Uma empresa só tem espaço para UM blogueiro estrelinha. Eu ocupava esse posto por aqui. Ocupava. Ao que tudo indica, o Edu agora quer disputar os holofotes comigo. Todo dia vem nego me dizer que ama o Pérolas, que é muito legal, que não sei o quê. Cambada de jornalista baba-ovo, vai tudo pro inferno.

Você faz parte dos 20% dos leitores que utilizam resolução 800×600? Se for, deve estar odiando este layout novo. Se você não tem planos de comprar um monitor por esses dias, e é cegueta e não consegue enxergar nada em 1024×768 num monitor de 15 polegadas, isso é muito triste. Eu vou manter o blog assim por enquanto, ver se pego gosto pela cara nova. Caso pegue, não se apoquente: mais cedo ou mais tarde esse seu monitor vagabundo vai queimar.

(I Reis 20)
Sentado na principal sala de reuniões de seu palácio, Ben-Hadade, rei da Síria, mal conseguia disfarçar o tédio e a impaciência. Para um homem de ação como ele, só havia algo pior do que reuniões: reuniões com consultores. Ao seu redor na mesa, empertigados e com expressões de profundo saber e autoridade, eles se revezavam na apresentação. Começavam dizendo o nome, mas se não o fizessem daria no mesmo: eram todos iguais. O primeiro começara falando da empresa:
— Nós, da Siriana…
— Siriana?
— Sim, majestade.
— Com George Clooney e tal?
— Er… Não exatamente, majestade. Siriana é o nome de nossa companhia.
— Nome idiota.
— Senhor, com todo o devido respeito, levamos meses para chegar a esse nome. A definição envolveu pesquisas de mercado, análises de tendências, estudos de branding…
— Foda-se. Deu tudo num nome idiota de filme esquerdinha. O que é que vocês da Siririca…
— Siriana, senhor.
— Tanto faz. O que vocês têm a me dizer?
— Bem, majestade. Temos uma metodologia que foi desenvolvida por nossos sócios-fundadores e tem sido utilizada com sucesso há seis anos em diversos projetos. A metodologia é dividida em três pilares: pessoas, processos e tecnologia. Dentro desse pilar de pessoas, podemos destacar que a guerra contra Israel foi…
O rei já não prestava atenção. Fazia já três meses que aqueles almofadinhas percorriam a Síria coletando informações, discutindo entre si, realizando longas conferências e workshops. O Projeto Samaria, que era como eles chamavam o servicinho porco que desenvolviam, fora previsto para um mês, no máximo. Malditos consultores. E maldito Acabe, que o forçara a chegar a tal ponto.
Acabe… O rei de Israel era o mais bunda mole dos reis, disso ninguém duvidava. Mandado pela mulher e assombrado por um profeta casca-dura que desaparecera há muito tempo no deserto, Acabe era motivo de chacota em toda a região. Seu país era, portanto, alvo fácil. Isso, pelo menos, era o que pensavam Ben-Hadade e outros trinta e dois reis que haviam decidido apoiá-lo na campanha contra Israel um ano antes. Haviam subido às montanhas próximas a Samaria com seus cavalos e carros, cercando a cidade.
— … como resultado do que chamamos de gap analysis.
— Guépi o quê?
Gap analysis, majestade. Levantamos toda a situação atual com entrevistas e questionários entregues aos tomadores de decisão, e definimos, conversando com o senhor e seus assessores, qual seria a situação ideal. A partir disso, e sempre aplicando um conjunto de best practices, traçamos o caminho entre o que temos agora e o maior nível de maturidade possível, que é o nível 5. O relatório que apresentaremos hoje mostra os passos para atingir a zona de conforto de cada um dos níveis de maturidade, até o platô de sucesso do patamar mais alto. Em cada nível passaremos por um ciclo de conscientização, negação, frustração, aceitação…
Aceitação, pois sim! Era inaceitável a derrota para Acabe. Ben-Hadade ainda guardava os bilhetes trocados entre eles. Começara como uma espécie de trote; nem ele nem seus companheiros acreditavam muito que aquilo daria em guerra de verdade.

Acabe,
Sem delongas: toda prata e ouro que você tiver por aí, suas mulheres e seus filhos. Tudo meu.
B-H

A resposta de Acabe era patética, mas com um toque de malandragem:

Meu patrão Ben-Hadade,
O senhor tem razão. Eu e tudo o que tenho somos seus. Abraço!
A.

Era muita petulância do rei israelita. Como resposta, Ben-Hadade enviara uma mensagem que não deixava dúvidas sobre suas intenções, que já não eram mais apenas de aplicar um trote:

Acabe,
Não se faça de idiota. Eu requisitei todo o ouro e prata de seu palácio, além de suas mulheres e filhos. Mas você prefere dar uma de espertinho, não é? Pois que seja. Amanhã mesmo mandarei alguns empregados de confiança até aí. Eles vão examinar o seu palácio e as casas dos seus assessores, e vão pegar tudo aquilo que acharem que tem valor. O que você acha, hein?
B-H

Acabe ia ver o que era bom pra tosse…
— … WC?
— PwC? Mas vocês não eram de uma tal Siriema?
— Siriana, majestade. Eu perguntava onde fica o WC.
— Ah. Saindo daqui no corredor à direita, até o final, sobe as escadas à sua esquerda, passa pela porta do harém, vira na segunda à esquerda, desce uma escadinha de três degraus e por lá você se informa.
— …
— Você acha MESMO que eu conheço todo o palácio? Vocês andaram vasculhando tudo por aí, deviam saber mais do que eu.
— Er… Ok, majestade, com licença.
A saída do consultor deu ao rei sossego para remoer o ódio por Acabe e seu país. A resposta do rei de Israel à segunda mensagem demorara bem mais do que anterior. Ben-Hadade não tinha como saber, mas seu bilhete causara celeuma em Israel. Choramingoso como sempre, Acabe queixava-se pelos corredores do palácio. Que não era justo, que o rei sírio queria arruiná-lo e a seu reino, que era um absurdo, que onde já se viu. Quando conseguiram, a muito custo, interromper a cantilena do rei, seus assessores aconselharam: não entregasse nada, e Ben-Hadade que se fodesse. Acabe concordou, eufórico, mas na hora de escrever a resposta resolveu suavizar um pouco os termos:

Meu patrão Ben-Hadade,
Concordo com tudo o que o senhor disse na primeira mensagem. Tudo, tudo, tudo. Sinto dizer, porém, que não posso concordar com a última. É uma pena. Gostaria muito de poder ajudá-lo, mas não posso. Para qualquer outra coisa, sou sempre seu criado.
A.

Foi com a mão trêmula de raiva que Ben-Hadade escreveu o bilhete seguinte:

Porco israelita,
Que os deuses me capem matem se eu não invadir Samaria com um exército tão grande que, se cada soldado levar consigo um punhado de terra, a cidade sumirá do mapa.
B-H

A resposta de Acabe a essa ameaça fora, Ben-Hadade era forçado a admitir, de surpreendente coragem e presença de espírito:

Pão sírio,
O homem que diz “sou”, não é. O verdadeiro soldado conta vantagem depois da batalha, não antes. Em outras palavras, vem ni mim.
A.

Ben-Hadade recebera essa resposta de inesperada altivez enquanto bebia com os outros 32 reis em suas barracas perto de Samaria. Após ler o bilhete e passá-lo aos outros, o rei deu a ordem: era hora de atacar Israel. Enquanto isso, porém, Acabe recebia conselhos de um profeta. Os profetas de Javé haviam começado um movimento discreto de reorganização e, após uma ação aqui e ali, já eram até aceitos no palácio real — desde que Jezabel não estivesse por perto, é claro. Mesmo assim, evitavam as mensagens cifradas e as admoestações espirituais, apostando nos conselhos práticos para ganharem a confiança do rei. Esse profeta não era exceção: o recado que trazia diretamente de Javé para Acabe não tinha nenhum tipo de pirotecnia celeste, mas conselhos pertinentes quanto ao comando, divisão e organização do exército israelita. Enquanto Ben-Hadade e seus aliados ainda organizavam, preguiçosamente e cheios de si, a tomada de Samaria, o exército de sete mil israelitas subia a montanha para atacá-los. Quando deram por si, era tarde demais: os israelitas haviam causado baixas expressivas no exército sírio, botando o resto do contingente para correr. Comandados por Acabe, transfigurado em general eficiente e bravo, os soldados de Israel afugentaram seus inimigos, inclusive o orgulhoso Ben-Hadade, que fugira a todo galope.
— … É muito simples, como o senhor pode ver.
— Simples? SIMPLES? AQUELES FELASDAPUTA DO PAU CORTADO ME HUMILHARAM! VOCÊS VÃO ME DIZER AGORA QUE SABEM MAIS DO QUE EU, CORNOS?
— Majestade… O senhor contratou nossos serviços, só queremos apresentar nosso relatório e ir embora. Ainda temos que passar por um cliente no Egito hoje, e voltar para o escritório para preencher nossos relatórios mensais de horas.
— Cara… Deve ser muito chato trabalhar nessa Sirigüela.
— Siriana, majestade. Bem, como eu dizia é muito simples. Toda a ação se baseia em três pilares:

  1. Sobrenatural O deus dos israelitas é claramente uma divindade das montanhas; por isso o exército sírio foi derrotado por eles naquela ocasião um ano atrás. Os deuses sírios, por sua vez, são naturais da planície. Portanto, se a batalha for em lugar plano, a Síria será invencícel
  2. Profissional Os 32 reis que ajudaram na campanha anterior podiam ser bem intencionados, mas não eram profissionais da guerra. A substituição deles por capitães, homens de pensamento estratégico e espírito belicoso, trará ao exército sírio grande diferencial competitivo, além de força no processo de tomada de decisões
  3. Estratégico O contingente empregado na batalha mal sucedida era suficiente para vencê-la, assim como as armas e equipamentos utilizados. O problema aí, frisamos, não era de pessoas nem de tecnologia mas sim de processos. Com os processos bem definidos pelos capitães convocados, os soldados sírios chegarão ao nível de maturidade desejado no projeto.

— O mesmo exército lutando num lugar plano comandado por capitães. É isso?
— Em resumo sim, majestade. O relatório detalhado deve estar em sua mesa até amanhã. Poderemos discutir também a implementação de uma ferramenta de Business Intelligence, que agregue valor a seu negócio com métricas, alavancando o potencial de…
— VÃO ALAVANCAR AS PUTAS QUE OS PARIRAM! FORA DAQUI! NÃO ACREDITO QUE PAGUEI ESSA FORTUNA POR UM SERVIÇO BOSTA DESSES!
Os consultores partiram assustados e desolados. Sozinho na sala de reuniões, o rei acalmou-se, pensou, e acabou considerando as ponderações apresentadas. Até que fazia sentido. Fazia? Não fazia? Saberia.
Dias depois, o exército sírio estava acampado em Afeque, cidade que ficava numa planície próxima a Israel. Era um exército mais lustroso e disciplinado, graças ao trabalho exemplar dos capitães indicados pela Siriana Consultoria. “Outsourcing é o futuro!”, pensava o empolgado Ben-Hadade. Sabendo do cerco, Acabe organizara seus exércitos também. Na verdade, já vinha se preparando para nova investida síria havia um ano, seguindo o conselho do profeta prático. Os israelitas acamparam em dois grupos de frente para os sírios e, comparados a estes, pareciam dois rebanhozinhos de cabras. Vendo o tamanho do exército inimigo, Acabe só tinha um pensamento — “fodeu” — mas adquiriu novo ânimo ao ser abordado por outro profeta da nova geração.
— Os sírios dizem que Israel venceu da outra vez porque Javé é um deus das montanhas. Javé manda dizer que isso é uma calúnia da porra, e que vai mostrar pra esses comedores de esfiha quem é que manda nessa merda toda.
Durante sete dias os dois exércitos permaneceram acampados de frente um para o outro, em silêncio e tensão crescentes. Ao sétimo dia alguém deve ter pigarreado e a batalha começou. Os israelitas mataram cem mil sírios só nesse dia. O resto do exército da Síria fugiu para Afeque, onde lhes aguardava uma piada daquelas típicas de Javé: as muralhas da cidade caíram, matando vinte e sete mil soldados. Ben-Hadade teve mais sorte: estava longe das muralhas na hora do desastre, e se escondeu nos fundos de uma casa. Dois dos oficiais contratados foram ter com o rei, oferecendo-lhe sua vasta expertise em negociações:
— Majestade, nós vamos até Acabe para implorar humildemente por sua vida. Ouvimos dizer que os reis de Israel são muito bondosos.
— E eu lá tenho escolha? Vão, vão.
Quando ouviu dos dois oficiais que Ben-Hadade ainda estava vivo, Acabe mostrou-se aliviado. Não era homem de guerra, só queria sossego na vida. Fora forçado pelas circunstâncias e ajudado por um deus furioso, mas em qualquer outro caso preferiria abrir mão de tudo a entrar em guerra.
— Meu irmão Ben-Hadade, vivo? Que maravilha! O que vocês estão esperando? Podem trazê-lo para cá.
Os oficiais voltaram à cidade com o recado. Ben-Hadade veio, desconfiado a princípio, mas relaxou quando viu que Acabe tinha mesmo boas intenções. Depois de um pouquinho de papo furado, partiram para as negociações de paz. Os termos, estranhamente, foram propostos pelo rei sírio, parte derrotada:
— Seguinte, Acabe. Eu vou devolver a você todas as cidades que meu pai tomou do seu. Além disso, sabe aquele shopping em Samaria? Pois bem: hoje mesmo vou dar ordem para desapropriarem um terreno em Damasco para que você construa um desses por lá. Assim todo mundo ganha, hein? Que me diz?
— Excelente, ótimo! Mas conversamos depois. Vá para casa, descanse. Esses últimos dias não foram fáceis.
A postura cordial e de boa índole de Acabe, quase brasileira, não agradou a Javé. Emputecido, deu instruções a um profeta que tinha em alta consideração. Depois de receber o recado, o profeta chamou um de seus companheiros de grupo e fez um pedido estranho:
— Me dá um soco.
— Mané soco.
— Anda, diabo. Me dá um soco. Aqui, ó.
— Vixe, endoidou… Rapaz, bate logo a cara na parede e não me enche o saco.
— INFELIZ! VOCÊ DESOBEDECEU A UMA ORDEM DE JAVÉ, E POR ISSO SERÁ MORTO POR UM LEÃO!
— Uuuuh, uuuuh, que meeeeda! Acorda, rapaz. Esse tempo já passou. O negócio agora é profecia de resultados, manja? Foi-se o tempo da profecia moleque, de pé descalço. O lance é pragmatismo teológico, manja? Ah, vá-te à merda!
Assistindo à cena, os outros profetas reunidos na casa riam de se dobrar. O que se recusara a agredir o colega fez uma saudação irônica e saiu da casa. Os risos, que já esmoreciam, viraram silêncio total depois que os profetas ouviram um rugido, seguido de um grito, seguido de um “humpf”. Quando saíram, viram seu debochado colega estendido no chão, ensangüentado. O leão olhou para eles, fez “humpf” novamente e se retirou. Aparentemente, desprezava as novas tendências da profecia.
Voltaram todos para dentro de casa. O profeta escolheu outro colega.
— Ei! Você aí! Me dá um s… FILHODAPUTA. Hm. Caralho, doeu. Bom. Obrigado. Deus o abençoe. Porra.
O profeta enrolou um pano no rosto para não ser reconhecido e foi para a beira da estrada esperar o rei passar. Quando Acabe ia passando, o homem começou a gritar:
— Me entregaram um prisioneiro no meio da batalha! “Toma conta dele, rapaz”. Toma conta… Tanta coisa pra fazer e eu vou tomar conta de vagabundo? Fui cuidar da minha vida e, quando vi, o safado tinha fugido. Agora dizem que eu vou ter que pagar 35 quilos de prata de multa, senão me matam. Pode um negócio desses, majestade?
— Se pode? Claro que pode! Te deram ordem para vigiar o prisioneiro e você deixou o cara escapar? Você merece morrer mesmo.
— Arrá! — o profeta deu um pulo e arrancou o pano do rosto — O senhor também, rei Acabe, deixou escapar o homem que Javé ordenou que o senhor matasse. Agora, diz Javé, o senhor vai pagar com a vida, e seu povo será destruído.
— Mas… Mas ele nem me falou nada de matar o rei!
— Ih, sei de nada. Só entrego o recado.
O profeta voltou para a casa dos profetas, feliz pela missão cumprida. O rei, por sua vez, voltou para Samaria chateado, com raiva e resmungando. Se mais alguma coisa o aborrecesse, era capaz de cometer uma loucura.

Puta que pariu, vai tomar no cu.
Esse negócio de trabalhar pros outros é coisa de corno. Alguém aí tem uma idéia maluca pra ganhar dinheiro e largar a vida de peão? Tô acreditando em qualquer merda.

Após esse escatológico desabafo, um vaso sangüíneo se rompeu no cérebro do autor, que agora apenas baba e sorri.
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Enquanto esperava o ônibus para iniciar mais um dia agradável e nada estressante, assisti a uma cena que me fez voltar aos tempos do Velho Testamento. Na calçada, um moleque aplicava uma gravata no pescoço de outro. O que sofria a tentativa de estrangulamento primeiro recorreu a mim:
— Tio, ele tá me matando.
Vendo que eu só dava risada, ele resolveu argumentar com o outro:
— Cê tá apertando meu pescoço. Pára.
E o outro apertando.
— Olha que Deus tá vendo…
O outro nem aí. Emputecido ao limite, o moleque apelou de vez:
— Ô, Deus. Mata ele pra mim.
É ou não é um típico profeta dos tempos da juventude de Javé? Só o que estragou é que o outro moleque parecia um agnóstico daqueles bem ranhetas: relaxou um pouco o apertão e, vendo que não havia sinal de raio que o fulminasse, retomou a tortura.
O mal do mundo é essa falta de fé na ira divina.

“Estamos no mesmo fuso horário que os americanos”. Esse, vejam que coisa triste, é o principal argumento dos executivos brasileiros para a crença na transformação do país num grande centro global de offshore, especialmente para desenvolvimento de software. Explico: empresas de países desenvolvidos perceberam que o processo de criação de programas de computador poderia ser desmembrado, e a parte mais chata do trabalho feita por profissionais cuja hora de trabalho custa muito menos do que na sede dessas empresas. Índia e China despontaram como potências do offshoring. Como esses dois países ficam do outro lado do mundo, os brasileiros se saíram com essa: estamos aqui do lado, mesmo fuso, é só ligar e nós atendemos. Pergunte a um desses executivos por que, então, o país não abocanha sua fatia desse mercado. Xi, é uma choradeira danada: é o governo que não apóia, é a carga tributária, são os encargos trabalhistas, são os gringos que não confiam na gente, é Deus que se esqueceu de suas origens e virou americano.
Nunca entendi esse negócio do fuso horário. Porque, vejam, o processo de desenvolvimento de software envolve várias etapas. Na parte de desenvolvimento propriamente dito, podemos citar programação, testes e homologação. Ora, suponha que um certo módulo de um novo software requeira 8 horas de programação, 4 de testes e 4 de homologação. Terceirizando a programação para a Índia ou China, o serviço será feito enquanto é dia por lá, enquanto os americanos dormem. Quando eles acordam e vão trabalhar, já têm código pronto esperando por eles e pelos testes e homologação. O fuso horário oposto é, portanto, uma vantagem: terceirizando esse serviço para o Brasil, por exemplo, testes e homologação seriam feitos em dias alternados, já que seria necessário esperar o trabalho dos brasileiros.
É tão óbvio que desconfio da sinceridade de quem cita o fuso horário como grande vantagem competitiva. Será que esses caras estão querendo é corte de impostos e informalização das relações de trabalho? Se for isso, estou com eles. Desconfio, porém, que há mais que isso. Acho que nego está querendo é um dinheirim do governo. Os cineastas podem, por que não os empresários de TI, não é mesmo?

(I Reis 19)
No último capítulo, deixamos Elias em Jezreel, após ter vencido e matado os profetas de Baal. O rei Acabe, impressionado com o duelo entre as duas religiões, voltava para o palácio disposto a abolir o culto pagão de Israel e voltar à velha religião de Javé. Precisou mudar de idéia, porém. Ao contar a sua esposa Jezabel o que acontecera, a mulher quase lhe comeu o fígado. Bem, Acabe mandava em Israel, mas quem mandava em Acabe era Jezabel, que enviou a Elias o seguinte recado:

Que meus deuses me matem se em vinte e quatro horas eu não fizer a você o mesmo que você fez aos profetas de Baal, maldito!
J.

Horas depois, recebeu a resposta do profeta:

Vai acabar com meus argumentos utilizando a mais fina ironia?
E.

Jezabel ainda mandou outro bilhete, com a indefectível frase “Você está falando sério?”, mas era tarde: sabendo exatamente o que a rainha pretendia lhe fazer, Elias fugiu com seu ajudante para Berseba, em Judá. Deixou o ajudante na cidade e se enfiou no deserto. Depois de um dia inteiro andando, encontrou uma árvore e sentou-se à sua sombra. Era o último profeta de uma religião que um dia fora a única de um país que também não estava dividido. A seca, a disputa com os profetas de Baal, a volta da chuva, nada adiantara: continuava sendo um pária, um homem malquisto em sua própria terra. Era demais para ele.
— Chega desta merda, Javé! Acaba logo com a minha vida! Eu sou o último fracasso de uma linhagem de derrotados.
Exausto, o profeta caiu no sono. Logo alguém o cutucava impacientemente. Elias abriu os olhos e viu diante de si um sujeito alto, todo vestido de branco.
— Morri?
— Morreu uma pemba. Levanta daí e come.
Elias ia explicar que estava no meio do deserto, e não lhe apetecia comer areia, mas foi calado pela visão de um pão assado nas pedras e um jarro d’água. Ele comeu, bebeu e pegou no sono novamente. Bem, tentou pegar no sono, porque o anjo continuava a cutucá-lo.
— Cara chato…
— Come mais, rapaz, senão você não agüenta a viagem.
Acostumado a ser mandado por Deus para cá e para lá, Elias nem formulou a pergunta “que viagem?”, que ocorreria a qualquer um de nós. Em vez disso, levantou-se, comeu mais pão e bebeu mais água. Pense numa refeição balanceada e cheia de vitaminas: o alimento deu ao profeta forças para andar quarenta dias e quarenta noites até o monte Sinai, lugar dos mais sagrados para Israel. Assim que chegou, entrou numa caverna para passar a noite. Quando começava a ferrar no sono, ouviu uma voz conhecida:
— O que você está fazendo aqui, Elias?
— PORRA, JAVÉ! ME DEIXA DORMIR!
— Não quer comer uma coisinha antes?
— NÃO! ESSA SUA COMIDA TEM ANABOLIZANTE!
— É sério, Elias. O que você está fazendo aqui neste buraco? Você é um vencedor, Elias! Um profeta poderoso! Você pode, você consegue! Força, rapaz!
— Que é isso, Javé? Virou o Bernardinho?
— Bah. Ok, ok, esse lance de auto-ajuda não funciona com você. Muito bem, mas que porra você está fazendo aqui?
— ESTOU ME ESCONDENDO, CARALHO! A minha vida inteira eu fui um servo fiel, sempre fiquei do seu lado. E o que eu ganhei? Um diabo dum povo ingrato, que caga para a velha religião, que derrubou seus altares e matou todos os seus profetas. Bom, quase todos. Sobrei eu. EU! SÓ EU! UM ÚNICO PROFETA CONTRA UM PAÍS INTEIRO! O QUE VOCÊ QUER QUE EU FAÇA?
— Eu quero que você saia daqui e fique diante de mim no alto do monte.
— Estou com sono…
— VOCÊ ESTÁ PENSANDO QUE EU SOU SUAS NEGAS, FELADAPUTA? EU SOU É DEUS, TÁ ME OUVINDO? DEUS! SAI DESTA PORRA DE CAVERNA AGORA E CORRE PRO ALTO DA MONTANHA, ANTES QUE EU TE FULMINE, PORRA!
— Ah, já que você pediu jeitinho…
O sarcasmo foi um pouco demais, e a resposta de Javé veio na forma de um vendaval que arrancou as moitas que se prendiam às rochas do monte, assustou as cabras e levantou as vestes do profeta. Quando o vento parou, Elias estava sentado no chão, trêmulo.
— Javé? É você?
Em vez de resposta, veio um terremoto que abriu fendas na face da montanha, fez rolar grandes rochas, que quase fecharam a entrada da caverna, e assustou mais ainda o profeta.
— Peraí, Javé. Vamos conversar…
Depois do terremoto, veio um fogo que queimou as plantas que restavam, chamuscou as pedras e os cabelos de Elias.
— J-Javé?
— Ah, um gaguinho falando docemente comigo no Sinai. Assim que eu gosto! Tudo bem com você, meu querido Elias?
Ao ouvir a voz, Elias saiu da caverna, tomando antes a precaução de cobrir o rosto com a capa. Sabia que olhar para a face de Javé, ainda mais num momento de ira como aquele, não era boa idéia.
— O que você está fazendo aqui, Elias?
— Er… Eu não agüento mais, Javé. Sou o último de seus profetas. De nada adiantou minha lealdade. Fui derrotado. Como eu disse antes e tal…
— Derrotado? DERROTADO? Eu sou é Deus, porra! DEUS! Quantas vezes vou precisar falar isso?
— Mas o que é que eu posso fazer agora, Javé?
— Volte para o deserto, ande até Damasco e unja Hazael como rei da Síria.
— Como é?
— Vai por mim, é um plano que eu tô bolando aqui. Depois de besuntar o cara, unja Jeú, filho de Ninsi, como rei de Israel. Então procure em Abel-Meloá um tal Eliseu, filho de Safate.
— E esse vai ser rei de onde?
— De lugar nenhum. Eliseu vai ser seu sucessor.
— E aí você vai me matar, certo?
— Cala a boca, Elias. Você não reclamou que era o único profeta? Pois bem, agora vai ter outro, Eliseu.
— E os outros, Hazael e Jeú?
— Esses caras vão curar Israel da doença trazida por Acabe e Jezabel. Quem escapar de Hazael vai ser morto por Jeú, e quem der a sorte de escapar dele perecerá sob Eliseu. Pelas minhas contas, só sete mil pessoas no país inteiro não adotaram a religião de Baal. Só essas serão poupadas.
— Mas, Javé, vai ser uma carnificina!
— Vai, né? Como nos velhos tempos. Rapaz, estou até me sentindo mais jovem!
Hazael e Jeú podiam esperar: Elias queria conhecer logo seu sucessor, então foi a Abel-Meloá. Lá encontrou um rapaz que arava a terra com o último par de bois de um total de doze. Elias passou perto do rapaz e jogou a capa sobre sua cabeça. Eliseu já devia ter sido avisado do que estava para acontecer, porque nem perguntou que porra era aquela. Em vez disso, pediu a Elias que lhe desse licença para voltar a casa e se despedir de seus pais.
— Eu tô te segurando?
— Hã?
— Vai, diabo! Olha o sucessor que Javé me arruma…
Logo em seguida, porém, Eliseu fez algo que impressionou Elias: foi até o lugar onde estavam os dois bois com os quais estivera arando a terra e matou os animais. Pegou a madeira da canga para fazer uma fogueira, e nela preparou a carne. Depois de distribuir a carne entre o povo que estava ali perto, foi se despedir dos pais e voltou para onde Elias estava.
— Pronto. Podemos ir.
— …
— Que foi?
— Nada não.
Esse estranho Eliseu, de gestos inesperados e teatrais, seria um dos maiores, se não o maior profeta da história de Israel. Por enquanto, porém, seria apenas o ajudante de Elias, substituindo aquele que o profeta deixara em Judá, e que deve estar até hoje esperando a volta do patrão. Imaginem o tamanho do processo na justiça do trabalho…