A felicidade do CPAP


Esse trambolho no meio da cara do gordão aí do lado é a melhor invenção do mundo — embora a cara do gordão faça parecer que não. O nome do troço é aparelho de CPAP (Continuous Positive Airway Pressure, ou pressão positiva contínua das vias aéreas). O que vai na cara aí do sujeito é só a máscara; um tubo liga a máscara a um aparelho que fica soprando dentro do nariz do infeliz.
Logo depois da minha primeira polissonografia, que constatou um recorde mundial de apnéia, eu já sabia que ia precisar usar o aparelho. Pesquisei na internet, achei fotos como essa aí e fiquei preocupado: como é que eu ia dormir com essa tromba na minha cara? O que faria minha esposa ao acordar no meio da noite e dar de cara com o Darth Vader?
Então foi com pensamentos sombrios que cheguei anteontem de mala e cuia ao hospital Rubem Berta para a segunda polissonografia. Dessa vez, o exame teria uma diferença: eu ia dormir com o CPAP para determinar a pressão correta do aparelho que vou usar.
Bom, o Rubem Berta tem algumas vantagens em relação ao CEMA, onde eu fiz o primeiro exame. O atendimento é mais rápido, as pessoas são mais simpáticas e as enfermeiras são mais gostosas. Tem TV a cabo, então fiquei assistindo Discovery Channel enquanto não vinham me botar eletrodos pelo corpo. Quando eu começava a ficar fascinado com a vida empolgante dos estromatólitos, duas enfermeiras — uma morena e uma loira que nem te conto — chegaram para me amarrar, amordaçar e surrar por ser um menino mau, muito mau.
Olá, enfermeira!

Olá, enfermeira!


Tá, mentira. Elas mal falaram comigo. Me mandaram sentar numa cadeira, grudaram eletrodos na minha cabeça, no peito, na barriga, nas pernas. Mandaram deitar na cama de novo e saíram. Minutos depois (vocês sabiam que os estromatólitos foram a forma dominante de vida na Terra durante dois bilhões de anos?) a loira voltou com a máscara do CPAP e eu me preparei para uma noite insone.
A máscara era mais trambolhuda do que a do gordão ali em cima. “Segura a máscara no nariz pra ir se acostumando”, disse a loira, “daqui a pouco eu volto pra te amarrar, digo, pra amarrar a máscara.” Eu, obediente, fiquei segurando a tromba contra a cara, aquele negócio assoprando dentro do meu nariz, fios pelo corpo todo. Quarto estranho, cama estranha, travesseiro estranho. Suspirei de resignação.
Logo a loira voltou para prender a máscara. Perguntei a ela o que faria se precisasse ir ao banheiro — longe de mim passar pelo vexame do papagaio de novo. “Aperta o botão”. Ela disse “boa noite”, apagou a luz e saiu. Sozinho no quarto, deitado de barriga para cima, pensei: “Nem fodendo que eu vou conseguir dormZZZZZZZZzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz…”
Eu não sei descrever o que aconteceu em seguida. Bom, se você respira durante a noite deve achar a coisa mais normal do mundo. Mas eu, que sempre precisei escolher entre dormir ou respirar, tive a melhor noite de sono da minha vida.
Porque, vejam, o sono é como uma sessão de mergulho. Você começa na superfície, vai afundando, afundando, afundando. Depois você volta, chega perto da superfície, e começa tudo de novo. O sono tem fases mais superficiais e mais profundas, e elas se sucedem em ciclos. As pessoas normais mergulham de escafandro: por mais que afundem, têm sempre algum oxigênio vindo da superfície. Quem sofre de apnéia fica o tempo todo perto da superfície, de pés-de-pato e snorkel, saindo à tona toda hora para respirar.
Com o CPAP, parecia que tinham me dado um cilindro de oxigênio. Eu comecei a sonhar que estava em Santos, jogando futebol na praia, e depois ia para um bar. Numa noite normal, o sonho terminaria aí: eu acordaria desesperado por oxigênio, resfolegando e com a boca seca. Levantaria para tomar um copo d’água. Depois do segundo copo, eu começaria a levantar de hora em hora para mijar e beber mais água.
Com o CPAP, meu inconsciente endoidou. Eu saí do bar e não acordei, então o inconsciente botou o Thunderbird (sim, aquele VJ da MTV) para me seguir e dizer que eu tinha saído sem pagar. Voltei para o bar, paguei e o inconsciente ficou lá esperando. Nada aconteceu, então ele foi inventando: fui seqüestrado, minha família toda foi seqüestrada, meu irmão fugiu, meu irmão voltou, os seqüestradores me levaram para um ponto de ônibus, o Romeu Tuma estava lá e prendeu os caras, eu voltei para onde estava (um hospital) para procurar minha família…

Nem é tão ruim assim, vá.


Só acordei porque meu celular tocou. Fiquei preocupado, toquei a campainha, veio a loira. Ela tirou a minha máscara e eu pedi o telefone. Achei que fossem quatro da manhã. Ainda não era meia-noite. Ana Cartola tinha telefonado por engano.
Voltei a dormir, vieram outros sonhos com falhas de continuidade. Depois de muito tempo, a loira veio me acordar. Eram cinco e meia da manhã; eu sentia como se tivesse dormido doze ou catorze horas seguidas.
Agora é esperar o resultado do exame, passar pelo médico e decidir que tipo de CPAP vou usar. Porque isso já está decidido: eu vou usar o trambolho. Para o resto da vida, se for necessário.

Roy Peter Clark é autor de Writing Tools, um dos livros que compõem minha atual Bíblia. Ele dá aula no Poynter Institute, uma escola para jornalistas que mantém um jornal, o St. Petersburg Times.
Dia desses, Clark publicou um ensaio descrevendo o a colonoscopia que fez recentemente.
Para quem não sabe, colonoscopia é como uma endoscopia, só que do outro lado: enfiam uma mangueirinha no rabo do paciente, com uma câmera na ponta. É engraçado, um tanto ridículo e embaraçoso.
E pode salvar vidas.
Uma colonoscopia é a única forma de detectar pólipos que possam vir a evoluir para um câncer colo-retal. Câncer no cu não é só o nome de uma música do Rogério Skylab: é uma doença dolorosa e fatal. Segundo o Instituto Nacional do Câncer, o Brasil deve registrar 27 mil casos de câncer colo-retal este ano. A chance de sobrevida é muito grande, desde que a condição seja detectada cedo. Ou seja: mangueirinha cu adentro, sem frescura.
Clark diz que sua descrição da colonoscopia será o texto mais importante de sua carreira, caso leve alguém a criar coragem de fazer o exame. Eu escrevi um e-mail para ele pedindo autorização para traduzir o ensaio. Ele, muito gentil, autorizou.
Então aí vai. Se você sabe um pouquinho de inglês, é melhor ler o texto original. Se não sabe, leia minha tradução mesmo. Mas leia, imprima, mostre para familiares, amigos e conhecidos, principalmente aqueles que façam parte de um grupo de risco. É melhor fazer o exame do que passar o vexame de morrer de câncer no cu.

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Colonoscopia em primeira mão
Minha bunda pode salvar sua vida.
Bom, não minha bunda em si, mas o que está na minha bunda.
O que está na minha bunda neste momento é um tubo com uma câmera na ponta. Ele rasteja pelo meu cólon, que parece o Túnel da Nove de Julho, procurando por um bioterrorista em sua caverna. Um bioterrorista que eu batizei de Osama Bin Pólipo.
Eu não estou acordado. Só vou saber de tudo isso mais tarde.
A câmera encontra Bin Pólipo e projeta sua imagem em um monitor. Ele parece um carocinho branco, do tamanho de uma uva passa, mas na vida real ele é bem menor, só umas quatro vezes maior do que o ponto no final desta frase. Clique, cortaram.
O resultado do laboratório demora alguns dias: será que é benigno? Pré-canceroso? Maligno?
E aí?
Mas antes, mais algumas palavras sobre o que vai no meu traseiro — e no seu também.

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Os jornalistas não se ligam muito em bunda — a não ser que aconteça de ser a bunda da Jennifer Lopez ou da Juliana Paes. Bunda é um negócio constrangedor. A gente não fala em público do que pode entrar ou sair dela.
Nossas inibições jornalísticas podem ter custado a vida de algumas pessoas logo que começamos a escrever sobre HIV-AIDS. Você se lembra como nós descrevíamos os meios de transmissão, tentando não ofender? Usávamos a frase coringa “troca de fluidos corporais”. Uma das coisas que isso significava era sexo anal. Sim, Marta, é verdade: para algumas pessoas aquele buraco é entrada, não só saída.
E é também a porta mais confiável para uma vida longa e saudável, livre de câncer retal e do cólon, o tipo que matou uma de minhas amigas mais próximas, Janie Guibault, o tipo que ameaçou a vida do meu querido pastor, Reverendo Robert Gibbons, 58 anos, que precisou fazer uma cirurgia para remover um bom pedaço do cólon depois que um exame descobriu vários pequenos terroristas.
O restante deste ensaio busca inspirar você a falar com seu médico sobre colonoscopia. Se você passou dos 50, deveria fazer uma. Se tem histórico familiar de câncer de cólon, seu médico pode recomendar que faça o exame antes. Se o exame não encontrar nenhum pólipo, você pode esperar 10 anos para fazer outra colonoscopia. Se achar alguma coisa, ou se você está em um grupo de alto risco, o médico vai recomendar que você faça o exame com mais freqüência.
Elaine Mueller é a enfermeira-chefe na clínica onde eu fiz minha colonoscopia. O avô dela morreu de câncer de cólon, a mãe dela também. A mãe não sabia do risco genético e nunca fez o exame. Recebeu o diagnóstico aos 62 anos e morreu quatro anos depois.
A matemática do câncer de cólon prevê que, com histórico na família, você deve subtrair 20 anos da data do diagnóstico de um parente próximo. Então a enfermeira Mueller fez o exame pela primeira vez aos 42. Não encontraram nenhum pólipo na ocasião, mas o exame seguinte descobriu terroristas pré-cancerosos. Então ela vai ser examinada pelo menos uma vez a cada três anos, pro resto da vida. “Prefiro fazer isso”, ela diz, “do que não chegar a ver meus netos.”

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Agora, como um participante/jornalista em busca da verdade, digo logo que minha bunda não é tão famosa (nem tão bonita) quanto a de Katie Couric. Katie, cujo marido e pai de seus dois filhos morreu de câncer de cólon, fez uma colonoscopia famosa no Today Show, que você pode ver no YouTube — um nome bem apropriado, aliás.
A campanha de Katie nesses anos todos salvou muitas vidas, e este ensaio vai ser a coisa mais importante que já escrevi, caso alguém que o leia resolva fazer o exame e seja salvo por um diagnóstico precoce da doença.
O procedimento da colonoscopia é mais simples do que fazer uma limpeza no dentista. A parte irritante e inconveniente vem um dia antes, conhecido eufemisticamente como dia da preparação.
Comigo foi assim:
Na noite anterior ao dia da preparação, eu tomei dois tabletes de Ducolax, que serve pra amolecer o cocô. Eu dormi tranqüilamente.
Eu acordei no dia da preparação (um domingo, no meu caso), tomei banho, escovei os dentes, tomei os remédios de sempre e ingeri um café-da-manhã líquido. Duas horas depois eu bebi uma garrafinha de 250ml de um fluido com sabor de limão, citrato de magnésio, feito para começar o processo de esvaziamento do cólon. O líquido desceu numa boa. Pouco depois, eu tive meu primeiro GM (Grande Momento) do dia, o primeiro de uma dúzia ou mais de idas ao banheiro. A primeira vez pareceu normal, mas as seguintes produziram cocô cada vez mais mole, e as últimas nada além de água quase transparente.
Para aprimorar esse processo, bebi quase dois litros de Gatorade misturado com um pó laxante, Miralax. O remédio não alterou muito o sabor da bebida, só a engrossou um pouco, tornando-a mais difícil de engolir.
Mais tarde eu mandei para dentro um pouco de gelatina, picolés, canja de galinha. Em nenhum momento eu me senti mal do estômago ou desidratado.
Ir ao banheiro tantas vezes faz a bunda doer, é claro, mas, conforme aconselhado, eu usei um creme protetor à base de petrolato e lanolina (Universal Baby, Vitaglós), que aliviou o ardido.
Essa foi minha segunda colonoscopia, 11 anos depois da primeira, e pareceu ainda mais fácil do que eu me lembrava. Alguns truques do negócio:
1. Mantenha uma vela perfumada acesa no banheiro. Se você quiser ser engraçadinho, ponha uma fita amarela de “não ultrapasse” na porta
2. Convide sua família a passar o dia fora de casa. É uma cortesia. Minha mulher aproveitou para ver uma peça e jantar com o elenco em seguida
3. Uma televisão de tela grande em alta definição ajuda, especialmente no dia da preparação
Na manhã seguinte eu acordei após uma boa noite de sono, tomei banho, escovei meus dentes e vesti uma bermuda e uma camisa de golfe. Já que eu ia ser anestesiado, precisava de um motorista, então minha mulher me acompanhou, da mesma forma que eu fiz por ela alguns meses antes. Admito: eu estava com fome e só um pouquinho nervoso.
Chegamos à clínica por volta das nove. Duas horas depois eu estava em St. Pete Beach devorando um delicioso waffle belga coberto com morangos frescos. Meu estômago vazio borbulhava de felicidade.
Ah, acho que pulei a parte importante. Foi tão fácil que eu quase esqueci.
Depois de chegar à clínica eu preenchi uma papelada e fui levado para dentro, onde uma enfermeira respondeu todas as minhas perguntas. Como eu vou me sentir depois do exame? Você vai se sentir bem, talvez um pouco debilitado. Deixe sua mulher dirigir. Eu posso voltar ao trabalho hoje? É melhor ficar em casa e pegar leve.
Eu tirei a roupa, mas me deixaram ficar com a camisa e as meias, então me senti confortável depois de me enfiar num avental de hospital. A enfermeira me aplicou soro. Então veio o anestesista, que me perguntou sobre alergias e remédios e me contou sobre o suco da alegria, Propofol, que ele ia injetar no meu tubo de soro.
Me levaram para a sala de exames, falei rapidamente com o médico, um homem que projetava a imagem de ter feito o procedimento muitas vezes, e que o faria muitas, muitas outras. (A clínica, com dois médicos, faz uma média de 20 colonoscopias por dia, 100 por semana, mais de 5 mil por ano.)
Eu falei uma gracinha qualquer pra enfermeira. “Seu chefe pode não ser intrometido, mas ele é bem cu-rioso, né?”
“Essa eu ninca tinha ouvido”, ela disse, dando a entender que já tinha ouvido muitas outras.
A enfermeira começou a me explicar o procedimento. “Nós vamos virá-lo de lado, Roy, e colocar uma toalha embaixo de você. Você está confortável?” Um minuto se passou. “Muito bem, Roy, agora vamos administrar o anestésico. Vai começar a funcionar rápido…”
“Em nenhum momento nós olhamos a sua bunda”, disse a enfermeira Mueller mais tarde. Eles só olham para o monitor. Reconfortante.
Acho que não tenho palavras para descrever a sensação estranha mas maravilhosa que eu tive em seguida. Como se o tempo não tivesse passado, eu estava sentado na sala de recuperação batendo papo com uma enfermeira que olhava fotografias das minhas entranhas. Eu não sentia nada do procedimento. Dor, sangramento, cólica, lembranças, sonhos, nada. Só uma sensação agradável de bem estar e missão cumprida.
O teste tinha corrido bem, disse a enfermeira. Antes do procedimento eles sopraram ar na minha bunda para abrir o cólon vazio e revelar cada cantinho. O equipamento tem duas lâmpadas, uma lente de aumento e uma câmera de vídeo, com um fórceps em miniatura na ponta, junto com um mecanismo que permite ao médico manobrar o tubo através do cólon em sua missão de busca e destruição.
A enfermeira me mostrou a foto do Osama Bin Pólipo, encontrado em sua caverna e eliminado. Era um pólipo pequeno, um adenoma, que seria enviado para biópsia.
Desculpe pela próxima parte, que é um pouco nojenta, mas a maior parte dos tecidos rosados estava encrustados com alguma matéria fecal residual, que foi lavada durante o procedimento. Um bom benefício colateral, como ganhar uma ducha ao abastecer o carro.
“Você também tem uma hemorróida. É melhor não fazer força quando for ao banheiro. E comer bastante fibra.”
A clínica me chamou no dia seguinte para saber como eu estava. Ligaram de novo uns dias depois com os resultados do laboratório, e eu fiquei surpreso com meu nível de ansiedade. “É benigno”, disse a moça. “Mas é o tipo de pólipo que pode se tornar pré-canceroso se não for detectado e tratado cedo.” Eu estava pronto pra outra, por assim dizer, sem precisar fazer mais anda a não ser voltar para outro exame em cerca de três anos.
Ela me aconselhou a avisar meus dois irmãos mais novos sobre o pólipo removido e encorajá-los a fazer o exame.
“Ei”, eu disse ao meu irmão Vicent, “eu fiz uma colonoscopia hoje de manhã. Pensei em você o tempo todo”
“O que eles acharam lá dentro?”
“Nem te conto…”
O Vinnie tem 56 anos e nunca fez uma colonoscopia.
Em três longas mensagens de e-mail, eu descrevi minha experiências para meus amigos e colegas no trabalho, encorajando-os a fazer o exame se fosse o caso. Tive uma dúzia de conversas, a maior parte pontuada por risadas, sobre suas ansiedades, inibições e medos.
Eu digo a eles o que estou dizendo a você. Não espere. Troque um dia de inconveniência cômica pela oportunidade de ver seus netos correndo pela casa.

A parte mais legal (até agora) de aprender técnicas de escrita é identificar cada truque, cada ferramenta usada pelo autor em todo livro que leio. Desconcentra um pouco, mas me dá segurança: começo a entender o que vai embaixo do capô.

E, bom, estou nessa fase de ler muito, o que significa escrever pouco. Sosseguem o rabo.

Os leitores fiéis vão tirar de letra.

Segura, que eu vou abrir meu coração. Sentaí, espie.
COMPLICAÇÃO

Depois de três semanas no emprego novo, escrevi minhas primeiras matérias para a revista. Eu vinha escrevendo notas para as newsletters semanais e entrevistando gente para essas matérias. Eu não gosto muito dessa fase de apuração, então foi um alívio chegar à parte que me dava prazer de verdade. Apurar envolvia interação com pessoas, pesquisa, conciliação de agendas. Escrever era um ato solitário: era só deixar a inspiração fluir, derramar fios de ouro pela tela do computador e me recostar para receber os elogios com modéstia fingida.

Só que quando comecei a escrever, percebi que tinha feito todas as perguntas erradas nas entrevistas, que tinha dedicado pouco tempo à apuração e que o texto ficaria capenga. Mas eu tinha um prazo a cumprir, então escrevi. Ao entregar as matérias, avisei logo ao chefe que não estavam lá essas coisas.

No dia seguinte, ele me chamou para conversar sobre os textos. De fato, ele disse, estavam ruins. Muito ruins. Iam sair assim mesmo, porque não dava mais tempo. Mas eu tinha produzido notas boas, era capaz de coisa muito melhor do que aquele negócio disforme.

O chefe é um cara bondoso, então depois me contou histórias de outros repórteres, passados e atuais, que entregaram coisa muito pior da primeira vez. Minha vaidade filtrou essa parte. Eu só conseguia pensar que estava no lugar errado, que nunca conseguiria o que aquela gente queria de mim. Eu queimava de vergonha, e queria sumir da sala, do prédio, da cidade, do mundo.
CRISE EVOLUÇÃO

1. Flashback
Tanto me chamaram de inteligente a vida toda, que eu acabei pensando que era algum tipo de gênio. Eu captava tudo de primeira, com a maior facilidade. Meu cérebro era uma esponja de absorver informação, um computador de processamento rápido, grande capacidade de armazenamento e conectado ao mundo. Não havia para mim pior ofensa do que “esforçado”. “Fulano é muito esforçado”, alguém dizia, e eu logo pensava que o cara era retardado.

Espie.

Eu tive uma bicicleta quando era criança. Tinha aquelas rodinhas atrás. Depois de um tempo, adquiri confiança para tirar as rodinhas, e me equilibrava bem em cima da danada. Então como é que até hoje, aos 33 anos de vida, eu não sei andar de bicicleta?

O negócio é que chegou a hora de aprender a fazer curvas, subir e descer ladeiras, essas coisas. Para isso, eu precisava sair do conforto do quintal dos fundos e ir pedalar na rua junto com as crianças normais. Mas isso implicaria em reconhecer para todo mundo que eu não sabia andar de bicicleta.

Anos depois, criei minha versão do motivo pelo qual não sei andar de bicicleta: um amigo gordo foi me visitar, sentou na bicicleta, ela quebrou. Justo na época em que eu estava começando a aprender de verdade. Meus pais não podiam comprar outra. Fim da história.

A verdade é que meu amigo nem era tão gordo assim, coitado. A verdade é que a bicicleta quebrou porque estava enferrujada, após mais de três anos de abandono.

A verdade é que eu não sei andar de bicicleta porque não suporto admitir minha ignorância.

E esse é só um de muitos casos.

Espie.

Lembro um dia, eu estava na segunda série. Cheguei em casa desolado depois de passar o dia tentando entender a divisão entre números de mais de dois algarismos. Depois de dominar sem problemas soma, subtração e multiplicação, sentia-me estúpido perante a divisão. Em casa, comecei a fingir que resolvia as contas passadas pela professora, sem conseguir fazer nada. Meu pai perguntou se estava tudo bem e eu desatei no choro. Demorei para contar a ele qual era o problema. Quando contei, foi com vergonha.

Ele me explicou, eu acabei aprendendo. Mas acho que até hoje ele não entendeu nada. E eu até hoje tenho medo de divisões.

Uma vez eu tive febre porque não conseguia fazer uma planilha fazer funcionar direito, e tinha gente esperando a planilha ficar pronta. Não era nada de trabalho. Na verdade, eu estava fazendo um favor para a pessoa. Fiquei com febre a noite inteira.

Eu desisti de duas faculdades e só tirei carteira de motorista aos 30 anos. Tinha uma historinha inventada para isso também. Mas adivinhem qual foi a razão principal?

2. Tentativa e erro
Muita coisa aconteceu no ano em que cheguei aos 30, aliás. Comecei a namorar minha menina, e ela me deu a coragem de que eu precisava para mudar. Aprendi a tratar bem minha família imitando a família dela. Aprendi a dirigir. Pedi demissão e fui ser jornalista.

Isso tudo foi há mais de três anos. Eu me sentia no topo do mundo. Já dirigia relativamente bem — sabia até fazer baliza. Colegas e leitores elogiavam meus textos. Até me casei, vejam vocês.

E então um negócio esquisito aconteceu. Comecei a me sentir dono da situação. O medo de mostrar minha ignorância voltou. Saí do emprego. Fui trabalhar em outro lugar, era muito ruim, saí também. Comecei na nova editora há um mês.

A nova editora é totalmente diferente de qualquer lugar por onde passei antes. O chefe acredita que devemos contar histórias (ou estórias), e nos enche de livros e teorias sobre o ofício de escrever. Eu anoto as lições em papeizinhos que grudo na parede.

Não conte, mostre.

Escada da abstração.

Complicação-crise-resolução.

Sempre pergunte o nome do cachorro.

Ação não é igual a movimento.

Espie.

Eu achava que vinha me saindo bem. A cada semana o chefe editava menos os meus textos, e eu via que estava evoluindo. Aí escrevi aqueles dois textos para a revista, os dois ficaram ruins, o chefe detestou e eu entrei em parafuso.

Mas resolvi que ia me dedicar ao máximo para escrever o próximo texto. Imprimi minhas entrevistas e fiz anotações nas margens. Liguei para os entrevistados mais uma, duas, cinco vezes. Espalhei as folhas das entrevistas pelo chão da redação, e ficava andando por cima delas, lendo, tomando notas e tentando extrair um eixo lógico daquele emaranhado de informações. Os colegas começaram a dizer que eu era o cara do filme Uma Mente Brilhante. Achavam que logo eu ia começar a escrever nas janelas e acusá-los de ligações com a KGB.

Nem liguei. Defini meu tema, Fiz meu esboço, liguei uma última vez para dois entrevistados e comecei a escrever. Pelo final, para assim saber para onde o texto se dirigia. Li, reli, cortei, inseri detalhes, melhorei as cenas, procurei no dicionário as palavras mais adequadas. Às oito da noite, disse ao chefe que estava pronto e fui pegar um café. Sentia-me realizado. Tomei o café, voltei para minha mesa e resolvi dar uma última lida no texto.

Estava uma bosta.

3. Eureka
Peguei o ônibus na intenção de ir para a faculdade; desci antes e peguei outro ônibus de volta para casa. Ir à faculdade para quê? No trabalho é como se eu começasse a fazer as primeiras escalas, solfejar feito um demente, arriscar um “Cai, cai, balão”. Na faculdade, os professores dizem: “O piano é de madeira. Toquem!”. Aí sai aquele monte de BOINK-SHINK-PFUÓIN e eles reclamam: “Que desastre é esse? Eu não disse que o piano é de madeira? Por que vocês não tocam?”. Na faculdade, destaca-se o cara que sabe fazer um acorde, que conhece as teclas, que decorou uma musiquinha e improvisa sobre esse mesmo tema o tempo todo. O cara que não é um ignorante total em termos de piano, mas que também nunca será um pianista.

Por muito tempo eu me conformei com o papel do pianista charlatão. Não mais. Se escrever é minha paixão e também paga minhas contas, eu tenho a dupla obrigação de dominar o ofício. No entanto, depois de um mês de aprendizado, lá estava eu sentado no último banco do ônibus na direção do centro da cidade, cabeça baixa, sem ânimo para ler, só pensando no fracasso de dois textos e na mediocridade de um terceiro. Talvez esse negócio de escrever não fosse para mim.

Mas cheguei em casa, jantei com minha menina, vimos um filme, rimos como sempre. E, assim como na eureka original de Arquimedes, a revelação me veio durante o banho — à uma da manhã.

Não havia nada de errado com o texto, com as frases, com a escolha de palavras. O problema todo era a estrutura. Os dois primeiros parágrafos eram uma enrolação sem-vergonha, uma falta de respeito com o leitor. Se eu movesse o terceiro parágrafo para o começo, já apresentaria logo de cara meus personagens e a situação em que se meteram, e os dois parágrafos vilões passariam a ter a virtude do pano-de-fundo e do flashback. Com a nova estrutura, eu teria como colocar informações dos outros personagens sem forçar sua entrada na história.

Arrá!

Saí correndo do banho e mandei um e-mail para o chefe. “Já leu a matéria? NÃO LEIA!”.
RESOLUÇÃO
Parece que esse negócio de inspiração existe mesmo, mas está longe de cair do céu. Só depois de muito estudar, de muito ler, de muito espremer o cérebro é que ela surge. E surge mais bela e completa ainda, porque é fruto do esforço consciente, e não de processo misterioso, além do meu conhecimento. Esse texto de que falei não vai ter nada de mais. Apenas um texto tecnicamente correto, ou quase. Quem ler, talvez não o classifique como “inspirado”. “Esforçado”, no máximo.

É isso que eu sou agora: um sujeito esforçado.