Eu estou puto.
Não, isso não quer dizer que virei veado, nem que estou fazendo sexo por dinheiro. Isso quer dizer que eu estou com muita raiva no coração, e pronto a distribuir patadas indiscriminadamente.
Fui ao candomblé no sábado. Pessoas incorporadas, muitas bichas, um babalorixá fundamentalista. Isso daria um post e tanto, não? Pois é, mas não consigo escrever. A raiva é tanta que não consigo ser engraçadinho.
A gente roda, roda, e acaba chegando sempre na mesma encruzilhada: que diabo eu faço da minha vida?

“Chega de historinha!”. “Chega de DVD!”. “Chega de desenho!”. É assim que minha sobrinha Ana Julia demonstra sua exasperação diante da informação em excesso. Imitando-a, digo eu: chega de Second Life! Sim, sim, os mundos virtuais são fascinantes, abrem novas possibilidades, oferecem oportunidades e coisa e tal. Eu escrevi sobre isso em agosto do ano passado; foi (acho) a primeira matéria extensa sobre o assunto na imprensa brasileira. No final, eu escrevi:

Até o final do ano, segundo estudo da E-Consulting, o Brasil terá 4,1 milhões de usuários de internet banda larga. A consultoria prevê que esse número mais do que dobrará em dois anos: em 2008, serão 8,3 milhões. Uma parcela ainda pequena da população total do País, é verdade, mas um público consumidor altamente qualificado. São milhões de pessoas de classe média, portadores de cartão de crédito, internautas convictos, e-consumidores. Em outras palavras, um contingente pronto para conhecer a nova realidade dos mundos virtuais. Que empresas estarão a postos para recebê-los?

A resposta parece ser: TODAS! É um inferno. Todo dia alguma empresa anuncia sua chegada “pioneira” ao mundo sintético do Second Life. Lembro de quando a Internet chegou ao Brasil: todo mundo falava em www. Você corria para lá e para cá, abria outra revista, mudava de canal ou estação de rádio, e não adiantava: lá estava nego falando em arroba, em agatetepê, em dabliodabliodablio. Agora a onda é Second Life. Tomara que venha logo uma bolha como as da .com, que é pra neguinho aprender que não existe atalho milagroso para ganhar dinheiro, e que as regras da economia valem no mundo real, no virtual, no sintético, no inferno, na casa do caralho.

UPDATE: Paulo Vivan, o médium Nelson Moraes e o colega Alexandre Barbosa também andaram exibindo seus respectivos sacos cheios de Second Life. É a blogolândia se revoltando contra o último hype. Blogueiros acham que Second Life é coisa de nerd derrotado. Blogueiros! Pra vocês verem como a situação é grave.

Nessa conversa toda sobre arrogância (que descambou para uma discussão sobre espiritismo; deus-me-livre de falar mal do espiritismo), lembrei de um sujeito que trabalhava comigo. Bom, não exatamente: eu trabalhava numa empresa grande, o tal sujeito era da subsidiária carioca. Assim que nos conhecemos (juro, logo depois de apresentados) ele olhou para minha barriga e disse:
— Precisa se cuidar, hein, bicho? Jogar um futebolzinho, pedalar. Não pode ficar gordão assim na sua idade, rapá! Olha o coração, olha o coração!
Eu pensei em várias respostas, mas me contentei em mandá-lo tomar no cu mesmo. O que mais me espantou, porém, foi a falta de reação das outras pessoas presentes. Ninguém se mostrou minimamente constrangido diante daquela clara invasão.
Depois dessa, passei a considerar a possibilidade de começar a agir assim, partindo do princípio da igualdade de direitos. Da próxima vez em que ouvir alguém falando uma bobagem, ou que ler algo horrendamente escrito num blog (ou nos comentários deste blog, algo muito comum), ou qualquer coisa assim, terei o direito de comentar:
— Precisa se cuidar, hein? Ler um livro que não seja espírita, assistir a uns filmes, sei lá. Não pode ser burro assim não, mano! (sou paulista) Olha o cérebro, olha o cérebro!

Kurt Vonnegut morreu.
A Fer me deu a triste notícia. Poucos segundos depois, Daniel Lima confirmou. Daniel me apresentou Vonnegut num Natal desses, dando-me de presente o Timequake, e livrando-me para sempre de pensar que literatura americana contemporânea era Bukowski. Comi o livro, comi outros, comi todos os livros de Vonnegut. Comprei o estoque de Vonnegut da Livraria Cultura. Li Um homem sem pátria duas vezes num vôo entre São Paulo e Foz do Iguaçu.
Por aqui, como observou Daniel, nenhuma linha na imprensa. O velho escritor de livros malucos, com suas obsessões que geravam temas recorrentes e sua falta de pudor em misturar ciência e arte não faz sucesso no país em que os poucos que lêem investem seu tempo em espiritismo, auto-ajuda e platitudes de Dan Brown.
Leiam Vonnegut, seus putos. Vocês precisam ler Vonnegut.