Eu achava que só o abandono da religião causasse eventuais sentimentos de culpa. Qual o quê! Foi só eu criticar a esquerda para meu passado me condenar em forma de sonho.
Sonhei que tocavam a campainha lá de casa, e era o senador Aloízio Mercadante. Vinha com duas gordonas e vinha pedir ajuda: seu carro enguiçara e ele precisava de uma carona urgente. Eu, bom companheiro que sou, me dispus a ajudar o trio.
Saímos rodando por São Paulo, o senador ao volante, eu no banco do carona e as fofoletes no banco de trás. Sobe rua, desce rua, vira aqui, vira ali, eis que chegamos ao alto de um morro. Ninguém em volta. Nada.
— Desce — ordenou Mercadante, já destituído de sua simpatia costumeira.
Eu obedeci. Ele também desceu e me ofereceu um Toddynho.
— Foi você que chamou o pessoal da USP de vagabundo, né?
A pergunta era retórica. Antes que eu tentasse me justificar, o senador puxou uma arma e ordenou:
— Sai andando.
A idéia dele fazia todo o sentido no sonho: quando achassem meu corpo, diriam, “Coitado, estava caminhando tranqüilamente tomando seu Toddynho, foi vítima de bala perdida”. Revoltado com isso, peguei o canudinho e rabisquei “Foi o PT” em um braço e “Mercadante” no outro. Assim que terminei, ouvi os disparos, senti uma dor nas costas e caí.
Acordei assustado. Quando voltei a dormir, sonhei que o pagodeiro Alexandre Pires tinha gravado uma música de autoria do meu pai. A música falava sobre os males da passagem do tempo. Só lembro de um trecho: “Eu queria ter a palavra unânime / seeeeeeer uma pessoa unânime”.
Acho que esse sonho não teve nada a ver com o anterior.

Rapidinho.
Tinha um povo discutindo religião numa sala. Então chegou o Zé, irmão da minha mãe, e cantou a seguinte canção (com a melodia de “O Cravo Brigou Com A Rosa”):
Se você quer ser amigo
amigo do coração
vivendo sempre contente
dá a bunda e vira crente.

Foi esse o sonho.
Depois eu volto.

(E obviamente eu passei o dia todo com o raio da cantiga grudada na cabeça. É o diabo…)

Ô, também faz tempo que não conto meu sonhos aqui. E o dessa noite foi muito legal: Estava assistindo TV e tinha uma propaganda do governo federal. Várias pessoas cantando num coral: FHC, Dona Ruth, os ministros todos, os líderes do governo no Congresso. E quem dirigia tudo era o MPB-4. A música era sobre as realizações do bi-governo FHC. Não lembro a letra toda, só sei que terminava com “e a ajuda de Nosso Senhor!”. Aí sumia a imagem, mas continuavam as vozes, e os caras do MPB-4 começavam a improvisar com esse final, mudando a melodia. Só consigo me lembrar de uma, com a melodia de Tico-Tico No Fubá:
Nosso Senhor cá,
Nosso Senhor lá,
Nosso Senhor está bicando meu fubá.

Será que cabe interpretação?

Bom, essa noite sonhei que Osama Bin Laden resolvia começar seus planos de dominação mundial bombardeando a minha casa. E depois ele ia fazer um discurso em Beirute, no Líbano, e chamava os habitantes de Beirute de kriptonitas. “O povo kriptonita não pode mais viver dessa maneira. Uma nova guerra destruirá a cidade. Com isso quero dizer que destruirá os palacetes dos ricos, porque os pobres já estão sem casa há muito tempo”. E ele ia fazendo esse discurso em cima de um carro parecido com o Papamóvel, rodando pelas ruas de Beirute enquanto os kriptonitas o saudavam com tiros para o alto. Passaram em frente a um agrupamento particularmente grande de kriptonitas e um deles, em vez de atirar para o alto, acertou o Osama, matando o pobrezinho. Sem ter como saber qual deles tinha sido autor do disparo, a guarda do morto partiu para a solução mais fácil: Metralhou todo mundo.

* * *

Mas legal mesmo foi o outro sonho. Eu estava dando uma palestra e mostrava no telão um slide com a seguinte figura:


Apontando para o slide, explicava à platéia:
— Estão vendo? Se atravessar na faixa fosse mesmo tão importante, John Lennon não teria morrido!
Cáspita, eu consigo ser mais infame nos meus sonhos do que sou na vida real.

Lembram que tinha um quadro com esse nome no “Viva a Noite”? Mas não é disso que eu vou falar.
Quero falar de um sonho que eu tive essa noite. Sonhei que conhecia um ourives judeu que tinha sua loja em Moscou. Fui visitá-lo nas férias e fiquei conhecendo um amigo dele, um russo que sabia tudo sobre o Brasil. Esse cara dizia que tinha atravessado o Atlântico num barco a remo até o Brasil. No meio do oceano, dizia ele, tinha se perdido. Depois de dias à deriva, já sem esperanças, apareceu outro barco a remo pilotado por um negão muito grande. O negão ensinou pra ele o caminho para o Brasil, e ele tinha certeza de ter sido auxiliado por um orixá. Pois bem, o cara sabia tudo de samba, falava português perfeitamente e o caralho. Aí corta pra outra cena, sonho é assim: Estou numa salinha atrás da loja do meu amigo judeu e ouço uma discussão. Vou lá ver e o russo-brasileiro está lá, apontando uma arma para o dono da loja. O judeu diz: “É só isso mesmo que eu espero de um stalinista feito você, seguidor de um ditador sanguinário”. O cara fica puto: “Eu estou traindo a memória de Stalin, não tenho escolha, então cala a boca e me passa as jóias”. Nessa hora eu entrei e falei pro cara que tinha ouvido tudo. Exigi metade do resultado do roubo, ele concordou. Depois que ele foi embora, devolvi essa metade para o judeu e quis saber o que tinha acontecido.
Pois bem, o quase-brasileiro tinha sido encarregado pelo governo russo de colher informações sobre a história do Brasil desde a Independência até os dias de hoje. Os caras desconfiavam que o Brasil era um país de mentira. Não acreditavam que o quadros das proclamações da Independência e da República retratassem a realidade. Tinha um outro quadro também, invenção do meu sonho, chamado “A Primeira Constituição”. Tinha uns caras sentados, uns de farda outros de terno, numa mesa ao ar livre, assinando um livro com uma pena. Ao lado da mesa tinha um cara com um estandarte e na frente uma multidão, no meio da qual despontavam outros estandartes, com mensagens patrióticas e tal. Pois então, os russos também achavam que era mentira isso.
E os caras queriam saber coisas mais recentes também: Onde estavam os milhões desviados pelo esquema PC? Por que o país mudara de moedas tantas vezes em vinte anos (e o cara tinha cédulas de cruzeiro, cruzado, cruzado novo, cruzeiro, cruzeiro real e real pra mostrar pros chefes dele, esqueci alguma?).
Marquei de encontrar o espião no dia seguinte e fui conversando com ele no carro. Pra conquistar a confiança dele, fui elogiando o Stalin, e ele me soltou outras informações.
Caí na besteira de comunicar as autoridades brasileiras e li no Pravda do dia seguinte (no sonho eu sabia russo, desnecessário dizer): “Brasil declara guerra à Rússia”. Pra garantir meu rabo, peguei minhas coisas e me empirulitei pro Brasil. Aqui chegando, comecei a notar o clima de guerra. Todo mundo convocado, inclusive eu. A Globo fazendo matéria atrás de matéria sobre as ex-repúblicas soviéticas. Tinha uma matéria falando dos muçulmanos do Azerbaijão, outra mostrando uma sinagoga na Letônia onde tocava uma banda de rock, outra mostrando uma missa ortodoxa na Lituânia, tudo isso para apoiar os diplomatas brasileiros que estavam naqueles países tentando convencê-los a permitirem a instalação de bases brasileiras em seu território.
Aí teve uma batalha naval (de verdade, não aquela do Bozo) e eu fui pra lá junto com o Risadinha (meu amigo, tocador de berimbau) num porta-aviões. Muito louca a batalha, com navios, submarinos, helicópteros, caças. Depois disso ainda fomos os dois pilotando uns caças pra destruir o Kremlin, muito louco!
Depois da destruição do Kremlin, começaram os rumores sobre o uso de armas nucleares por parte da Rússia. Aí ficou todo mundo aqui no Brasil com o cu na mão: Como é que não tínhamos pensado nisso? A TV começou a mostrar as manobras do exército russo preparando a ofensiva. E claro que eu acordei nessa hora.
Porra, esse sonho foi melhor do que qualquer coisa que eu escrevi nos últimos tempos!