazi, você acha que eu sou… Pois não?
— O senhor é o rei Jorão?
— Não, sou um abacaxi. Daí a coroa.
— …
— Porra, o que você acha?
— Majestade, é ela! A mulher de Suném!
— Hum, que coincidência… O Geazi estava me contando uma história besta sobre a senhora.
— Eu não sei de nada! Eu só vim ver o negócio das minhas terras! Eliseu é só um amigo!
— Eita, calma! Só queria saber daquela história do seu filho.
— Meu filho? Que tem ele?
— O Geazi inventou uma história absurda sobre ele…
— GEAZI, EU JÁ TE FALEI QUE AQUELA CABRITA É…
— Não essa história. A outra. Eliseu, seu filho morto…
— Ah, essa história… Então. Foi isso. O menino morreu, o profeta chegou lá em casa, deitou em cima dele, e ele reviveu.
— COMO É POSSÍVEL?
— Eu não sei, majestade. Só sei que o moleque está comigo até hoje, saudável, feliz, livre do vício da zoofilia…
— A senhora está me achando com cara de idiota, né?
— Olha, agora que o senhor perguntou…
— CALE-SE! Humpf. Há quanto tempo foi isso?
— Há sete anos. O profeta falou que haveria sete anos de fome, então eu e o menino fugimos para a Filistia.
— Sete anos de fome? Xi, Eliseu ainda era amador nessa época… A gente passou um perrengue recentemente, mas não por sete anos, que Javé nos livre.
— COMO É QUE É? ENTÃO EU FIQUEI SETE ANOS NAQUELA TERRA DE GENTE BESTA POR NADA?
— Ô, minha senhora…
— NÃO ESTOU FALANDO COM VOCÊ, GEAZI!
— Calma, calma. É que… Espera aí, já resolvemos isso. Majestade, me permite resolver essa questão? Ah, muito obrigado. Pois então: você pode voltar à sua propriedade, e o reino vai te pagar o equivalente a tudo que foi produzido nela nos últimos sete anos. Está bem?
— Hum. Tá. MAS ISSO NÃO FICA ASSIM!
— A senhora pode resolver isso diretamente com o profeta. Quando ele voltar da Síria, digo.
— SÍRIA??? QUE PILANTRA!
— Er… A senhora está cansada da viagem, melhor ir até sua casa, repousar um pouquinho. Pode deixar, cuidamos de tudo por aqui.
— Eu vou. MAS ISSO NÃO F…
— Não fica assim, eu sei. Pode ir em paz. Até logo.
— Tchau.
— …
— …
— QUE PORRA FOI ESSA, GEAZI?
— Majestade, acredite: o senhor não quer se enrolar nessa história de Eliseu com a sunamita. Dizem que o moleque é filho dele.
— COMO É?
— Shhhhhhhhhhh… Melhor não comentar nada. Ele pode ficar sabendo.
— E daí?
— Lembra das ursas?
— Ah, é.
— Pois é.
— Shhhhhhhhhh…

_______________

De fato, Eliseu andava pelas bandas da Síria. Com os recursos que tinha à disposição, ficou sabendo dias antes da chegada da sunamita, e achou mais sábio empirulitar-se para o estrangeiro. Pagar pensão não estava em seus planos. Mas outro problema o esperava em Damasco. Não, a fruta não. A cidade.
Pois vejam, Ben Hadade, rei da Síria, andava muito doente. Sabendo que Eliseu passava uma temporada no país, mandou Hazael, um oficial de confiança, levar presentes ao profeta e perguntar sobre o que lhe reservava o futuro. Então Hazael, que era um tanto exagerado, carregou quarenta camelos com as mercadorias mais luxuosas da região e foi ter com Eliseu.
— Eliseu, o rei me mandou aqui para perguntar-lhe humildemente se ele vai sarar dessa doença.
— Hmmm… Xeu ver. Javé diz que… Não. Peraí. Não, é isso mesmo. O rei vai bater a caçoleta.
— Puxa…
— Ei, espera. Você vai voltar lá para o palácio?
— Claro, Eliseu. Preciso dar a má notícia ao rei.
— Diga a ele para não se preocupar, que vai ficar bom logo.
— Eita! Javé mudou de idéia?
— Javé não muda de idéia, Hazael. O rei vai morrer.
— Peraí. O homem morre ou não morre?
— Morre. Estica as canelas dia desses. Mas se você disser isso a ele, é capaz que ele mande recolher esses presentes todos. Então diga a ele que ele vai ficar bom. Entendeu?
— Mas… Mas…
— …
— Que foi agora?
— …
— Eliseu, por que está me olhando assim?
— …
— Pára com isso, pô. Tô cagado? Cê tá me deixando sem graça.
— …
— FALA ALGUMA COISA, DIABO! Eliseu? Cê tá chorando? Putz, cê tá chorando! Não sabia que você gostava tanto do rei…
— EU QUERO QUE SEU REI SE FODA! Estou chorando porque vejo tudo que você vai fazer ao meu povo lá em Israel.
— Eeeeeu?
— Sim, você! Você vai queimar nossas cidades, matar nossos jovens, esmagar nossas crianças, retalhar a barriga das grávidas.
— Pô, Eliseu, pega leve. Mesmo que eu quisesse fazer essas coisas, quem sou eu?
— Hoje você não é porra nenhuma, mas vai ser rei da Síria.
— Tá doido? Eu nem sou parente do rei! Eliseu… Eliseu? Ô! Volta aqui! Eu, hein. Bicho esquisito…
Hazael voltou ao palácio pensativo. O rei, que mal continha ansiedade, perguntou logo o que Eliseu dissera. Conforme combinado, o oficial disse que ele ficaria bem. O rei muito feliz e, pela primeira vez em muitos dias, conseguiu pegar no sono. Na manhã seguinte, quando ele ainda dormia, Hazael o sufocou com um cobertor molhado e usurpou o trono sírio.

_______________

Jorão seguia firme e forte no trono de Israel, enquanto os reis se sucediam em Judá. Primeiro foi Jeorão, filho de Josafá, que subiu ao trono. A mulher dele era filha do rei Acabe, ou seja, ele era cunhado de Jorão. Jeorão reinou por oito anos, fazendo tudo aquilo que irritava Javé: adorar outros deuses, desposar mulheres estrangeiras, masturbar-se, essas coisas. Seu reinado de oito anos foi medíocre, e ele conseguiu perder o território de Edom, que pertencia a Judá havia anos.
Com a morte de Jeorão, seu filho Acazias foi proclamado rei. O reinado de Acazias durou apenas um ano, mas deu pano para a manga: ele e Jorão, seu tio, se uniram para guerrear contra o rei Hazael, da Síria. O rei Jorão foi ferido seriamente em uma batalha em Ramote-Gileade, e precisou ser levado às pressas para Jezreel. Com o fim da batalha, Acazias foi visitá-lo. O que se mostraria uma péssima idéia.

(II Reis 7)
No último capítulo, deixamos Eliseu em casa esperando pela chegada do rei, que vinha com o propósito de matá-lo. Só que, no fundo, o rei era um bom sujeito. Viera pensando na situação o caminho todo: o cerco a Samaria, a fome, a eterna briga com os sírios, e se deu conta de que Eliseu não podia ser apontado como único culpado. Então, quando chegou à casa do profeta, sua voz traía mais desolação do que raiva:
— O que eu posso fazer, Eliseu? Esperar pela ajuda divina? Javé mandou essa desgraça sobre nós. Você quer que eu acredite que ele fará algo para nos tirar dessa?
— Tenha fé, majestade. Javé manda dizer que amanhã você poderá comprar três quilos e meio do melhor trigo, ou o dobro disso de cevada, por uns dez gramas de prata.
O puxa-saco que viera com o rei não se conteve:
— Cê tá doido, Eliseu? Não há comida em Samaria, logo não haverá mais água, e você me vem com historinha? Mas nem que Javé fizesse chover trigo e cevada!
— Ah, é? Então eu lhe digo outra coisa: você vai ver isso acontecendo, mas não vai comer.

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No acampamento dos sírios, nas cercanias da cidade, reinava o silêncio. Já era noite havia algumas horas, e os soldados dormiam em suas tendas. Os encarregados da vigilância caminhavam com cuidado, para não acordar os colegas. Tudo estava muito tranqüilo, e a tomada de Samaria era questão de dias, talvez horas. Ou seria, se não soasse do céu uma voz tonitruante:
— Bu.

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Enquanto isso, do lado de fora dos muros de Samaria, quatro homens discutiam na escuridão. Procuravam, eles também, fazer silêncio, mas sem muito sucesso. Por mais que sussurrassem, as sinetas dependuradas em seus pescoços tilintavam ao menor movimento. Eram leprosos, e o acessório servia para avisar as pessoas saudáveis de sua chegada. E mesmo assim, vestidos em farrapos e totalmente excluídos da sociedade, ainda se achavam em situação melhor do que os samaritanos. Era essa, aliás, a razão da discussão: dois deles queriam entrar na cidade, os outros dois queriam ir ao acampamento sírio.
— Vocês estão loucos! Se a gente entra lá, os sírios matam a gente. Ainda mais se a gente chegar tocando sino, porra!
— E daí? Se entrarmos em Samaria, morremos de fome.
— E se ficarmos aqui fora, morremos de sede antes disso.
— Pois vão os dois. Nós vamos ficar aqui.
— Tá louco? Vão ficar aqui para morrer?
— Vocês acham mais bonito morrer nas mãos dos sírios?
— Tá bom, calem-se. Vamos deixar que a sorte resolva isso. Par!
— Ímpar!
— Ganhei. Ficamos aqui.
— Ganhou o caralho! Eu pedi ímpar, deu um, nós ganhamos.
— Mané um! Deu dois, é par. NÓS ganhamos!
— Peraí. Cê tá contando o dedo do chão também?
— É claro que sim! É MEU dedo!
— TODA vez você faz isso! Joga um dedo no chão, e aí ele vale ou não vale, dependendo do que for conveniente para você.
— Calúnia! Além do mais, agora é diferente…
— Por que é diferente, porra?
— PORQUE ERA MEU ÚLTIMO DEDO! Você acha que eu ia desperdiçar meu ÚLTIMO DEDO numa disputa besta?
— Ué, que diferença faz ter um dedo ou dedo nenhum?
— FAZ TODA A DIFERENÇA DO MUNDO! Como é que eu vou fazer pra coçar o…
— CALABOCA!
— Isso aí…
— OS DOIS! QUIETOS! Eu sou o líder, e digo que vamos ao acampamento dos sírios.
— Ué, desde quando você é o líder?
— Eu tenho sete dedos!
— Hmmm. É.
— É. Não dá pra discutir isso.
— Pois é. Tudo bem, vamos.
Esforçando-se ao máximo para não fazer barulho, os quatro leprosos se aproximaram do acampamento sírio.
— Está ouvindo alguma coisa?
— Nada. E você?
— Nada. Mas eu perdi a outra orelha anteontem, então não estou escutando muito bem.
— Que merda…
— Hein?
— NADA!
— Shhhhhhhhh…
— Shhhhhhhhh…
— Está muito quieto aqui, não?
— HEIN?
— MUITO QUIETO!
— SHHHHHHHHHHH!
— Pára de me mandar calar a boca, caralho! Olha em volta, idiota. Não tem ninguém aqui.
— Ué. Cadê os sírios?
— SÍRIOS!
— CALABOCA!
— Calaboca já morreu! SÍIIIIIIIIIIIRIIIIIIIIIIIIOOOOOOOOOOOOOOS!
— …
— …
— Taí. Ninguém.
— Diacho… Que será que aconteceu?
— Acho que eles ouviram as sinetas e saíram correndo.
— Com medo da gente?
— Só pode ser… Ei, isso quer dizer que somos heróis!
— É verdade! Vamos até a cidade para dar a notícia.
— Sim, sim. Mas antes, vamos comer.
Os quatro comeram e beberam até se fartarem, depois recolheram todo o ouro e prata que encontraram. Depois de esconder seu tesouro, voltaram a Samaria.
— Guarda! GUARDA!
— Ô, diabo. Que horas são? Quem está aí?
— Temos notícias dos sírios!
— Que badalo é esse? Putz, leprosos. Diz aí, cês querem uma mão? Hehehehe.
— Atomanocu, viado! Enquanto você se caga de medo aí, nós fomos até o acampamento dos sírios e expulsamos os putos. O acampamento está vazio, saíram correndo.
— Vocês expulsaram os sírios?
— Sim!
— Como, porra? Jogaram dedos neles?
— APAPORRA! Nós só temos onze dedos, caralho! Ao todo!
— Sei, sei… Vou mandar averiguar.
O guarda contou a história a seu sargento, que foi até a casa do tenente, que acordou um capitão, que telefonou para o coronel, que correu para procurar o general, que prontamente foi ao palácio dar a notícia ao rei.
— Sumiram, é? E se for mentira dos leprosos?
— Cortamos a língua deles. Aliás, basta dar um peteleco na nuca, eu acho.
— Hmmm… Sabe o que eu acho? Eu acho que eles saíram do acampamento para armarem uma emboscada. Sabem que estamos com fome aqui, uma situação desesperada. Quando sairmos atrás da comida, eles nos pegam e bum, era uma vez Samaria, Israel, tudo.
— Majestade, com todo o respeito… Estamos aqui há semanas, a situação não muda. Se ficarmos aqui dentro, morremos do mesmo jeito. Não é melhor ir lá conferir? Se for verdade, estamos livres. Se for mentira, ainda podemos contar com a piedade dos sírios. Só não dá para esperar piedade da fome.
— É, você tem razão… Quantos cavalos ainda temos?
— Cinco.
— No palácio?
— Na cidade toda.
— Puta merda… Bom, mande buscar esses cinco cavalos para que levem cinco de seus homens mais valentes.
— Sim, senhor.
— Não! Melhor: mande os cinco mais frouxos.
— Er… Sim, senhor.
— Bah, tanto faz. Faça uni-duni-tê, mande cinco homens para lá. Eles dão uma olhada em volta, verificam tudo. Se voltarem, nós abrimos os portões. Se não, será uma pena para as famílias, mas elas nem vão ter muito tempo para lamentar.
Os cinco homens foram até o acampamento e o encontraram vazio, como os leprosos haviam dito. Foram mais adiante, até o rio Jordão, e por todo o trajeto encontraram armas e utensílios largados pelos inimigos durante a fuga desordenada. Então voltaram à cidade e contaram a novidade ao rei, que ordenou que os portões fossem abertos. Os habitantes avançaram sobre o acampamento, e encontraram mantimento mais do que suficiente para saciar a fome que já durava dias. O restante foi vendido na cidade a preços baixíssimos, como previra Eliseu.
Foi um dia de alegria, exceto por uma baixa: o puxa-saco do rei fora colocado como encarregado dos portões. Na corrida para o acampamento após a abertura, a multidão o pisoteou e ele morreu. Ou seja: viu o milagre acontecer, mas não usufruiu dele. Mais uma vez, como previra Eliseu.

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Depois de toda a confusão, os leprosos ainda discutiam com o guarda da muralha:
— E nós? O que nós ganhamos?
— Porra nenhuma! E joguem suas mãos para o céu!
— FELADAPUTA!

(II Reis 6)

Geazi acordou, caiu da cama, passou um pente pela cabeça. A lepra fora apenas um susto; estava novamente a serviço de Eliseu. Precisava aliviar a bexiga e foi saindo. Da porta, viu ao redor da casa uma tropa de soldados com cavalos e carros de guerra. Espreguiçou-se. Esfregou os olhos. Os soldados continuavam lá.

— Bom dia…

— Bom dia — respondeu um que parecia ser o chefe.

— O que fazem aqui em Dotã tão cedo?

— Cerco.

— Hum…

— Pois é.

— Dia bonito, não?

— Muito.

— Os senhores são de onde?

— Síria.

— Hum.

— É.

— Tão cercando quem?

— Eliseu.

— Ah.

— Conhece?

— Eu? Nah.

— Hum.

— Minutim.

Geazi acenou para os soldados, e calmamente voltou para dentro. Assim que se viu fora do alcance da vista dos sírios, disparou para o quarto de Eliseu.

— Patrão! Fodeu, patrão! Vamos fugir, o bicho tá pegando!

— Porra é essa, Geazi? Calma. O que acont… Geazi, cê tá mijado?

— Hein? Puta que pariu, bem que eu vi que tinha esquecido alguma coisa… Bom, foda-se. Patrão, os sírios tão lá fora querendo te pegar.

— Sírios, é?

— SIM! SÍRIOS! Você sacaneou os caras e agora são trocentos deles contra nós dois.

— Nós dois e a galera, né, Geazi?

— Que galera, patrão? Endoidou?

— Javé, mostra pra ele.

— Tá falando com q… PUTA QUE PARIU DE ROSCA! E-esses caras são…

— Anjos. Sim. Uma anjaiada brava, boa de briga. Vamos lá ver esses tais sírios.

                           

Deslocar tamanha tropa para pegar um só homem ia contra o senso estratégico e econômico do exército da Síria. Mas é que Eliseu andava muito abusado. Tinha passado por um período de marasmo, era verdade. Durante esse tempo, ajudara na construção de uma casa para o Clube dos Profetas de Israel às margens do Rio Jordão. A coisa mais empolgante a acontecer durante a construção foi a queda do machado de um dos operários no rio, machado este que Eliseu fez flutuar. De resto, só moleza.

Aconteceu, porém, que o rei da Síria, que andava até muito amigo de Israel, decidiu que era hora de tentar invadir o reino vizinho novamente. Armou acampamento em um lugar estratégico para pegar o exército israelita de surpresa. Só que Eliseu continuava com suas experiências de sair do corpo: viu onde os sírios se entocavam e avisou o rei de Israel, que mandou mensageiros à região alertando para a presença inimiga. O exército sírio mudou de acampamento e foi descoberto outra vez. Mudou mais uma vez, e mais uma vez viu frustrados seus planos. Repetida a situação diversas vezes, Ben-Hadade, rei da Síria, chegou à conclusão óbvia: havia um traidor entre seus oficiais. Na hora da acareação, um dos oficiais contou ao rei sobre Eliseu e seus poderes mágicos. Era o fim da picada. Era preciso eliminar o profeta.

                           

— Espera, patrão. Não seria melhor…

— Deixa de ser bunda mole, Geazi. Vamos lá. Bom dia, meus caros sírios. É uma honra tê-los em meu quintal.

— É você o tal Eliseu?

— Quem quer saber?

— Eu, o comandante da tropa.

— Olha só, que engraçado!

— O que é engraçado, rapaz?

— Uma tropa só de cegos!

— Cegos? Cê tá louco? Homens! Prep… GAAAAAAAAAAH! Estou cego!

— Estou cego!

— Não estou vendo nada! Socorro!

— Eu estou cego também! Não. Peraí. Ah, não. Putz. ESTOU SIM! ESTOU CEGO!

— ACALMEM-SE, CEGUETAS! Vocês vieram bater à porta errada. Se quiserem, posso guiá-los até onde Eliseu está.

A proposta não fazia muito sentido, mas os soldados não tinham escolha. Estavam cegos em uma terra desconhecida, e era melhor confiar naquele guia estranho do que não ter guia algum. Foram, pois, seguindo Eliseu.

— Chegamos — disse o profeta, e os sírios imediatamente voltaram a enxergar. Não estavam na casa do profeta, claro: estavam em pleno centro de Samaria, com o rei de Israel diante deles e o exército israelita ao redor.

— O que eu faço, Eliseu? — perguntou o rei — Mato os felasdaputa?

— Claro que não, majestade. O senhor por acaso mata seus prisioneiros de guerra? Dê comida e água a esses homens, que estão assustados e já aprenderam sua lição. Depois eles voltarão para casa e contarão o que lhes aconteceu.

O rei seguiu a recomendação de Eliseu, dando uma grande festa para os soldados sírios. No dia seguinte, de ressaca, eles voltaram para sua terra. Durante algum tempo, Síria e Israel viveriam em paz.

                           

A paz só durou alguns meses, na verdade. Um dia Ben-Hadade acordou de mau humor e decidiu que ia resolver de uma vez por todas a questão israelita. Então mandou todo o seu exército para cercar Samaria. Depois de algumas semanas de sítio, a comida começou a escassear na capital israelita. Nas feiras, uma cabeça de jumento era vendida por um valor correspondente a quase um quilo de prata.

Diante da situação, o rei de Israel ficava cada dia mais deprimido. Seu exército não era páreo para as forças sírias, e uma solução diplomática estava fora de questão. O rei passava os dias caminhando pelas muralhas da cidade, um pouco para pensar, um pouco na esperança de ser atingido por uma flecha e acabar logo com tanto sofrimento. Foi em uma dessas caminhadas que o rei se viu interpelado por duas mulheres.

— Majestade, me ajude!

— Deixe de bobagem, minha filha. Se Javé, que é deus e não sei que mais, não te ajuda, como é que eu vou ajudar?

— Por favor, majestade! Temos uma questão a ser decidida, e só o senhor pode ser o juiz.

A questão das mulheres despertou a curiosidade do rei. Era uma cena digna do lendário Salomão.

— Pois digam.

— Dia desses essa aí deu a idéia de comermos nossos filhos.

— Que horror!


Pois é, veja só! Ela deu a idéia, então cozinhamos meu filho e comemos o pobrezinho. Aí no dia seguinte eu falei pra ela que era a vez do moleque dela, mas ela escondeu o bebê. Como é que se resolve essa situação, majestade?

O rei não sabia o que dizer. Primeiro pensou tratar-se de um trote. Seus olhos saltaram de uma mulher para a outra, mas ambas pareciam preocupadas apenas no aspecto jurídico da questão. Horrorizado, triste, com raiva, o rei rasgou suas roupas e caiu num choro convulsivo. Precisava culpar alguém por aquela situação insustentável, então se lembrou do episódio ocorrido meses antes.

— Que Javé me mate se hoje mesmo eu não cortar a cabeça do desgraçado!

O desgraçado, claro, era Eliseu, que naquele momento estava em casa reunido com alguns líderes do povo. Os visitantes estranharam quando o profeta interrompeu sua fala no meio de uma frase.

— Epa. O rei está mandando alguém aqui para me matar.

— C-como?

— Sim, estou vendo. Quando o mensageiro chegar, não abram a porta. O próprio rei virá depois dele.

O profeta ainda estava falando quando o mensageiro bateu à porta. Minutos depois, chegava o rei.

(II Reis 5)
— QUÊ?! — enfurecido e assustado, o rei de Israel arranca mais um chumaço de cabelos da lateral da cabeça.
— É isso mesmo — responde o mensageiro, sem alterar o tom de voz.
O rei desamarrota a carta como pode e a relê. Não há dúvida, é aquilo mesmo: o rei da Síria quer que ele cure de lepra um comandante de seu exército. E não é qualquer comandante: trata-se de Naamã que, além de herói sírio, é também muito querido entre os partidários dos profetas de Israel, já que foi de seu arco que saiu a flecha que feriu e matou o rei Acabe. Pelo menos era isso que se dizia por aí, e Naamã não desmentia. Enfim, uma figura importante de um reino vizinho com o qual Israel mantinha relações delicadas.
— Mas será que esse puto de merda está pensando que eu sou Deus, porra? Como é que eu vou curar esse milico? Assoprando a lepra dele?
— Alguém falou em curar?
— Eliseu! Chegou em boa hora! Imagine que…
— Eu sei, eu sei. O rei da Síria. Naamã. Lepra.
— Como você sabe?!
— Um negócio novo que eu estou testando. Viagem astral, coisa de maluco. Saio do meu corpo, ando por aí bisbilhotando. É legal.
— Parece coisa de espiritismo barato…
— O senhor já ouviu falar na história das ursas, majestade?
— Tá, tá. Desculpe. Você pode me ajudar?
— Vamos ver.
Tudo um mal entendido, claro. Naamã tinha uma serva israelita, uma menina que havia tomado como prisioneira numa de suas incursões contra Israel. A menina o aconselhara a procurar o grande profeta Eliseu. Naamã conversou com o rei, que passou o recado para um, que o passou para outro, que o levou adiante. Quando chegou ao mensageiro, a mensagem já estava distorcida, e Eliseu fora trocado pelo rei de Israel.
Desfeito o engano, a resposta foi enviada ao rei sírio: Eliseu aceitava o encargo. Dias depois, Naamã chegou a Israel. Todo paramentado e engalanado, montado num cavalo imponente e acompanhado por um cordão de puxa-sacos de altíssima estirpe, o comandante parou na porta da casa de Eliseu. Vendo aquele aparato todo, o profeta não resistiu: em vez de sair para cumprimentar tão ilustre figura, como era de se esperar, mandou seu empregado receber Naamã.
— Seu Naamã, sou empregado do profeta Eliseu.
— …
— Ele mandou dizer que é pro senhor mergulhar sete vezes no Jordão.
— …
— …
— É isso?!
— Xeu ver… Sim, é isso. Nem seis, nem oito.
— MAS QUE GRANDE FELADAPUTA ESSE SEU PATRÃO DE MERDA! Eu venho aqui esperando que o puto se digne ao menos a me receber, a fazer uns passes, umas pajelanças, um troço qualquer para me curar, e o que ele faz? Fica coçando o cu lá dentro enquanto um bosta qualquer vem me dizer pra ir nadar no Jordão. No Jordão! Os rios Abana e Farpar, lá em Damasco, são melhores do que esse córrego sem vergonha. Se é pra mergulhar, mergulho em casa, não viajo até este lugar besta!
Emputecido, o comandante deu meia-volta, disposto a voltar à Síria. Foram seus empregados que o dissuadiram:
— Comandante, se o profeta mandasse o senhor fazer alguma coisa complicada, o senhor não faria?
— Ah, depende. Sei lá. Esse puto.
— Ô, comandante… Ele só falou pro senhor tomar um banho no rio. Custa?
— Mas ele precisava me humilhar desse jeito? Mandar um empregado falar comigo, já se viu?
— Custa?
— …
— Custa?
— PUTA QUE PARIU! Cadê minha toalha? Dá aqui. Vamos ao Jordão.
Seguindo as instruções do profeta, Naamã mergulhou sete vezes no rio. Quando saiu, sua pele, que já estava quase toda branca, primeiro estágio da lepra, havia voltado à cor e textura normais. Macia, hidratada, firme, sedosa, um pêffego. Envergonhado, o militar voltou à casa de Eliseu.
— Profeta! — ele gritou do quintal — Agora eu sei que Javé, deus de vocês, é o fodão mesmo. Permita que eu lhe dê um presente em sinal de gratidão e também como pedido de desculpas por minha impertinência.
— Deixe isso pra lá, Naamã. Vejo que está curado e fico feliz. Isso basta. Pode voltar para sua casa.
— Hum. Permita ao menos que eu leve duas mulas carregadas de terra.
— Ué, a terra é de graça. Mas para que você a quer?
— Cada deus tem sua terra, não é? Baal na Babilônia, Dagom na Filistia, Javé em Israel. Então. Vou levar terra de Israel para a Síria, para poder adorar Javé sobre ela.
— Idéia besta… Bom, leve a terra. Não há problema.
Eliseu voltou para dentro de casa e Naamã seguiu seu caminho para a Síria, de pele limpa e convertido à religião israelita. Um final que seria perfeito, não fosse a ganância de Geazi, o empregado de confiança de Eliseu. Ao ver que o patrão recusara qualquer pagamento pelos serviços prestados, Geazi quase se rasgou de ódio. Determinado a tirar algum proveito da situação, saiu no rastro de Naamã, alcançando-o já na estrada, fora da cidade.
— Que aconteceu?
— Nada não, seu Naamã. Bobagem. Uma coisinha besta. Um negocinho de nada. Uma bestagem mesmo. Xi, nem vale a pena falar. Coisa pouca.
— Fala, diabo!
— Bom. Assim que o senhor saiu lá da casa do patrão, chegaram dois profetas de longe, lá das montanhas de Efraim, aquele sertão brabo.
— Hum?
— Aí o patrão me mandou aqui para ver se o senhor teria como emprestar duas mudas de roupa e uns quilos de prata. Coisa pouca. Trinta quilos, sei lá. O que der.
— Mas está vendo só? Eu me ofereci para pagar, seu patrão não aceitou. Agora vem uma situação assim. Vê como as coisas acontecem? Meu filho, leve logo sessenta quilos de prata, que eu ainda acho pouco.
— Arredonda pra cem, então.
— Não abusa.
Geazi voltou à cidade feliz da vida, acompanhado por dois empregados de Naamã para ajudá-lo a carregar a prata. Quando chegou, guardou o presente do comandante em sua casa e dispensou os dois ajudantes. Ia voltando para dentro quando ouviu a voz de Eliseu. Seca.
— Aonde você foi?
— Eu? Fui? Ah! Nada. Nada não. Nada mesmo. Fui ali. Ali, depois lá naquele outro lugar. Comprar cigarro e tal.
— CORNO MALDITO! Meu espírito estava ao seu lado enquanto você negociava com Naamã. Será que você não viu que eu recusei o pagamento?
— …
— HEIN?
— Hã?
— FELADAPUTA! Você quer a prata de Naamã, as roupas dele? Você deseja ter essas coisas?
— Pois é, patrão.
— Tudo bem, então.
— Cumé? Tudo bem?
— Tudo bem, claro. Aliás, Naamã deixou uma coisa aqui e eu vou dá-la a você. Adivinha o que é?
— Hmmmm… Ouro?
— Não…
— Pedras preciosas?
— Não…
— iPod?
— Não…
— Ô, patrão, não agüento de curiosidade! O que foi que Naamã deixou pra mim?
— LEPRA!
Ao sair da casa do patrão, Geazi já tinha a pele toda esbranquiçada e quebradiça. Dali a uns dias, teria de buscar a bunda na esquina quando peidasse.

(II Reis 4)
Ninguém é mais espalhafatoso do que um tímido que resolve se soltar. Depois de anos preso em seu casulo, a pressão acumulada o transforma na mais exuberante das borboletas — o que, convenhamos, tem lá seu toque de veadagem. Vejamos o caso de Eliseu, por exemplo. Era fechado, carrancudo, arredio. Não olhava ninguém nos olhos, mal falava, vivia resmungando. Inseguro com sua aparência, tentava a todo custo esconder a calvície, e odiava quando esta era notada (lembram das ursas?). Mas agora, que diferença! Eliseu só vive de nariz empinado, faces afogueadas, andar petulante. A esconder sua careca, uma reluzente cartola, que combina com uma capa de veludo preto forrada de cetim grená. Há quem diga que a indumentária não combina é com a túnica de algodão cru e com as puídas sandálias de couro trançado, mas o profeta não dá a mínima. Segue seu caminho com altivez, e onde chega é anunciado por seu empregado Geazi como Eliseu, o Magnífico.
A que se deve tamanha transformação? Bem, segurança é algo que vem aos poucos, e Eliseu a vem adquirindo desde que seu mestre Elias foi alçado aos céus. O episódio das ursas serviu bem a esse propósito, e mais ainda o milagre das águas durante a preparação para a guerra contra Moabe. Para cimentar mais ainda a nova postura do profeta, uma série de acontecimentos o foi convencendo de que era, mesmo, magnífico.
Primeiro foi o caso da viúva pobre. Nada de notável nela: era uma viúva, tinha dois filhos, e era pobre. Muito. Tanto que um credor de seu finado marido, vendo a situação da mulher, decidira que levaria os dois moleques como pagamento. Vendia os garotos como escravos, pegava uma bufunfa, era sempre melhor do que nada. Desesperada, a viúva não sabia o que fazer para a) não morrer de fome e b) não perder os filhos.
E aí entra o valor do corporativismo: acontece que o falecido marido da viúva era profeta, então a dita achou por bem ir ter com Eliseu. Explicou que era viúva de um colega, que os dois deviam se conhecer do sindicato ou de alguma festa de fim de ano, que com o extinto não tinha conversa, era Javé na cabeça, e piriri e pororó.
— Tá, tá. Você não tem nada que possa oferecer a esse credor como parte do pagamento?
— Tenho não.
— Nada, nada?
— Nada.
— Um porco, uma galinha?
— Nem isso.
— Mas vá se pobre assim no diabo que a carregue! Você tem alguma coisa em casa, qualquer coisa?
— Bom. Tenho um jarrinho de azeite.
— Opa! Então está resolvido!
— Como assim?
— Tenha fé, sua viúva pobre! Eu sou Eliseu, oooooooooooooooooooooooo Magnífico!
— …
— …
— Quê?
— Hein?
— Como?
— Acho que preciso ensaiar mais. Bom, fale com suas vizinhas, peça a elas vasilhas vazias emprestadas.
— Vasilhas, vasilhas?
— Vasilhas vazias.
— Vazias, vazias?
— VAI LOGO, DIABO!
A mulher percorreu a vizinhança pedindo as vasilhas emprestadas. Quando conseguiu uma grande quantidade voltou para casa e, seguindo instruções de Eliseu, começou a despejar azeite do jarrinho na primeira vasilha. O recipiente se encheu e, para surpresa da viúva e de seus filhos, o jarro continuou com a mesma quantidade de azeite. Ela pediu aos meninos que trouxessem mais vasilhas, e as foi enchendo, sem que o frasco original se esvaziasse. Quando terminou o trabalho, a viúva tinha uma sala cheia de vasilhas de azeite e um jarrinho filnalmente vazio. Com o dinheiro da venda do azeite, ela conseguiu pagar a dívida do marido, e ainda lhe sobrou dinheiro para ir vivendo com seus filhos.
Depois foi o caso da sunamita. Eliseu estava de passagem por Suném, e uma mulher rica do lugar o convidou para uma refeição. Os dois ficaram amigos (muito amigos), e dali por diante, sempre que ia a Suném, Eliseu parava na casa de sua protetora, nem que fosse para jogar conversa fora. Ficaram um tempo nessa brincadeira, até que um dia a mulher resolveu que o profeta precisava de melhores acomodações. Resolvida, foi falar com o marido:
— Sabe esse homem, Eliseu?
— Hum?
— Eliseu, de Israel.
— O narigudo careca?
— Esse.
— Que tem ele?
— Ele é um homem de Deus.
— Que veadagem.
— Não, não é nada disso! Estou dizendo que ele é um profeta, alguém iluminado, abençoado.
— Mas careca daquele jeito?
— Que que tem? Eu estou certa de que se trata de um homem santo.
— Sei. E daí?
— E daí que a gente não pode receber um homem santo de qualquer jeito.
— Pode não, é?
— Claro que não! Eu acho que devíamos era construir um puxadinho aqui em cima da casa, botar uma cadeira, uma mesa, uma lamparina, uma cama, lençóis de linho, travesseiro de plumas de ganso, um bar de mogno, um iMac. Assim, quando ele passar por aqui, pode ser nosso hóspede.
— Hum. Então tá.
Como se vê, o marido da sunamita era desses homens apáticos. “Apático”, nesse caso, é sinônimo de “aquele que não passa pela porta”, como vocês já devem ter percebido. Pois autorizou a construção do tal puxadinho cheio de mimos para Eliseu, que entendeu muito bem o recado da vez seguinte em que passou por Suném, e mandou que Geazi fosse chamar sua anfitriã.
Acontece que, mesmo com tanta afinidade, os dois não conheciam o idioma um do outro. Comunicavam-se, portanto, pelos dois meios mais à mão: olhares lânguidos e Geazi. Como a presença do empregado constrangia a troca de olhares, Eliseu lhe pediu que traduzisse seu agradecimento para a sunamita:
— Diga a ela que fico muito feliz com esses aposentos, que não sei nem por onde começar para agradecê-la. Pergunte a ela o que posso fazer para demonstrar minha gratidão. Talvez ela queira que eu use minha influência junto ao rei ou a alguma autoridade.
— Eliseu calá bafunfa jaqué de tânquiu. Acuma tânquiu? Assquisser quingue, assquisser toridad?
— Mi donti nidi nadanão.
— Ela diz que tem tudo de que precisa aqui no meio de seu povo, que o senhor não precisa se apoquentar.
— Mas não há nada, nada mesmo que eu possa fazer por ela?
— Eliseu calá jaqué jaqué de tânquiu. Bafunfa de tânquiu, caray. Cumé?
— Fuquifuqui.
— Er…
— O que ela disse?
— É difícil de traduzir, chefe.
— Pois tente, diacho!
— Ela diz que não tem filhos.
— Sei.
— E que queria muito ter filhos.
— Hum.
— E que o marido dela é velho.
— Tá.
— …
— Quê?
— JUNTE AS PEÇAS, PELAMORDEDEUS!
E foi assim que, nove meses depois, a sunamita teve um filho.
Tá, eu sei que a história da mulher de Suném não convence muito como milagre. O que aconteceu anos depois, porém, compensa e muito. Pois sucedeu que o moleque estava no campo com seu pai (pai é quem cria) e sentiu uma terrível dor de cabeça. O menino gritava de dor, mas o pai, com toda sua experiência, tratou de tranqüilizá-lo:
— Não se apoquente, meu filho. Isso aí é chifre de leite, logo cai e a dor passa. Volte para casa, fique lá com sua mãe um pouco.
Um empregado se encarregou de levar o garoto para sua mãe. A sunamita embalou seu filho no colo até o meio-dia, quando o menino morreu.
Morto o menino, a mãe teve a presença de espírito de depositar o cadáver na cama de Eliseu e requisitar uma jumenta. Ia ao encontro do profeta. O marido ainda tentou dissuadi-la, pois não sabia que o filho havia morrido, mas ela continuou firme em seu propósito. Montou na jumenta e fez o bicho correr até chegar ao monte Carmelo, onde estava Eliseu. Quando o profeta viu que ela se aproximava, mandou Geazi a seu encontro, para perguntar se estava tudo bem. Ela respondeu que sim, mas quando chegou perto de Eliseu se jogou no chão e beijou os pés do profeta. Ao perceber a aflição da mulher, Eliseu nem precisou de tradução.
— Geazi, pegue minha vara…
— Tá me achando com cara de sunamita?
— CALABOCA! Pega minha vara, feladaputa, e vá até a casa dela em Suném. Lá chegando, coloque a vara sobre o menino.
Geazi partiu em toda carreira para Suném, e Eliseu e a sunamita seguiram atrás. Quando chegaram à casa, o empregado já estava lá havia tempo.
— Fez o que eu te mandei, Geazi? Como está o menino?
— A situação dele é estável, chefe.
— …
— Quer dizer, continua morto e tal.
— Oras, saia da minha frente!
Eliseu subiu ao seu quarto e viu o menino deitado na cama, já rígido e gelado. Então deitou-se sobre ele, colando sua boca à boca do cadáver. O corpo do menino começou a esquentar. Agoniado, Eliseu andava pelo quarto e rogava a Javé por um milagre. Outra vez deitou-se sobre o menino. Dessa vez, o garoto abriu os olhos e espirrou sete vezes.
— Geazi!
— Pois não, ch… Caralho! O moleque tá vivo! Fala alguma coisa, menino.
— Papai…
— Xi, chefe.
— A CRIANÇA ESTÁ DELIRANDO, TÁ BEM? Chame a mãe dele.
— Papai…
— QUER VOLTAR PARA ONDE ESTAVA, PIVETE?
— …
— Humpf.
Quando entrou no quarto, a sunamita quase bate as botas ao ver o filho vivo, embora ainda um pouco atordoado e estranhamente quieto. Mais uma vez ela ajoelhou-se diante de Eliseu (em sinal de agradecimento, seus podres), e depois retirou-se.
Ressuscitar um morto é o suficiente para qualquer um sair por aí se dizendo “O Magnifíco”. Para Eliseu, pelo menos, foi. E, como se não bastasse, ele ainda operou dois milagres ligados a comida. No primeiro, evitou que um grupo de profetas de Gilgal, todos eles seus alunos, morressem envenenados por um cozido mal preparado. Para isso, apenas jogou um punhado de farinha na panela, o que purificou o cozido inteiro. Da segunda vez, Eliseu alimentou com vinte pães um grupo de cem homens. Se bem que esse eu também faço, só depende do tamanho dos pães. Bom, o caso é que Eliseu estava com tudo, e preparado para o que viesse. Era bom que fosse assim: o profeta ainda teria muito trabalho pela frente.

(II Reis 3)
— Mandem buscar um músico.
— Um músico, Eliseu? Er… Que tipo de músico?
— Músico, músico! Tocador de flauta, harpa, berimbau, pandeiro, violoncelo, qualquer diabo.
— …
— Que foi? Vocês querem que eu resolva essa parada ou não?
— Claro que queremos, Eliseu!
— Pois então. Penso melhor com música.
Os três reis se entreolharam sem entender nada, deram de ombros e ordenaram a seus oficiais que saíssem em busca de um músico, rápido. Os reis Jorão, de Israel, Josafá, de Judá, e Mané Chupeta, de Edom, junto com seus respectivos exércitos, já zanzavam havia sete dias pelo deserto rumo a Moabe. Era o melhor caminho para um ataque surpresa, já que o rei moabita não esperava um ataque pela fronteira edomita, ao sul. Os três reis haviam partido confiantes para a batalha: iam ensinar uma lição àquele pilantra que, ao receber a notícia da morte de Acabe, decidira não cumprir mais suas obrigações. Agora estavam no meio do deserto, sem água, acompanhados de soldados cada vez mais inquietos. A idéia de procurar um profeta viera do piedoso Josafá. Eliseu relutara em vir, e por fim concordou. “Mas só porque foi Josafá que chamou”, fez questão de ressaltar. Se, depois de tudo isso, a solução exigia que um sujeito cantasse para o profeta, que assim fosse.
Horas depois, apareceu o músico.
— Toca aí, rapaz.
— O que os senhores querem ouvir?
— Sei lá. Improvise aí qualquer coisa. Que diabo de instrumento é esse?
— Um cambão de foles, majestade.
— Ah… Bom, vai tocando aí.
— O senhor manda.
Depois de afinar seu estranho instrumento, o músico ensaiou alguns acordes e começou a tocar e cantar:
Quando Javé te desenhou
ele tava namoraaaaaaaaaaaando
Quando Javé te desenhou
ele tava namoranduuuuuuuuu
na beira do maaaaaaaaaaaaar
na beira do mar mortô
na beira do maaaaaaaaaaaaar
na beira do m…

— OK! CHEGA!
— Não gostou, seu profeta?
— Que porra de música é essa?
— É de minha autoria, e exijo respeito. Essa canção ainda vai fazer muito sucesso.
— Sucesso onde, rapaz? Só gente muito estúpida agüentaria ouvir isso. Chega, basta! A inspiração já veio. Javé ordena que vocês cavem muitas covas em todo o leito seco desse riacho. O bicho vai se encher de água rapidinho.
— Tá. Conta outra.
— Conto, seu bastardo sem fé: assim como é fácil para Javé fazer surgir água do nada, também é fácil para ele dar a vocês a vitória sobre Moabe. Vocês vão arrasar as terras deles, destruir suas cidades, cortar todas as árvores frutíferas, aterrar todas as fontes de água e cobrir de pedras todas as plantações.
— Pô, nem precisa tanto. O cara só deixou de pagar uns impostos. Basta ganhar a guerra e pronto.
— Isso é que você diz, Jorão. Javé ordena que Moabe seja arrasado, e é isso que vocês vão fazer.
— Petulante…
— OLHA QUE EU CHAMO AS URSAS!
— Tá, tá!
Os reis ordenaram que os soldados cavassem covas no leito do rio seco, conforme as ordens de Eliseu. No dia seguinte, logo de madrugada, uma massa de água veio da direção de Edom, cobrindo o chão. Era uma cena linda de se ver, ainda mais com o reflexo vermelho do sol irradiado pela água cristalina.

* * *

— Percebeu o truque?
— Que truque?
— Sempre que esse cara não sente firmeza num capítulo, trata logo de inverter a seqüência narrativa.
— Como é?
— Olha lá, começou com Eliseu pedindo o músico, só depois foi contando o que aconteceu antes.
— Uia! É mesmo! Que truque manjado, rapaz…
— Pois é.
— E agora?
— Agora ele deve ir quase lá pro fim da história e vir voltando até a narrativa encontrar o ponto onde parou.
— Será?
— Vai vendo.

* * *

Encurralado em Quir-Heres, capital do reino, o rei Mesa bate a cabeça na parede e se amaldiçoa por sua temeridade. Tudo o que precisava fazer era mandar cem mil cordeiros e cem mil carneiros anualmente ao rei de Israel. Considerou a morte de Acabe uma boa oportunidade para revoltar-se deixar de enviar o pesado tributo. A reação israelita veio célere: aliado a Judá e Edom, o rei Jorão, filho de Acabe, decidiu atacar pelo sul. Quando Mesa soube, os exércitos das três nações inimigas já estavam bem próximas à fronteira. Mandou convocar às pressas todos os homens do reino e começou a se preparar para a batalha.
Mesmo em menor número, Moabe teria chances de vencer. Um erro de cálculo, porém, desencadeou o massacre: ao verem aquela mancha vermelha no meio do deserto, perto do acampamento inimigo, deduziram que se tratava de sangue, e que os três exércitos haviam se desentendido e massacrado uns aos outros. Aproveitando essa suposta divisão do outro lado, os soldados moabitas partiram para o ataque em campo aberto. Só quando já estavam muito perto, e já era tarde demais, notaram que a mancha vermelha era o reflexo do sol nas águas de um rio que só deveria estar cheio na época da chuva, muitos meses depois.

* * *

— Viu? Viu?
— Shhhhhhhhhh…

* * *

O engano fora fatal. Os israelitas perseguiram o exército de Moabe, matando quase todos os soldados. Agora o território moabita estava devastado pela ferocidade inimiga: fontes soterradas, plantações cobertas de pedras, árvores derrubadas, animais de médio porte estuprados.
Desesperado, ouvindo os gritos de guerra dos israelitas e seus aliados do outro lado dos muros da cidade, Mesa olhava em volta e procurava uma maneira de escapar daquela situação. Tentou enviar setecentos homens que haviam sobrevivido ao ataque para romper as linhas inimigas, de modo que pudesse fugir para a Síria. Não deu certo. Só lhe restava mesmo o auxílio sobrenatural.
— Filho, venha cá.
Após proferir uma breve prece, Mesa imolou seu filho e herdeiro do trono nas muralhas da cidade, como um sacrifício a Quemos, seu deus. Aterrorizados com a cena, os israelitas fugiram.

* * *

— Acabou?
— Que nada! Agora ele vai dar uma de sabidão. Olha só.

* * *

Ao ler a Bíblia, temos a impressão de que os israelitas consideravam Javé como único Deus do universo, e os deuses de outras nações como meros ídolos. Esse final da guerra contra Moabe parece sugerir algo diferente: assim como acontecia em todas as regiões, os israelitas também parecem acreditar numa espécie de democracia sobrenatural, com cada deus exercendo influência sobre um determinado território. No Asimov’s Guide to the Bible, Isaac Asimov diz que esse modelo de crença, chamado henoteísmo, era mesmo muito comum na época. Dessa forma, a retirada repentina do exército de Israel não teria sido motivada pelo terror diante da barbárie do rei moabita, mas sim de um medo autêntico da ira do deus Quemos, já que estavam em seu território.

(II Reis 2)
De todos os homens escolhidos por Javé para transmitir sua mensagem, nenhum sofreu tanto quanto Elias. Isolado no papel de representante da tradicional religião israelita, execrado pelas autoridades de seu país, vivendo seminu no deserto, o mal humorado profeta tinha sua fé provada a cada dia. Era tão difícil sua vida, na verdade, que Javé resolveu lhe conceder um plano de aposentadoria inédito. Antes, porém, Elias precisava enfrentar um outro problema: Eliseu.
Não que Eliseu fosse ruim. Escolhido por Deus como sucessor de Elias, o rapaz até que era bem intencionado, atencioso, esforçado, enfim, todos esses adjetivos que formam um chato perfeito. Interessado em aprender, vivia fazendo perguntas. “Seu Elias, é verdade que o senhor ressuscitou um menino?”, “Seu Elias, é verdade que os corvos te deram comida?”, “Seu Elias, o senhor não poderia pelo menos arranjar uma cueca?”. A todas essas, Elias só respondia com um “Humpf” ou um “Vai dar, moleque”. Nem assim Eliseu diminuía sua veneração pelo chefe. Talvez fosse pelas grandes diferenças entre os dois: ranzinza e seguro de si, o velho profeta tinha sempre uma gota de ácido na ponta da língua, que não perdoava ninguém. Eliseu, por outro lado, era retraído e inseguro, titubeava ao falar e vivia gaguejando desculpas. Às vezes, quando provocado até seu limite, se encolhia, cerrava os punhos. Em casos extremos, e principalmente quando mencionavam sua calvície precoce, murmurava um “Deus te foda”. A isso se limitavam suas reações.
Agora Elias precisava de sossego para sair de cena, mas Eliseu teimava em ficar ao seu lado. No caminho para Gilgal, o profeta exasperou-se com a presença de seu auxiliar.
— Vai dar, moleque.
— Não adianta, seu Elias. Eu prometi ficar ao seu lado, e vou ficar ao seu lado até o fim.
— Fica aqui, diabo! Javé me mandou ir até Betel. Ele disse assim: “Elias, vá até Betel”. Você ouviu ele dizer “Eliseu, vá até Betel”?
— Não senhor.
— Então.
— Mas subentende-se.
— Cê vai deixar desse negócio de subentender as coisas quando eu te der uma muquetada na orelha, moleque! Me larga!
— De jeito nenhum!
Elias fechou a cara e continuou a caminhar; e sempre com Eliseu em seu encalço. Quando chegaram a Betel, uns profetas que ali moravam chamaram o ajudante para uma conversa particular.
— Ô, carequinha.
— Deus te foda.
— Que foi?
— Nada.
— Olha aqui. Você sabe que Javé vai levar seu chefe hoje, não sabe?
— Sei sim.
— Então por que você não deixa de ser chato e larga o cara?
— Me deixem!
— Que que você está arrumando confusão aí, Eliseu.
— Nada não, Seu Elias. É que eles disseram que Javé vai…
— Bom, foda-se. Deus me enviou a Jericó. Me espera aqui que eu já volto.
— Ah, de jeito nenhum! Aonde o senhor for eu vou.
— Porra, moleque, tu é minha nega agora?
— …
— Tá, tá. Vamos logo.
Quando os dois chegaram a Jericó, a mesma cena se repetiu: outro grupo de profetas lembrou a Eliseu do que estava para acontecer a seu mestre, Elias disse que teria que ir a outro lugar (agora o rio Jordão), Eliseu insistiu em acompanhá-lo. Saindo da cidade, os dois foram seguidos por cinqüenta profetas. Quando chegaram à beira do rio, os profetas ficaram olhando de longe. Como se não fosse nada, Elias enrolou sua capa e bateu com ela nas águas do Jordão, que se abriu para sua passagem. Do outro lado, Elias olhou para trás e viu satisfeito que estava sozinho. Deu meia-volta para prosseguir seu caminho e deu de cara com Eliseu.
— DE ONDE VOCÊ SAIU, MOLEQUE?
— Estou sendo discreto, Seu Elias, como o senhor me ensinou.
— …
— E agora, o que fazemos?
— Você, eu não sei. Eu preciso resolver minha vida. MINHA vida, está entendendo? Que diabo você quer para me deixar em paz?
— Eu quero o dobro do seu poder.
— Er… Como é?
— O dobro do seu poder. Como herança.
— Endoidou, moleque? Como é que eu vou te dar isso?
— O senhor não precisa me dar nada. É uma herança a que eu tenho direito por lei.
— Lei de onde, moleque do inferno? Da Apae?
— Pela Lei de Moisés, Seu Elias. A Lei não diz que o filho mais velho tem direito ao dobro da herança?
— Sim, mas eu não tenho filho.
— Exato. Não tem filho e também não tem merda nenhuma para deixar de herança. Mas veja, eu estou acompanhando o senhor há tanto tempo que já posso ser considerado herdeiro legítimo. E como só o que o senhor tem é esse poder de ressuscitar mortos, dividir as águas, usar corvo de garçom e coisa e tal, é essa minha herança.
— Sua herança?
— Sim. Em dobro.
— Hum. Você até que não é tão idiota quanto parece, sabia?
— Obrigado, Seu Elias.
— Mas não posso garantir nada. Isso é lá com Javé, entenda. Mas vamos fazer assim: se você me vir indo embora, receberá o que pede. Se não vir, fica sem nada.
— Tudo bem. Aliás, para onde o senhor vai?
— Você já vai ver.
— É longe?
— Shhhh…
— É que eu queria sab…
[PARÃM-PÃMPAMPAM-PÃAAAAAAAAAAM]
— Que música é essa?
[PARÃM-PÃMPAM-PÃM]
— Seu Elias?
[PARÃM-PÃMPAMPAM-PÃAAAAAAAAAAM]
— Está ouvindo?
[PARÃM-PÃMPAM-PÃMMMMMMMM]
Eliseu só lembrou o nome da melodia quando viu a carruagem de fogo passar entre ele e seu mestre, rápida como um raio. Era uma visão e tanto, com seus cavalos flamejantes e suas rodas de ferro incandescente. Enquanto Eliseu e os profetas do outro lado do rio se deslumbravam com a carruagem, Elias, como se fosse um saci, foi levado ao céu num redemoinho. Séculos depois do Êxodo, Javé voltava a investir pesado em efeitos especiais.
— Papai! — gritou Eliseu. Lá de cima, Elias ouviu e entendeu de uma vez só o sentimento que movia o garoto. Não podia mais voltar atrás, porém: acabava de se aposentar am alto estilo, levado aos céus, um feito que só Enoque conseguira antes dele.
Entristecido com a partida de seu mestre, Eliseu rasgou suas roupas em sinal de tristeza. Depois pegou a capa que Elias deixara cair e voltou para a margem do Jordão.
— Onde está Javé agora? — gritou ele, e bateu com a capa na água do rio, que se abriu imediatamente.
O novo profeta atravessou o rio a seco, e foi recebido do outro lado por cinqüenta colegas prostrados a seus pés. Os profetas se ofereceram para procurar por Elias, pois acreditavam que Javé apenas o transportara dali para outro lugar. Eliseu hesitou mas, mesmo sabendo da verdade, acabou por autorizá-los. Depois de três dias, desistiram das buscas.
Arrebatado por Javé, Elias entrou para o imaginário judaico com a mesma força de Moisés. Séculos mais tarde, alguns comparariam João Batista (que também pregava no deserto e enfrentava as autoridades) a ele, e o próprio Jesus faria menção à semelhança. Numa das passagens mais intrigantes do Novo Testamento, os discípulos vêem Jesus Cristo conversando com Elias e Moisés.
Depois de repartir as águas do Jordão, Eliseu parecia outra pessoa. Quando os habitantes de Jericó vieram lhe dizer que a água que servia a cidade era salobra e chegava até a provocar abortos, o profeta não hesitou. Mandou que lhe entregassem um punhado de sal dentro de uma tigela, sal que jogou no manancial, dizendo:
— Javé diz que purificou essa água, e que ela não causará mais problemas.
No mesmo instante os que o acompanhavam provaram a água, e estava pura e cristalina.
No caminho de volta para Betel, porém, Eliseu vacilou por um instante. Enquanto se aproximava da cidade, um grupo grande de garotos lá em cima gritava:
— Some daqui, careca! Sai, aeroporto de mosquito! Fora, Kojak! Sua testa vai até o calcanhar!
Eliseu parou, olhou firme para eles, mas na hora as palavras lhe fugiram. Então abaixou a cabeça, cerrou os punhos e murmurou:
— Deus te foda.
No mesmo momento duas ursas saíram do mato e despedaçaram quarenta e dois dos zombadores.
Eliseu nem ficou muito tempo em Betel: tratou de ir até o monte Carmelo e de lá voltar a Samaria. Dali por diante precisaria ter mais cuidado com tudo o que dissesse.