(II Reis 1)
— Rapaz, melhor a gente ir em frente…
— Tá louco? Você não viu a cara do sujeito?
— Vi, claro que vi! Mas se o rei souber que nem chegamos a Ecrom, vai ficar puto.
— E daí? Prefiro enfrentar o rei todo fodido e entrevado na cama do que me meter com aquele cara.
As coisas não iam bem em Israel. Depois da morte de Acabe, os moabitas haviam se revoltado contra Israel. Para piorar, num dia em que se espreguiçava na sacada de seu quarto em Samaria, o rei Acazias caíra lá de cima, ficando paralisado do pescoço para baixo. Enviara, então, mensageiros a Ecrom, para que perguntassem a Baal-Zebub1, deus daquela terra, se ele se recuperaria.
Agora, os mensageiros voltavam para Israel sem sequer terem conseguido cruzar o deserto. Uma figura assustadora lhes saltara no caminho, mandando-os de volta para o rei com um recado. Acazias não acreditou quando viu seus emissários de volta apenas poucas horas depois de terem saído em viagem.
— QUE PORRA VOCÊS ESTÃO FAZENDO AQUI, FELASDAPUTA?
— Falei que ele ia ficar puto…
— Calaboca. Majestade, nós pegamos a estrada hoje de manhã, e íamos a Ecrom, como o senhor ordenou. Mas cruzávamos o deserto quando um cara muito estranho pulou na nossa frente. O senhor desculpe o termo, mas a verdade é que quase nos cagamos.
— Quase? Fale por você…
— Calaboca, porra.
— OS CORNOS VÃO SE EXPLICAR OU NÃO?
— Pois então, majestade. O tal sujeito nos mandou de volta com um recado para o senhor.
— E vocês preferem obedecer uma ordem de um maluco do deserto a me obedecer, seus putos?
— Se o senhor visse o cara…
— É verdade, majestade. O sujeito anda pelado e descalço no meio do deserto. É todo peludo, parece um urso. A única roupa que ele usa é um cinto de couro cru, mais nada.
— Urso? Filho da puta!
— O senhor conhece o cara?
— Só pode ser Elias. Eu achava que o desgraçado já tinha batido as botas.
— Como eu disse, majestade, ele anda descalço…
— CALE-SE! O que foi que o felaputa disse a vocês?
— Ele disse que Israel tem um Deus que é muito bom e funciona direitinho, e que o senhor não tinha nada de mandar consultar outro deus.
— Hum. O que mais?
— Acho que o senhor não vai querer saber…
— DESEMBUCHA!
— Ele falou que… que o senhor não vai se levantar dessa cama. Que… hum… que o senhor vai morrer aí mesmo.
— MALDITO! CORNO! VIADO! GRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR!
Passada a crise de ira, Acazias mandou chamar um de seus oficiais, e o enviou, à frente de cinqüenta homens, para trazer Elias a Samaria. Os soldados saíram confiantes em direção ao deserto, e encontraram o profeta sentado no pico de uma montanha. Subiram até perto dele, e o capitão gritou:
— Homem de Deus! O rei ordena que o senhor desça, se vista e nos acompanhe até Samaria!
— Se eu sou um homem de Deus, que desça fogo do céu e acabe com vocês.
— Como é q…
O oficial não terminou sua frase. Uma labareda gigantesca surgiu do nada, e consumiu a ele e a seus cinqüenta homens. A notícia deixou o rei mais enfurecido ainda. Teimoso, mandou chamar outro oficial.
— Você vai juntar cinqüenta soldados para ir ao deserto e me trazer o tal Elias a qualquer custo.
— M-mas, majestade… Estão dizendo coisas horríveis desse Elias. Não é muito perigoso?
— TU É BICHA, RAPÁ? É só um cara, e você vai com cinqüenta homens! O que pode ser perigoso nessa situação, idiota?
— É que estão dizendo que o profeta fez churrasquinho dos outros soldados que foram buscá-lo.
— Você ouviu errado, pedaço de asno! Elias fez um churrasquinho para os outros soldados que foram buscá-lo. Aí os caras se empanturraram, se embebedaram, e se esqueceram de cumprir sua missão.
— Hum. E onde estão eles?
— Onde estão? Er… Estão todos em casa hoje. Curtindo ressaca. Sacumé.
— Ah, claro. Opa. Hehehe. Bom, então vou lá.
Muito seguro de si, o oficial juntou seus homens e partiu para o deserto. Antes, porém, fez questão de enfatizar uma ordem:
— Não aceitem nada que o peludão lhes oferecer.
Seguiram, pois, e chegaram à mesma montanha, onde Elias ainda meditava.
— Homem de Deus, esse é o último aviso! Desça AGORA, é uma ordem do rei Acazias!
— Se eu sou homem de Deus…
Dessa vez foi Elias que não conseguiu concluir sua frase: em uma fração de segundo, o pelotão enviado pelo rei era carvão.
Se Acazias conseguisse mexer os braços, teria arrancado os cabelos de tanta raiva. Então aquele profeta de uma religião que mal existia ousava brincar assim com o poder estabelecido? Se Elias pensava que assim o faria desistir, estava enganado. O rei era teimoso, e o exército israelita era grande.
— Ir buscar Elias, majestade?
— Sim.
— Mas…
— Foda-se.
— Mas, majestade…
— NÃO QUERO SABER! É UMA ORDEM! OBEDEÇA OU SERÁ MORTO!
Desolado, o terceiro oficial convocou seus cinqüenta homens e partiu para o deserto com o coração na mão2. Encontrou Elias no alto da mesma montanha, nem aí pro mundo.
— Seu Elias…
Silêncio.
— Psiu. Seu Elias…
Nada.
— Tá bronzeadão, hein, seu Elias?

— Que beleza de… De cinto, hein? É Armani?

— Seu Elias… Eu sei o que aconteceu com os outros oficiais que vieram aqui para buscá-lo. E eu sei que pode não ser uma boa hora e tal. Mas entenda: o rei disse que ou eu vinha ou ele me matava. O que o senhor faria no meu lugar? Então. Vim. O rei quer que o senhor me acompanhe até Samaria. Aí o senhor vê aí. O senhor pode ir, pode não ir. Pelado, vestido, com cinto, sem cinto. Só não me mate, seu Elias. Tenho filhos pra criar.
— Tá. Bora.
— C-como?
— Acazias não quer falar comigo? Então vamos lá.
— Não vamos virar carvão?
— Nah… Eu fiquei irritado com a arrogância dos seus colegas. Além do mais, esse negócio de me chamar de “homem de Deus” é foda. Sou macho, porra.
Nu como estava, Elias acompanhou o pelotão até o palácio em Samaria. O rei ficou exultante ao vê-lo.
— Ah! Eu sabia que você ia acabar se rendendo, corno!
— Não estou me rendendo, Acazias. Vim trazer um recado de Javé, e volto em seguida para o deserto.
— Como é q…
— Não existe Deus em Israel?
— Essa é uma questão muito comp…
— Por que mandar consultar outro deus, de outra terra, se temos o nosso Deus, Javé?
— Uma segunda opinião, sacumé…
— Agora Javé diz que você morrerá nessa mesma cama em que agora está deitado.
— Peraí. Esse recado você já tinha mandado.
— Pois é. Veja quanto tempo e energia você desperdiçou.
Elias deu meia-volta e saiu do quarto do rei. Acazias queria ordenar aos soldados que o detivessem, mas não conseguia nem falar, tamanha era sua fúria. Ficou com tanta raiva, na verdade, que teve um infarto e morreu.
Acazias não tinha filhos, por isso seu irmão Jorão subiu ao trono de Israel.

1. Baal quer dizer senhor, e zebub significa moscas. Baal-zebub (ou Belzebu) é, portanto, o Senhor das Moscas.
2. Na verdade ele estava era com o cu na mão, mas eu jamais escreveria tamanha grosseria.

— Vamos todos pra Miami. Miami, capital da… Miami, capital da Blfurrrgh.
Olhei para trás. Sentado no ponto de ônibus, um mendigo segurava um pote de iogurte e resmungava de cabeça baixa. A barba enorme e branca, em forma de pá, compensava a total ausência de cabelos na cabeçorra.
— … da Califórnia. Capital da Califórnia. Vamos todos pro Havaí, capital da… Capital da Flunghaaaa.
A senhora ao lado deve ter olhado feio, ou feito algum comentário, porque o maluco imediatamente deixou de falar com os duendes (ou ETs, ou Deus, ou qualquer desses interlocutores de maluco) para dirigir-lhe a palavra.
— Minha senhora, eu sou aposentado! Eu sou aposentado e falo inglês.
— Pois deveria dar aula de inglês, então.
— Mas eu sou aposentado!
— E por ser aposentado não pode trabal…
— FUCKY-FUCK YO!
— Não pode trabalhar?
— FUCKY-FUCK YO! Aí! Te chxinguei e cê nem sabe!
— Vai dar aula de inglês, então, já que sabe falar tão bem!
— TU PINCHE MADRE! Sei espanhol também, ó! Aprendi em Miami. Miami, capital da… Capital da Glembheeeeeeeeerg…

Você acha que sofre? Sofre porra nenhuma. Sabe quem sofre? Os cavalos.
Um cavalo nasce sem saber seu destino: se será um rei das canchas, um garanhão reprodutor de esperma mais valioso que o ouro, uma montaria para reis ou um reles puxador de carroça. O eqüídeo só tem uma certeza na vida (ou deveria ter): a de que será sacrificado.
Não há cavalo que morra de velho. Quebrou a pata: sacrifica. Cortou a barriga: sacrifica. Está com enxaqueca: sacrifica. A rainha está em perigo, os dois bispos já se foram e você prevê um xeque-mate em cinco lances: sacrifica.
Estava vendo dia desses uma reportagem num haras. Um sujeito limpava o casco do cavalo e explicava que, se a limpeza não fosse feita a certos intervalos, o casco ficaria propício à proliferação de fungos. Se isso acontece, adivinha o que fazem com o bicho? Sacrificam, claro.
Não, não. Pare pra pensar: você tem micose, passa Vodol que passa. O cavalo tem micose, vai comer capim pela outra extremidade (do capim, mente poluída!).
O cavalo é o único bicho que o homem domesticou para depois encurtar-lhe a existência. Hoje em dia os cachorros vivem mais de 20 anos, os gatos vivem mais de 15. Se seu cachorro espirra, você diz “saúde”. Se seu cavalo espirra, você diz “adeus, amigo”, e já sai à procura de um veterinário.
Se eu fosse cavalo, seria o bicho mais hipocondríaco do mundo (aliás, esse prefixo hipo-, sei não…). Qualquer coceira me tiraria o sono.
Se um dia eu tiver um cavalo, botarei nele o nome de Eutanásio.

FOLHA – Houve um retrocesso no humor brasileiro com relação aos anos da ditadura?
JAGUAR –
Sim. Essa coisa de não poder chamar crioulo de crioulo, por exemplo. Fui casado dez anos com uma crioula. Não é pejorativo. Não vou começar a dizer que casei com uma afro-descendente. É uma hipocrisia.
Mas a maioria dos humoristas hoje é muito certinha. Criou-se um limite e, se a gente passa um pouco, leva pito. Eu não levo mais porque sou velho e sou o Jaguar. Aí as pessoas dizem: “Ah, é o Jaguar, deixa ele”.

Daqui.

(I Reis 22)
— Pois vejam, majestades, que a guerra é como um tabuleiro de xadrez.
— Hum…
— Só que as peças são brócolis e os jogadores vêm assim, viram pro outro lado e fazem um negócio desse jeito com os dedos da mão direita. Assim, ó. Aí jogam azeite em cima. Então um enfia a mão no bolso e tira uma coisa que é como se fosse uma caneta, mas não tem nada a ver, e joga pra cima. É justo?
— …
— …
— Bem, vejamos. DE QUE DIABO VOCÊ ESTÁ FALANDO?
— Hermenêutica, majestade.
— Hermenêutica?
— Sim. Hermenêutica.
— Você ao menos sabe que PORRA é hermenêutica?
— Hermenêutica?
— Sim. Hermenêutica.
— …
— Você é profeta mesmo, rapaz?
— Profetíssimo!
— É merda nenhuma. Fora daqui!
— Mas…
— FORA!
Nota-se que não é o primeiro profeta a se apresentar perante os reis Acabe, de Israel, e Josafá, de Judá. Sessenta anos depois da divisão do reino, os dois haviam forjado uma aliança para juntos atacarem um inimigo comum, a Síria. Era difícil pensar em duas personalidades mais diferentes: grandiloqüente e passional, Acabe sofria constantes variações de humor, chegando a ficar prostrado por qualquer contrariedade. Josafá, pelo contrário, era discreto e tranqüilo, e gostava de pensar antes de dar cada passo. Acabe, em boa parte influenciado por sua esposa Jezebel, provocara a ira de Javé contra o reino do Norte com sua política de incentivos às antigas religiões cananéias, especialmente às diversas formas de culto a Baal, e com a perseguição aos profetas da religião estabelecida, principalmente Elias, o maior deles. Josafá era fiel à religião de seus antepassados, e acabara com a prostituição sagrada nos altares que vinham dos tempos do seu pai, Asa. Não era, porém, um fanático: tolerante, fazia vista grossa a outras manifestações religiosas. A maior diferença entre os dois, no entanto, era percebida quando abriam a boca: Acabe tinha uma voz grave e tonitruante, que subia duas oitavas quando ele se irritava. Josafá, pobre coitado, tinha a voz aguda de um castrato.
Já havia dois anos que as relações entre Israel e a Síria eram pacíficas. Existia um ponto pendente, porém: Ramote Gileade, cidade situada no que hoje se chama Cisjordânia. A idéia de retomar a cidade partira de Acabe, que propusera a aliança a Josafá. Para seu desespero, o rei de Judá aceitara a proposta, mas com uma condição:
— Vamos consultar Javé primeiro.
Acabe ficou vermelho de raiva, sapateou, rangeu os dentes, fez ameaças, mas Josafá permanecia sereno: ou pediam orientação a Javé, ou nada feito. Vendo que seria inútil insistir, Acabe esmurrou a parede (o que lhe rendeu dois dedos quebrados) e mandou convocar todos os profetas de Israel.
Não são muitos os profetas, e também não são grande coisa. A perseguição incansável de Jezebel tornara em cabritos assustados aqueles que antes eram os orgulhosos mensageiros do Senhor dos Exércitos. Reunidos perante os dois reis, que se apresentam em suas roupas mais luxuosas na praça principal de Samaria, eles dão os prognósticos mais animadores.
— Guerra contra a Síria? Ixe, já é! Deus manda dizer que tá tudo pela ordem.
— Diz o Senhor: ide-vos e lutai-lhe-vos contra os sírios, e eu te-lhes darei-vos a vitória. Lhe. Vos. Por aí.
— A Síria é como um punhado de areia dentro de um copo daqueles de plástico, só que com um buraquinho no fundo, e em cima de um monte de pedras. Aí vem o gato e…
— EU JÁ MANDEI VOCÊ SUMIR DAQUI!
— Tá bom, tá bom! Saco.
— Acabe, não tem nenhum outro profeta por aí não?
— Hum. Tem um sim.
— Então, ouvi falar de um tal Elias que…
— NÃO ME FALE NESSE SUJEITO!
— Tudo bem, sem problema. Mas não tem nenhum outro não? Cá pra nós, estou achando esse pessoal meio fraco, parece que cursaram profecia na Uninove.
— Bom. Tem um cara aí, um tal de Micaías. Mas ele nunca profetiza nada que preste pra mim, só merda. Tenho ódio dele. Ódio. ÓDIOÓDIOÓDIOGAH.
— Acabe, controle-se. Pega mal um rei portar-se assim na frente dos seus súditos.
— Ah, é? E essa voz de moça, pega bem?
— Não adianta, meu caro, não vou entrar nessa sua provocação barata. Mande chamar o tal Micaías, só para termos certeza.
Contrariado, o rei mandou um oficial chamar seu desafeto. Enquanto isso, o desfile de profetas continua, todos eles garantindo que a campanha de retomada de Ramote Gileade será um absoluto sucesso. Um deles, de nome Zedequias, vem empunhando um par de chifres de ferro.
— Majestade, Javé manda dizer: “Com estes chifres você lutará contra os sírios e acabará com a raça deles”.
— Corno é teu pai!
— …
— Cadê o Micaías, Acabe?
— Sossega, Garoto Juca, que ele já vem.
Já vem mesmo: o oficial encontrou o profeta ali por perto, e vem escoltando o homem. Enquanto caminham, conversam.
— Rapaz, seus colegas tão tudo dizendo que essa guerra vai ser porreta.
— E eu com isso?
— Ora! O melhor que você faz é falar a mesma coisa, filho duma égua.
— Eu falo o que Javé me mandar falar, nada mais, nada menos.
— Eita. Então tá, ué.
Chegando defronte aos reis, porém, Micaías se esquece de seu orgulho de profeta. Ríspido, Acabe pergunta se ele e Josafá devem marchar contra Ramote Gileade.
— Claro, majestade, claro! Javé vai lhes dar a vitória.
— Micaías…
— Sim, majestade?
— Você deve achar que eu sou algum débil mental, não?
— …
— Estou vendo nessa sua cara de mané que você está mentindo. Pode parar com isso, filho da puta. Quando você vier falar comigo em nome de Javé, diga a verdade.
— É que o senhor fica bravo quando eu falo…
— NÃO IMPORTA! QUERO A VERDADE!
— Hum. Bom. O senhor pediu. Preparado?
— DESEMBUCHA!
— O que eu vejo são soldados de Israel espalhados pelas montanhas do deserto, como ovelhas sem pastor. E Javé diz assim: “Eita, que esses aí estão fodidos. Que voltem para casa em paz”.
— Não falei que esse veado só profetiza o que não presta?
— Deixa o homem falar, Acabe. Prossiga, Micaías.
— Prossigo, prossigo sim! Porque eu vi Javé sentado em seu trono no céu, com os anjos todos em volta. Ele perguntou: “Alguém aí quer descer para enganar Acabe para que ele ataque Ramote e seja morto por lá?”. Foi uma bagunça do cão entre os anjos, cada um dizendo uma coisa diferente. Aí um espírito se levantou e disse: “Xacomigo, Javé, eu vou”. “O que você vai fazer”, Javé perguntou, e ele explicou seu plano. Disse que enganaria os profetas para que fizessem profecias erradas para o rei. Então Javé o autorizou, e cá estamos nessa situação ridícula, com chifres de ferro e não sei mais o quê.
Antes que o rei conseguisse formular uma reação, Zedequias saltou na frente de Micaías e sentou-lhe um sopapo.
— Tá louco, feladaputa? Quando foi que o espírito de Deus saiu de mim e entrou em você?
— Você vai saber quando estiver todo encolhidinho num buraco, tentando se esconder dos sírios.
— Chega! Podem parar, os dois! Cadê o oficial que trouxe esse desgranhento pra cá? Ah, olha você aí. Seguinte: você vai levar esse sujeito até Amom, o governador da cidade, e ao príncipe Joás, com um recado meu. Diga a eles que é pra jogarem esse Micaías na cadeia. Que ele passe a pão e água enquanto eu não voltar são e salvo.
— Vixe. Haja pão é água.
— O QUE VOCÊ DISSE, MICAÍAS!
— Majestade, se o senhor voltar são e salvo, então não foi Javé que falou através de mim. Disso eu duvido, infelizmente. Que todos se lembrem do que eu disse.
No fim das contas, ficou decidido por 400 votos contra um que Judá e Israel atacariam Ramote Gileade. Acabe ainda estava preocupado com o que Micaías dissera, então foi conversar com Josafá:
— Pensei num negócio aqui pra gente confundir os sírios. Em vez de irmos os dois como reis, você vai todo paramentado e eu vou disfarçado de soldado comum.
— Hum. E pra quê?
— Pra confundir os sírios, Josafá! Prestenção!
— Mas isso não faz sentido nenhum, Acabe.
— Confie em mim!
— Tudo bem, pode ser. Negócio esquisito…
Acabe saiu esfregando as mãos. Sabia que os capitães do exército da Síria tinham ordens de não atacar ninguém a não ser o rei de Israel. Judá era uma bostinha no mapa, ninguém sequer lembrava de sua existência. Quando vissem Josafá todo engalanado sobre seu carro, feito um Clóvis Bornay narigudinho, pensariam que era o rei de Israel. Enquanto isso, Acabe daria um jeito de ficar meio que na retaguarda, andando pra lá e pra cá, evitando a refrega. Não tinha como dar errado.
Bom, tinha. Porque os capitães sírios chegaram até a cercar o rei de Judá. Ordenaram que jogasse suas armas no chão, e se preparavam para trucidá-lo quando ele gritou. Gritou do único jeito que sabia: com aquela voz esganiçada que tinha. Imediatamente os oficiais inimigos perceberam que não se tratava do rei de Israel. Josafá explicou que era o rei de Judá, um país menorzinho mais ao sul, e que Acabe lhe propusera o plano de um só rei visível na batalha.
Até aí, nada de mais. Os sírios deixaram Josafá em paz, e Acabe continuava seguro em seu disfarce. No entanto, enquanto corria de um lado para outro, o rei sentiu uma fisgada entre as juntas da armadura. Um soldado sírio atirara uma flecha ao acaso, e ela — provavelmente guiada pela vingativa mão de Javé — foi alojar-se no corpo do rei que tanto fizera para não ser notado. Imediatamente ele pediu ao condutor de seu carro que desse meia-volta e o levasse para fora da batalha.
O ferimento não parecia sério, e não pegava bem um rei abandonar o campo de batalha. A briga esquentava, e a presença real fazia-se necessária para instigar o moral dos soldados. Então os oficiais de Acabe mantiveram-no em pé até a tarde, de frente para os sírios, sem perceberem o sangue que escorria para o fundo do carro. Ao pôr-do-sol, o rei morreu e o exército israelita recebeu ordem de retirada.
O corpo do rei Acabe foi levado para Samaria e enterrado ali na capital do reino do Norte. Enquanto os soldados lavavam seu carro na represa da cidade, onde as prostitutas iam tomar banho, os cachorros lamberam o sangue que escorria para a água. Javé dissera que os cães beberiam o sangue de Acabe, e ali cumpria-se a profecia.
— Que profecia? Quando foi que Javé disse isso?
Eu sei lá, porra!
Com a morte de Acabe, seu filho Acazias subiu ao trono. Acazias foi um mau soberano, cujo reinado durou apenas dois anos. Ele deu continuidade aos cultos de Baal em Israel, para profunda irritação de Javé.
Josafá, que se tornara rei de Judá no quarto ano de reinado de Acabe, já governava havia dezessete anos. Durante esse período, realizou grandes feitos. Sob seu cetro, o país de Edom tornou-se colônia de Judá. Já depois da morte de Acabe, Josafá mandou construir grandes navios para trazerem ouro da misteriosa terra de Ofir, mas as embarcações quebraram antes mesmo da primeira viagem. Vendo o pouco conhecimento em engenharia naval de seu vizinho, Acazias ofereceu ajuda, que não foi aceita pelo rei de Judá. Depois que Josafá morreu e foi enterrado no túmulo da família de Davi, seu filho Jeorão reinou em seu lugar.
— Ei! E o Micaías?
Sei lá do Micaías! Deve estar comendo pão e água até hoje.