
Ele tinha um punhal na mão direita
Vejam essa foto. Não reparem na qualidade: foi tirada lá em 2002, essa era a tecnologia que tínhamos naquele tempo. Esse aí ao meu lado (para quem não sabe, eu sou o gordo careca) é Rafael Capanema. Conheci Rafael em 2002, ano em que criei este blog. Ele, aos 16 anos, já tinha dois blogs de sucesso: o sutil como um paquiderme, que contava as agruras da vida de adolescente, e o Diário do Pão Com Manteiga na Chapa, o blog com a proposta — muito ousada para a época — de contar dia a dia se o autor tinha ou não comido pão com manteiga na chapa. Eu, aos 27 anos, tinha muito a aprender com o rapaz. Comecei a comentar no blog dele, estabelecemos contato, nos tornamos bons amigos. Nos encontrávamos com freqüência, conversávamos, eu contava histórias. Sou um tiozão, gosto de contar histórias. Se eu soubesse com quem eu estava lidando, teria tomado mais cuidado. Já chego lá.
Era a época de ouro da blogosfera nacional, quando os blogueiros se encontravam e bolavam seus planos de dominação mundial, meio que na brincadeira. No fim das contas, os blogs dominaram mesmo o mundo, num movimento que culminou com o Interbarney, um misto de portal e teoria da conspiração. Dizem que, após anos de ostracismo blogueiro, Rafael Capanema agora é um dos integrantes do Interbarney. Não sei. Eu ia colocar o link aqui, mas aquilo é uma bagunça. Não sei como os jovens conseguem navegar nessa internet de hoje em dia.
Bom.

Daniel Lima: um homem do povo
Dias atrás, convidei Daniel Lima para uma cerveja aqui em casa. Daniel é daquela safra também. Bom rapaz, bom amigo. Ele disse que vinha, que tentaria trazer o Capanema. Fiquei feliz, há muito tempo não via nenhum dos dois. Marcamos, desmarcamos, remarcamos. Hoje, enfim, vieram os dois aqui e fomos almoçar. Relembramos histórias daquele louco começo de século, quando todos desfrutávamos as doçuras da fama. Lá pelas tantas, Rafael fica sério e diz:
— Marco, eu preciso te confessar uma coisa.
Achei que receberia uma declaração de amor. Seria muito lisonjeiro, embora não totalmente inesperado. Mas não era nada disso.
E agora eu tenho que contar rapidinho como meus pais se conheceram.
Caetano Veloso gravou Felicidade, de Lupicínio Rodrigues. Minha mãe adorava a música. Meu pai ficou sabendo, procurou um amigo dele que estava vendendo um violão e ofereceu uma grana a mais para que o cara ensinasse ele a tocar a música. Aprendeu, tocou e cantou pra minha mãe, ela caiu nessa. Os dois começaram a namorar, ficaram noivos, se casaram. Eu nasci, meus irmãos nasceram. O violão só voltou a ser tocado em 1991, quando eu tinha 16 anos e resolvi aprender. É o mesmo violão que está ao meu lado agora.
Linda história. Aí, acho que uns três anos atrás, a Fnac fez uma promoção. Conte uma história de amor nunseiquelá e ganhe um iPod. Um bom amigo que soubesse da promoção falaria comigo: “Marco, tão fazendo essa promoção aí, manda a história dos seus pais.” Mas não Rafael Capanema. Rafael Capanema, esse rapaz de ar inocente, identificou ali uma oportunidade para mostrar quem ele realmente era. Escreveu a história dos meus pais exatamente como eu havia contado, mas com uma diferença: em vez de meus pais, os protagonistas eram ele e uma garota fictícia qualquer. Ele teve até o capricho de dizer que nunca mais tocou violão depois disso. Mesmo tendo lá sua bandinha. Uma bandinha que já tocou, entre outros lugares obscuros, na Fnac.
Ele ganhou o iPod, é claro. A história é muito boa. E só hoje, três anos depois, ele me contou. Fico pensando em todas as histórias que eu já contei a esse rapaz. Histórias de minha família, de meus amigos, coisas bizarras que aconteceram comigo. Imagino como ele se faz popular mundo afora se colocando como personagem dessas histórias, histórias que são minhas.
Fica aqui o meu alerta. Não se deixem enganar pelo jeito dócil, pelo aspecto de Rogério Flausino desse rapaz. Ele vai te apunhalar assim que puder. E você não vai ganhar nem a porra de um iPod.

CUIDADO, FLAUSINO!