Desculpem o sumiço, meu povo. Estou sob uma pressão desgraçada. Neste exato momento há três empresas brigando pelo meu passe. O bicho tá pegando, e não sei como diabos tomar uma decisão. O próximo personagem da história da Bíblia é o Elias, que não pode ser feito de qualquer jeito. O cara é pau-a-pau com Moisés, imaginem. Portanto, para não fazer um negócio meia-boca com um personagem tão legal, estou segurando as pontas enquanto não dou um rumo à minha vida.
Eu volto. Não sei quando.

(I Reis 15 e 16)
Não estranhem o tamanho do título, nem a quantidade de nomes estranhos. Com as mortes de Roboão e Jeroboão, os reis se sucederam nos dois tronos, sem que nenhum deles fosse propriamente digno de nota.
Abias, por exemplo, que sucedeu Roboão no trono de Judá, não fez nada além do que seu antecessor fizera. Neto de Absalão, o filho encrenqueiro de Davi, Abias subiu ao trono quando Jeroboão estava em seu décimo-oitavo ano de governo, e continuou a encrenca com o vizinho do norte. A idolatria permaneceu forte em Judá durante seu curto reinado de três anos. Um reizinho bem apagado, mas que mereceu o prêmio de ter um filho seu na linha de sucessão, graças à simpatia de Javé por seu bisavô, Davi.
Asa, filho de Abias, foi coroado quando Jeroboão ainda vivia. Foi um rei zeloso, que expulsou do país todos aqueles que não seguiam a religião oficial, e destituiu sua avó, Maacá, filha de Absalão, do posto de rainha-mãe. A velha adorava imagens, e isso não condizia com a alta santidade do neto. Asa reinou por quarenta e um anos, e viu os reis do norte sucederem-se uns aos outros enquanto ele permanecia firme no trono. No segundo ano de seu reinado, Jeroboão morreu e foi sucedido por seu filho Nadabe, que reinou por apenas dois anos. Quando Nadabe estava cercando Gibetom, uma cidade da Filistia, um tal Baasa, filho de Aías, da tribo de Issacar, armou uma conspiração contra o rei e o matou. Baasa foi então coroado rei, e sua primeira providência foi matar todos os descendentes de Jeroboão, conforme dissera Javé por meio do profeta Aías.
Depois de se garantir no poder eliminando a concorrência, Baasa resolveu invadir Judá e construir muralhas ao redor da cidade de Ramá, para assim controlar o caminho que levava a Jerusalém. O plano visava enfraquecer o Reino do Sul, e unir todo o Israel sob seu cetro. Aconteceu, porém, que Asa, o zeloso rei de Judá, enviou mensageiros a Ben-Hadade, rei da Síria, e junto com eles todo o ouro e prata que haviam sobrado no Templo e no palácio de Jerusalém. Asa pedia a Ben-Hadade que retirasse o apoio dado a Baasa, e que se unisse a ele contra o Reino do Norte. Com tantos presentes vistosos, o rei da Síria nem titubeou: enviou seu poderoso exército a Israel, e os soldados sírios conquistaram as cidades de Ijom, Dã e Abel-Bete-Maacá (pense…), a região do lago da Galiléia e toda a tribo de Naftali.
Baasa não tinha bala na agulha para responder a tamanha retaliação, então achou mais prudente interromper a construção das muralhas em Ramá e retornar a Tirza. Com Ramá livre dos israelitas, o rei Asa mandou reunir o povo para retirar todo o material trazido do norte para a construção das muralhas, e usá-lo para erguer muros em torno das cidades de Mispa e Geba, na tribo de Benjamim.
Já bem velho, Asa foi acometido por uma doença nos pés e morreu. Foi o primeiro caso registrado na História de morte por frieira.
Lá no norte, Baasa fazia tudo o que mais irritava Javé: promovia a adoração de outros deuses, espezinhava os irmãos do Sul e cagava e andava para os profetas. Javé enviou, então, o profeta Jeú, filho de Hanani, para dar ao rei de Israel o mesmo recado que Jeroboão recebera tantos anos antes: que seus descendentes seriam mortos e devorados pelos animais. O profeta levou a mensagem ao rei, que morreu pouco tempo depois. A Bíblia diz que o rei foi castigado por sua idolatria, mas principalmente por ter massacrado a família de Jeroboão. O massacre, caso vocês não se lembrem, foi uma idéia do próprio Javé. Com a morte de Bassa no vigésimo-quarto ano de reinado, o Deus de Israel celebrava a prática hoje conhecida como “tirar o cu da reta”.
Baasa foi sucedido no poder por seu filho Elá. Um dia, dois anos depois de ser coroado, Elá estava enchendo a cara na casa de Arsa, encarregado do palácio. Zinri, um dos oficiais do exército, entrou na casa e atacou o rei que, bêbado, não teve como reagir. Morto Elá, Zinri foi coroado rei no Norte, no vigésimo-sétimo ano do reinado de Asa em Judá. No primeiro dia de seu governo, a ordem corriqueira: matar todos os descendentes de Baasa.
Zinri bateu todos os recordes de brevidade em Israel. Sua conspiração só deu certo porque a maior parte do exército israelita estava novamente (ou ainda) sitiando Gibetom. Quando a notícia da conspiração chegou ao acampamento, os soldados se revoltaram e ali mesmo coroaram seu comandante, Onri. O oficial reuniu a tropa, e seguiram todos para Tirza. Quando Zinri viu que a cidade estava cercada, e por seu próprio exército, desesperou-se e tocou fogo no palácio. Zinri morreu queimado, tendo reinado em Israel por apenas sete dias.
Com a morte de Zinri, o reino dividiu-se. Parte do povo apoiava a subida de Onri ao trono, outra parte queria coroar um tal Tibni, filho de Ginate. No fim das contas, o partido de Onri prevaleceu e Tibni foi morto.
Onri ainda tentou governar a partir de Tirza, mas a cidade já não era a mesma. Com o palácio incendiado e parte da cidade destruída pelo cerco, saía mais barato mudar a capital. O rei, então, comprou umas terras de um tal Semer, pagando por elas setenta quilos de prata. As terras incluíam uma montanha, na qual Onri construiu uma cidade e defesas militares. Em homenagem ao seu primeiro proprietário, o rei chamou a cidade de Samaria. Após doze anos de reinado, durante os quais deu continuidade à idolatria dos reis anteriores, Onri morreu e foi sucedido por seu filho, Acabe.
Os reis iam e viam em Israel, e Asa continuava firme no trono de Judá. Em seu trigésimo-oitavo ano de governo, o filho de Onri foi coroado no Norte. Acabe foi, provavelmente, o rei que mais trabalho deu a Javé. Não contente em deixar que o povo continuasse a adorar os deuses que quisesse, o rei tomou alegremente parte ativa na idolatria. Casou-se com Jezabel, filha do rei de Sidom, Etbaal, e adotou o deus da família da esposa, Baal. Os altares e ídolos construídos por outros reis antes dele eram nada diante do templo erguido por Acabe em honra a Baal, em Samaria. Para piorar, permitiu que um tal Hiel de Betel reconstruísse a cidade de Jericó. Pode parecer pouco, mas após a destruição de Jericó Josué havia amaldiçoado a cidade, dizendo que quem colocasse os alicerces perderia o filho mais velho, e quem erguesse os portões perderia o caçula. Como Hiel fez as duas coisas, Hiel perdeu seu primogênito, Abirão, quando botou os alicerces, e Segube, o mais novo, quando colocou os portões na cidade pronta.
Enquanto seus antecessores pecavam apenas por omissão, Acabe deleitava-se em desafiar Javé de todas as maneiras. Para um cabra ruim assim, o Senhor dos Exércitos ia precisar arrumar um oponente daqueles. Os velhos profetas, pouco mais do que garotos de recado, não dariam conta de tamanha tarefa. Era preciso um paladino, quase um Moisés. Conseguiria Javé arrumar um sujeito assim para enfrentar Acabe? É o que veremos.

A historieta da Intel já deu o que tinha que dar. Conversei bastante com a assessora, e parece que tudo foi uma mistura de mal-entendidos com uma presepadazinha. Nada de mais, pois. Só que a discussão pegou fogo lá no Pérolas. Estudos mostram que os jornalistas brasileiros têm em média um ego duas vezes maior do que o de um argentino comum. Então foi aquele furdunço: jornalistas de redação falando dos assessores, assessores achincalhando os repórteres, nego pregando a revolução, enfim, coisinhas divertidas. Porém, o comentário de um retardatário me chamou a atenção, justamente por referir-se a mim:

Não que explique ou justifique… Mas vamos combinar que uma publicação que manda para uma coletiva um jornalista que nem é jornalista, que publica matérias de um jornalista que não é jornalista e que tem entre seus jornalistas esse mesmo jornalista que não é jornalista e que fica pagando de jornalista-gatinho por todos os cantos da internet tb não tem moral de ficar criticando quem faz as coisas erradas, né?

É claro que o bonitão (ou bonitona) não se dispôs a dar a cara a tapa: o comentarista se oculta por trás do escudo covarde do anonimato. Não me interessa quem seja, também. Dá para perceber que se trata de mais um que considera o jornalismo um sacerdócio, uma função sagrada a ser exercida apenas pelos iniciados. Pobre alma. Ainda não percebeu que jornalista é gado, e que segue a direção determinada por seu patrão boiadeiro. A questão toda é o diploma? Eu já estive numa faculdade de jornalismo. Se aquela papagaiada toda fez diferença na vida do caro anônimo, só tenho a lamentar. Formação cultural independe de universidade, e um texto decente nasce da leitura compulsiva, não das cadeiras mágicas da faculdade.
Não sou jornalista, e não pretendo sê-lo. É só uma profissão que exerço no momento. Se me aparecer uma atividade mais interessante, largo o jornalismo com gosto. Não vejo nada de sagrado no jornalismo, e não me sinto socialmente responsável por ser (estar) jornalista. É um trabalho: vendo parte do meu tempo e do meu parco talento para uma empresa, a empresa me paga uns caraminguás, e assim vamos vivendo. Não é um privilégio ser jornalista. Não é a coisa mais linda do mundo. Não é emocionante. Só um trabalho besta.
Agora, só não entendi uma coisa: pagando de jornalista-gatinho por todos os cantos da internet? Eita preula! E eu tenho culpa de ter um blog que as pessoas gostam de ler, e que o que eu escrevo por aqui ecoe em outros rincões da rede? Apaporra! Comecei o blog antes de ser jornalista, e este troço continuará existindo depois que eu mudar de profissão.
Jornalista é uma raça muito estranha, credo.

A Telefônica lançou nesta semana uma promoção válida para São Paulo e Campinas. O objetivo claro da promoção Tevolução (nomezinho besta) é levar os clientes a migrarem para os planos de minutos. Para isso, a operadora oferece descontos em ligações de longa distância, redução no preço da franquia de minutos, períodos de ligações grátis e outras mumunhas.
Claro que nada disso vem de graça. Para começo de conversa, só vale para clientes que tenham Speedy, o serviço de banda larga da empresa. Além disso, se o usuário cancelar o Speedy em menos de um ano, perde todas as vantagens. Mais uma vez o golpe da fidelidade, como vocês podem ver. A Claro tentou me aplicar um desses, depois eu conto. Porque o que mais me espantou no regulamento da tal promoção da Telefônica foi o item 9:

Os Clientes participantes desta Promoção desde já autorizam, pelo prazo de 20 (vinte) anos, uso de seu nome, sua imagem e som de voz em filmes, vídeos, fotos e cartazes, anúncios em jornais e revistas, internet e marketing direto, com o intuito de divulgar esta Promoção, sem qualquer ônus para a TELEFÔNICA

Como é que é? Então para participar de uma promoçãozinha fuleira sem-vergonha o Grande Satã Espanhol quer minha alma por vinte anos? Mas nem por um ramalhete de caralhos!

(I Reis 14)
Jeroboão foi avisado pelo profeta de Judá, teve sua mão paralisada e viu o altar consagrado aos bezerros rachando ao meio. Nem assim, porém, o rei de Israel tomou tento. Vendo lá de cima que Jeroboão continuava a traí-lo com outros deuses, Javé resolveu que era hora de castigá-lo. Ergueu o punho, fez pontaria sobre a cabeça do rei, lançou sua maldição e… errou a pontaria. Jeroboão nem percebeu nada até ser avisado pela esposa que Abias, seu filho, caíra doente. Lá de cima, Javé disse “Epa” e tratou de improvisar um plano B.
Jeroboão podia ser idólatra e prepotente, mas era também um bom pai de família. Percebendo que a doença do filho podia ter alguma relação com as advertências do profeta de Judá, chamou sua mulher e lhe passou instruções:
— Minha filha, tu conhece Aías, o profeta que disse que eu ia ser rei e a porra toda, não é? Pois então: leve o barrigudim lá pro profeta, em Siló, explique a ele o leriado todo. Dê a ele uns pãezinhos, uns bolos, uns agrados, e pergunte que diacho vai acontecer ao menino. Mas vá disfarçada, viu? Se o cabra da moléstia souber que tu é minha mulher, é capaz de nem atender. Profeta é uma raça muito puxa-saco de Javé.
A esposa do rei botou então uma máscara de Groucho Marx, uma peruca azul, e foi ter com o profeta.
Aías já estava completamente cego, então a precaução de Jeroboão seria desnecessária. Seria, porque no mesmo momento em que sua mulher saía de casa para ir visitar o profeta, Javé batia à porta do velho.
— Quem é?
— É O FRIO!
— Não adianta bater, eu não deixo você ent…
— CALABOCA, AÍAS! SOU EU!
— Javé?
— É, porra!
— Já vou abrir.
— Não precisa, já estou aqui dentro.
— Eita. Como é que cê faz isso?
— EU SOU É DEUS, RAPAZ! DEUS!
— Sim, sim.
— Vim para dar um aviso. A mulher daquele desgraçado daquele Jeroboão está vindo aí. Vem num disfarce ridículo, para te enganar. Não se engane, Aías! Quando ela chegar, diga logo que sabe quem ela é e entregue este papel a ela.
— Pode deixar, Javé. O que está escrito no papel? Javé? Ô! Javé! Sumiu… Comé que ele faz isso, diacho?
Quinze minutos depois era a mulher de Jeroboão que batia à porta de Aías.
— Quem é? É a mulher do rei?
— …
— Não adianta disfarçar, minha filha. Pode entrar, fique à vontade.
— Como o senhor sabia que era eu?
— Javé me disse que a senhora viria. Pediu-me para entregar-lhe este papel.
— O que está escrito?
— Eu sei lá! O diabo do recado não está em braile.
A mulher aproximou o papel de um lampião e leu o recado terrível que Deus tinha para seu marido:

Jeroboão, seu bosta.
Você pensava que podia me sacanear, adorar a outros deuses e levar o povo à idolatria sem que nada lhe acontecesse? Eu avisei, eu avisei… Escolhi você para ser rei. Tomei a maior parte do reino da família de Davi e a entreguei a você. E o que você fez? FODEU COM TUDO, SEU MERDA!
Ah, que saudade de Davi! Aquele sim me obedecia. Eu dizia “vá”, e ele ia. Dizia “mate”, e ele matava. Com gosto! Você não chega nem aos pés de Davi.
Você me traiu, Jeroboão, e por causa disso eu vou trazer desgraça para sua família. Todos os seus descendentes homens terão morte horrível. Eu vou varrer sua família do mapa como quem varre um monte de bosta, que é isso que vocês são. Seus descendentes não terão sequer o direito à sepultura: serão devorados pelos cães e pelos corvos.
Que isso lhes sirva de lição
J.

Enquanto ela lia a carta, o telefone tocou. O profeta foi atender e voltou com a maior cara de tristeza do mundo.
— O que diz o recado, dona?
Ela leu a mensagem em voz alta, e Aías não precisava de visão para saber que a mulher chorava enquanto lia.
— É muito triste mesmo. E tem mais.
— Como?
— Javé ligou agora. Mandou dizer que o menino vai morrer assim que a senhora pisar na cidade.
— MEU DEUS!
— Meu também, mas o que se vai fazer? Ele diz que esse menino vai ser o único da família a ter uma sepultura decente, porque é o único de quem ele gosta de verdade.
— Gosta? GOSTA? Meu marido errou, ele castigou o menino, e ainda diz que GOSTA dele?
— Dona, eu só dou o recado. Entendo nada também. Diga isso ao rei, e diga também que Javé mandou avisar que vai castigar o povo de Israel por sua idolatria. O povo será arrancado dessa terra e espalhado por aí.
Sem acreditar no que acabara de ouvir, a esposa do rei saiu da casa de Aías sem se despedir. Vagou durante horas por estradas secundárias, sem coragem de voltar para casa. Se o que o profeta dissera era verdade, assim que ela chegasse a Tirza seu filho morreria. Depois de muito andar, percebeu que era inútil adiar: de uma forma ou de outra ela teria que voltar à cidade, e se não o fizesse Javé era capaz de adotar represálias piores ainda. Foi, portanto, para a cidade. Assim que ultrapassou as muralhas, ouviu o grito de Jeroboão. Quando entrou no quarto do menino, viu o rei chorando debruçado sobre o corpo.
O príncipe Abias, mais uma vítima inocente de Javé, foi pranteado por todo o povo de Israel e sepultado em Tirza.
Após a morte do filho, Jeroboão começou a definhar. Parou de comer e beber, não se dedicava a mais nada e vivia vagando pelo palácio com olhos vazios. Vinte e dois anos depois de assumir o trono, o rei de Israel morreu e seu filho Nadabe foi coroado. Não durou muito.
Quando Jeroboão morreu, Roboão já apodrecia em sua cova havia cinco anos. O rei de Judá morrera aos 58 anos de idade, 17 deles no trono. O comportamento de Roboão não fora melhor que o de seu colega do norte: durante seu reinado, o povo adotou os costumes e os deuses dos países vizinhos. Havia altares pagãos nas montanhas, bosques consagrados a diversas divindades e até orgias sagradas com prostitutas fazendo as vezes de sacerdotisas.
No quinto ano do reinado de Roboão, Sisaque, rei do Egito, atacou Jerusalém e saqueou o templo e o palácio construídos por Salomão. O rei mandou fazer escudos de bronze para substituir os outros, de ouro, que haviam sido levados para o Egito.
Os reis do norte e do sul mantiveram-se em guerra enquanto Roboão foi vivo. Quando ele morreu, foi enterrado no mausoléu dos reis, e seu filho Abias subiu ao trono. Também não durou muito.