Negro gato

Negro gato


Esse cara aí do lado é o Samuel.
Tá. Ele não é um cara. É um gato. Quase que eu enganei vocês.
Em um ano de vida, Samuel já passou por coisa que vocês nem imaginam. Nem eu. Dona Vera, minha sogra, encontrou o bicho todo estropiado no quintal de uma casa da vizinhança. Não era nem para ele estar vivo, na verdade. Deve ter sido atropelado, ou então alguém muito filho-da-puta maltratou o gato àquele ponto. Eu acho que foi atropelado, mas só porque eu quero muito acreditar que as pessoas são boas e tal.
Bom, mas a sorte do Samuel é que minha cunhada é veterinária, e das boas. Ela desmontou o gato e montou de novo. Costurou as feridas, arrumou os ossos, empurrou os músculos pra dentro, botou mais 1Gb de RAM, um subwoofer. Ele só arrastava as patas traseiras; precisou fazer fisioterapia. Ninguém acreditava que ele pudesse voltar a andar — eu até pesquisei umas cadeiras de rodas pra gatos. Mas o bicho é tão casca-grossa que aos poucos foi se apoiando nas patas traseiras. Hoje ele corre, pula, faz aquelas maluquices de gato.
Então ele está bem, mas mora numa casa com três cachorros que não vão muito com a cara dele. Ele tem que ficar o tempo todo num cômodo só, escondido da cachorrada. É bem melhor do que ficar jogado no quintal de uma casa abandonada esperando a morte chegar sete vezes. Mas, pô, sacanagem com o bicho. É um gato bem legal, de verdade. E é preto também. Tem futebol e samba no pé, toca lá seu reco-reco. É um espírito livre. Um ladies man.
O Samuel precisa de um dono que cuide bem dele. Adote o Samuel e ganhe pontos no seu karma.
How you doin'?

How you doin'?

Por mais de sete anos eu tenho agüentado comentários furibundos de fundamentalistas cristãos que odeiam meus escritos hereges. Agora, depois do post sobre a Yoani, tenho de agüentar também os fiéis devotos de São Fidel, São Guevara, São Stalin. Esses são ainda mais fanáticos. Religião é uma coisa do capeta mesmo.

Pobrema no figo
Pobrema no figo


Essa moça magriiinha aí do lado é Yoani Sanchez. Você já ouviu falar dela. É uma cubana, autora do blog Generación Y. Vejam a foto do perfil dela no blog. A mulé é zuada, tadinha. Mas também, o que eles comem lá? Cana e charuto?
Yoani quer vir ao Brasil. Yoani quer dançar funk rebolando até o chão. Yoani quer mais é beijar na boca. Quer conhecer as pessoas, quer ver as praias, quer entrar numa churrascaria pra depois ter as histórias mais incríveis pra contar em Havana (“Aí o cara vem com um espeto de carne DESTE tamanho e te dá quanto você quiser”, ela diz para os cubanos incrédulos). Mas ela não pode.
No blog dela, Yoani escreve sobre a vida em Cuba. Não é uma boa vida. Depois de 30 anos dependente da União Soviética, Cuba passou por um perrengue desgraçado nos anos 90. Hoje, depende do petróleo de Hugo Chávez. Sei não, acho que era melhor depender dos russos. Pelo menos as roupas deles eram melhores. Tem aquela história da Itália fascista, que o Mussolini era bom porque os trens chegavam na hora certa. Numa entrevista à Época, a Yoani diz que algo parecido aconteceu em Cuba quando Raul Castro assumiu o poder: sem os discursos compriiiidos de Fidel Castro, as novelas brasileiras começam na hora certa. Fora isso, não mudou nada: a comida ainda é pouca, e a Yoani cada vez mais magrela. Ó a foto. Tadinha.
Yoani escreve lá o blog; também escreve artigos para publicações mundo afora. Ganhou prêmios, apareceu na Time como a 31ª pessoa mais influente do mundo. Depois de mais de dois anos de blog, ela tomou o caminho natural: lançar um livro com um apanhado de posts e tentar faturar uns caraminguás. Só que, é claro, essa coletânea do Generación Y é muito mais relevante do que a média dos livros baseados em blogs.

Com carinho
Com carinho


A Editora Contexto vai lançar o livro dela no Brasil. A edição brasileira do livro escapou por uma sílaba de ter nome de filme pornô: De Cuba Com Carinho. O lançamento é este mês. A editora quer trazer Yoani para o Brasil e ver se ela, fraquinha como é, agüenta uma tarde de autógrafos. Mas está difícil da mulher vir para cá, e não é porque ela tenha medo de ser assaltada ou atacada por jaguatiricas.
Cuba é igual a Coréia do Norte, só que mais animadinho. Duvido que na Coréia do Norte as pessoas saiam às ruas dançando mambo. Fora isso, os dois países são prisões para seus cidadãos. Eu não vou discutir se o regime é bom ou ruim. É uma merda, é uma aberração, mas não vou discutir. Só digo o seguinte: da única vez que eu precisei sair do Brasil, meu único empecilho foi o visto de entrada no país de destino. Ninguém por aqui disse que eu não podia sair do país. Fui lá, fiz meu trabalho, voltei. Mas em Cuba não é assim. Nego sai e não volta, porque a vida por lá é uma merda. Sabendo que a é uma merda, o governo não deixa neguinho sair. Fácil.

MENSAGEM SUBLIMINAR: Quando você se sentir tentado a agradecer ao Estado por interferir na sua vida, lembre-se de Cuba.

Yoani quer rosetar no Brasil, só que ela não pode sair de Cuba. Ninguém pode, ela pode menos ainda. O blog dela é bloqueado em Cuba. Ela só arruma empregos ilegais, como dar aulas particulares (sim, isso é ilegal em Cuba). Em entrevista à Veja, ela fala da campanha suja que o governo faz contra ela. Sair do país seria impensável.
Tia Cris está acompanhando o caso e participa da campanha para trazer a mulézinha ao Brasil. Tem muita gente querendo a mulher aqui para o lançamento do livro; basta fazer uma busca no Google que você acha. E vai achar também esse povinho esquisito dizendo que a direita quer trazer Yoani Sanchez para o Brasil como um troféu do imperialismo e da série B do Paulista. Sei lá, papo de comunista é muito confuso. Essa gente diz que Cuba é um país livre, com eleições democráticas. Devem ter confundido com outra ilha. Tem muita ilha na América Central, é fácil confundir. Essa gente também diz que a direita brasileira está em campanha aberta para trazer Yoani ao Brasil e assim desmoralizar o regime livre e democrático de Cuba. Com vocês, uma das vozes da direita brasileira:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=CDnTxt1mb-E&w=320&h=265]

O Suplicy! O Suplicy ama Cuba, meudeusdocéu. Quando não está fazendo seu gabinete de albergue nem levando a namorada para passear com dinheiro público, o senador sonha com a brisa socialista que sopra nas praias cubanas. Pois até ele quer Yoani no Brasil. Sem muita convicção, falando com cuidado para não criticar o regime cubano em nenhum momento, mas mesmo assim: até o Suplicy quer que a mulézinha (tadinha) venha ao Brasil para o lançamento do livro dela. Eu também quero. Não li o blog dela, nem sei se ela é boa bisca. Mas a mulher quer viajar. As pessoas devem poder viajar. Né?

Ele tinha um punhal na mão direita

Ele tinha um punhal na mão direita

Vejam essa foto. Não reparem na qualidade: foi tirada lá em 2002, essa era a tecnologia que tínhamos naquele tempo. Esse aí ao meu lado (para quem não sabe, eu sou o gordo careca) é Rafael Capanema. Conheci Rafael em 2002, ano em que criei este blog. Ele, aos 16 anos, já tinha dois blogs de sucesso: o sutil como um paquiderme, que contava as agruras da vida de adolescente, e o Diário do Pão Com Manteiga na Chapa, o blog com a proposta — muito ousada para a época — de contar dia a dia se o autor tinha ou não comido pão com manteiga na chapa. Eu, aos 27 anos, tinha muito a aprender com o rapaz. Comecei a comentar no blog dele, estabelecemos contato, nos tornamos bons amigos. Nos encontrávamos com freqüência, conversávamos, eu contava histórias. Sou um tiozão, gosto de contar histórias. Se eu soubesse com quem eu estava lidando, teria tomado mais cuidado. Já chego lá.

Era a época de ouro da blogosfera nacional, quando os blogueiros se encontravam e bolavam seus planos de dominação mundial, meio que na brincadeira. No fim das contas, os blogs dominaram mesmo o mundo, num movimento que culminou com o Interbarney, um misto de portal e teoria da conspiração. Dizem que, após anos de ostracismo blogueiro, Rafael Capanema agora é um dos integrantes do Interbarney. Não sei. Eu ia colocar o link aqui, mas aquilo é uma bagunça. Não sei como os jovens conseguem navegar nessa internet de hoje em dia.
Bom.

Daniel Lima: um homem do povo

Daniel Lima: um homem do povo

Dias atrás, convidei Daniel Lima para uma cerveja aqui em casa. Daniel é daquela safra também. Bom rapaz, bom amigo. Ele disse que vinha, que tentaria trazer o Capanema. Fiquei feliz, há muito tempo não via nenhum dos dois. Marcamos, desmarcamos, remarcamos. Hoje, enfim, vieram os dois aqui e fomos almoçar. Relembramos histórias daquele louco começo de século, quando todos desfrutávamos as doçuras da fama. Lá pelas tantas, Rafael fica sério e diz:

— Marco, eu preciso te confessar uma coisa.

Achei que receberia uma declaração de amor. Seria muito lisonjeiro, embora não totalmente inesperado. Mas não era nada disso.

E agora eu tenho que contar rapidinho como meus pais se conheceram.

Caetano Veloso gravou Felicidade, de Lupicínio Rodrigues. Minha mãe adorava a música. Meu pai ficou sabendo, procurou um amigo dele que estava vendendo um violão e ofereceu uma grana a mais para que o cara ensinasse ele a tocar a música. Aprendeu, tocou e cantou pra minha mãe, ela caiu nessa. Os dois começaram a namorar, ficaram noivos, se casaram. Eu nasci, meus irmãos nasceram. O violão só voltou a ser tocado em 1991, quando eu tinha 16 anos e resolvi aprender. É o mesmo violão que está ao meu lado agora.

Linda história. Aí, acho que uns três anos atrás, a Fnac fez uma promoção. Conte uma história de amor nunseiquelá e ganhe um iPod. Um bom amigo que soubesse da promoção falaria comigo: “Marco, tão fazendo essa promoção aí, manda a história dos seus pais.” Mas não Rafael Capanema. Rafael Capanema, esse rapaz de ar inocente, identificou ali uma oportunidade para mostrar quem ele realmente era. Escreveu a história dos meus pais exatamente como eu havia contado, mas com uma diferença: em vez de meus pais, os protagonistas eram ele e uma garota fictícia qualquer. Ele teve até o capricho de dizer que nunca mais tocou violão depois disso. Mesmo tendo lá sua bandinha. Uma bandinha que já tocou, entre outros lugares obscuros, na Fnac.

Ele ganhou o iPod, é claro. A história é muito boa. E só hoje, três anos depois, ele me contou. Fico pensando em todas as histórias que eu já contei a esse rapaz. Histórias de minha família, de meus amigos, coisas bizarras que aconteceram comigo. Imagino como ele se faz popular mundo afora se colocando como personagem dessas histórias, histórias que são minhas.

Fica aqui o meu alerta. Não se deixem enganar pelo jeito dócil, pelo aspecto de Rogério Flausino desse rapaz. Ele vai te apunhalar assim que puder. E você não vai ganhar nem a porra de um iPod.

CUIDADO, FLAUSINO!

CUIDADO, FLAUSINO!

Eu não sei o que as pessoas superlegais pensam da Pitty hoje em dia. E nem me interessa na verdade. Quando ela apareceu, eu não agüentava nem ver a cara dela. Mas ela cantou no VMB e eu gostei muito.

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Não sei o que é. Essa estrutura dos bregas clássicos, meio Odair José, é irresistível. O refrão gruda que é uma beleza. Pop da melhor qualidade.

Além do mais, como bem observa Mestre Palito (não perguntem), que pele firme ela tem! “É muito colágeno”, ele diz. E é verdade. Reparem.

Recadim pra vocês: quinta-feira que vem, dia 8, estréia aqui em São Paulo a peça O Cortiço, adaptação daquele livro do Aluísio de Azevedo. Ó:

É uma boca na vertical

É uma boca na vertical


“E daí?”, vocês perguntam. E daí que é muito legal. Além do ambiente do cortiço do século XIX, vai ter umas projeções de vídeos com depoimentos sobre a obra e os personagens, imagens relacionadas à peça, enfim, todo um lance modernoso. Mas o mais importante de TUDO é que eu estou fazendo a assessoria de imprensa da peça (daí minha ausência do blog, também). Então façam o favor de ajudar na divulgação.
Volto já.
O_