Ok, ok, vamos nos acalmar. Não reparem nos meus faniquitos, eu sou assim mesmo. Quando tenho esses ataques, meus amigos apenas riem e ignoram, pois sabem que não significam mesmo nada. Façam o mesmo.
Desnecessário dizer, porém, que isso vale apenas para os LEITORES. Esse povo aí que comenta para aparecer, para fazer propaganda, para ser engraçadinho, sem sequer ler os posts, merece mesmo é tomar no cu com pó de brita.
Ai, que meda.
Dêem cá um abraço no negão. Pronto. E bipolares são as vossas mães. Só não as xingo mais porque não conheço aquelas putas.
Ah, e para piorar tudo eu vi John Cleese dançando a Dança do Passarinho no Will & Grace. Não há sanidade que resista.
Mês: junho 2004
A morte de Samuel e a história de Nabal
(I Samuel 25:1)
Vocês se lembram do Samuel? Sim, ele mesmo: o juiz e profeta que ungiu tanto Saul quanto Davi, e que dá seu nome a este e ao próximo livro da Bíblia. Lembram, né? Pois esqueçam: o pobre coitado morreu, luto nacional foi declarado, ele foi sepultado em sua casa, em Ramá, e era uma vez Samuel. Triste vida a dele: teve um começo promissor, ungiu dois reis, foi influente no início do reino de um deles. Quando estava no auge, Deus lhe disse que rejeitava Saul como rei. Ele apenas passou o recado adiante, mas mesmo assim caiu em desgraça. Quando morreu, boa parte do povo já nem se lembrava dele, o último juiz a governar Israel e grande articulador da transição para a monarquia. Triste, triste…
Ainda bem que eu não ia mesmo com a cara dele. Vamos em frente, portanto. Acompanhando Davi que, depois de dar um jeito de comparecer ao funeral de Samuel, desceu ao deserto de Parã. Ali perto ficava o monte Carmelo, e lá ficavam as propriedades de um homem muito rico, morador da cidade de Maom. Seu nome era Nabal, e ele era descendente de Calebe. Sua esposa, Abigail, era bonita e inteligente, mas ele mesmo não passava de um homem grosseiro e mau.
Como Davi estava ali por perto, e sabia quem era Nabal. Ouviu dizer que ele estava no Carmelo supervisionando a tosquia de suas ovelhas, e mandou a ele dez de seus homens com a seguinte mensagem para o rico proprietário:
Saudações a você, tudo de bom para a família e suas posses.
Envio esta mensagem porque soube que você estaria no monte Carmelo tosquiando suas ovelhas. Veja só, em todo esse tempo que eu e meus homens estamos na região convivemos dia e noite com seus empregados. Tornamo-nos amigos, e nós nunca lhes fizemos mal, nem lhes roubamos nada, muito pelo contrário: chegamos mesmo a protegê-los em algumas ocasiões. Pode perguntar a eles.
Bom, o negócio é que minha situação aqui é um tanto difícil, como você deve imaginar. Então eu queria lhe pedir que me recebesse, junto com meus soldados. Viemos em dia de festa, e gostaríamos de ser recebidos em paz por você. Além disso, se você puder nos dar algum mantimento, roupas, essas coisas, ficaremos muito agradecidos.
Abraço dos seus criados e de seu querido amigo
Davi, filho de Jessé.
Davi mandou a mensagem já esperando a resposta positiva. Sua fama crescia a cada dia em todo o Israel, e não havia quem não o temesse e admirasse. Ficou muito surpreso, portanto, ao receber a resposta de Nabal:
Davi passou rapidamente da surpresa a raiva. Então a fama de grosseiro e mau de Nabal era justificada. Além do mais, nabal quer dizer tolo, em hebraico. O que esperar de um cara assim? Fosse como fosse, Davi não ia deixar quieto:
— Cangaceiros, é? Ele vai ver só. Homens! Cinjam suas espadas. Nós vamos mostrar a esse desgraçado quem é cangaceiro.
Davi partiu para o monte Carmelo à frente de quatrocentos de seus homens, enquanto os outros duzentos ficavam atrás com a bagagem. O futuro rei de Israel estava emputecido, e determinado a acabar com a raça de Nabal e de quem mais encontrasse pela frente. Porém, um dos empregados de Nabal, já prevendo as conseqüências da petulância do patrão, resolvera falar com Abigail:
— Dona Abigail, a senhora ficou sabendo?
— Sabendo de quê?
— Vixe, uma confusão danada! Sabe o Davi?
— Ai ai… Aham. Claro.
— Então. Ele anda aí pelas redondezas.
— O DAVI? AQUI PERTO???
— É, ué.
— E NINGUÉM ME AVISA? Deixa eu me arrumar, criatura!
— Calma, dona Abigail. O negócio é que o Davi enviou uma mensagem ao patrão, pedindo mantimentos, essas coisas. Uma mensagem muito educada, cheia de saudações e coisa e tal. Eu achei bom, porque quando a gente estava no campo, durante todo o tempo ele tratou a gente muito bem.
— É, ouvi falar que esse Davi é um legítimo cavalheiro. Ai ai…
— Pois então. Mas acontece que o patrão mandou uma mensagem muito da mal educada em resposta, dizendo que não vai ajudar é ninguém, e chamando Davi e os homens dele de cangaceiros.
— NABAL NÃO FEZ ISSO!
— Pois fez!
— Ah, eu mereço ter me casado com essa anta…
— Eu achei bom contar pra senhora, porque falar com o patrão não adianta nada mesmo.
— E fez bem, muito bem. Obrigada. Pode deixar, vou dar um jeito.
Abigail saiu dali e, ajudada por seus empregados, pegou duzentos pães, dois odres cheios de vinho, cinco ovelhas assadas, dezessete quilos de trigo torrado, cem cachos de passas e mais um monte de pasta de figo. Botou tudo em jumentos e ordenou aos empregados que fossem na frente com aquele presente para o aventureiro filho de Jessé. Os empregados saíram, e ela saiu logo depois, montada em seu jumento.
Na direção contrária vinha Davi, resmungando para si mesmo:
— A gente ajuda os outros e ganha o quê? Nada! Só se fode, só se fode! De que me adiantou proteger aqueles filhos de uma quenga? Ah, mas isso não fica assim! Que Deus me castigue se eu deixar nem que seja um homem vivo naquela terra. Ah, eles vão ver o que é bom!
Seu resmungo foi interrompido, porém, pela chegada daqueles jumentos carregados de comida e bebida. Antes que pudesse perguntar aos homens que traziam os jumentos de quem fora tamanha bondade, viu a mulher linda que chegava. A pergunta ficou entalada na garganta enquanto ele contemplava tamanha beleza. Ao vê-lo, a mulher desmontou do jumento rapidamente, e se ajoelhou, encostando o rosto no chão.
— Senhor, escute-me! Por favor, não dê atenção a Nabal. Ele é um bobão, como bem diz seu nome. Eu não vi quando os homens foram levar sua mensagem a ele, por isso não tive como evitar essa presepada. Mas ignore, senhor, e aceite esse presente que eu lhe trago. Por favor, desista de seus planos de vingança. Eu sei que meu marido foi estúpido e o ofendeu, mas pense bem: um dia o senhor vai ser rei, e é melhor que não tenha motivos para se arrepender ou sentir remorso por ter cometido um crime assim. Deixe a vingança nas mãos de Deus, já que ele sempre o protegeu.
— Louvado seja Javé, que mandou você até aqui. Só a sua beleza já me faria desistir da vingança, mas seus argumentos inteligentes acabaram de me fazer desistir dos meus planos. Porque, veja, se não fosse por você, amanhã mesmo todos os homens de Nabal estariam mortos, até os meninos. Como você se chama, minha querida?
— Abigail.
— Ah, que nome lindo? Pois então, Abigail: volte para casa e não se preocupe. Não vou fazer mal a ninguém.
— Obrigado, senhor.
— Eu agradeço. E pode me chamar de Davi.
Abigail saiu dali feliz por dois motivos: tinha livrado as propriedades de um grande massacre, e se encontrado com Davi, o Brad Pitt de Israel naquele tempo. Chegou em casa querendo dizer a Nabal o que acontecera, mas o marido estava comendo como um rei e bebendo como um gambá, então preferiu deixar para depois. No dia seguinte, vendo o marido já sóbrio, contou a ele o ocorrido. Ele, em vez de ficar alegre por ter escapado de morte certa, sentiu tanta raiva que teve um ataque e ficou paralisado. Dez dias depois, morreu.
Quando Davi recebeu a notícia da morte de Nabal, apressou-se em mandar uma mensagem à viúva:
Está ocupada? Se não, será que gostaria de se casar comigo?
D.
Abigail leu a mensagem e corou. Não havia nada que ela quisesse mais. Porém, conhecendo muito bem as regras sociais da época e do lugar, apenas se ajoelhou na frente dos mensageiros, humildemente:
— Eu sou escrava de Davi. Posso lavar os pés de seus empregados.
Tendo dito isso, acompanhou os homens até seu acampamento, indo morar com Davi. O filho de Jessé já havia se casado com uma certa Ainoã, da cidade de Jezreel, e tinha agora duas esposas. Teria três, na verdade, mas Saul já entregara sua filha, Mical, a um tal Palti. Era a segunda vez que Saul tirava de Davi uma filha sua. Como se Davi já não tivesse motivos suficientes para odiar o rei.
This is my luck…
1. Ia organizar meus livros. IA. Porque uma das minhas caras prateleiras (esses móveis quase me custaram os três olhos) resolveu despencar quando tirei os livros de cima dela. Acho que foi um suspiro de alívio da madeira, sei lá. Só sei que, enquanto não consertarem — eu é que não vou, levo o mínimo jeito para essas coisas — meus livros ficam empilhados de qualquer maneira.
2. Ia para Curitiba no fim-de-semana. IA. Porque lembrei que domingo de manhã eu tenho prova. Concurso para o Ministério Público da União. Que legal…
3. Ia postar capítulo novo. IA. Estou de saco cheio de nego querendo ser engraçado nos comentários. Deixa eu explicar pra vocês: nem todo mundo pode ser um bobmacjack, um André Dahmer, um moskito. Conformem-se com isso e, POR FAVOR, não tentem ser engraçados. É patético.
Anotação
Escrever um típico romance russo do século XIX, só que cheio de referências pop.
Personagem principal: Piotr Ivanovitch Oliunidslóv.
Livros
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou o que é muito pior por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.”
(Caetano Veloso – Livros)
Eis os únicos objetos em todo o mundo pelos quais nutro algum sentimento que se aproxime do amor:
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Todos os livros são sagrados. Tá, talvez não todos. Deus me livre de beatificar algo escrito por Marcelo Mirisola ou Dan Brown. Enfim, todos os MEUS livros são sagrados. Trato-os com carinho, manuseio os danados com reverência, admiro o desenho formado pelos parágrafos, aprecio tanto o cheiro dos livros recém saídos da gráfica quanto o daqueles com mais de meio século de existência, com seu papel amarelado tornando-os ainda mais veneráveis.
Bom, isso tudo é para dizer que resolvi organizar minha biblioteca. Ou seja, pode ser que eu suma por uns tempos. Vivam suas vidas, amem seus familiares e amigos, conheçam pessoas legais. E, mais ainda, procurem ler bons livros e largar um pouco dos blogs. Nos vemos quando eu terminar este 12º Trabalho de Marcurércules.
Saul e Davi se encontram
(I Samuel 24)
Conduzindo um cerco tão pertinaz, era inevitável que Saul encontrasse Davi. Tal encontro, porém, não se deu como seria de se esperar. Já veremos por quê.
Depois de ter sido salvo pela invasão dos filisteus, Davi fugiu com seus homens para outra fortaleza natural, essa na região da fonte de Gedi. Quanto a Saul, escorraçou rapidamente os filisteus e tornou a se dedicar a seu passatempo predileto: brincar de gato e rato com Davi. Logo recebeu a notícia da localização de seu inimigo, e para lá partiu acompanhado de um exército de três mil homens, escolhidos dentre os melhores soldados de Israel. Quando estava perto de um lugar chamado Rocha das Cabras Selvagens, sentiu uma movimentação estranha no ventre. Chamou o general do exército:
— Abner, tudo em ordem?
— Sim, majestade!
— Bom, bom, muito bom. Olha, cuida de tudo aí enquanto eu vou ali naquela caverna do lado do curral de ovelhas para cobrir os pés(1).
— Está com frio nos pés, majestade?
— Não, Abner… Vou me aliviar, entende?
— Claro, claro, claro. Hum… Não, na verdade não.
— VOU CAGAR, QUE EU JÁ TÔ COM O CHARUTO NO BEIÇO!
— Ah. Sim. Claro. Boa… Aham… Cobertura de pés, majestade.
— Obrigado.
Saul se afastou, entrou na caverna, abaixou os calções, levantou a túnica e fez lá seu serviço. Limpou-se como pôde, recompôs-se, saiu da caverna e ia voltando para junto dos soldados quando ouviu uma voz às suas costas:
— MAJESTADE!
Voltou-se sobressaltado e viu um homem ruivo na entrada da caverna, ajoelhado em sinal de respeito. Seria ele? Estava com a pele escura, tinha crescido e era um homem forte. Mas a cabeleira ruiva e uma certa petulância na voz não deixavam muita margem a dúvidas. Ia perguntar, mas o homem continuou:
— Rei Saul, por que é que o senhor dá ouvidos às pessoas que dizem que eu quero prejudicá-lo? Veja que Deus o entregou a mim ali dentro da caverna. Alguns de meus homens queriam que eu o matasse, mas quem sou eu para levantar a mão contra aquele que foi ungido por Javé? Não acredita? Pois olhe para sua capa e verá que falta um pedaço. Aqui está! Eu cortei um pedaço da sua capa. Poderia tê-lo matado, mas não o fiz. Quer prova maior de que eu não pretendo fazer-lhe mal? Eu sei muito bem que o senhor quer me matar, e mesmo assim resisti quando tive a oportunidade de resolver tudo. Que Deus julgue quem de nós está errado, e me vingue por tudo o que o senhor me fez e faz, mas eu não levantarei um dedo contra o senhor. Ah, rei Saul! Quem sou eu para o senhor me perseguir dessa maneira? Não passo de um cachorro morto, uma pulga! Ah, faça-me o favor, assim não dá! Que Deus me livre do senhor!
Quanto mais Davi falava, mais boquiaberto Saul ficava. Quando terminou seu discurso, o queixo do rei quase batia no chão e a baba se acumulava nos cantos de seus lábios. Quando conseguiu falar, foi gaguejando:
— D-Davi? É você m-mesmo, meu filho? — e começou a chorar, o doido — Ah, Davi! Você está certo, claro, e eu estou errado! Você pagou com o bem todo o mal que eu tenho lhe feito. Quem é que, tendo a oportunidade de pegar seu inimigo, o deixa ir embora são e salvo? Só você mesmo, meu filho, só você mesmo! Que Javé o abençoe pelo que fez hoje. Agora eu sei que você será rei de Israel, e que terá um reinado próspero e justo. Mas, por favor, jure em nome de Deus que não acabará com meus descendentes, e assim o meu nome não será esquecido.
— Juro, majestade, claro que juro — é claro que Davi jurava, o filho do rei era seu melhor amigo.
— Ah, meu filho, muito obrigado! Você volta comigo?
— Não agora, majestade. Não leve a mal.
— Compreendo. Até logo, Davi.
— Até logo, majestade.
— Oras, me chame de Saul!
— Ainda não.
Os dois se despediram cordialmente, Saul voltou para Gibeá, e Davi para sua fortaleza. Tudo parecia estar bem. Mas só parecia: Saul era maluco, e é bom que não nos esqueçamos disso.
Classificados JMC
Seguinte, galera: tenho aqui uma pilha gigantesca de revistas Playboy, Sexy, Ele & Ela e VIP. O primeiro punheteiro que se dispuser a vir até aqui (Zona Leste de São Paulo, depois da Penha, longe pra caralho) de carro, leva tudo de graça.
Davi em Queila e no deserto de Zife
(I Samuel 23)
Davi ainda estava escondido nos bosques de Judá quando um de seus homens veio trazer a novidade:
— Davi, os filisteus estão atacando Queila, e saqueando o trigo recém-colhido.
— E eu com isso? Nem conheço essa tal Queila…
— Não, Davi. A cidade de Queila.
— Ah, essa Queila… Hum. Isso muda tudo.
Intervir poderia ser vantajoso. Além dos agora seiscentos párias que o acompanhavam, era possível que Davi contasse com o apoio de toda uma cidade. Além do mais, Queila era cercada por muralhas, e daria um excelente quartel-general. A tentação de largar a vida de fugitivo para se estabelecer de vez como guerrilheiro revolucionário era muito forte. Havia um obstáculo, no entanto: Davi contava apenas com seus seiscentos companheiros, e atacar os filisteus era sempre um perigo. Os seguidores de Davi eram meros aventureiros; os inimigos eram soldados treinados para o combate desde a adolescência. Por outro lado, esse sempre fora o problema de Israel nos embates com a Filistia, e nunca impedira vitórias espetaculares.
Davi tinha uma decisão difícil a tomar. Para sua sorte, porém, contava com um trunfo: Abiatar, o único sobrevivente do clã sacerdotal. Ele viera munido da estola sacerdotal (ou éfode) com seu respectivo peitoral. E no peitoral, se vocês não se lembram, estavam incrustados o Urim e o Tumim, as duas pedrinhas usadas para consultar a vontade de Javé.
— Abiatar!
— Sim, Davi.
— Preciso da sua ajuda, rapaz.
— Opa. Pode falar.
— Preciso consultar a vontade de Deus para um negócio aí.
— Ih, acho que não vai dar…
— Como não???
— Consultar a vontade de Javé assim, fora do Tabernáculo? Sei não, sei não…
— Pô, Abiatar, não fode.
— É sério. Não sei se vai funcionar. Além do mais, fora da Tenda Sagrada é possível que eu responda querendo te agradar, e não segundo o Urim e o Tumim. É complicado.
— Hum. Ah, podemos evitar isso.
— Como?
— Você tapa os ouvidos e vira de costas quando eu fizer a pergunta. Quando eu te cutucar, você joga as pedrinhas e só me responde “SIM!” ou “NÃO!”.
— Tá parecendo aquele quadro do Domingo no Parque…
— Eu precisava me inspirar em alguma coisa. E aí, o que você acha?
— Podemos tentar.
— Legal. Então vai lá pegar a estola, eu espero aqui.
— Tá bom.
Abiatar foi até sua tenda e voltou cingido com a estola.
— Preparado?
— Sim.
— Então vira de costas aí e tapa os ouvidos.
— Tá.
— Pronto?
— …
— Beleza, não tá me ouvindo. Arram… SENHOR! DEVO IR ATÉ QUEILA COMBATER OS FILISTEUS? — perguntou Davi, cutucando Abiatar em seguida.
— SIIIIIIIM!
— Beleza!
— Er… Davi?
— Sim, Abiatar?
— Eu sei que você ainda vai ser rei e tal, mas não abuse.
— Hã?
— CUTUCA MAIS PRA CIMA, PORRA!
— Ah, sim. Foi mal. Peraí, vou anunciar a novidade aos homens. EI! PESSOAL! TODO MUNDO SE PREPARANDO AÍ! VAMOS ATÉ QUEILA CHUTAR UNS RABOS FILISTEUS!
Em vez dos brados de alegria que esperava, Davi só ouviu murmúrios de parte de seus guerrilheiros.
— Pô, que há com vocês? Não querem sair um pouco desse marasmo?
— Claro, seu Davi, Claro. Mas, pensa: se escondidos aqui a gente já se caga de medo, imagine indo combater os filisteus!
— Hum. Bando de bunda-mole. Mas Javé disse que podemos ir!
— Fora do Tabernáculo? Bah.
— Ai meu saco… Peraí, vou confirmar. Abiatar, de costas, mãos nos ouvidos.
— Vê lá, hein?
— Pode deixar. Aham… SENHOR! TEM CERTEZA? — e deu um piparote na orelha de Abiatar.
— PORRA, DAVI!
— Desculpa, não resisti. Fala aí, sim ou não?
— SIIIIM!
— Tão vendo, seus mequetrefes? Bora lá, Javé entregou aqueles filisteus de merda nas nossas mãos.
Ainda céticos, porém sabendo que qualquer coisa era melhor do que discutir com Javé, os homens se prepararam e já no dia seguinte partiram para Queila. Lá combateram contra os filisteus, matando muitos deles e tomando seu gado. A paz voltou à cidade, e seus moradores ficaram muito gratos a Davi, como era natural.
Aparentemente o plano de Davi funcionara às mil maravilhas. No entanto, o serviço de espionagem de Saul continuava eficiente como sempre, e o rei logo soube o que seu grande inimigo andava aprontando.
— Arrá! Agora aquele filho-da-puta está na minha mão. Que burro, foi se enfiar logo numa cidade murada! Caiu sozinho numa armadilha, o mané. De hoje ele não passa.
Davi, porém, também tinha seus espiões, e ficou sabendo logo que Saul marchava contra Queila.
— Puta que pariu, esse desgraçado não dá um tempo! ABIATAR!
— Sim, Davi.
— Preciso fazer mais uma consulta.
— Sei não, sei não…
— Ai ai ai… Que foi agora?
— Sem piparote?
— Sem piparote.
— Sem dedada?
— Sem dedada.
— …
— JURO!
— Tá bom, vai. Manda.
— Tapou bem os ouvidos? Beleza. SENHOR! SAUL VAI VIR MESMO PRA CÁ? — cutucão.
— SIIIIIIIIIM!
— E os homens de Queila vão me entregar nas mãos dele? — cutucão.
— SIIIIIIIIIM!
— Peraí, Senhor, pega leve. Está dizendo que os homens desta cidade que eu acabei de livrar dos filisteus, devolvendo a eles toda a colheita de trigo, vão me trair e me entregar a Saul? — cutucão.
— SIIIIIIIIIM!
— MAS SÃO UNS FILHOS DA PUTA! — e deu um tapa na nuca de Abiatar.
— SIIIIIIIIIM! E, porra, cê tava indo bem…
— Desculpa, Abiatar. Fiquei nervoso.
— Que houve?
— Eu perguntei se Saul vai mesmo vir pra cá, e se os homens de Queila vão me entregar a ele.
— Putz, e Javé respondeu sim nas duas vezes. MAS QUE CAMBADA DE FILHOS DA PUTA!
— SIIIIIIIIIM!
— Grunf. E aí?
— E aí que o melhor que temos a fazer é picar a mula.
— Concordo.
— Me ajuda a reunir os homens.
Davi, seu sacerdote particular e seu exército de párias fugiram de Queila sem rumo certo. Quando Saul soube disso, abortou seu plano e voltou para o palácio com seus homens.
Depois de muito vagarem, os guerrilheiros se estabeleceram na região de Zife, um lugar desértico e montanhoso, cheio de fortalezas naturais. Saul continuou com a perseguição, mas nunca conseguiu seu intento, o que o deixava mais e mais frustrado. Mesmo assim, o cerco se fechava e Davi se enfurnava cada vez mais no deserto, acabando por se estabelecer em Horesa, na parte de acesso mais difícil. Passava os dias ali com pouca água e comida, na companhia apenas de homens, com saudades de Mical, sua esposa, e dos amigos. E foi num dia particularmente triste que ele teve a surpresa de receber uma visita.
— Jônatas!
— Ei, Davi. Dessa vez você se enfiou num buraco mesmo, hein?
— Pois é, rapaz. Seu pai não me dá descanso. Mas, puxa, estou muito feliz em te ver! Pensei que nunca mais nos encontraríamos.
— Pois pensou errado. Estou aqui, não estou? Quanto ao meu pai, não se preocupe. Ele tem lá seu serviço de inteligência, mas eu sempre dou um jeito de contaminar as informações que ele recebe.
— Ah! Bem que eu estava estranhando ele ainda não ter botado as mãos em mim. Obrigado, meu irmão.
— Agradeça a Deus, Davi. Ele te protege, e vai te fazer rei de Israel.
— Que é isso…
— Bah, você sabe muito bem que está destinado a ser rei.
— Mas se o herdeiro do trono é você!
— Eu me contento com um ministério, um cargo de confiança qualquer…
— Tá pensando o quê, pilantra? Que meu governo será um trem da alegria?
— Mas é claro!
— Hehehe.
Os dois passaram o dia conversando. Quando anoitecia, despediram-se renovando suas promessas de lealdade eterna.
Com a visita do amigo, Davi recobrou ânimo. Mas o sossego não duraria muito, porque alguns dedos-duros de Zife foram até Gibeá falar com Saul:
— Majestade! Ficamos sabendo que o senhor quer muito pegar o Davi.
— Oras, quem é que não sabe?
— Pois então… Acontece que ele está em Horesa, no alto do monte Haquila, ao sul de Jesimon, logo depois daquela hospedaria amarela que pertence ao Zimoneu, filho de Zimon, aquele que tinha um cavalo baio que certa vez pulou a cerca e…
— PÁRA!
— Opa. Desculpe, majestade.
— Quanto vocês querem como recompensa?
— Nada.
— Nada?
— Nada. Sabemos o quanto o senhor quer pegá-lo, então o levaremos até ele.
— Ah, que beleza! Que Javé os abençoe por serem tão bondosos comigo.
— Amém.
— Mas então… Eu já vasculhei Israel de Dã até Berseba atrás de Davi, sem sucesso. O danado é esperto como o capeta. Então peço a vocês o seguinte: voltem a Zife e se assegurem de onde ele está. Descubram onde ele se esconde, onde compra mantimentos, essas coisas, e me informem. Dessa vez vai dar certo, nem que eu tenha que palmilhar toda a tribo de Judá atrás daquele sacripanta.
Então os alcagüetes voltaram a Zife e descobriram que Davi saíra de Horesa e agora estava com seus homens em Maom, num vale seco ao sul de Jesimon, perto daquele carvalho que foi plantando por Minâncora, a filha de Maizena, aquela que tinha umas… Enfim, Davi estava em Maom. Sabedor disso, Saul se apressou naquela direção com seus soldados. Davi ficou sabendo, e fugiu para o alto de uma montanha rochosa em Maom. Saul foi informado e logo subiu ao monte. Acontece que as informações eram desencontradas — obra de Jônatas, provavelmente —, de modo que Davi ficou de um lado do monte e Saul do outro, com um precipício entre eles. Os guerrilheiros eram em menor número, e fugiram do exército oficial, que já havia descido e subido novamente, agora do lado certo. Saul cercava Davi, e dessa vez a captura seria inevitável.
Seria, eu disse. Porque justo quando o rei já cantava vitória, recebeu a mensagem preocupante:
FILISTEUS ATACANDO SUL DO PAIS PT
Saul podia ser maluco, e estar sedento do sangue de Davi, mas ainda tinha consciência de seus deveres de rei. Então reuniu seus homens e voltou a Gibeá, para de lá coordenar a resistência a mais essa invasão.
O montanha em que os dois exércitos se separaram passou a ser chamada de Selá-Hamalecote, que em hebraico é Rocha da Separação. Davi fora mais uma vez salvo pela sorte. Começava a preocupar-se: é notório que a sorte não acompanha ninguém por muito tempo.
Medo
Já já tem capítulo bíblico. Mas antes eu queria falar do sonho que tive noite passada. Não conto o sonho todo porque o Polzonoff não gosta, mas só digo que fui acordado pelo toque do telefone justo quando Satanás caiu da bicicleta. Ele era preto e tinha cabeça de búfalo.
Pronto. Aguardem o capítulo.
Cantada
— Alô.
— Oi.
— Oi, menina. Tudo bem.
— Tudo bom. Preciso da sua ajuda.
— Diga.
— Você que é bom de cantada…
— Ei, peraí! Bom de cantada? EU?
— É, ué.
— Acho que cê ligou pro lugar errado. Eu nunca cantei ninguém, ô.
— Ah, vai…
— É sério!
— Ahã, sei. Vai me ajudar ou não?
— Tá bom.
— Então. Que cantada eu jogo pra convidar um rapaz para sair?
— Eu sei lá. Não costumo convidar rapazes para sair, sabe como é.
— …
— Pô, não sei! Não sou muito chegado nesse negócio de cantada. Acho que o melhor mesmo é falar algo como “Olha, tá passando um filme legal, eu queria assistir. Quer ir?”, e pronto. Por que o cara diria não?
— Você acha?
— Claro.
— Então. Tá passando um filme legal, eu queria assistir. Quer ir?
— Isso, isso mesmo!
— Isso o quê?
— É isso aí, direto ao ponto.
— Não, bocó! Estou te chamando pra ir ao cinema comigo.
— Er… Peraí. A cantada era pra mim?
— Era.
— Puxa…
— Como você é lerdo!
— Mas é que… É que eu não estava esperando.
— Sei, sei. Olha, melhor deixar pra lá.
— HÃ???
— Achei que você fosse um cara inteligente, interessante, essas coisas. Parece que não. Tchau, viu?
— Não, peraí… Fiadaputa, desligou.
