Cheguei em casa e o segundo pacote do Submarino desta semana me esperava sobre a mesa. “A Letra A”, do Nando Reis. Então desfiz o pacote às pressas, abri o compartimento do CD-player, tirei o CD do Coldplay e botei o do Nando. Antes de fechar o compartimento, um pensamento fugaz borboleteou pela minha mente: Coldplay, Nando Reis? Não é dar muita sopa pra tristeza não? E, pra piorar, pensamentos fugazes andam borboleteando por aqui, ou seja, estou virando bicha.
Bom, dando ou não sopa pra tristeza, Nando Reis vale a pena. Pelo caráter que tem, pela honestidade que transmite em tudo que diz e faz, pela voz que tem, pela poesia que produz, pela música que compõe, pelo violão, pelo contrabaixo. Nando Reis é daqueles caras que dizem as coisas que a gente queria dizer e não sabia como. Bah, a gente nem sabia que exisitiam palavras praquela tristezinha que às vezes chega a ser agradável, aquele nó na garganta que a gente nem percebe mais, aquela lágrima que teima em cair e a gente diz que é sono ou conjuntivite. E o faz de forma simples, em versos como “E agora que eu amo você / O mundo não precisa nunca mais girar”. O que é muito difícil, ainda mais nesta nossa era de compositores pretensiosos como Lenine, Zeca Baleiro, Chico César e toda aquela corja da Trama. Se simples fosse fácil, diz o mestre Erasmo Carlos, já teriam feito outro “Parabéns a você”…
Ainda estou digerindo o disco novo. Primeira audição e acabo de chegar à metade do CD, mas já escolhi qual vai ser a música para ouvir sem parar, pelo menos por enquanto:
Hoje mesmo
O jeito que você arruma seu cabelo
procurando aquele efeito que o mundo
não quer reparar:
— revela tanto
E o tempo que demora para decidir
se aquilo que está ouvindo é
convincente para poder concordar
— e me deixa esperando
Eu posso esperar
Assim que eu entro, já no cumprimento
eu reconheço as múltiplas perguntas
que na ausência entram em meu lugar
Seus olhos fitam com medo
A única certeza que eu tenho é absurda
pois a dúvida sustento, por quê
não me mudar
pro seu apartamento
Hoje mesmo
Hoje eu vou sair por aí anunciando que o sol
não vai mais se deitar
As plantas gostam de chuva, mas por você
nem mesmo as nuvens teriam
razão de haver em nenhum lugar
Não…
Se um gênio perguntasse quais seriam
os meus três desejos, o primeiro:
— pra te ver aos dezesseis anos
Não há idéia que alcance ou seja parecida
com a imagem da menina
esguia, a bolsa a tiracolo
— e as pedras só pesando
Pois ela nunca irá jogá-las.
O seguinte, segundo desejo,
emoldurar no céu
o seu sorriso que eu pensei
que nunca mais pudesse reencontrar
O filho cria a mãe
E o último, complexo, honesto e genuíno,
amar sem precisar da dor,
querer também sem magoar
Tocar seu corpo
Hoje mesmo.
Não tenha medo!
O nosso amor é essencial
Nenhum amor é imortal
Eu gosto de você!



