Tempos atrás discutíamos na mesa do bar a inscrição que gostaríamos de ter em nossas lápides. Eu escolhi um verso do Chico Buarque, A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu. Mas vai que o cara me manda um processo post mortem… Então hoje de manhã resolvi criar minha própria frase (boa maneira de começar o dia, hein?). Saíram duas. Meu lado de músico meia-boca fez essa:
“Mais uma corda que arrebebenta na harpa desafinada de deus”
Já o meu lado escritor medíocre prefere:
“Mais um rascunho no cesto de lixo de deus — Um dia ele acerta”
Já que algumas das pessoas que lêem este blog provavelmente serão responsáveis por essas coisas quando chegar a hora, é bom que não se esqueçam.
Mês: março 2002
Anatomia
Este é o título de um filme alemão protagonizado por Franka Potente, a mesma de Corra, Lola, Corra. Ela é uma estudante de medicina que se destaca e vai para Heideberg. Lá ela descobre uma sociedade secreta que faz pesquisa dissecando pessoas vivas. É muito legal (apesar da maquiagem tosca: um cara que sofreu três cortes no rosto na cena anterior aparece em close. Dá pra ver claramente que os cortes são aqueles adesivos que qualquer um pode comprar nas lojas de fantasia da Ladeira Porto Geral). Bom, esse negócio de falar de filme eu deixo pra Bárbara. Quero falar de outra coisa: Eu sei que existe o idioma alemão. Mas mesmo assim é impressionante ver as pessoas falando alemão em casa, na rua, no boteco. Porra, tá bom, é a Alemanha, mas pra que tamanha tortura? Por que eles não falam alguma coisa mais simples no dia-a-dia e deixam o alemão para os filósofos? Dá dó de ver o cara se esfalfando de tanto falar, e a legenda com duas, três palavras.
Em que eu acredito
Muita gente me pergunta em que eu acredito. Pois bem, eu acredito em coisas como esse bilhete aí embaixo. O rapaz de 23 anos que o escreveu em 1967 não sabia se a menina de 16 anos iria aceitar ou não namorar com ele. E não tinha como saber que ela não só aceitaria como ficariam noivos no ano seguinte. E nem imaginava que iria se casar com ela em janeiro de 1974 e que teriam três filhos e que estariam juntos ainda no longínquo ano de 2002. Não passava pela cabeça de ninguém, nem dos mais ardorosos fãs de ficção científica, coisas como a Internet. Portanto, esse rapaz nunca ia imaginar que seu filho mais velho seria autor de uma coisa chamada blog, e que um dia teria a idéia de publicar o bilhete que juntou seus pais. Ah, e hoje meu pai é um ferrenho defensor da língua portuguesa, o que ele não era nem pensava em ser em 1967.
Eu acredito nisso: na força do que tem que ser.


Realejo
Quem me conhece sabe que eu nunca fui crédulo, e o sou cada vez menos. Mas hoje, saindo para o almoço, deparei-me com um tocador de realejo. Há tempos não via um, e fui encontrá-lo justo aqui, no Vale do Silício paulistano, o Olimpo da Tecnologia. Não resisti ao contraste e paguei ao cara os R$ 1,50 que ele cobra pelo serviço do periquito (sim, porque o serviço dele é só girar uma manivela). A inteligência das aves não pára de me surpreender, e defendo que os tocadores de realejo dividam os lucros de igual para igual com seus periquitos, ainda mais porque sempre parece que o periquito é o mais inteligente da dupla.
Outra razão para eu gastar meu dinheiro com tamanha bobagem foi que eu me lembrei de uma ocasião, meu irmão devia ter pouco mais de um ano de idade, quando minha mãe também tirou a sorte para ele no realejo. Ela não se lembra disso, e claro que ele também não lembra. Mas o bilhete ficou muitos anos guardado, e dizia que o menino era a alegria dos pais e dos irmãos, o que ele de fato era, e continua sendo aos 22 anos de idade.
Mas eis meu bilhetinho:

Três anjos aparecem a Abraão (Sodoma e Gomorra, Parte 1)
Permitam que eu explique minha relutância em começar logo essa história de Sodoma e Gomorra. Primeiro, é um episódio confuso: Abraão vê três caras, e o narrador algumas vezes se refere a eles apenas como “os varões” e outras como “o Senhor”. Isso, é claro, tem dado nó na cabeça de teólogos das três grandes religiões monoteístas. Para uns são dois anjos e deus, para outros é deus se manifestando na forma de três homens, porque o cara é foda e pode se manifestar do jeito que quiser. Além da confusão, é uma história meio comprida, então vou dividir em partes.
Pois bem: estava Abraão sentado na entrada da tenda, por um lado criando coragem pra encarar Sara pelada (uma mulher de noventa anos, imaginem, e naquela época! Se fosse hoje, era capaz até de a Penthouse chamá-la para um ensaio, feito uma Dercy Gonçalves semítica, mas não naqueles tempos, que eram bem mais respeitosos) e tentar logo fazer o tal do filho que deus tanto prometia; mas no fundo torcendo para que deus olhasse bem para o ridículo da situação e dissesse: “Deixa isso pra lá, vem pra cá, que que tem, já tem o Ismael aí, fica ele e tudo bem”. Pobre Abraão, não tinha como saber que era mera vítima das Pegadinhas de Jeová…
Eis que ergueu os olhos e viu três homens embaixo de uma árvore. Como ele soube que se tratava de uma manifestação divina, ou de deus e dois anjos, ou de três anjos, não se sabe, mas correu pra lá pra dar aquela bajulada. “Ô, seus moços, fiquem aí um pouco, eu falo pra velha fazer um bolo, mato uma vitela aí e faço um churrasco, coisa rápida e vocês seguem viagem de barriga cheia, que é sempre melhor”. Os três aceitaram e lá foi o velho preparar tudo “Vai, Sara, faz um bolo aí que temos visita”. Sara fez o bolo, porque não é de hoje que os homens levam amigos pra casa sem avisar antes. Abrão ordenou a um criado que preparasse uma vitela, coisa fina. Tudo pronto, levou a refeição para os varões (não é o que vocês estão pensando com suas mentes poluídas, seus hereges).
Conversa vai, conversa vem, Abraão perguntando como andavam as coisas no céu, os caras perguntando onde tinha um lugar bom pra pescar por ali, essas coisas. Então perguntaram: “E a patroa, Abraão, cadê?”. “Ta ali, ó, na porta da tenda”. Então disse o Senhor (tão vendo? São três caras, e de repente muda e é o Senhor que fala, depois são os três, uma confusão): “Dia desses eu volto aí pra visitar o moleque de vocês que ainda vai nascer”. Ora, imaginem a Dercy, digo, Sara, com noventa anos ouvindo isso. A menopausa já tinha passado fazia muito tempo. E ela pensou: “Como é? Que que esses porras tão falando?”. Ah, não, isso seria a Dercy mesmo. Sara pensou: “Mas eu, com noventa anos, meu velho já nas últimas também, vou eu lá ter vontade de fazer menino com ele a essa altura do campeonato?”, e começou a rir (Vejam que naquela época todo mundo ria de deus, agora não pode mais, vai entender). E perguntou o Senhor (que são os três caras, ou um só, sei lá): “Que negócio é esse? Não se tem mais respeito? Sua mulher ri de mim assim, na cara dura?”. Sara, querendo dar uma de esperta disse que não tinha rido. “Por que ta falando isso agora? Eu vi você rindo”. “Não ri”. “Riu”. “Não ri”. “Riu”. “Não Ri”. Bom, percebendo que a conversa desse jeito ia longe, disseram os anjos: “Sara, ide à merda, eis que temos mais o que fazer além de ficar nessa discussão que mais parece diálogo do ‘Chapolim’”.
Começaram a se afastar, mas Abraão gostava de tomar intimidades e foi seguindo os caras. Porra, tava certo: Três anjos aparecem no seu quintal, comem da sua comida, brigam com sua mulher e depois saem sem falar o que estão fazendo por aqui? Ah, não, inaceitável! E Abraão foi atrás e perguntou o que tava rolando. Os três se olharam, pensaram, e resolveram contar: “Andam falando barbaridades de Sodoma e Gomorra. Dizem que nessas cidades ninguém segura a putaria, tá uma zona aquilo. Então viemos pra ver, se for verdade eles tão na roça, se não for a gente já fica sabendo”. E retomaram o caminho.
Fotos do Casório
Querem ver as fotos? Querem é? Tá, então cliquem aqui, cambada.
Preguiça
Preciso contar a história da destruição de Sodoma e Gomorra. Mas a preguiça é muita, então vão clicando aqui para ver e ouvir a performance deste que vos fala tocando “É Preciso Perdoar”, de Carlos Coqueijo e Alcivando Luz, cuja gravação por João Gilberto dispensa comentários.
Ah, a minha versão? Putz, é horrível.
