Fiquei sabendo agora há pouco que dona Clarah acabou com seu blog. Não foi bem um assassinato, digamos que foi uma eutanásia: o brazileira!preta estava capengando há algum tempo. Muitos por aí declararam luto, outros soltaram fogos, outros tantos dirão que é um golpe de marketing e aquele blablablá de sempre. Eu li o anúncio do falecimento e achei natural e coerente. Liguei pra autora e ela está feliz e saltitante. Portanto não há motivos pra lamentação nem pra celebração: é apenas mais um ciclo que se cumpre. Sentirei falta do brazileira!preta, é claro. Mas, bah, Clarah Averbuck ainda tem muito a escrever. Para desespero de muita gente.

Escrevi um post imenso aqui sobre minhas férias, mas ficou muito chato, então apaguei. Basta dizer que minhas férias foram excelentes e cumpriram à perfeição o seu papel de me prepararem para mais um ano de trabalho, que eu reencontrei velhos amigos e fiz novos, e com todos eles me diverti feito um adolescente com anfetaminas.
Agradecimentos especiais ao Rafael, ao Pedro e à Ana por me hospedarem em Brasília e no Rio. E à Fer, porque sim.

Semana passada, quando minha irmã e meu cunhado me telefonaram para dar a notícia, ela foi enfática:
— Só não vai falar nada no blog, tá?
Aquiesci sem problema nenhum. Afinal este blog, ao contrário do que possa parecer, não é minha vida.
Bom, entáo vocês podem imaginar minha surpresa quando fui ler os comentários do último post e me deparei com minha irmã me cobrando a divulgação da notícia. Como eu sempre digo, vá o diabo entender as mulheres. Enfim, é com alegria imensa que eu digo a vocês:

EU VOU SER TIO!!!

Tá bom
Senta aqui que hoje eu quero te falar
Não tem mistério, não, é só teu coração
Que não te deixa amar
Você precisa reagir. Não se entregar assim…
– Como quem nada quer?
Não há mulher, irmão, que goste dessa vida
Ela não quer viver as coisas por você
Me diz, cadê você aí?
E aí não há sequer um par pra dividir.
Senta aqui, espera que eu não terminei
Pra onde é que você foi que eu não te vejo mais?
Não há ninguém capaz de ser isso que você quer
– Vencer a luta vã e ser o campeão!
Pois se é no não que se descobre de verdade
o que te sobra além das coisas casuais
Me diz se assim está em paz
achando que sofrer é amar demais.

(Marcelo Camelo)

(Josué 3)

Conforme prometera no último capítulo, Josué acordou na madrugada seguinte ao retorno dos espiões de Jericó, e com ele todo o povo de Israel. Saíram do vale de Sitim e acamparam às margens do Jordão. Do outro lado do rio, mais próxima do que nunca, estava Canaã, a terra prometida aos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó, e mais tarde a Moisés e Arão, sua conquista agora quase uma realidade sob o comando do general Josué. A expectativa, como era de se esperar, era imensa, mas o povo ainda teve que ficar acampado ali por três dias sem maiores novidades. Depois desse período, Josué ordenou que emissários passassem pelo acampamento com as seguintes instruções:
— Olha aí, negada, tá chegando a hora da onça beber água. Quando vocês virem os levitas levantando a Arca, vocês também se levantarão e os seguirão. Mas façam o negócio direito: guardem uma distância de uns novecentos metros entre vocês e a Arca, para que não a percam de vista, pois o caminho é meio complicado.
Quando todo o povo já estava avisado e de prontidão, Josué ordenou aos sacerdotes que erguessem a Arca e esperassem novas instruções. Voltou para sua tenda só para dar um tempo e criar um suspense, e foi surpreendido pela presença de ninguém menos que Javé, bebericando um licor de tâmaras sentado numa almofada.
— Ó, meu Senhor e Deus, que honra imensurável receber tão nobre visita em minha desprezível casa. Permita agora que eu renda os louvores merecidos por tão majestosa figura, cuja glória cobre a terra tal qual o…
— Porra, Josué, vai caçar outro saco pra você puxar, que eu não tenho tempo pra essas veadagens.
— …
— Negócio seguinte: você anda meio desacreditado no meio do povo.
— Desacreditado???
— É, rapaz. Falam que você é um bundão, na verdade, e que bom mesmo era o Moisés.
— EU MATO O FILHO DA PUTA QUE DISSE ISSO!
— Vixe! Se você for matar todo mundo que tira sarro da tua cara no acampamento, será um genocídio. Sossega o rabinho aí e deixa comigo. Hoje eu vou mostrar a esse povinho bunda aí que para mim você é um líder tão bom e tão querido por mim quanto Moisés.
— Puxa, sério mesmo?
— Claro que não, porra. Você é um bundão, bom mesmo era o Moisés. Mas para vocês entrarem em Canaã, o povo precisa de motivação. E para isso, precisa acreditar nessa papagaiada.
— Hum. E qual é o plano?
— Coisa pouca: você vai ordenar aos sacerdotes que levem a Arca e parem quando chegarem às margens do Jordão.
— Tá, e aí?
— Aí você vai fazer um discurso assim para o povo…
Os dois combinaram tudo dentro da tenda, e Josué saiu de lá radiante para dar suas ordens e fazer seu discurso:
— POOOOOOOOOOOOVO DE ISRAEL! Hoje vocês verão o grande poder e majestade de Javé! Escolham doze homens, um de cada tribo, para irem à frente de vocês, seguindo a Arca. Acontecerá, então, que quando os sacerdotes pisarem as águas do Jordão, estas pararão de correr, acumulando-se de um lado, e vocês atravessarão o rio a seco!
— …
— VOCÊS ENTENDERAM O QUE EU DISSE? VAMOS ATRAVESSAR O JORDÃO NA MAIOR, SEM MOLHAR OS PÉS.
— Pra isso basta usar uma das pontes! — gritou um gaiato do meio da multidão, provocando risos aqui e ali.
— FODAM-SE AS PONTES! Com isso Javé quer demonstrar todo o seu poder!
— Então ele já foi melhor! Com Moisés foi o Mar Vermelho, agora esse riozinho mequetrefe!
— ORAS, VÃO TOMAR NO CU!
Josué abandonou o palanque furioso e os sacerdotes continuaram sua marcha com a Arca sobre os ombros. Tudo aconteceu conforme ele dissera, e o povo atravessou o rio a seco. Acostumados, porém, a ouvirem histórias e mais histórias sobre a travessia do Mar Vermelho — muitíssimo mais imponente, convenhamos — os israelitas não se impressionaram muito com mais esse truquezinho de Javé.

A veadagem acumulada rompeu os diques e acabamos antecipando nossa ida ao Garagem: fomos ontem eu, Pedro, Paula, Janaína e o ressabiado Marcos. Eu também cheguei lá meio desconfiado, mas alguns minutos e duas cervejas depois já estava até dançando sozinho na pista. Uma loirinha muito da jeitosa veio dançar comigo, o que me levou a descobrir uma nova espécie do gênero feminino: a mulher que vai à boate para se esfregar nos veados. Pois a danada se esfregou em mim até perguntar meu nome e eu responder com minha peculiar voz máscula. Então ela se desinteressou por este óbvio macho que vos fala e foi rebolar suas carnes — e que carnes — em seres mais inofensivos (porque para ser mais inofensivo que eu, só mesmo sendo bicha).
Vi três morenas das mais lindas e fornidas beijando-se alegremente, cena que não me sai da cabeça nem com muita oração, jejum e autoflagelação. Vi uma garota tirar a blusa no meio da pista — e eu era o único homem que olhava com algum interesse para seus peitos miúdos e firmes. Outras mulheres, no entanto, olhavam ainda mais avidamente, e era nestas que ela estava interessada. Uma pena.
Uma balada das melhores. Recomendo a todos, principalmente aos homofóbicos empedernidos, que assim poderão enfim libertar seu lado Pássaro Multicor da Côrte de Assurbanípal, tão oprimido e vilipendiado por toda a vida.
Ah, a festa anos 80 continua em pé pra hoje. Telefonem-me, fariseus.

Do que vocês estão falando? O Pedro e sua senhora já me falaram muito desse tal de Garagem, um lugar muito legal e cheio de mulher. Disseram que eu vou pegar mulher pra caralho. Então deixem a inveja de lado um pouco. HUMPF.
E falaram alguma coisa de boate gay também. Deve ser outro lugar, claro.

— Ai, ui, o Marcorelha tá aqui na capetal da replúmbica e vocês nem avisam onde vão tocar uma zona. Como vamos encontrá-lo para que ele abençoe nossas orelhas com sua aclamada uva passa?
Vocês de Brasília fazem um tremendo dramalhão. Como me dói o coração ver marmanjos e tietes choramingando, vou aproveitar que a bicha careca dorme o sono dos justos e adiantar logo: no sábado próximo vindouro, décimo oitavo dia do mês de outubro do ano da graça de dois mil e três, Marquito estará, ao lado de grande elenco, numa festa oitentista que vai rolar na AABB.

Ou seria na Asbac? Hm…
Bah. Dane-se. Quem mora aqui deve saber, já que essa parada tá sendo altamente divulgada no rádio. Ah, você não ouve rádio? Então vai se lascar, pra aprender a ser eremita. Estaremos todos lá e depois vamos para a Garagem, a boate mais animada da cidade. Misericórdja!
(Sim, eu me refiro EXATAMENTE a essa garagem que você tá pensando. A boate gay perto do Parkshopping. E sim, somos todos umas bichonas. Por quê? Vai encarar?)
(Pedro Nunes)

Você que mora em Brasília e fica morgando em casa durante a semana é um puta vacilão: descobri que a balada mais legal do mundo ocorre por aqui toda quarta-feira.
Ontem fomos — Janaína, Marcos, Pedro Menininho Nunes e Paula, sua senhora, Frances, meu quase namorado, e eu — até um lugar chamado Gates (acho), onde rolaria uma tal de Quarta Vinil. Imaginei tratar-se de algo parecido com a Trash 80’s de São Paulo, e a visão da fila imensa e lenta na porta me desanimou um pouco. Depois de quarenta dias e quarenta noites na fila, finalmente entramos no lugar. Demorei um segundo para reconhecer o som que rolava, e mais de um minuto para me convencer de que meu ouvido não me enganava: na pista de dança dezenas de pessoas dançavam felizes ao som de Cartola. Depois tivemos Chico Buarque, Paulinho da Viola, Clara Nunes, Beth Carvalho, Secos & Molhados, Roberto Carlos, raridades de Tim Maia e Jorge Ben e mais uma caralhada de bandas nacionais dos anos 80. Se dependesse de mim, moraria lá.
Onde fica? Sei lá! Num desses endereços errados de Brasília.