(Juízes 16:21-31)
Sansão acreditava mesmo que poderia vencer os filisteus mais uma vez. Mas não contava com um fator: Javé o havia abandonado. Ele já quebrara seu voto de nazireu uma vez, ao tocar o cadáver do leão, e tinha acabado de quebrá-lo de novo, tendo os cabelos cortados. Não foi ele quem cortou os cabelos, foi enganado e traído pela mulher que amava, mas desde quando Deus liga para essas coisas? Em Sua infinita vaidade, não admite ser contrariado de forma alguma, e reage da forma mais cruel. Então, na hora em que Sansão mais precisou, não teve Espírito de Deus para se apossar dele, e o pobre coitado foi capturado pelos filisteus. Eles furaram seus olhos, prenderam-no com correntes de bronze e o levaram para uma prisão em Gaza, onde trabalhava virando um moinho. Não, não se transformando num moinho, que ele era Sansão e não um dos Super Gêmeos. Bah, vocês entenderam: ele passava os dias andando em círculos, empurrando a pedra do moinho, cego, acorrentado e abandonado pelo mesmo Deus que pouco tempo antes cavara um poço para ele.
Para comemorarem a captura de seu maior inimigo, os filisteus organizaram uma festa, na qual ofereceriam um grande sacrifício a seu deus, Dagom. O templo estava cheio, os cinco governadores da Filistia estavam presentes, e havia no terraço cerca de três mil pessoas. Todos estavam felizes, e improvisavam sansões sobre a derrota de Canção, ou melhor, canções sobre a derrota de Sansão. No meio da celebração, alguém teve a idéia:
— Ei! Por que não trazem Sansão pra cá? A gente pode se divertir um pouco…
A proposta foi prontamente aceita, e Sansão foi trazido do cárcere. Foi espezinhado e humilhado no meio da multidão, e os filisteus soltavam hurros de júbilo. Ali estava o flagelo da Filistia, o israelita que matara tantos filisteus e causara grandes prejuízos a seu país, agora reduzido a um farrapo, fraco, de olhos vazados, sem reagir de forma alguma às provocações que lhe eram dirigidas.
Depois de muito se divertirem às custas de Sansão, os filisteus o colocaram entre as colunas principais do templo, de onde podia ser visto por todos os presentes. Só nesse momento Sansão pareceu ter tomado consciência do que acontecia. Aproximando-se do garoto que o guiava pela mão, pediu:
— Por favor, deixe que eu me encoste nas colunas do templo. Estou muito cansado.
O rapaz atendeu a seu pedido, e o orientou de tal forma que pudesse apoiar o corpo numa das colunas. Tendo chegado aonde queria, Sansão falou com Javé pela última vez:
— Deus, você me abandonou e isso não se faz. Nunca estive tão fodido em toda minha vida. Só que o ódio que eu sinto dos filisteus é hoje maior do que nunca. Então eu lhe peço que me dê forças pela última vez, para que eu me vingue dessa raça por ter furado meus olhos. — e então, apoiando a mão direita numa das colunas e a esquerda na outra, começou a empurrar e gritou: — EU MORRO, MAS LEVO ESSES FILHOS-DA-PUTA COMIGO!
Em seguida, empurrou com toda a força que tinha, e as colunas cederam. Sem sustentação, o Templo de Dagom ruiu. Os filisteus entraram em desespero, mas não tinham para onde correr. O pânico dominou a todos, a multidão tentou correr para a saída (acho não havia saídas de emergência no Templo de Dagom), e muitos morreram pisoteados no meio da correria. Ao final, foram todos soterrados pelos escombros do templo. Sansão matou mais gente do que nunca nesse dia, com o sacrifício da própria vida.
A família de Sansão foi até Gaza para pegar seu corpo, que foi sepultado em Zora, no túmulo de Manoá, seu pai. Sansão foi juiz em Israel por vinte anos.

Cena do Filme Samson and Delilah (1949), de Cecil B. DeMille,
com Hedy Lamarr e Victor Mature

Caso vocês ainda não tenham notado, a página de divulgação de festa agora está muito mais bonita e cheia de veadagens (vejam aqui). É claro que não é coisa minha; não tenho essa capacidade: tudo por obra e graça do meu amigo Cabeça de Ventilador. A foto que ele escolheu é da festa do ano passado. Nela, vemos Denis Tonon (que agora só atende pelo nome artístico, DJ No-Not), Risadinha Menino-da-Torre, tendo suas tetas espremidas, e Zezinho, o arrombado, digo, marombado que cita Shakespeare. Uma imagem de rara beleza e sensibilidade.

Só que acontece que eu sou cabação: queria deixar o hotsite da festa como popup, mas não sei como fazer isso. Alguém aí me ensina?

Se alguém puder traduzir o trecho de ópera que eu botei de epígrafe no último post, ficarei imensamente grato. Encontrei uma tradução para o inglês, mas muito mal feita.

Muito obrigado a todos. Não sabia que tinha tantos leitores fluentes em francês.

(Juízes 16:4-20)

Mon coeur s’ouvre à ta voix
comme s’ouvrent les fleurs
Aux baisers de l’aurore
Mais, o mon bien-aime,
pour mieux secher mes pleurs
Que ta voix parle encore
Dis-moi qu’a Dalila tu reviens pour jamais
Redis a ma tendresse
Les serments d’autrefois
Ces serments que j’aimais

Ah, reponds a ma tendresse
Verse-moi, verse-moi l’ivresse
Reponds a ma tendresse

Samson, Samson, je t’aime…..

(Mon coeur s’ouvre à ta voix, ária da ópera Sansão & Dalila, de Camille Saint-Saëns)

Sansão permanecia invencível, e os filisteus torravam os miolos em busca de alguma forma de pegá-lo. E a oportunidade se lhes apresentou quando Sansão apaixonou-se por uma moça chamada Dalila, moradora do vale de Soreque. Todo mundo sabe que um homem apaixonado é um homem fraco: fica bobo, faz as vontades da mulher. Os amigos alertam, os pais aconselham, mas nada adianta: cegado por um sentimento, mesmo o mais forte dos homens se deixa guiar pela mulher. E isso não é de hoje, claro: os filisteus sabiam que, apaixonado, Sansão oferecia a eles uma possibilidade de ataque. Assim, os governadores das cinco cidades da Filistia foram juntos falar com Dalila:
— Ô, Dalila, o negócio é o seguinte: se você descobrir um jeito de prendermos o Sansão, cada um de nós dará a você mil e cem moedas de prata.
Dalila, com os olhinhos brilhando pela expectativa de ganhar todo esse dinheiro (somando tudo, ela teria cerca de 63 quilos de prata), aceitou a proposta dos governadores filisteus e foi falar com Sansão:
— Sansinho…
— Oi, Lila…
— Você é tão forte, né, Sansinho?
— Sou, né? Olha o muque. Aperta. Viu? Pode se pendurar no meu braço, ó. Viu? Viu?
— Puxa, você é muito, muito forte.
— E você é muito, muito linda… Vem cá…
— Não, agora não. Antes me diga: se alguém por acaso quisesse amarrar você e deixá-lo sem defesa, o que precisaria fazer?
— Pra que cê quer saber isso, Lila?
— Só curiosidade, oras…
— Sei…
— Não confia em mim, Sansinho?
— Deveria?
— …
— Tá bom, Lila, eu te conto meu segredo: se me amarrarem com sete cordas de arco, novas, que ainda não secaram, eu perco minha força.
— Ah. Que coisa. Er… Vou ali, Sansinho, já volto.
— Vai aonde?
— Confia na sua Lila…
— Tá bom…
Dalila foi falar com os governadores filisteus, que lhe deram as sete cordas de arco. Voltou para casa com as cordas e acompanhada de alguns filisteus, os quais deixou escondidos num quarto enquanto ia falar com Sansão:
— Olha o que eu trouxe, Sansinho!
— Que é isso?
— Ué. Sete cordas de arco. Novas. Ainda úmidas.
— E para quê…?
— Curiosidade, oras. Quero ver se você fica fraco mesmo.
— Pára com isso, Dalila.
— Ah, Sansinho, vai… Deixa a Lila te amarrar, deixa…Juro que vai ser bom.
— Hmmmm… Tá bom, vai.
— Eba! Ó, vou amarrar seus pulsos assim… Suas pernas… Agora aqui… Pronto!
— Ai. Estou fraco. Cuida de mim, Lila.
— SANSÃO! OS FILISTEUS ESTÃO VINDO!
O grito era a senha para que os homens saíssem de seu esconderijo e caíssem sobre Sansão. Mas ele, que estivera apenas fingindo, levantou-se e arrebentou as cordas com a maior facilidade.
— POIS QUE VENHAM!
— Ué! Você não estava fraco???
— Claro que não, oras. Você acha mesmo que eu ia contar o segredo da minha força a você?
— Puxa, Sansinho… Me fazendo de idiota…
— Por favor, Lila, não é nada disso!
— Claro que é! Achei que houvesse confiança entre nós, mas me enganei. Nosso relacionamento está muito desgastado, Sansão. Precisamos conversar, discutir a…
— NÃO! DISCUTIR A RELAÇÃO, NÃO! EU TE CONTO MEU SEGREDO, QUALQUER COISA MENOS DISCUTIR A RELAÇÃO!
— Então conta…
— O negócio das cordas era quase verdade. É que com cordas de arco, essas feitas de vime, não ia funcionar mesmo. Agora, se me amarrarem com cordas novas, que nunca tenham sido usadas, eu viro um fracote.
— Sei… Posso testar?
— Claro!
Então Dalila o amarrou com as sete cordas, e depois gritou novamente:
— SANSÃO! OS FILISTEUS ESTÃO CHEGANDO!
— Estão, é? Legal, vou me divertir! — e arrebentou as cordas.
— Você me odeia.
— Hã?
— VOCÊ ME ODEIA! Me enganou de novo!
— Ah, minha menina, não fica assim não… Eu te conto meu segredo.
— De verdade?
— De verdade.
Mesmo querendo divertir-se às custas de Dalila, e pretendendo jamais revelar-lhe o segredo de sua força, Sansão começava a ficar meio bobo com aquele olhar lacrimejante da mulher, aqueles lábios trêmulos. Ah, os homens! E assim, abobalhado, começou a se aproximar de seu verdadeiro segredo:
— Dalila, se você tecer as minhas sete tranças num tear, e depois disso prendê-las com uma estaca, eu ficarei fraco.
— Mentira.
— Verdade!
— Muito absurdo, isso!
— Então tá.
Dalila não engoliu aquela história, então ficou por isso mesmo. Porém, para acabar com qualquer dúvida, levou Sansão para a cama. E Sansão, como todo homem, caiu no sono logo depois do sexo. Aproveitando que ele dormia, Dalila teceu suas sete tranças — um herói meio Rapunzel, esse Sansão —, e as prendeu com uma estaca. E depois:
— SANSÃO! OS FILISTEUS ESTÃO CHEGANDO!
— Hein? Hã? Hum? Bah, que porra é essa? — arrancou a estaca — Cadê os desgraçados?
— Sansão, Sansão… Você não me ama mesmo. Puxa vida. Eu te amo tanto, tanto, e você só se diverte às minhas custas. Já é a terceira vez que você me faz de boba. Estou muito chateada com você.
Dalila ficou nesse blablablá durante dias. Pior: fez greve de sexo. Sansão, que nunca se destacara pela paciência, acabou cansando da lenga-lenga diária e resolveu contar a Dalila a verdade sobre sua força incomum:
— Ainda antes de nascer, fui consagrado a Deus como nazireu, por isso meu cabelo nunca foi cortado. Se cortarem meu cabelo, ficarei fraco, e serei apenas um homem comum.
Dalila ia protestar, dizer que era outra história absurda. Mas viu nos olhos de Sansão que dessa vez ele estava contando a verdade, então mandou um recado aos governadores filisteus, pedindo que enviassem rápido homens para o prenderem. Os homens chegaram e ficaram escondidos no mesmo quarto de antes. Enquanto eles esperavam, Dalila deitou Sansão em seu colo:
— Ah, meu querido! Agora eu sei que você confia em mim de verdade. Obrigada! Obrigada!
Enquanto falava com voz suave, fazia cafuné em seus longos cabelos. Ele dormiu, e ela chamou um dos homens para que lhe cortasse as tranças. Quando Sansão acordou, Dalila começou a provocá-lo, mas ele parecia mesmo ter perdido sua força. Então, para testar, gritou outra vez:
— SANSÃO! OS FILISTEUS ESTÃO CHEGANDO!
Dessa vez os filisteus apareceram mesmo, saídos do quarto ao lado. Sansão nem se abalou: “Pois que venham, eu me livro deles como sempre fiz”.
Será? Veremos.

Sansão e Dalila, de Rubens — National Art Gallery, Londres

(Juízes 15:9-20 e 16:1-3)

No último capítulo, deixamos Sansão escondido na caverna de Etã. Seu sossego não durou muito, porém: os filisteus, furibundos com o prejuízo causado pelo Rambo israelita, acamparam em Judá e atacaram a cidade de Leí (leí, em hebraico, é queixada. Vocês já vão entender o porquê). Os homens de Judá ficaram indignados:
— Ei, cês tão loucos? Por que nos atacaram, se estávamos aqui na boa, sem mexer com ninguém.
— Louco é esse tal de Sansão aí. O filho da puta fez a maior bagunça na nossa terra, e viemos aqui para prendê-lo.
— Ai, caralho… O Sansão é um abusado, está prejudicando a gente assim. Esperem aí, vamos falar com ele.
Então três mil homens de Judá foram até a caverna falar com Sansão.
— Ô, maluco.
— Opa.
— Cê não sabe que os filisteus mandam na gente, porra? Por que foi mexer com os caras?
— Ué, eles mexeram comigo, eu só revidei.
— Sansão, Sansão… Você causa muitos problemas. Viemos aqui para prender você e entregá-lo aos filisteus.
— Hum… Tudo bem. Prometem que não vão me matar?
— Claro que não vamos te matar, oras. Que idéia besta…
— Então tá bom. Eu me entrego.
Espantados com a facilidade com que Sansão se rendera, amarraram-no com duas cordas novas e o tiraram da caverna. Quando chegaram a Leí com o prisioneiro, os filisteus vieram gritando ao seu encontro.
— OLHA LÁ O DESGRAÇADO! VAMOS TRUCIDAR ESSE FELADAPUTA!
E eles estavam mesmo dispostos a fazê-lo. Mas acontece que o Espírito de Deus se apossou de Sansão, e ele arrebentou as cordas como se fossem barbante queimado. Pegou uma queixada de jumento que estava jogada por ali e com ela atacou os filisteus, matando mil deles. Finda a matança, seguiu seu caminho cantando:

Com a queixada de um jumento
deixei mil filisteus mortos.
Com a queixada de um jumento
fiz montões e montões de corpos.

A musiquinha, improvisada, escondia um trocadilho: em hebraico, a expressão “fazer montões” soa parecida com a palavra “jumento”. Como vemos, Sansão tinha a sutileza de um Humberto Gessinger…
Mesmo cantando, porém, ele estava cansado. Matar mil homens usando só um pedaço de osso, convenhamos, é tarefa cansativa mesmo para um super-homem. Então ele pediu a Deus:
— Ô, Javé. Você permitiu que eu vencesse os filisteus dessa forma impressionante. Será que agora vai deixar que eu morra de sede e que meu cadáver seja carregado por esses incircuncisos?
Fosse outro cara, Javé responderia “Te vira”. Se fosse com a cara do sujeito, talvez dissesse “Então fala praquela pedra jorrar água”. Mas Sansão era diferente: era tão maluco e sanguinário quanto o deus a quem servia, então Javé disse “Pois não, Sansão!” e cavou um poço. Curiosidade: é a segunda vez na Bíblia em que vemos Deus sujando as mãos com terra (a primeira foi para fazer Adão). Vejam só em que alta conta ele tinha Sansão. Bom, ele matou sua sede no poço cavado por Javé (poço que recebeu o nome de En-Hacoré — “fonte daquele que ora”, em hebraico) e, em vez de ir descansar em Israel, resolveu voltar à Filistia para aporrinhar os filisteus mais um pouquinho.
Chegou à cidade de Gaza, uma das principais da Filistia. Não sentia mais sede, mas outras necessidades ainda o incomodavam, então arrumou uma prostituta por um preço bom e foi dar uma trepadinha (para sorte da puta, o Espírito de Deus não deu as caras durante o ato). Os homens de Gaza ficaram sabendo que Sansão estava na cidade. Julgando que seria mais fácil capturá-lo com sono e relaxado após uma noite de sexo, ficaram de tocaia no portão da cidade (imaginem o tamanho do portão), esperando que ele saísse ao amanhecer. No entanto, Sansão não esperou que amanhecesse: levantou-se à meia-noite, pagou a moça e saiu. Chegando ao portão, em vez de gritar para que a sentinela o abrisse, arrancou o danado com batentes, dobradiças, trancas e tudo mais, e saiu carregando o trambolho nas costas até o alto do monte em frente à cidade de Hebrom. Essa era sua idéia de exercícios matinais… Os filisteus, boquiabertos diante de tamanha demonstração de força, não tiveram coragem de persegui-lo.
Nada parecia capaz de derrotar Sansão. Mas, como diz aquela bela canção, “O bicho que mata o homem mora debaixo da saia”. A partir do próximo capítulo, veremos como se deu a decadência do herói bíblico.

A gravura de Sansão matando os filisteus foi retirada daqui. Que merda, só agora eu fui achar esse site!

Eu sei que todo mundo tá empolgado com a festa. Só que acontece o seguinte: só hoje eu já recebi uns seis ou sete banners. Vou publicá-los daqui a pouco. Mas gostaria de pedir que vocês não mandassem mais. Sei que isto soa prepotente e nojento, mas não é isso: se eu começar a aceitar banners de divulgação da festa, não vou fazer mais nada além de postar os danados. Falo por experiência.
Então fica assim: vou publicar os que recebi, e só. Não levem a mal, ok? Vocês escolhem: ou eu continuo escrevendo ou fico postando imagens…
Valeu.