Cheguei agora há pouco em casa. Peguei o ônibus lá na Berrini às 17h30 e cheguei aqui quase às oito da noite. Trânsito, greve de ônibus, caos. Mas tudo bem, porque nos dias normais eu levo uma hora e meia para chegar. Uma hora e meia dentro de um ônibus ouvindo o Radar da Nova FM, o pior programa de rádio do mundo. E por quê? Porque eu sou um derrotado, porque escolhi essa vidinha medíocre, essa bestagem toda. Apesar do meu terno e da minha gravata de 50 reais, sou um bóia-fria. Saio de casa quando ainda está escuro para pegar o ônibus que atravessa a cidade recolhendo meus colegas bóias-frias, muitos deles sinceramente contentes em sê-lo. Essa entidade onipotente e disforme chamada Mercado não passa de uma fazenda. Sim, você pode sair quando quiser, desde que pague suas dívidas no armazém da fazenda. Mas você nunca vai pagar, porque o armazém já está em você, porque o mercado inventa necessidades que você acolhe alegremente, porque o salário que você ganha está longe de ser alto mas garante a você o cheque especial e o cartão de crédito para compras parceladas, e as parcelas vão se empilhando. Você nunca paga suas dívidas, então você está preso à fazenda para sempre, e a fazenda te suga, a fazenda come o seu rabo todo dia, e você agradece a deus pela fazenda enquanto conta as pregas que lhe restam.
Eu devia estar contente porque eu tenho um emprego, sou o dito cidadão respeitável e ganho dois mil reais por mês, mas eu acho tudo isso uma merda muito grande. Porque a fazenda se dá ao direito de mandar embora quatro de meus amigos como quem espreme uma espinha. Porque o administrador da fazenda só quer mesmo saber de passar pelos corredores assoviando e ignorando os bóias-frias.
Então quando eu vejo um moleque feito o Pelezinho, que além de ser inteligente pra caralho é um músico dos mais talentosos, eu tenho ganas de descer o braço no filho da puta até ele aprender que não deve se resignar a ser subordinado de um derrotado feito eu, que ele deve esfregar seu talento na fuça do mundo e dizer “Eu tô fora dessa porra”.
Alguns dizem que eu escrevo bem. Eu escreveria bem, se me dedicasse a isso. Ah, mas não, estou ocupado demais fodendo a minha vida.
CONCURSO!!!
O 14.000º visitante ganha um beijo na boca.
Jacó resolve se mudar para o Egito
Após fazerem mais uma vez a longa viagem (só que dessa vez no maior conforto), os filhos de Jacó chegaram a Canaã sem maiores problemas e foram logo falar com o velho.
— Pai! Ô, pai! Arruma as coisas, chama a cambada toda. Nós vamos morar no Egito!
— Como é que é?
— É isso aí! Estamos de mudança, viemos buscar o senhor.
— Que que eu vou fazer no Egito, seus songo-mongos? Gosto daqui, Canaã é minha terra. Que idéiazinha de jerico essa de vocês.
— De Jericó?
— Não, porra! De jerico! Jericó é lá com Josué, vai demorar ainda pra chegar nessa história. Tô falando dessa idéia de se mudar pro Egito. Pra quê? Pra passar o dia vendo pirâmide?
— Hum… Ainda não tem pirâmide lá não.
— Tão vendo? Nem pirâmide tem naquela merda, que que eu vou fazer lá?
— Pai, cê não tá entendendo nada. A gente tem que ir pro Egito porque o José está lá! O José, pai!
— Dã, não foi à toa que eu te dei esse nome. Cê é um babão retardado mesmo. Não sabe que José morreu já faz muito tempo?
— Não morreu não, pai! A gente pensou que ele tava morto, mas ele tá lá no Egito! E agora é que o senhor não vai acreditar mesmo: Ele é o governador de lá!
— Ah, pelo menos te resta um pouquinho de inteligência. É CLARO QUE EU NÃO VOU ACREDITAR, PORRA! Como é que um de nós ia ser governador do Egito? Ainda mais um defunto? E, caralho, vocês disseram que o governador do Egito é viado. Meu filho era macho!
— Tem pai que é cego…
— Como é que é?
— Nada não. O senhor não acredita, é? Pois então olha ali fora. Olha lá, dois ônibus mais uma carreta de mantimentos, tudo com placa do Egito. Como o senhor explica isso?
— Hum… Não sei… SEI SIM! Isso deve ser aquela porra de Telegrama Legal do Gugu! Desde que eu fui naquela merda de programa pra reencontrar o Esaú que eu tô esperando me aprontarem alguma. Cadê a câmera? Cadê? Acabou a brincadeira, podem ler o telegrama aí, eu choro, vocês choram, tudo bem bonito. Vai logo, quero dormir.
— Mas pai…
— “Mas pai” o cacete! Não vão acabar com a brincadeira? Então saiam da minha tenda, vou dormir. Não sou palhaço.
— Mas… Mas…
— BAH! FORA DAQUI! SONGO-MONGOS!
Os irmãos saíram desconsolados. Pelo jeito não ia ser fácil tirar o velho de Canaã. Passaram a noite em claro discutindo e procurando uma forma de convencer o pai a se mudar para o Egito. Mas nem precisavam disso, porque durante a noite receberam uma ajuda inesperada. Jacó estava dormindo quando ouviu alguém chamá-lo:
— Israel! Ô, Israel!
— Israel é o car… Peraí. Só tem uma pessoa que me chama por esse nome. É você que tá aí?
— Sou eu, Israel! Jeová! Javé! O deus de Abraão, de Isaque, de…
— Tá, tá, já sei quem é. Toda vez você precisa se apresentar? Que é isso, mal de Alzheimer?
— Tá bom, desculpa, foi mal.
— Tudo bem, não tem problema. Mas e aí, deus, que cê me conta? Há quanto tempo!
— Pois é, rapaz. Ando ocupado aí com outros projetos e tal. Mas resolvi te fazer uma visita assim que sobrou um tempinho. Tô aí, na correria. E você?
— Mesma coisa, mesma coisa. Essa fome agora tá foda, a gente tem que trabalhar mais e nem vale a pena.
— É, sei disso. Mas então por que você não vai pro Egito? Lá tem comida sobrando.
— Você também com essa história de Egito?
— Porra, Israel. Você já tá velho, não pode ficar se arriscando por aqui, nessa terra estorricada. E pense nos seus netos, as crianças não merecem isso. Além do mais, José é governador do Egito. O que você tá esperando pra ir lá reencontrar seu filho mais querido?
— Ai, essa história de novo… Cê não sabe que o governador do Egito é bicha? Como é que um filho meu ia virar bicha, deus?
— Tem pai que é cego…
— Como?
— Nada não, deixa pra lá. Eu quero é que você atenda o pedido dos seus filhos e se mude para o Egito.
— Ah, você quer, é? E eu com isso? Pfffffff…
— Escuta aqui! Eu sou é deus, tá me ouvindo? Eu sou é deus, e tô mandando você ir pro Egito! A gente trabalha pra caralho, cria todo um universo, tudo bonitinho, pra vir um hebreu sem-vergonha dar uma de folgado pra cima da gente? Ora, meu ovo! E digo mais: Você me faça o favor de passar a assinar como Israel, que eu escolhi esse nome com o maior carinho.
A voz trovejante de deus intimidou Jacó, e ele achou que era melhor mesmo se mudar para o Egito. E a história de José ser governador podia mesmo ser verdade.
— Tá bom, deus. Eita! Não precisa ficar tão puto. Amanhã mesmo eu junto todo mundo, entramos nos ônibus e vamos embora para o Egito. Beleza?
— Assim é que se fala, Israel. Que beleza! Bom, preciso ir. Nos vemos por aí.
— Falou, deus. Té mais.
No dia seguinte, Jacó chamou os filhos e anunciou que resolvera aceitar a sugestão deles e estava pronto para ir embora pro Egito. Os irmãos quase não acreditavam, e mais que depressa juntaram suas famílias, sua tralhas, e se aboletaram todos nos ônibus. E lá vão eles para o Egito de novo, só que dessa vez para ficar.
Acho que hoje tem mais
Volta aí mais tarde, capaz de ter mais historinha.
FANSIGN CHAPADO!!!
Quem me manda este fansign é o Carlos Lopes, o capeta da foto. O Carlos é outro que vai pro céu por ler o Jesus, me chicoteia! desde quando Jesus só dava umas chineladas. Valeu, véio!

Última Chance
O Genérico Incolor cê já leu hoje, né? Também não??? Ah, vai pra puta que te pariu, porra!
Ave Mamífera
E por falar nisso, e o Leite de Pato, cê já deu uma passada por lá hoje? Não??? Né possível, cê tá querendo apanhar…
Ranho
Você já leu o Catarro Verde hoje? Por que não, caralho? Cê tá louco???
DOIS MIL COMENTÁRIOS!!!
Ôpa! Chegamos ao 2000º comentário! E foi feito pela Denise, ansiosa pela continuação da história. Denise, só por isso amanhã já vai ter história nova.
José manda buscar Jacó em Canaã
Arrá! Pensaram que não tinha mais, né? Pois sosseguem o rabo, que ainda temos muita história pela frente.
José acaba de revelar sua identidade a seus estupefatos irmãos. Vamos a ele.
— Mas e aí, meninos? Quero novidades! O que me contam do papai? Está bem de saúde? E a terrinha de Canaã, na mesma pasmaceira de sempre? Contem tudo!
— …
— Ai, credo! Que foi, o gato comeu a língua de vocês? Ah, já sei… Cheguem aqui mais perto. Não estão conseguindo acreditar, né? Pois olhem bem, sou eu mesmo, José, em carne e osso. Muito mais osso que carne, com essa pobreza toda. Mas tem seu lado bom, eu não entrava nessa túnica há anos, e agora está até folgada… Ai, desculpem, eu disperso demais. Onde é que eu estava mesmo? Ah! Então, podem acreditar, sou euzinho. Vocês me venderam como escravo e hoje sou governador do Egito. É uma história comprida, não dá pra contar agora. Eu só não quero que vocês se culpem pelo que fizeram. Tá, foi uma puta sacanagem e eu devia estar putíssimo com vocês. Mas não consigo, porque no fim tudo deu certo, então venham aqui abraçar o irmãozinho.
José abraçou os irmãos um a um, e foi aquela choradeira que vocês podem imaginar. E a choradeira aumentou quando abraçou Benjamim, único irmão também por parte de mãe. Bom, não vamos nos perder em minúcias, mesmo porque essa cena de doze marmanjos chorosos e catarrentos é deveras constrangedora. Depois da melação toda, José continuou o papo:
— Mas vocês não falaram nada ainda! Como está papai?
— Ah, tá muito bem, José. Cento e trinta anos, mas nem parece. Xinga a gente o tempo todo, mas acho que no fundo ele gosta da gente.
— Sei não, acho que nem no fundo ele gosta da gente.
— Calaboca, Judá.
— Ai, que saudades de papai! Pronto, decidi um negócio: Vocês vão voltar pra Canaã, pegar o pai e trazer ele e todas as coisas pra cá. Vocês vão morar aqui no Egito, pertinho de mim.
— Ô, José, cê parece que não conhece o pai. É mais fácil fazer o Cristo Redentor ir morar em São Paulo do que arrancar ele de Canaã.
— Ai, é verdade… Faz o seguinte: Explica pra ele que essa fome que já dura dois anos ainda vai se prolongar por mais cinco. Há nove anos o Faraó teve um sonho e eu interpretei, e era isso que o sonho dizia: sete anos de fartura seguidos de sete anos de fome. Por isso que aqui no Egito tem comida, porque a gente já sabia antes e armazenou mantimentos durante a fartura. Então digam lá pro pai que se ele ficar em Canaã, ele, vocês e suas mulheres e filhos vão morrer de fome. A única solução pra vocês é vir pro Egito.
— Tá, nós vamos tentar. Mas não garantimos nada. O velho é cabeça dura.
E foi isso. Ou seria. Os irmãos já se preparavam para mais uma longa e cansativa viagem até Canaã para depois voltar ao Egito quando o Faraó ouviu dizer que os irmãos de José tinham aparecido.
— Irmãos de José? Os irmãos de José? Porra, que legal! Fala pra eles virem pra cá, quero conhecer os caras.
— Hum… Acho que não vai dar, seu Faraó. Parece que o José mandou eles de volta pra Canaã para pegarem o pai, as mulheres, os filhos, a tralha toda e virem morar aqui no Egito.
— Pra virem morar no Egito! Porra, será uma honra! Mas como eles vão pra lá?
— Em lombo de jumento, ué.
— Jumento é meu pau de óculos! Mas nem fodendo que eu vou deixar os irmãos do meu melhor amigo viajarem de jumento. Em quantos são os familiares do José que vão vir pra cá?
— Olha, pelo que ele falou, são sessenta e seis pessoas no total.
— SESSENTA E SEIS??? Porra, aquele povo não tem televisão? Tá, tudo bem. Tava pensando em mandar uma van pra lá, mas acho que não vai dar. E tem os animais também. Faz o seguinte: Freta dois ônibus e mais uns caminhões pra trazer o rebanho todo. Ah, e uma carreta de alimentos também, para a viagem de ida e volta. Quero nossos visitantes no maior conforto.
— Pois não, seu Faraó, tô indo agora providenciar o transporte.
— Hum… Só mais uma coisinha.
— Sim, Faraó.
— Vê se vocês ensinam as mulheres desses caras a tomarem anticoncepcional. Se eles continuarem a se reproduzir nesse ritmo, sinto que teremos problemas…
Tudo foi providenciado conforme as instruções do Faraó, e os onze irmãos foram para Canaã numa mordomia nunca sonhada. Tudo muito bom, tudo muito bem. Agora só precisavam convencer o velho Jacó a trocar Canaã pelo Egito.
