(I Samuel 29)
Enquanto Saul enfrentava o caminho de volta ao monte Gilboa sob o peso dos agouros lançados pelo espírito de Samuel, os filisteus preparavam sua primeira movimentação estratégica, saindo de Suném e indo para Afeque, pouco mais ao sul. Quando o rei chegou, seus comandantes sugeriram que os batalhões israelitas marchassem para o vale de Jezreel, bloqueando assim o avanço inimigo. Apático, Saul apenas fez um aceno vago com a mão, aprovando o deslocamento, e foi para sua tenda. Sabia que nenhuma estratégia mirabolante seria suficiente para salvá-lo e a seus filhos.
Assim que souberam que os israelitas estavam acampados em Jezreel, os cinco governadores filisteus reuniram-se e decidiram que era o momento ideal para um ataque rápido e letal. Tomada a decisão, começaram logo a marchar. Na retaguarda, junto a Aquis, rei de Gate, iam Davi e seus soldados, dissidentes de Israel. Os outros reis filisteus não gostavam daquela situação, e foram falar com Aquis assim que fizeram a primeira parada:
— Que diabo esses hebreus estão fazendo aqui?
— Ei, já se esqueceram? Esse é Davi, homem da minha maior confiança. É israelita, sim, mas desde que se rebelou contra Saul eu nunca soube de nada que o desabonasse.
— Não interessa, Aquis! Manda esse Davi de volta lá pra Ziclague. O cara é hebreu, e está mal lá com o rei dele. Existe jeito melhor dele se reconciliar com Saul do que entregando a ele algumas cabeças de filisteus? Além do mais, não era sobre ele aquela musiquinha lá das hebréias, falando que Davi matou dez mil filisteus e não sei mais o quê?
— Puta merda, vocês não esquecem mesmo a tal musiquinha… Tá bom, eu falo com ele.
Aquis esperou que os quatro saíssem de sua tenda, então mandou chamar Davi.
— Davi, juro por Javé, o seu deus, que confio muito mais em você do que em qualquer outra pessoa.
— Sei disso, majestade, e agradeço.
— Pois é. Você é um homem correto, honesto, trabalhador, corajoso, essa coisa toda. Mas isso não basta aos outros reis, sabe?
— É? Por que não?
— Ficam desconfiados, por você ser israelita, entende?
— Entendo… Mas e então?
— Bom, Davi, eu vou ter que pedir a você que reúna seus homens e volte para Ziclague. Você não vai poder ir à batalha com a gente. Volte, e não faça nada que desagrade aos outros governadores filisteus.
Davi, que estava há semanas comendo mal e dormindo pior tentando imaginar como escaparia de lutar contra seus compatriotas, fez o possível para disfarçar o imenso alívio que lhe trazia a ordem de última hora de Aquis. Controlou-se como pôde, e fez seu teatrinho:
— Mas o que foi que eu fiz? Diga! O que eu fiz de errado desde que vim morar na Filistia, para que o senhor me recusasse a honra de lutar contra seus inimigos? POR JAVÉ, O QUE FOI QUE EU FIZ? NÃO É JUSTO! OH, MEU DEUS, NÃO É JUSTO!
— Nada, Davi, calma! Você é tão leal como um anjo, mas acontece que os outros não gostam de você. Esse negócio de política é o diabo, Davi! Às vezes a gente tem que ceder para não ser engolido. Tente entender, filho! Junte seus homens e volte para Ziclague amanhã mesmo.
— Bom, se não há outro jeito, obedeço.
— Sabia que você compreenderia, Davi.
Quase saltitando de alegria, Davi saiu da tenda de Aquis e foi dar a boa notícia a seus homens. Na madrugada seguinte eles partiram de volta para Ziclague, enquanto os filisteus subiam a Jezreel.

(I Samuel 28:3-25)
Como vimos no último capítulo, o rei Aquis havia decidido invadir Israel. Não perdeu tempo: no dia seguinte o exército filisteu marchou e acampou na cidade de Suném. Sabendo disso, Saul reuniu seus homens no monte Gilboa, uns dezoito quilômetros a sudeste de onde se concentravam os filisteus. Assim que chegou, o rei subiu ao monte para ver o exército inimigo. Ficou apavorado: nunca antes os filisteus tinham vindo contra Israel em tão grande quantidade. Saul perguntou a Deus o que devia fazer, mas não obteve resposta por sonhos nem através de profetas. O Urim e o Tumim, a maneira mais fácil e direta de se conhecer a vontade divina, estavam em poder de Abiatar, último remanescente do clã dos sacerdotes, que bandeara-se para o lado de Davi depois do massacre dos seus. Desesperado com o silêncio de Javé, Saul chamou seus oficiais e ordenou:
— Busquem para mim uma necromante.
— Uma o quê, majestade?
— Uma necromante! Uma pitonisa!
— Ah, sim…
— Entenderam agora?
— Não…
— Ai, meu saco… Uma médium, uma mãe-de-santo, qualquer coisa!
— Ah! Mas, majestade, o senhor mesmo expulsou todos os médiuns e adivinhos de Israel.
— Puta merda! Onde é que eu estava com a cabeça? Não sobrou nem unzinho?
— Hum… Olha, tem uma mulher lá em En-Dor que dizem que é médium.
— Pois está muito bem. Tragam a bruxa aqui.
— Ih, acho que não vai dar. A mulher está entrevada, não sai de casa.
— Puta que pariu, que sorte eu tenho! Arrumem o endereço dela, eu vou até lá.
Assim determinado, Saul se disfarçou e saiu acompanhado de dois de seus oficiais. As precauções não eram exageradas: para chegar a En-Dor era necessário que o rei passasse perigosamente perto de Suném, onde estavam os filisteus. No entanto, o rei e seus seguranças chegaram à cidadezinha sem maiores problemas naquela mesma noite. Depois de andar um pouco e pedir informações a um peixeiro, pararam em frente a uma casa com uma tabuleta na porta:
MÃE PITONISA DE EN-DOR
Búzios, Tarô, Runas
Trago a pessoa amada em sete dias
“Deve ser aqui”, pensou Saul, brilhante como sempre. Chamou:
— Ó de casa!
— Pode entrar — respondeu lá uma voz muito fraca. O rei entrou e viu a velha feiticeira. Sentada numa poltrona velha em frente a uma urupema de búzios, fumava um charuto, usava lenço na cabeça e repousava o queixo ossudo nas mãos cruzadas sobre o cabo de um guarda-chuva velho e esgarçado. — Ô, mizifio. O fio tá cum pobrema, mãe pode vê. Pobrema dos grande, né coisa pôca não. Que que mãe pode fazê pra mode ajudá o fio, hum?
— Er… Então. Eu preciso que a senhora faça subir um espírito aí pra me responder umas coisas.
— Epa! Mas o fio num sabe que rei Saú proibiu sas coisa de apurrinhá os morto? Se rei fica sabeno dum negóço desse, mãe vai pro saco! O fio qué que mãe vai pro saco, é?
— De forma alguma, senhora, de forma alguma! Juro por Deus que nada de mal há de ocorrer à senhora.
— Hum. HUM! Tá bão, tá bão. Quem é o esprito que o fio qué que mãe faiz subi?
— Samuel.
— Pois tá muito bão. Evém o ôme! Ó, mo fio, do jeito que suncê tá, só o ôme que pode te ajudá.
— Que homem?
— Samué, fio! Cê num pediu Samué? Pois tá vindo aí e… EPA! Suncê tá enganano a véia!
— Eu?
— Suncê! Suncê é rei Saú, Samué tá me dizeno aqui. Veio pra me matá, foi?
— Longe de mim, minha senhora! Fique tranqüila, já disse. É Samuel mesmo que a senhora tá vendo?
— É um véio rabujento, resmunga que só o cão, e tá todo enrolado numa capa.
— É ele mesmo! — excitado com a possibilidade de poder consultar Samuel, Saul caiu de rosto no chão, em sinal de respeito. — O que é que ele diz?
— HUM!… Ele tá priguntano o que o fio qué com ele, por que foi que tirô ele do repouso lá embaixo.
— Ah! Sim, sim. Diga a ele que estou muito angustiado. Os filisteus invadiram Israel mais uma vez. Pedi orientação divina, mas Javé não me responde por sonhos nem pelos profetas. Fiquei desesperado, então me lembrei do tempo em que Samuel ainda vivia, como me orientava e aconselhava. Então resolvi vir aqui pra pedir conselho a ele.
— Já tô falano pra Samué, viu, fio? E ele já tá respondeno, óia! HUM!… Samué diz que rei Saú tinha nada que vim pertubá ele. Se nem Deus responde, ele que num vai si metê nisso.
— Ô, dona Pitonisa. Vê se consegue arrancar mais alguma coisa dele!
— HUM!… Ele tá dizeno que rei Saú foi desobediente. Que Deus mandô matá tudo os amalequita, mas rei Saú num bedeceu. Por isso que agora Deus vai entregá Israel nas mão dos filisteu, e amanhã rei Saú e seus fio vai tá tudo lá embaixo, junto com Samué. O minino Davi é que vai sê rei dispois disso. HUM!…
A mensagem tenebrosa de Samuel, diretamente do Mundo dos Mortos, era demais para Saul. Então por causa do velho episódio da guerra contra os Amalequitas, Javé o faria pagar junto com seus filhos, entregando o reino a Davi? Castigo demasiado só por ter poupado a vida do gado amalequita. Esmagado pelo peso de notícia tão ruim, e já enfraquecido por ter passado o dia sem comer nada, Saul caiu desmaiado. Voltou a si com a feiticeira batendo de leve em seu rosto.
— Epa! Achei que o fio num fosse vortá mais. Rei Saú tá muito fraco, precisa cumê.
— Não estou com fome.
— A véia confiô em suncê, agora é hora de suncê confiá na véia: mizifio precisa cumê.
Saul continuou dizendo que não queria comer. Mas a mulher e os oficiais que o acompanhavam insistiram, e o rei acabou cedendo. Feliz por ser útil, a pitonisa matou um bezerro e o assou, servindo-o a Saul com uns pães. Saul e seus oficiais comeram, pagaram à mulher o preço combinado mais o valor do bezerro, e pegaram a estrada de volta para o Monte Gibeá. O rei ia cabisbaixo e pensativo: aparentemente chegara a hora de ter o reino rasgado de suas mãos.

Eu não acredito que acabei a catalogação dos livros, sua arrumação nas estantes e a limpeza do meu quarto. Ainda bem que fotografei para comprovar. As fotos seguintes foram tiradas dia 25 de junho:


Hoje, finda a arrumação, eis o resultado:


Viram só? Reparem na última foto: agora tenho espaço para botar uma TV e um aparelho de DVD. Quem quer dar presente pro Marcurélio?

  • A TV mostra o buraco onde foram encontrados. São pai e filho, dormiam dentro de uma caixa pouco maior que um caixão de defunto. “Monstros”, diz a legenda. Os monstros, como todo mundo sabe, são mutações de humanos. Têm a cabeça em forma de triângulo equilátero invertido, de modo que o queixo é pontudo e a fronte, larga. Os cabelos, meio crespos, são repartidos rigorosamente no meio, e se estendem para cada lado da cabeça num formato que lembra um pouco chifres de bisão, retorcendo-se nas pontas. As sobrancelhas se encontram no meio da testa. Não têm barba, mas seu corpo é totalmente coberto de pêlos.
    O adulto capturado fala com os repórteres enquanto seu filho esconde o rosto. Diz que se orgulha de sua raça, e relembra os dois mil monstros mortos na Guerra do Vietnã. Diz que a luta por direitos iguais continua. A polícia o arrasta, e ele só pede que não maltratem seu filho.
  • Isso aí foi um sonho meu. Não falei porque senão o Polzonoff e o bobmacjack nem lêem.
  • Amanhã vou extrair um siso. Legal, né?
  • Ah! Terminei a catalogação dos livros, agora só falta botar tudo em ordem e colocar de volta na estante. Para quem tiver a curiosidade besta de saber que volumes compõem minha mini-biblioteca, aqui está a lista. Ah, usei o CollectorZ para fazer a catalogação. Recomendo.
  • Capítulo bíblico, né? Pois é.
  • Lançamento do Vida de Gato hoje. Não se esqueçam. Detalhes no post abaixo
  • Camilita tá de volta. Celebremos.

12 de fevereiro de 2002. Nesse dia eu escrevi um post falando sobre minha maior descoberta no mundo dos blogs: o Falecomdeus. O JMC tinha então cinco dias de existência e nenhuma perspectiva. Depois de conhecer o Falecomdeus, me animei: havia espaço para fazer humor tirando sarro do que é sagrado. Desde então me tornei fã incondicional do cara. Fui acusado de baba-ovo, puxa-saco, essas coisas. Nem liguei: a admiração que nutria por aquele sujeito — sobre o qual eu sabia quase nada, só que era carioca — aumentava a cada novo post, a cada novo achado humorístico, a cada piada surpreendente.
Em 5 de setembro de 2002, a surpresa: cheguei ao trabalho e havia uma pessoa pedindo autorização no meu ICQ. Era deus, e logo tratou de provar sua identidade, como eu contei nesse post. Senti-me honrado, lisonjeado, acariciado pela brisa matinal, tocado pelo aroma dos pomares, enfim, passei por um surto de veadagem quase insuperável. A veadagem só acabou quando deus, querendo ajuda num lance lá do blog, me mandou um e-mail usando seu verdadeiro nome. Um nome bem esquisito, aliás. Fiquei puto: ruía a ilusão do contato direto com deus.
Em fevereiro de 2003, outra surpresa: ele me perguntou se eu me importaria se uma divindade carioca aparecesse na festa de 1 ano do JMC. Achei que ele estivesse tirando sarro da minha cara, e só acreditei mesmo quando enfim nos encontramos no Café Piu-Piu, um dia antes da festa. Era um sujeito quieto com cara de pilantra, manjam o tipo? Tá lá no cantinho dele, mas a gente olha e logo saca que ele está tramando alguma.
Desde então fomos nos tornando amigos, e mais ainda depois que ele começou a namorar minha melhor amiga. Mudou-se para São Paulo (Osasco, na verdade…) há seis meses, e pudemos conviver mais amiúde (sempre quis usar isso, “amiúde”. Pô, só o Zé Ramalho pode?). Aprendi que ele é muito mais do que um cara maneiro: é talentoso, engraçado, inteligentíssimo, sabe expor seus argumentos de forma irrepreensível. É bom, leal, atencioso. Domina como poucos sua área de atuação, e começa a ser recompensado por isso.
Talvez tendo finalmente começado a perceber tudo isso — e tendo se mudado de volta para o Rio de Janeiro — resolveu que o Falecomdeus era pequeno demais para ele e resolveu acabar com o blog. Nós, os fãs, lamentamos o fim de uma era. Mas já estamos empolgados com o Tio Dada taí… e o BBC. O talento do Autor é inesgotável.

Pronto, meu velho. A última puxada de saco tinha que ser para arrancar as bolas. Espero ter conseguido

Eu passei metade da vida perguntando a todo mundo se alguém conhecia um filme em que Paulo César Pereio cantava uma linda canção que incluía os seguintes versos:
A mulher do compadre Zé Pedro
Tem cabelo no cu que faz medo
Ela chorava, ela gemia
Era os cabelos do cu que doía.

Cheguei a perguntar aqui no blog, sem sucesso. O Lelê canta essa música sempre, mesmo sem ter visto o filme, de tanto eu repeti-la nesses nossos treze anos de convivência. Tantos anos, e nunca tive notícia do filme.
E eis que ontem, na companhia de amigos, alguém (acho que foi o Ney. É sempre o Ney) estava trocando de canal e caiu justamente nesse filme, justamente nessa cena. Então eu entendi porque nunca encontrara nem pista do que procurava: era o Nelson Dantas, não o Pereio, e era compadre Mané Pedro, e não compadre Zé Pedro. Ao chegar em casa, de posse dessas informações, descobri que se tratava de Cabaret Mineiro, de Carlos Alberto Prates Correia. Ontem, enquanto assistia ao filme, relembrei algumas outras cenas: Tânia Alves cantando nos momentos mais inesperados, uma mulher nua em meio a ruínas, um corpo humano girando num espeto de churrasco, uma mulher vestida como onça sendo abatida por Nelson Dantas. Tudo assim mesmo, sem nada que ligasse uma cena à outra. E eis que descubro que o filme ganhou sete Kikitos no Festival de Gramado de 1981: filme, diretor, ator (Dantas), fotografia (Murilo Sales), trilha sonora (Tavinho Moura), atriz coadjuvante (Tânia Alves) e montagem (Idê Lacreta). Agora, se alguém aí já viu o filme, faça-me o favor de explicar o porquê de tantos prêmios para uma produção tão rasteira. Será por que é “baseado livremente” na obra de Guimarães Rosa? Sei não, sei não… Só sei que pelo menos o prêmio de melhor trilha sonora foi merecido. Basta prestarmos atenção na letra da canção que ficou em minha mente por tantos anos, agora reencontrada graças ao Google no blog The Rabbi of Chelm:
Vamo dançá tudo nu – tudo nu
todo mundo com dedo no cu – menos eu
todo mundo com a bunda de fora – é agora
você disse que dava – e não deu.
Espora no pé tá tinindo, tá tinindo
pica no cu tá sumindo, tá sumindo
larga o teu marido, mulher, e vem fuder mais eu
teu marido é bom, mulher, mas não fode como eu
a foda é boa de madrugada, de manhã cedo não vale nada.
A pica tá dura que tá danada,
ela entra enxuta, ela sai molhada
a mulher do compadre Mané Pedro…
tem cabelo no cu que faz medo…
ela chorava, ela gemia,
era os cabelos do cu que doía
ela chorava, ela gemia,
era os cabelos do cu que doía
Seu Guilherme do pilão de Sapucaia
disse que o bicho que mata homem mora debaixo da saia
adonde a pica trabaia.

Um primor, eu lhes digo. Um primor!