(II Samuel 17)
Com o dinheiro que ganhara vendendo as fitas de Absalão comendo as mulheres de Davi, Aitofel era um homem muito feliz. Foi, portanto, muito pimpão que atendeu a um chamado do novo rei:
— Aitofel, estou aqui pensando no que fazer em seguida.
— Hum.
— Hum o quê?
— Nada, majestade, nada!
— Vai vir de novo com aquele papo de insegurança e não sei que mais?
— Mas de forma alguma!
— É bom mesmo. Humpf. Fique sabendo que nunca houve um rei tão seguro quanto eu. Já tenho tudo planejado aqui, sou dono da situação, sabe?
— Sei.
— Como assim, “sei”? Olha, você não é pago para ser sarcástico comigo!
— Sarcástico, eeeeeeu? Longe de mim, majestade!
— Grunf. Mas eu ia dizendo: estou aqui pensando no que fazer. Comi as concubinas do meu pai, mas e daí?
— Olha, acho que o negócio agora é foder o velho.
— DE JEITO NENH…
— Calma, calma. No sentido figurado.
— Ah… Ufa.
— Então. Deixe que eu escolha doze mil homens. Sairei com eles para perseguir Davi ainda esta noite. Ele está fugindo há mais de vinte e quatro horas, deve estar cansado e desmoralizado. O bicho vai se cagar todo, os que estão com ele fugirão. Então eu matarei apenas o rei… digo, ex-rei, e trarei o resto de volta para cá, para que sejam seus súditos. O senhor só quer matar a um homem, os outros podem ser deixados em paz.
Absalão achou bom o conselho de Aitofel, assim como todos os outros conselheiros. Mas ainda estava com a pulga atrás da orelha devido ao episódio das concubinas: nada lhe tirava da cabeça que Aitofel só o aconselhara a fazer aquilo para filmar tudo. Então resolveu que precisava de uma segunda opinião e mandou chamar Husai. Quando ele chegou, expôs-lhe o conselho de Aitofel e perguntou:
— E aí, o que você acha? Sigo o conselho de Aitofel ou você por acaso tem outro?
— Olha, majestade… Quem sou eu para discordar de Aitofel? O homem foi conselheiro de seu pai, sempre muito respeitado, então não vou querer discutir com ele.
— Ué, que porra é essa? Você concorda com ele ou não?
— Bom. Já que o senhor quer mesmo saber, digo que o conselho não é muito bom não.
— Ah, não? E o que você propõe?
— O senhor conhece seu pai. Davi é um homem valente, assim como os homens que estão com ele, e devem estar todos furiosos. Além disso, Davi é um guerreiro experiente, e durante a noite não fica com os soldados. Deve estar entocado nalgum canto. Se formos atacá-los com doze mil homens, como propõe Aitofel, eles vão reagir e talvez tenhamos uma surpresa desagradável. O povo vai começar a falar que o exército de Absalão foi derrotado, os soldados de Israel ficarão com medo de enfrentar Davi, e pronto: está a merda formada. Então o meu conselho é o seguinte: que o senhor reúna por todo o país todos os homens em condições de batalha, e que o senhor mesmo seja o comandante desse exército imenso. Com tanta gente na cola dele, Davi não vai ter onde se esconder: desentocamos ele até do inferno, antes que ele perceba o que está acontecendo. Então matamos o ex-rei e seus homens, não deixando unzinho para contar a história. NEM UNZINHO! Se eles se esconderem numa cidade fortificada, vai ser fácil para nós derrubar os muros com cordas. E AÍ A GENTE MATA GERAL! SANGUE! SANGUE! SANNNNNNNNGUEEEEEEE!
— Calma, Husai, calma. Puxa, não sabia que você odiava o outro tanto assim… Bom, acho o seu conselho melhor. E vocês, o que acham?
Os outros conselheiros e conspiradores concordaram com Absalão, então decidiram fazer conforme Husai aconselhara.
O plano do espião enviado por Davi parecia mais cruel do que o de Aitofel: enquanto este propunha que um exército pequeno caçasse e matasse Davi, aquele queria atacar com força bruta, esmagando um inimigo acuado. A primeira vista, portanto, Husai parecia mesmo ter mudado de time. Mas a chave era tempo: se seguisse o conselho de Aitofel, a caçada poderia começar em seguida. Juntar doze mil homens era trabalho de não mais que um dia, e Davi seria atacado no meio de sua fuga, sem chances de reação. Por outro lado, convocar todos os israelitas para a luta era tarefa para muitos dias, o que daria tempo ao ex-rei. E tempo era tudo de que Davi precisava.
Pois muito bem: assim que terminou de receber os cumprimentos por seu plano brilhante, Husai correu para contar aos sacerdotes Zadoque e Abiatar — espiões como ele — o que acontecera no palácio. Contou a história por alto, e entregou a eles um bilhete destinado a Davi:

Majestade,
Não perca tempo aí no meio do deserto. Sei que vai ser cansativo e que muita gente vai chiar, mas faça de tudo para cruzar o Jordão o mais rápido possível. Absalão tá com sangue nos zóio, se liga.
H.

Outro elo da cadeia de espionagem criada por Davi era a dupla Jônatas e Aimaás, filhos de Abiatar e Zadoque. Os dois passavam os dias na fonte de Rogel, a uma distância segura dos muros da cidade para não serem vistos. Vez por outra uma empregada ia até lá como se para buscar água, lhes contava o que andava acontecendo e eles levavam as informações a Davi. Nesse dia não foi diferente: a empregada foi até a fonte e entregou o bilhete de Husai aos rapazes. Mas um moleque futriqueiro que ia passando viu aquilo e correu para contar ao rei. Jônatas e Aimás também o viram, e correram para a casa de um sujeito que também estava a serviço do rei deposto, na cidade de Baurim. Eles se esconderam dentro do poço, que a dona da casa cobriu com um pano e jogou sobre ele cereais socados, de modo que o poço ficou camuflado. Quando a polícia chegou para fazer a averiguação e enquadramento dos dois elementos alta periculosidade, não encontrou nada.
— Ô, madame, cadê os meliantes?
— Atravessaram o rio.
— Puta que pariu!
— Olha, rimou!
— Vá à merda.
A polícia foi embora, e os dois espiões saíram correndo para levar o recado e o bilhete de Husai a Davi. O rei recebeu a mensagem, compreendeu que ganhara tempo e deu a ordem para a travessia. Ao raiar do dia, todos já estavam na banda oriental do rio.
Aitofel recebeu a notícia e percebeu o que significava: as tribos do outro lado do Jordão, sempre isoladas do resto do reino, e por isso sempre dispostas a alguma agitação, certamente apoiariam a Davi. Absalão ainda estava começando a arregimentar homens de Dã até Berseba, seguindo estupidamente o conselho absurdo de Husai. Era demais para o conselheiro: além de ter traído seu antigo senhor, fora desprezado pelo novo, e agora veria a vitória do inimigo sem poder nem dizer “Mas eu avisei”. Então Aitofel montou em seu jumento, voltou para casa, botou seus negócios em ordem e enforcou-se.
Quando Absalão finalmente conseguiu juntar seu exército (sob o comando de Amasa, primo de Joabe), Davi e seus homens já haviam chegado a Maanaim, cidade que muitos anos antes abrigara Isbosete, filho de Saul, num outro período conturbado da monarquia israelita. Como já era esperado, as tribos transjordanianas passaram imediatamente para o lado de Davi. Guerra haveria, mas não seria tão fácil quanto Absalão pensava.

Quando do lançamento de The Tingler, Willian Castle teve uma idéia estapafúrdia: instalar em algumas poltronas das salas onde o filme seria exibido um dispositivo chamado Percepto. O tal dispositivo era de uma simplicidade infantil: apenas fazia a poltrona vibrar. Associado, porém, a certas cenas do filme, esse efeito causava sustos imensos. Na cena mais marcante, a tela fica toda preta e a voz Dr. Warren Chapin (Vincent Price) anuncia que o monstrengo está à solta no cinema. E diz:
— Ladies and gentlemen, please do not panic! But SCREAM! Scream for your lives! (Gritar era a única arma contra o Tingler. Não vou explicar nada, o filme foi lançado em DVD, assistam. Ou tenham um amigo legal feito Rodrigo Segatti, que me deu essa obra-prima de presente).
Logo em seguida a tela fica branca e aparece a silhueta do monstrinho, como se ele tivesse atacado a sala de projeção. Um primor.
Hoje essa parafernália toda para assustar a platéia não funcionaria: a maioria ia achar apenas ridículo. Vivemos num mundo chato e cinzento, ninguém mais liga para fantasia. Você quer fazer um filme? Ok, muito bem. Mas fale sobre coisas REAIS e SÉRIAS. Nada de aventura e fantasia, que ninguém aqui é criança. E olhe lá, hein? Se o filme tiver alguma cena que considerarmos absurda, todos gritaremos “Bãaaaaaa, té parece!”. Porque não somos trouxas, viu? Você não pode nos enganar.
Capitão Sky e o Mundo de Amanhã é um filme que surpreende por ir contra esse consenso estúpido: seria feito tranqüilamente nos anos 30 (época em que se passa a ação), se então já se pudesse contar com a tecnologia de hoje. Os enquadramentos, a trilha sonora, os diálogos, tudo faz lembrar de um tempo mais ingênuo e, sejamos meio gays, saboroso. É claro que pouca gente vai entender: ontem, na sala em que eu tentava assistir ao filme, o partido do “Bãaaaaa, té parece!” atacava a cada cinco minutos. Tive que ir sentar lá na frente para não brincar de Mateus Meira com aquele povo idiota e sem imaginação.
Mas procurem um cinema meio vazio e assistam. Muito bom mesmo.
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Aliás, uma idéia para o Percepto 2004: as cadeiras do cinema seriam todas eletrificadas. Quem atendesse o celular no meio do filme, ou falasse alto, ou risse nas horas impróprias, ou fizesse “Bãaaaaaa, té parece!”, seria imediatamente eletrocutado. Funcionários do cinema entrariam discretamente para remover o corpo, que seria cremado e as cinzas entregues à família dentro de um saco de pipoca, com um par de ingressos de cortesia.
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Quando foi internado numa clínica psiquiátrica nos anos 50, João Gilberto passava horas olhando através das janelas. Um dia uma das psicólogas se aproximou e ele comentou:
— Olha o vento desarrumando o cabelo das árvores…
A doutora, demonstrando preocupação, disse:
— Mas, João, as árvores não têm cabelo.
E ele, fuzilando:
— E certas pessoas não têm poesia…

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Eu notei, Ieda também: primeiro foi Daryl Hannah em Kill Bill, agora Angelina Jolie em Capitão Sky. O tapa-olho tem tudo para virar fetiche.