Olá, meu povo.
Consegui uma semana de férias. Mal posso acreditar. Vou aproveitar a semana em Parati, de preferência sem meios de contato com o mundo. Não adianta, portanto, voltarem aqui pedindo posts novos nesse período.
Abraços a todos, e até semana que vem.

(II Reis 4)
Ninguém é mais espalhafatoso do que um tímido que resolve se soltar. Depois de anos preso em seu casulo, a pressão acumulada o transforma na mais exuberante das borboletas — o que, convenhamos, tem lá seu toque de veadagem. Vejamos o caso de Eliseu, por exemplo. Era fechado, carrancudo, arredio. Não olhava ninguém nos olhos, mal falava, vivia resmungando. Inseguro com sua aparência, tentava a todo custo esconder a calvície, e odiava quando esta era notada (lembram das ursas?). Mas agora, que diferença! Eliseu só vive de nariz empinado, faces afogueadas, andar petulante. A esconder sua careca, uma reluzente cartola, que combina com uma capa de veludo preto forrada de cetim grená. Há quem diga que a indumentária não combina é com a túnica de algodão cru e com as puídas sandálias de couro trançado, mas o profeta não dá a mínima. Segue seu caminho com altivez, e onde chega é anunciado por seu empregado Geazi como Eliseu, o Magnífico.
A que se deve tamanha transformação? Bem, segurança é algo que vem aos poucos, e Eliseu a vem adquirindo desde que seu mestre Elias foi alçado aos céus. O episódio das ursas serviu bem a esse propósito, e mais ainda o milagre das águas durante a preparação para a guerra contra Moabe. Para cimentar mais ainda a nova postura do profeta, uma série de acontecimentos o foi convencendo de que era, mesmo, magnífico.
Primeiro foi o caso da viúva pobre. Nada de notável nela: era uma viúva, tinha dois filhos, e era pobre. Muito. Tanto que um credor de seu finado marido, vendo a situação da mulher, decidira que levaria os dois moleques como pagamento. Vendia os garotos como escravos, pegava uma bufunfa, era sempre melhor do que nada. Desesperada, a viúva não sabia o que fazer para a) não morrer de fome e b) não perder os filhos.
E aí entra o valor do corporativismo: acontece que o falecido marido da viúva era profeta, então a dita achou por bem ir ter com Eliseu. Explicou que era viúva de um colega, que os dois deviam se conhecer do sindicato ou de alguma festa de fim de ano, que com o extinto não tinha conversa, era Javé na cabeça, e piriri e pororó.
— Tá, tá. Você não tem nada que possa oferecer a esse credor como parte do pagamento?
— Tenho não.
— Nada, nada?
— Nada.
— Um porco, uma galinha?
— Nem isso.
— Mas vá se pobre assim no diabo que a carregue! Você tem alguma coisa em casa, qualquer coisa?
— Bom. Tenho um jarrinho de azeite.
— Opa! Então está resolvido!
— Como assim?
— Tenha fé, sua viúva pobre! Eu sou Eliseu, oooooooooooooooooooooooo Magnífico!
— …
— …
— Quê?
— Hein?
— Como?
— Acho que preciso ensaiar mais. Bom, fale com suas vizinhas, peça a elas vasilhas vazias emprestadas.
— Vasilhas, vasilhas?
— Vasilhas vazias.
— Vazias, vazias?
— VAI LOGO, DIABO!
A mulher percorreu a vizinhança pedindo as vasilhas emprestadas. Quando conseguiu uma grande quantidade voltou para casa e, seguindo instruções de Eliseu, começou a despejar azeite do jarrinho na primeira vasilha. O recipiente se encheu e, para surpresa da viúva e de seus filhos, o jarro continuou com a mesma quantidade de azeite. Ela pediu aos meninos que trouxessem mais vasilhas, e as foi enchendo, sem que o frasco original se esvaziasse. Quando terminou o trabalho, a viúva tinha uma sala cheia de vasilhas de azeite e um jarrinho filnalmente vazio. Com o dinheiro da venda do azeite, ela conseguiu pagar a dívida do marido, e ainda lhe sobrou dinheiro para ir vivendo com seus filhos.
Depois foi o caso da sunamita. Eliseu estava de passagem por Suném, e uma mulher rica do lugar o convidou para uma refeição. Os dois ficaram amigos (muito amigos), e dali por diante, sempre que ia a Suném, Eliseu parava na casa de sua protetora, nem que fosse para jogar conversa fora. Ficaram um tempo nessa brincadeira, até que um dia a mulher resolveu que o profeta precisava de melhores acomodações. Resolvida, foi falar com o marido:
— Sabe esse homem, Eliseu?
— Hum?
— Eliseu, de Israel.
— O narigudo careca?
— Esse.
— Que tem ele?
— Ele é um homem de Deus.
— Que veadagem.
— Não, não é nada disso! Estou dizendo que ele é um profeta, alguém iluminado, abençoado.
— Mas careca daquele jeito?
— Que que tem? Eu estou certa de que se trata de um homem santo.
— Sei. E daí?
— E daí que a gente não pode receber um homem santo de qualquer jeito.
— Pode não, é?
— Claro que não! Eu acho que devíamos era construir um puxadinho aqui em cima da casa, botar uma cadeira, uma mesa, uma lamparina, uma cama, lençóis de linho, travesseiro de plumas de ganso, um bar de mogno, um iMac. Assim, quando ele passar por aqui, pode ser nosso hóspede.
— Hum. Então tá.
Como se vê, o marido da sunamita era desses homens apáticos. “Apático”, nesse caso, é sinônimo de “aquele que não passa pela porta”, como vocês já devem ter percebido. Pois autorizou a construção do tal puxadinho cheio de mimos para Eliseu, que entendeu muito bem o recado da vez seguinte em que passou por Suném, e mandou que Geazi fosse chamar sua anfitriã.
Acontece que, mesmo com tanta afinidade, os dois não conheciam o idioma um do outro. Comunicavam-se, portanto, pelos dois meios mais à mão: olhares lânguidos e Geazi. Como a presença do empregado constrangia a troca de olhares, Eliseu lhe pediu que traduzisse seu agradecimento para a sunamita:
— Diga a ela que fico muito feliz com esses aposentos, que não sei nem por onde começar para agradecê-la. Pergunte a ela o que posso fazer para demonstrar minha gratidão. Talvez ela queira que eu use minha influência junto ao rei ou a alguma autoridade.
— Eliseu calá bafunfa jaqué de tânquiu. Acuma tânquiu? Assquisser quingue, assquisser toridad?
— Mi donti nidi nadanão.
— Ela diz que tem tudo de que precisa aqui no meio de seu povo, que o senhor não precisa se apoquentar.
— Mas não há nada, nada mesmo que eu possa fazer por ela?
— Eliseu calá jaqué jaqué de tânquiu. Bafunfa de tânquiu, caray. Cumé?
— Fuquifuqui.
— Er…
— O que ela disse?
— É difícil de traduzir, chefe.
— Pois tente, diacho!
— Ela diz que não tem filhos.
— Sei.
— E que queria muito ter filhos.
— Hum.
— E que o marido dela é velho.
— Tá.
— …
— Quê?
— JUNTE AS PEÇAS, PELAMORDEDEUS!
E foi assim que, nove meses depois, a sunamita teve um filho.
Tá, eu sei que a história da mulher de Suném não convence muito como milagre. O que aconteceu anos depois, porém, compensa e muito. Pois sucedeu que o moleque estava no campo com seu pai (pai é quem cria) e sentiu uma terrível dor de cabeça. O menino gritava de dor, mas o pai, com toda sua experiência, tratou de tranqüilizá-lo:
— Não se apoquente, meu filho. Isso aí é chifre de leite, logo cai e a dor passa. Volte para casa, fique lá com sua mãe um pouco.
Um empregado se encarregou de levar o garoto para sua mãe. A sunamita embalou seu filho no colo até o meio-dia, quando o menino morreu.
Morto o menino, a mãe teve a presença de espírito de depositar o cadáver na cama de Eliseu e requisitar uma jumenta. Ia ao encontro do profeta. O marido ainda tentou dissuadi-la, pois não sabia que o filho havia morrido, mas ela continuou firme em seu propósito. Montou na jumenta e fez o bicho correr até chegar ao monte Carmelo, onde estava Eliseu. Quando o profeta viu que ela se aproximava, mandou Geazi a seu encontro, para perguntar se estava tudo bem. Ela respondeu que sim, mas quando chegou perto de Eliseu se jogou no chão e beijou os pés do profeta. Ao perceber a aflição da mulher, Eliseu nem precisou de tradução.
— Geazi, pegue minha vara…
— Tá me achando com cara de sunamita?
— CALABOCA! Pega minha vara, feladaputa, e vá até a casa dela em Suném. Lá chegando, coloque a vara sobre o menino.
Geazi partiu em toda carreira para Suném, e Eliseu e a sunamita seguiram atrás. Quando chegaram à casa, o empregado já estava lá havia tempo.
— Fez o que eu te mandei, Geazi? Como está o menino?
— A situação dele é estável, chefe.
— …
— Quer dizer, continua morto e tal.
— Oras, saia da minha frente!
Eliseu subiu ao seu quarto e viu o menino deitado na cama, já rígido e gelado. Então deitou-se sobre ele, colando sua boca à boca do cadáver. O corpo do menino começou a esquentar. Agoniado, Eliseu andava pelo quarto e rogava a Javé por um milagre. Outra vez deitou-se sobre o menino. Dessa vez, o garoto abriu os olhos e espirrou sete vezes.
— Geazi!
— Pois não, ch… Caralho! O moleque tá vivo! Fala alguma coisa, menino.
— Papai…
— Xi, chefe.
— A CRIANÇA ESTÁ DELIRANDO, TÁ BEM? Chame a mãe dele.
— Papai…
— QUER VOLTAR PARA ONDE ESTAVA, PIVETE?
— …
— Humpf.
Quando entrou no quarto, a sunamita quase bate as botas ao ver o filho vivo, embora ainda um pouco atordoado e estranhamente quieto. Mais uma vez ela ajoelhou-se diante de Eliseu (em sinal de agradecimento, seus podres), e depois retirou-se.
Ressuscitar um morto é o suficiente para qualquer um sair por aí se dizendo “O Magnifíco”. Para Eliseu, pelo menos, foi. E, como se não bastasse, ele ainda operou dois milagres ligados a comida. No primeiro, evitou que um grupo de profetas de Gilgal, todos eles seus alunos, morressem envenenados por um cozido mal preparado. Para isso, apenas jogou um punhado de farinha na panela, o que purificou o cozido inteiro. Da segunda vez, Eliseu alimentou com vinte pães um grupo de cem homens. Se bem que esse eu também faço, só depende do tamanho dos pães. Bom, o caso é que Eliseu estava com tudo, e preparado para o que viesse. Era bom que fosse assim: o profeta ainda teria muito trabalho pela frente.

Há uns dois meses, enquanto preparava uma matéria sobre compras governamentais para a B2B Magazine, entrevistei um sujeito que citou de passagem o caso de uma contratação desastrosa para limpeza da pista do aeroporto de Congonhas. A matéria era um beabá para empresas de TI interessadas em vender para o governo, então o causo não entrou no texto. Um dos argumentos do entrevistado era que, além das empresas saberem vender, o governo também precisava aprender a comprar. E exemplificou com esse caso de Congonhas: segundo ele, a administração do aeroporto (ou sei lá quem) lançou um edital para contratação de serviço de limpeza. Em vez de fazer uma análise técnica, como devido, contratou a empresa com o menor preço.
No dia acertado, os empregados da companhia vencedora chegaram para fazer o serviço. A pista ficou limpa, uma beleza. Só houve um problema: segundo essa minha fonte, a pista de pouso tem ranhuras que servem para dar aderência para aeronaves no momento da decolagem e, principalmente, do pouso. Durante a limpeza, os espertos funcionários rasparam toda a borracha residual da pista, preenchendo com ela as tais ranhuras. “Por isso agora Congonhas é o único aeroporto do mundo que fecha quando chove”. Rimos bastante, os dois.
E agora eu pergunto: será…?

Alguém me explica, por favor, que diabo é aquela nova série encravada no Fantástico, Te quiero América? Por que aquela câmera de Hermes e Renato dos primórdios, se a Globo tem tantos recursos técnicos? Para parecer cool? Inspiração do YouTube? Cretinice? E aquelas intervenções de pessoas de verdade como personagens? E aquelas explicações dispensáveis? E as atuações pífias? E o roteiro ruim? Hã? Hã? Hã?

anapaulaoliveira_capa.jpgMestre Inagaki me incumbiu de listar cinco capas inesquecíveis de Playboy. Depois me desincumbo (vixe) da tarefa completa. Por enquanto, uma capa inesquecível: a bandeirinha (o que houve com “auxiliar de arbitragem”?) Ana Paula Oliveira. Primeiro, por ser um sonho antigo, apesar de uma breve decepção. E depois — mesmo que eu ainda prefira a visão da moça na lateral do gramado, correndo de shortinho e com os cabelos presos nums trança e a expressão séria no rosto, ai ai… — por isso:

anapaulaoliveira.jpg

E isso:

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Como bem disse minha menina, dessa vez eu fui bem mais esperto do que da outra.

Ei, vocês ainda estão aí? Mas que cabeças-duras…
Eu queria muito escrever um capítulo novo, mas ando sem ânimo nem pra nada. Só entrei aqui para contar que eu e Ana Cartola fomos a Eldorado, sul do estado de São Paulo, para conhecer as cavernas. Foi bem legal, conhecemos um casal canadense deveras simpático (e completamente perdido em uma cidade em que ninguém fala inglês), vimos lugares lindos. O que eu queria mostrar, porém, são as instalações do Hotel Eldorado, o mais tradicional da cidade, localizado na praça da Matriz.

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Sim, sim, horror dos horrores! Um banheiro sem porta! Eu sei que existem casais por aí que levam a intimidade longe demais, e que compartilham seus odores e ruídos internos sem constrangimento. Não é o nosso caso, nem o caso de outros casais sofisticados. Por Deus, o carpete do quarto tinha aquela corda à guisa de rodapé! Como é que um sujeito que pensa num detalhe desse não pensa em botar uma porta na porra do banheiro???

(E é claro que as fotos do banheiro bizarro não foram as únicas. Vejam pedras e mais pedras aqui)