Eu trabalhava no Largo do Arouche naquela época. Saí do escritório debaixo de uma chuva encardida de tão filha da puta, usando meus sapatos novos de sola estupidamente lisa e meu guarda-chuva de camelô. Na esquina da Duque de Caxias com a São João uma calçada de lajota molhada somou-se a esta combinação já imbecil: Escorreguei na calçada, o guarda-chuva quebrou. Tudo isso em frente a um boteco lotado de bêbados. Bêbados, sim, porém mais equilibrados que eu: Caído de bunda, guarda-chuva escangalhado na mão, tentei me levantar. A meio caminho do sucesso, caí de joelhos. “Ô, porra…”, tentei de novo e caí de bunda. Bom, a operação se repetiu algumas vezes até eu tomar uma decisão inteligente: Joguei a porra do guarda-chuva longe, arranquei os sapatos e fui andando descalço até um lugar que tinha uma calçada decente, com bastante pedras. Atrito, atrito, aleluia, não caio mais!
Cansei de dizer que meu emprego atual seria o último. Cansei. Disse isso porque vislumbrava possibilidades de futuro. Mas cada chance que tenho é como uma tentiva besta de me levantar do chão. Nasci caído de bunda, e tudo indica que continuarei assim. Mesmo porque vivo numa sociedade de caídos de bunda, em que essa posição prostrada e humilhante é bem vista, e quem anda altivo sobre os dois pés é imediatamente tachado de esquisito.
A tudo a gente se acostuma. Estar caído de bunda nem é tão ruim assim quando passa a dor da queda. A merda é quando começa a chover: É o chefe que fala do que não sabe, é o aumento prometido e jamais concedido, é a demissão paulatina dos poucos amigos.
A situação está, sim, insustentável. Eu devia mesmo era pedir demissão e sair andando feito homem, em direção a minha querida Jericoacoara. Mas para quê? Viver de escrever? Falta-me o talento. Trabalhar de garçom e alugar uma casinha longe da praia? Não me iludo: a vida de garçom deve ser pior que esta minha de agora.
Então agora caio de joelhos para procurar um novo emprego, e aí ir todo feliz cair de bunda nele e repetir toda a porra do ciclo mais uma vez. Antigamente eu cairia de joelhos para pedir orientação divina. A fé em deus era o que eu tinha de mais importante na minha vida. Mas a perdi numa dessas quedas, e não estou com disposição para ir procurá-la no bueiro.

– Trabalham aqui comigo 25 pessoas. É óbvio que todo mundo se conhece. No entanto, a maioria anda com o crachá pendurado no pescoço, como se fosse necessário ter esse tipo de identificação bem visível.
– Os homens vêm trabalhar de paletó. Ou melhor, vêm sem paletó no carro, vestem o paletó no estacionamento para atravessar a rua, entrar no prédio e subir quinze andares de elevador, para tirar o paletó e pendurar no encosto da cadeira. Passam o tempo todo sem paletó no ambiente do escritório, que tem ar-condicionado, para colocarem o paletó ao sairem para o almoço, andando debaixo de sol.
– Todo mundo está sem paletó no escritório. Aí tem uma reunião, e todos botam o paletó para participar dela. Não precisa ser reunião com cliente nem nada assim, uma reunião entre os mesmos caras que passaram o dia todo sem paletó.
– A gravata. A gravata é um absurdo. Apresentem-me UM argumento plausível a favor da gravata e eu saio na Avenida Paulista pelado. Só de gravata.
– Pessoas que não falam inglês mas conseguem enfiar três termos desnecessário em inglês no meio de uma frase de seis ou sete palavras.
– Gente que fala normalmente com você o tempo todo. Aí, numa reunião da qual só participam vocês dois, passa a usar uma linguagem rebuscada. E cheia de termos em inglês, é claro.
Ah, tem um monte. Esse negócio todo de acordar, se enfiar num ônibus durante uma hora e meia para ficar quatro horas num escritório, sair durante uma hora, voltar e ficar mais quatro horas, depois enfrentar mais hora e meia de ônibus, puta que pariu! Absurdo, absurdo! Será que só eu vejo, caralho?

… Não é só o Pelezinho que escreve durante o expediente: eu também. E pior, meu chefe lê meus blogs. Hum… Ô, Chefe, esse negócio de horário nos blogs é meio traiçoeiro! A gente escreve à meia-noite e aparece lá “Posted at 14:45”. Que loucura, não? Hehe.

O Pelezinho de vez em quando serve para alguma coisa. Ele tava aqui do meu lado ouvindo um som. Achei do caralho e perguntei o que era. A Movie In My Head, de uma banda escocesa chamada Maxells. E eu achando que depois de conhecer Belle & Sebastian o rock escocês nunca mais me surpreenderia. Nota dez.