O problema de se ter grandes amigos é que eles nunca deixam a tristeza da gente durar muito. Eu estava tentando ficar triste quando recebi pelo correio uma caixa grande. Muito grande. Remetente: Pedro Nunes. Conteúdo:

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Sim. Uma família de marionetes. Agora eu pergunto: quem é que consegue ficar triste tendo uma família de marionetes para brincar? Assim não dá, pô!
Pedro, meu velho, muito obrigado a você e à Paula. Vocês dois são um casal lindo e também são amigos queridos ao extremo. Essa distância é detestável, e eu morro de saudade o tempo todo. Amo vocês, seus monstros.

Os leitores mais atentos já devem ter percebido que eu venho tentando compensar com quantidade a falta de qualidade dos meus textos. Fiquei um tempo sem vontade de escrever, e me forcei a voltar para não enferrujar de vez. Entendam esses últimos posts como um exercício, nada mais. Estou tentando fazer meu cérebro pegar no tranco. Desculpem o mau jeito.

(Além do mais ultimamente eu ando triste pra caralho e com muita, muita raiva. Eu não durmo e ouço No Surprises, do Radiohead, umas quinhentas vezes por dia. Mas não é de vossa conta.)

Quero falar sobre o filme, mas antes vou arriscar aqui um palpite do que seja, por definição, a Boa Arte, com maiúsculas e tudo. Tirem as crianças da sala, portanto. Pronto? Ok, vamos lá.
Acho que todo mundo conhece a situação: o sujeito arruma um violãozinho de segunda mão, aprende a fazer três ou quatro acordes, ensaia lá uma batida canhestra e — oh, terror! — resolve mostrar seus dotes musicais aos amigos. Ah, como é triste! Eu sei porque passei por isso aos dezesseis anos, quando comecei a tocar. O coitado está ali, instrumento na mão, achando que está fazendo uma demonstração de virtuosismo nunca visto. Enquanto isso, o que os outros vêem é algo que parece um sacrifício e tanto: os dedos da mão esquerda do pretenso músico parecem que vão arrebentar a qualquer momento, de tão esticados. As pontas dos dedos estão brancas devido à pressão excessiva sobre as cordas. Enquanto isso, a mão direita se movimenta de modo desastrado, como se tivesse raiva do violão. O som que sai é abafado, as cordas trastejam. Quem vê esse triste espetáculo pensa: “Puxa, tocar violão deve ser muito, muito difícil”.
Eu percebi que estava começando a aprender numa ocasião em que tocava Chega de Saudade (eu sempre toco Chega de Saudade) quieto no meu canto enquanto outras pessoas conversavam. Uma dessas pessoas começou a me observar, e depois de um momento comentou: “Olha só, parece que ele não está fazendo nada”.
Nesse dia eu compreendi que, em qualquer tipo de arte que você se meta a fazer, terá atingido algo próximo à perfeição quando extrair dos outros a exclamação “Bah, isso aí eu também faço!”. Porque só então você estará comprometido com a sua arte a ponto de praticá-la de forma tão suave e precisa que parecerá fácil aos olhos alheios.
Gabriel Garcia Márquez, por exemplo. Lendo os contos dele, eu tenho vontade de fechar o livro, abrir meu Word e começar a escrever. “Bah, isso aí eu também faço!”, penso. Mas cadê que eu faço? De que cartola tirar coisas como “O vestido amarelo-pálido acentuava sua timidez”, uma frase simples ao extremo, mas que já diz tudo que é necessário dizer sobre uma personagem? Desisto de escrever e volto à leitura, na esperança de talvez aprender alguma coisa.
E então chegamos ao filme:

Não sabia nada sobre o filme, exceto que tinha o Pedro Almodóvar por produtor executivo. A resenha do GuiaSP não me animou muito:

A faxineira Ann, de 23 anos, tem uma vida financeira difícil, mas, apesar de tudo, é feliz. Ela mora com o marido e duas filhas num trailer no quintal da casa de sua mãe e é plenamente realizada no casamento. O pouco que ela conseguiu construir com muito esforço cai por terra quando uma notícia terrível muda sua vida: ela tem câncer no ovário e a expectativa é que viva somente mais alguns meses.
A surpresa é que em vez de contar pelo menos às pessoas próximas sobre o que está acontecendo, Ann esconde tudo. O segredo, no entanto, a atormenta e ela começa a fazer planos e uma lista de coisas que quer fazer antes de morrer. Entre os itens da relação, está dormir com outro homem, apesar de amar o marido, seu único amante desde os 17 anos. E é nessa situação que ela acaba se apaixonando por Lee. No meio de todos os acontecimentos, ainda prepara o terreno em sua casa para sua morte.

Se me dessem essa resenha e dissessem que se tratava do próximo filme a ser apresentado no SuperCine (ainda existe isso?), eu acreditaria. Mulher jovem que leva uma vida difícil porém feliz descobre que tem câncer e resolve viver intensamente o tempo de vida que lhe resta. Creio em Deus Padre!
Fui assistir ainda assim. Quando vi Sarah Polley, a protagonista, fazer um biquinho ao receber a má notícia e depois perguntar ao médico se ele tinha uma bala, minha vontade foi dizer “Bah, isso eu também faço!”. A interpretação dela é na medida exata, sem arroubos melodramáticos, sem grandes lições de vida, nada dessas coisas chatas e de mau gosto.
O filme não se resume ao talento de Polley, porém: há o texto excelente, a direção inventiva, os personagens muito bem moldados (com destaque para a cabeleireira fã de Milli Vanilli, interpretada pela portuguesa Maria de Medeiros). E há a belíssima cena do supermercado. Ah, o filme é bom, muito bom. Você assiste e parece fácil. É arte, meus filhos. Arte!

A propósito, nunca mais ouvi nada parecido sobre minhas habilidades ao violão. Até hoje, quando toco, as pessoas olham com aquela cara de “Nossa Senhora, isso deve ser difícil”.

Em fevereiro de 2002 a Bárbara me mandou um e-mail. Havia algum tempo que não nos falávamos, então estranhei um pouco. E mais estranho ainda achei quando vi que o e-mail era sobre algo que eu desconhecia: alguma coisa chamada blog. Ela tinha feito lá um blog (fosse o que fosse aquilo), e estava divulgando para alguns amigos.
Entrei na URL indicada e a princípio não entendi nada. Era um site pessoal, mas com textos que se empilhavam. E pior: empilhavam-se em ordem cronológica inversa. Que o que estava escrito era de excelente qualidade eu já sabia antes mesmo de clicar no link: conhecia muito bem o talento de minha ex-namorada. Então disse a ela que havia gostado, mesmo sem entender direito que negócio era aquele de blog.
— É legal. Você deveria fazer um.
— Não deveria não.
— DEVERIA SIM!
— Eu nem sei HTML, Bárbara.
— Não precisa! Tem tudo pronto lá!
— E que porra eu vou escrever?
— Ué, você sempre escreveu. Que que custa?
— Bah.
Eu costumo dizer que ela insistiu muito, mas é só para fazer charme. Na verdade ela só me deu a idéia, e depois mencionou o assunto de passagem uma ou duas vezes. Uma semana depois, entrei no site do Blogger, disposto a criar meu próprio negócio-de-nome-esquisito (eu demorei algum tempo para descobrir que o nome vinha de weblog, que faz muito mais sentido). Primeiro obstáculo: o Blogger pedia que eu desse um nome para meu diário virtual. Eu sempre fui péssimo para nomes. Mas acontece que eu estava com uma mania um tanto irritante de exclamar “Jesus, me chicoteia!” a torto e a direito, por influência de uma colega de trabalho. Dei esse nome, portanto, e segui em frente. Escolhi o template que me pareceu menos pior, estalei os dedos e…
— E aí, Bárbara? Que eu faço agora?
— Agora você escreve, ué.
— Ah. E depois?
Ela me explicou a coisa toda, e daí surgiu meu primeiro post, onde eu já deixava claro:

De um modo ou de outro, sejam quais forem as conseqüências, a culpa é da Bárbara, que tanto insistiu para que eu me tornasse essa abjeção, um fazedor de blog. Humpf!

E por que eu estou dizendo isso, se não é aniversário do JMC nem nada? Explico: depois de um tempão, Bárbara resolveu ressuscitar o seu Modo de Usar, agora com um dos novos templates do Blogger e com comentários. Estou feliz: o pai do meu blog voltou pra casa.

No post anterior, eu ia dizer que o São Paulo tem até uma torcida organizada gay. No entanto, fui pesquisar no Google e achei torcidas gays de todos os clubes, menos do São Paulo: há uma torcida gay da Ponte Preta (o time é de Campinas), do Botafogo, há uma Fla-Gay, uma Cru-Gay, e a melhor de todas, do Atlético Mineiro: a Torcida Organizada GALO GAY. Fiquei triste ao constatar que meu time não conta com uma torcida rósea. Ao pensar nisso, porém, percebi que dava margem a uma piada um tanto óbvia:
— É claro que o São Paulo tem uma torcida gay. Chama-se Independente.
Pronto. De bandeja para vocês, seus corintianos do inferno.

Um post para vencer a insônia

Quarta-feira eu fui ao Morumbi ver o São Paulo jogar contra o Abelhinhas Venezuelanas FC. O time fez uma apresentação razoável. Eu, torcedor muito do sem-vergonha, cheguei ao estádio pensando que era uma vergonha conhecer apenas três jogadores da equipe: Rogério Ceni, Luiz Fabiano e Gustavo Neri. Na saída, estava feliz: justamente eles marcaram os três gols.
Bom, mas nem é do jogo que eu quero falar. O que sempre me chamou a atenção em todas as vezes que fui ao estádio (três) foram os gritos de guerra da Independente. É um tal de “Tricolor querido / do coração” pra cá, ““Olê olê olá / A cada dia te quero mais” pra lá… Fosse só a torcida do São Paulo, não haveria mistério: todos conhecemos a fama da torcida Tricolor. No entanto, o que se vê em todas as torcidas é o mesmo: declarações de amor desmedido e incondicional de um bando de homens na arquibancada para outro bando de homens divididos entre o gramado e o banco. Se psicanálise não fosse coisa de veado eu bem que poderia deduzir muita coisa desse comportamento.
Esse tipo de amor inexplicável não se restringe ao futebol, porém. Talvez seja desculpável que um esporte tão emocionante desperte paixões assim (não em mim. Sou mais parado em jogo de futebol do que em shows). Mas o que dizer da paixão exacerbada que algumas pessoas nutrem pela Pátria? Lembro-me de uma crônica de Graciliano Ramos — da qual eu transcreveria um trecho aqui caso minha biblioteca fosse minimamente organizada e eu conseguisse encontrar o livro — em que ele reclamava disso. Falava que as canções de louvor ao Brasil estavam se equiparando às baladas de amor melosas. Dizia ele que só faltava alguém fazer versos como “Ai, meu Brasilzinho do coração, como eu te amo”, ou qualquer coisa assim.
Minha pergunta é: como pode alguém amar um time de futebol, ou uma cidade, ou o conceito meio abstrato de Pátria? Talvez eu tenha algum tipo de deficiência afetiva, mas o fato é que eu só consigo amar indivíduos. Amo meus pais e meus irmãos. Amo minha sobrinha que está para nascer. Amo meus amigos. Amei algumas mulheres (só quebrei a cara, talvez devesse experimentar homens). Mas o São Paulo, a cidade de São Paulo, o Brasil? Não, não amo. Torço para o São Paulo porque vi aquele time da segunda metade da década de 80 (Careca, Müller, Pita, Silas), que já era excepcional, ser suplantado na década de 90 por Raí e sua gangue. Além do mais, é uma torcida sem preconceitos, sabem como é. Gosto de morar em São Paulo porque me oferece todas as opções culturais, gastronômicas e de entretenimento possíveis. Claro que eu me aproveito muito pouco disso, mas é sempre bom saber que os cinemas, teatros, museus, bibliotecas, restaurantes e parques estão ali à disposição para quando me der vontade. Gosto também de andar na Praça da República e ver um desafio entre dois grupos folclóricos andinos, um samba de engraxates, um trio de baião e o Agnaldo Timóteo vendendo CDs, tudo isso em cem metros de caminhada. Tenho raízes profundas aqui no Brasil: ao contrário da maioria das pessoas que conheço, não tenho qualquer ascendência conhecida fora do país. Sou 100% brasileiro, e talvez isso signifique alguma coisa. E talvez nada. Enfim, é uma país que combina com a minha índole (ou vice-versa, estou com preguiça de pensar nisso agora).
Mas a que vem tudo isso, vocês hão de perguntar. Bom. Muitos de vocês devem conhecer o Orkut, uma espécie de comunidade virtual ou algo que o valha. Pois muito bem: os brasileiros já são a segunda maior “população” dentro do Orkut. Até aí tudo bem, salve o lindo pendão da esperança, viva o Brasil, país lindo e trigueiro, terra de samba e pandeiro. O negócio é que alguns brasileiros começaram a freqüentar comunidades aqui e ali postando em português. Oras, há italianos, russos, japoneses e espanhóis no Orkut, e eu nunca vi em comunidade nenhuma posts em qualquer desses idiomas (é claro que há comunidades brasileiras, e é claro que nelas se fala português, espero que este parêntese seja considerado desnecessário).
Um russo morador de Nova Iorque chamado Gary resolveu fundar uma comunidade cujo objetivo se resume à pergunta: Que porra é essa invasão brasileira? Na descrição ele fala sobre a explosão brasileira no Orkut, sobre os posts em português em comunidades não brasileiras, e propõe a discussão sobre isso. Houve discussão? É claro que não! A notícia de que existia uma “comunidade anti-Brasil” começou a espalhar-se rapidamente, e a confraria do Gary foi rapidamente invadida por uma horda de brasileiros apaixonados pelo seu país. Quem espera racionalidade de alguém apaixonado? Pois é: o povo começou a ofender o Gary, a jogar “argumentos” tais como “E a invasão do Iraque, hein?” (e o cara nem americano é!), a postar em português só para irritar o sujeito. Resumindo: uma tristeza. Eu entrei lá e senti vergonha e pena dessas pessoas. Tentei iniciar uma conversa amigável com o russo, mas é impossível: é só eu dizer qualquer coisa favorável ao cara e já vem um brasileiro dizer que não, que o Gary tem que se foder, que o Gary tem que se matar, que o Gary é nazista, que a mãe do Gary tem caspa vocês sabem onde.
Eu estou disposto a defender minha família e meus amigos de qualquer ofensa que lhes façam. Todas as vezes em que briguei na escola foi para defender meus irmãos. Recentemente eu fui muito mal-educado (coisa que não costumo ser, acreditem) com uma garota porque ela sacaneou um amigo meu. No entanto, não estou disposto a brigar pelo meu time, pela minha cidade nem pelo meu país. Sou reservista, e é claro que em caso de guerra eu não terei muito como escapar. Mesmo que seja o caso, irei para a guerra a contragosto. Certas pessoas têm orgulho de dizer que morreriam pela Pátria. Eu morreria por meus pais, não pelo Brasil. Ainda assim, compreendo que a grandeza e o heroísmo do gesto possa atrair a alguns. O que eu nunca vou entender, porém, é esse tipo de defesa irracional da Pátria, essa espuma no canto do lábio enquanto se esperneia contra qualquer estrangeiro que se pergunte “Ei, por que esses caras agem assim?”. Tal atitude, além de ser ridícula, apenas levará o referido estrangeiro à resposta que parece mais óbvia: “Porque são imbecis”.

(I Samuel 20)
Vendo seu maior inimigo deitado no chão, pelado e profetizando, Davi concluiu que era uma boa hora para sair de Ramá e ir falar com seu amigo Jônatas:
— Pô, Jônatas. Seu pai foi até Ramá atrás de mim.
— Não acredito!
— Tá me chamando de mentiroso?
— Foi uma força de expressão, Davi.
— Ah, bom. Então. Por que seu pai me odeia tanto, hein? O que foi que eu fiz pra ele?
— Eu sei lá! Mas que Deus não permita que você morra, Davi!
— Deus não permite, mas vai que ele se distrai e seu pai me pega?
— Mas de jeito nenhum! Acho estranho ele ter ido até Ramá sem me dizer nada. Ele sempre me fala o que pretende fazer, por menos importante que seja.
— Ah, Jônatas, por favor! Seu pai sabe o quanto você gosta de mim. Tô te dizendo, estou à beira da morte.
— Ué. Tá doente?
— …
— Ah, sim, entendi. Meu pai e tal. Mas o que você quer que eu faça?
— QUE ME AJUDE, PORRA!
— Eu sei, eu sei. Mas como?
— Hum… Amanhã é Festa da Lua Nova, não?
— É sim. E daí?
— E daí que numa festa assim eu sou esperado no palácio, para me sentar ao lado do rei e tal. Isso se o rei parar de falar bobagens, se vestir e vier para cá a tempo.
— HEIN???
— Ah, é uma longa história. Seu pai tá pelado lá em Ramá, deitado no chão.
— COMO? MEU PAI ENDOIDOU?
— Claro que não…
— Ufa.
— … Aquilo já nasceu doido.
— Porra, Davi, que história é essa?
— Ele chegou a Ramá e o Espírito de Deus se apossou dele.
— Putz!
— Pois é. Tá lá profetizando. Mas do que eu estava falando antes de você me interromper?
— A Festa da Lua Nova.
— Ah, é. Então. Acontece que eu não vou à festa. Vou me esconder no campo e ficar esperando por você.
— Hum. Pra quê? Você quer que eu te leve umas coxinhas, uns brigadeiros?
— Não, Jônatas. Prestenção, porra: se seu pai notar minha ausência, você vai dizer a ele que eu pedi licença para ir a Belém visitar minha família.
— Pô, Davi. Vai pra Belém justo no dia da Festa da Lua Nova?
— Ai, meu saco… Não, Jônatas! Eu vou estar escondido no campo, lembra?
— Ah, é.
— Então. Você só vai dizer isso para ver qual será a reação do seu pai. Se ele disser que está tudo bem, então estará tudo bem. Mas se ficar com raiva, isso significa que ainda quer me matar. Entendeu?
— Entendi.
— Pensa bem, Jônatas. Eu estou pedindo para você trair seu pai.
— Ué. Não chega a ser assim uma traiçãããão.
— Mas você vai enganar o velho e me trazer informações.
— Isso é verdade.
— Tem certeza de que quer mesmo fazer isso? Você podia muito bem me matar agora. Seu pai ia te recompensar muito bem.
— Davi, você me ofende!
—…
— Eu sou seu amigo, esqueceu? Você é o melhor amigo que já tive. Tanto que tem gente por aí dizendo que você é meu namorado.
— QUEM TÁ FALANDO ESSAS BOBAGENS?
— Bah, não importa. O negócio é que somos amigos, e eu quero que você saiba que estarei sempre ao seu lado. Espero que você também esteja sempre comigo, e que cuide da minha família se um dia eu morrer.
— Um dia você vai morrer, Jônatas. Todo mundo morre.
— Se eu morrer ANTES DE VOCÊ, Davi.
— Ah, sim. Pô, Jônatas, você até comove a gente falando essas coisas. Você é o melhor amigo do mundo.
— Tá, tá. Chega de veadagem.
— Isso, chega. Mas e aí, como é que você vai me avisar do estado de espírito do seu pai?
— Hum. Tá vendo aquelas pedras ali?
— Sim.
— Então. Esconda-se atrás delas amanhã à noite. Eu vou para a festa, falo com meu pai e fico sabendo se a raiva dele já passou ou não. Assim que souber, virei aqui para treinar com o arco, usando as pedras como alvo.
— Porra, Jônatas! Quer me dar flechada?
— Claro que não, Davi. Presta atenção, ô! Eu vou atirar três flechas e depois mandar meu empregado buscá-las. Se você me ouvir dizendo “Olha lá, as flechas estão para cá”, isso significa que está tudo bem e você pode sair. Se eu disser “As flechas estão para lá”, quer dizer que meu pai ainda está furibundo e é melhor você se empirulitar. Entendeu?
— “Para cá”, tudo bem, “para lá”, fodeu. Entendi.
— Muito bem. Agora trate de se esconder, e esteja atrás das pedras amanhã e depois.
— Amanhã E depois???
— É, ué. A Festa da Lua Nova dura três dias. Pode ser que meu pai não dê por sua falta no primeiro dia, mas duvido que ele não perceba no segundo.
— É. Bem pensado.
Davi correu para se esconder e esperar o dia da festa.
No dia seguinte, Saul chegou ao salão de festas do palácio todo paramentado. Abner sentou-se ao lado do rei, e Jônatas à sua frente. O lugar de Davi, ao lado de Jônatas, permaneceu vazio. O rei notou mas não disse nada, pensando que talvez lhe tivesse acontecido alguma coisa (o que seria bom para Saul, afinal), ou que não tivera tempo para cumprir as cerimônias de purificação requeridas antes da festa.
No dia seguinte, porém, vendo a cadeira de Davi vazia outra vez, Saul perguntou a Jônatas:
— Filho, cadê o Davi? Não apareceu ontem nem hoje…
— Ah, pai, esqueci de dizer. Ele me pediu licença para ir a Belém festejar com a família.
— E você concedeu?
— Concedi, ué.
— FILHO DA PUTA!1 Agora eu tenho certeza que você está ajudando aquele desgraçado!
— Não, pai, não é b…
— CALA A BOCA! Você passou para o lado de Davi. BURRO! Não sabe que você não será rei enquanto ele não morrer? Que o desgraçado quer é usurpar o trono? Traga aquele mequetrefe aqui para morrer!
— Mas, pai… Por que você quer tanto matar o Davi? O que ele fez?
Furioso, e mal acreditando no que ouvia da boca do próprio filho, Saul pegou sua lança (que estava sempre à mão para ocasiões assim) e atirou-a contra Jônatas. Felizmente sua pontaria continuava ruim, então o príncipe não foi atingido. De uma forma ou de outra, agora tinha certeza de que a raiva do pai não passara, muito pelo contrário, aumentava a cada dia. Levantou-se da mesa com muito ódio e foi avisar a Davi.
Davi passava sua segunda noite atrás das pedras. Quase morrera de ansiedade na primeira, mas a previsão de Jônatas mostrou-se correta, e ele não recebeu notícia alguma. Já estava quase desistindo nessa segunda noite quando ouviu distintamente a voz do amigo:
— Ei, rapaz! Vai pegar as flechas! Estão para lá, ó. Para lá, entendeu? PARA LÁ! AS FLECHAS ESTÃO PARA LÁ!
Ouviu também o empregado resmungando ali perto do monte de pedras:
Pronto, agora o feladaputa acha que eu sou burro E surdo. Isso não é vida, puta que pariu…
O empregado não entendia nada, claro, mas Davi compreendera muito bem: Saul ainda queria sua cabeça, e não descansaria enquanto não a obtivesse. Ia se levantando para sair quando ouviu novamente a voz de Jônatas:
— PRONTO! CANSEI DE TREINAR! PODE VOLTAR PARA A CIDADE, RAPAZ! VOLTE PARA A CIDADE! PARA A CIDAAAADE!
— Er… Patrão? Eu já entendi.
— SIM! JÁ ENTENDEU, NÉ? ENTÃO VOLTE PARA A CIDAAAAAADE.
— TÁ! TÔ VOLTAAAAAAAAAANDO!
— Porque cê tá gritando, seu petulante?
— …
— Humpf. Suma daqui.
Depois que o empregado foi embora, Jônatas foi encontrar Davi em seu esconderijo.
— Peraí! Então para que toda essa presepada de flechas e códigos?
Eu sei lá! Não interrompa essa cena comovente, por favor. Porque os dois se encontraram sabendo que Davi corria perigo e deveria sumir por uns tempos. Muito agradecido a Jônatas, ele se jogou no chão e enconstou o rosto no chão três vezes.
— Obrigado, Jônatas! Muito obrigado!
— Ah, Davi, larga disso. Levanta daí.
Ele se levantou e os dois se abraçaram, chorando muito.
— Para onde você vai agora, Davi?
— Não pensei nisso ainda.
— Bom. Para onde quer que você vá, que Javé esteja com você. Ele fará com que nós e nossos descendentes cumpramos a promessa que fizemos.
Davi o abraçou uma última vez e fugiu. Jônatas voltou para o palácio, ainda enxugando as lágrimas. Pensava no quanto seria ruim a vida sem o amigo por tempo indeterminado.

1 Eu já falei sobre isso neste post. Embora eu use palavrões quase sempre nos meus textos (é mais forte do que eu, compreendam), esse “FILHO DA PUTA!” berrado por Saul para seu filho Jônatas é diferente: corresponde quase que literalmente ao texto original. Em traduções mais antigas (como esta), o xingamento é “Filho de uma mulher perversa e rebelde”, ou “Filho da perversa em rebeldia”. A Bíblia na Linguagem de Hoje, da Sociedade Bíblica do Brasil, dá um passo à frente e traz “Filho de uma mulher à toa”. Não é preciso ser muito esperto para deduzir o que Saul realmente disse ao filho naquele momento de fúria. Aqui temos, portanto, uma prova de que a profissão mais antiga do mundo deu origem (entre outras coisas) ao xingamento mais antigo do mundo.

Depois de ler vocês-sabem-qual-livro, resolvi dar uma olhada no catálogo da editora. Fiquei surpreso ao constatar que se tratava de uma casa publicadora de livros de auto-ajuda. Para vocês verem como esses safados ganham dinheiro: até podem publicar grandes best sellers mundiais de qualidade duvidosa. Maior foi minha surpresa, porém, quando recebi meus dois exemplares de O Guia do Mochileiro das Galáxias (houve uma certa confusão com esse negócio de lista de presentes), de Douglas Adams, e vi que era um edição da Sextante. Eu estava curioso para ler esse livro havia algum tempo, mas broxei imediatamente: já havia associado a má qualidade ao nome da editora.
Qual o quê! O livro (escrito em 1979, eu não sabia, sou um ignorante) é excelente. Li muito rápido e já encomendei na Livraria Cultura a série completa de 6 livros, em inglês. Eis um trecho desse primeiro:

Um buraco acabara de aparecer na Galáxia. Tinha exata­mente um zerézimo de centímetro de largura e muitos mi­lhões de anos-luz de comprimento.
Quando se fechou, um monte de chapéus de papel e balõe­zinhos de borracha saíram dele e se espalharam pelo Universo. Um grupo de sete analistas de mercado de um metro e meio de altura também saiu do buraco e morreu logo em seguida, em parte por asfixia, em parte por espanto.
Duzentos e trinta e nove mil ovos estrelados também saíram, materializando-se sob a forma de uma grande omelete na terra de Poghril, no sistema de Pansel, onde havia muita fome.
Toda a tribo de Poghril morrera de fome, com exceção de um último homem que morreu de intoxicação por colesterol algumas semanas depois.
O zerézimo de segundo durante o qual o buraco existiu teve as mais improváveis repercussões no passado e no futuro. Num passado remotíssimo, ele causou perturbações profundas num pequeno grupo aleatório de átomos que cruzavam o espaço vazio e estéril, fazendo com que se agrupassem das maneiras mais extraordinárias. Estes agrupamentos rapidamente apren­deram a se reproduzir (era essa uma das características mais extraordinárias deles) e acabaram causando perturbações mui­to sérias em todos os planetas onde foram parar. Foi assim que começou a vida no Universo.

Ao ler esse e outros trechos, comecei a pensar na possibilidade de Douglas Adams ter alguma ligação com o grupo de humor inglês Monty Python. Nem precisei pesquisar muito. Não sei se vocês sabem, mas recentemente eu comprei UMA CAIXA COM CATORZE DVDs CONTENDO OS 45 EPISÓDIOS DO MONTY PYTHON’S FLYING CIRCUS. Pois muito bem. Assistindo aos episódios, fiquei sabendo que John Cleese abandonou o grupo depois da quinta temporada, em 1973. Uma das conseqüências disso foi um maior número de aparições de Terry Gilliam nas esquetes. Gilliam, único americano do grupo, fazia aquelas animações que beiravam o surreal. Em algumas esquetes ele imita um sotaque britânico, mas na maior parte dela faz papéis absurdos e não fala nada.
Pois bem. Além disso, com a saída de Cleese, Graham Chapman precisava de um parceiro para escrever suas bobagens. Chapman (que morreu de câncer em 1989) escreveu com John Cleese boa parte das esquetes mais memoráveis do Monty Python. Com quem ele escreveria depois da saída de seu parceiro? Com quem? Acertou quem disse Douglas Adams! O escritor fez até uma ponta no episódio 44, e teve um de seus textos com Chapman encenado no 45º. Seria o início de uma promissora carreira no Monty Python, não fosse o fato desse ter sido o último episódio da série. Ao que parece ele continuou amigo de Chapman. Ou pelo menos estava presente quando John Cleese fez um discurso de elogio ao amigo recém-falecido.
Em 1979, como eu já disse, Douglas Adams escreveu The Hitchhiker’s Guide To The Galaxy, origem de uma séria muito famosa (a qual só o ignorante aqui não conhecia, aparentemente). Morreu em 2001. E, junto com o Monty Python, ajudou a alegrar a vida de um pobre ignorante careca tristonho em 2004.
— Porra, careca, qualé a deste post?
Eu sei lá. Gosto dessas coincidências.

Havia me esquecido justamente do que mais me irritou no Código Da Vinci: o suspense à João Kléber. Alguma coisa está acontecendo. O albino está chegando perto. Lá vem o albino. Que será que ele vai fazer? Hein? Que será? Já vou contar. Ele vai… PÁRA, PÁRA, PÁRA! Daqui a pouco eu conto, agora vamos ver o que está acontecendo com o nosso inteligentíssimo inspetor de polícia. Volto já já.
Os mais de 100 capítulos seguem TODOS essa linha (com exceção do último, claro). Isso lá é jeito de fazer suspense? Isso é jeito de irritar o leitor, isso sim. O cara vende livros usando o mesmo artifício a que certos apresentadores recorrem para garantir audiência. Triste.