Antes, uma explicação.
Escrevi essa versão antes daquela que foi publicada. Texto comprido, muita informação num capítulo só. Escrevi do jeito que deu, cheguei a salvar como rascunho no blog. Fui ler e achei uma merda. Aliás, eu não achei nada. Os encostos acharam.
Pois vejam: eu ando muito self conscious ultimamente, parece que tem sempre meia dúzia de zoião me observando enquanto escrevo. Aí fico vexado. Escrevo uma frase e o pessoal que tá espiando já começa a palpitar: olha a voz passiva, olha a concordância, olha a ambigüidade, que porra é esse trema, cadê as aspas quando a gente fala.
Malditos encostos.
Fora isso, meu cérebro é um vazio. Quando preciso de uma idéia, olho lá dentro da cabeçorra e é só um descampadão, o vento assobiando. Escrevo mesmo assim, e o resultado sempre me desagrada. Pior: não reconheço como texto meu. Imaginem uma cadela que passou por uma cesariana. Ela acorda da anestesia, vê aqueles filhotes ali do lado dela e não entende porra nenhuma. Se não tiver ninguém por perto para impedir, ela mata tudo. Eu estou que nem essa cadela. Uma cadela gorda e careca.
Ah, que imagem linda.
Esqueçam a cadela. Imaginem uma pessoa que perdeu o sentido do paladar. Estou feito esse infeliz aí, que bota um negócio na boca e não sabe se é sorvete de morango um um filhote de cachorro.
Mas eu dizia que escrevi esse texto de agora e os encostos reprovaram. Desisti, fui fazer outra coisa, aí me veio a idéia de contar a mesma história naquele formato de diálogo. Pareceu uma boa idéia na hora, mas antes da metade do texto eu já sabia que não estava legal. A idéia era besta, a execução era mais besta ainda. Acabou ficando um negócio basbaque, artificial. Mas é claro que tudo o que escrevo ultimamente me soa artificial.
Então foi isso que aconteceu: escrevi dois textos e ambos me parecem a mesma coisa. Só que deram trabalho igual, então nada mais justo do que publicar os dois. Os encostos discordam: acham que eu não devia publicar era nenhum e desistir logo desse negócio de escrever. Mas, pô, é a única coisa em que eu consigo ser ao menos medíocre; em todo o resto eu sou ruim pra caralho.
Ó:

A ordem em Judá e a bagunça em Israel

(II Reis 15)
Este capítulo mostra bem a diferença entre os reinos do Norte e do Sul, Israel e Judá. Em Israel, os reis preferiam a putaria das religiões pagãs. No começo da história de cada um desses reis, o autor diz que eles fizeram “o que era mau aos olhos do Senhor e não se apartaram dos pecados de Jeroboão, filho de Nebate, que fez pecar a Israel”. Esses “pecados de Jeroboão” eram o de sempre: idolatria, desrespeito pela religião oficial, perseguição aos profetas. Javé se emputecia e toda hora mandava uma desgraça qualquer para acabar com a raça do rei. Em Judá, vez em quando ainda aparecia um rei que andava na linha e não irritava Javé.
Foi o caso de Uzias, que sucedeu seu pai Amazias na época em que Jeroboão II (nenhum parentesco com o Jeroboão original) era rei de Israel. Uzias (que também atendia por Azarias) seguiu a religião direitinho, respeitou os profetas e coisa e tal. Em retribuição, o Senhor Misericordioso (louvado seja) sapecou-lhe uma lepra. Para não se desfazer aos olhos dos súditos, Uzias se mudou pra uma casinha separada do palácio, deixando seu filho Jotão como rei de fato. Se Uzias tentava meter o nariz em assuntos do reino, Jotão bronqueava e devolvia o nariz ao pai. Era uma merda.
Uzias reinou por 52 anos, boa parte deles isolado em seu barraco de leproso. Quando não estava louvando ao Senhor por tantas bênçãos recebidas, sua diversão era apostar com as visitas que conseguia coçar a orelha com o dedão do pé — o que não era tão difícil quanto parecia, e só espantava as visitas.
Este capítulo também mostra muito bem como é difícil acompanhar a sucessão de nomes esquisitos e dinastias na Bíblia. Uzias-Azarias era da dinastia de Davi, que reinava ininterruptamente havia mais de 230 anos. O mesmo não acontecia em Israel. Quando o reinado de Uzias ia ainda pelo trigésimo-oitavo ano (ele já caindo aos pedaços), o rei de Israel Jeroboão II morreu, e seu filho Zacarias subiu ao trono. O reinado de Zacarias durou só seis meses. Um tal Salum juntou meia dúzia de descontentes, derrubou Zacarias e assumiu o trono. Zacarias foi o quarto e último descendente de Jeú a reinar em Israel. Terminava a quinta e mais longa dinastia israelita após a divisão do reino.
O reinado de Salum foi um sucesso: durou um mês. Um certo Menaém, morador da cidade de Tirza, não aceitou o novo rei. Ele não suportava usurpadores, e por isso foi até Samaria, matou o rei e assumiu o trono. Menaém era uma dessas pessoas de bom coração. Vejam só: os moradores da cidade de Tifsa se recusavam a reconhecê-lo como rei. Então ele invadiu a cidade, matou os moradores de toda a região e rasgou a barriga de todas as mulheres grávidas. Um docinho de pessoa.
Menaém, o Virtuoso, foi rei durante dez anos. Javé não ia com a cara dele, mas também não fez nada para derrubá-lo. Tiglate-Pileser, rei da Assíria, até tentou. Invadiu Israel e quase anexou o reino. Mas Menaém foi esperto: entregou trinta e quatro toneladas de prata à Assíria para que o império o ajudasse a firmar-se no poder. Tiglate-Pileser (que tinha o simpático apelido de Pul) aceitou a oferta e voltou para casa com seu exército. Menaém morreu de causas naturais, e seu filho Pecaías ficou em seu lugar, reinando por dois anos.
Agora, se rei israelita já pecava pra dedéu, imaginem um cara chamado Pecaías. Pior do que ele, só um outro cara chamado Peca, oficial do exército. Peca reuniu cinqüenta homens em Gileade e matou o rei quando ele ainda estava se acostumando ao trono. Peca foi o cabeça de Israel por vinte anos, só fazendo o que Javé não gostava — e bem nas fuças dEle. É que Javé tinha entrado numas de ser paciente: em vez de matar o cara logo de uma vez, dizia “tua batata tá assando” e deixava. Foi durante o reinado de Peca que o império Assírio voltou a botar as manguinhas de fora. Tiglate-Pileser, o Pul, anexou as regiões de Gileade, Galiléia e Naftáli, junto com outras quatro cidades, e levou seus moradores para a Assíria como prisioneiros.
Enquanto tudo isso acontecia, o leproso Uzias-Azarias seguia firme como rei de Judá. Quando ele finalmente morreu, seu filho Jotão tornou-se rei de verdade e reinou por dezesseis anos. Foi durante o reinado de Jotão que Peca, rei de Israel, e Rezim, reizim da Síria, atacaram Judá pela primeira vez. Era a nova política da vingança sem pressa de Javé, que já preparava o cenário para a entrada em cena de Acaz, filho de Jotão. Acaz seria provavelmente o pior dos reis de Judá, pior do que os piores de Israel.
Jotão ainda vivia quando uma última conspiração em Israel derrubou o rei Peca. Oséias, líder dos revoltosos, tornou-se rei. Se ele soubesse o que o esperava, teria aproveitado melhor a vida de rei. Comprado uns carros, umas odaliscas, sei lá. Ele não tinha como saber, é óbvio, mas seria o último dos reis de Israel.

Eu cheguei ao fundo do poço: estou exilado numa lan house. Ao meu lado, um sujeio espinhento, de cabelo seboso e cara de pedófilo olha atentamente para a tela passando a mão pelo rosto. O anular da mão esquerda tem uma aliança de ouro. O indicador de vez em quando entra numa das narinas do rapaz, dá umas voltinhas, troca de lugar com o mindinho. Ao lado dele, uma bichinha nova, de boné e óculos escuros, sentadinha com as pernas fechads. Deve estar lendo os scraps no Orkut ou, pior, atualizando o Twitter.  Outras bichinhas, não tão novas, distribuem-se pelas outras mesas. Três delas usam boné vermelho.  São tão estilosas que eu — morador do prédio aqui em cima e usando roupas de ficar em casa — me sinto um mendigo. Atrás de mim, um casal hétero consulta roteiros de viagem. Agora há pouco estavam localizando João Pessoa no Google Maps. Agora estão procurando informações de uma agência de viagens. Devem ser gringos, de passagem por São Paulo a caminho de lugares mais interessantes. Inveja.
Toda essa gente tem suas razões para estar numa lan house agora. Só eu não tenho nada a esconder e tenho uma conexão de 2Mbps logo ali, três andares acima da minha cabeça, num computador decente, com minhas músicas para ouvir. Só que eu não posso usar minha conexão. Estou aqui na lan house, cercado de gente estranha e, percebi só agora, com um ventinho gelado nas costas. Desci para registrar uma reclamação no site da Anatel, que foi a única ação que deu resultado no passado. Mas estou muito puto, não quero desabafar com essas pessoas estranhas (com o casal, talvez, mas eles vão ficar falando da merda da viagem deles), então vim aqui desabafar com vocês.
(Eu não queria ser um desses blogueiros que torram o saco dos leitores reclamando do atendimento que recebem das prestadoras de serviço. Mas eu sou cliente da Telefônica, né?)
Minha alegria começou na madrugada de sábado, quando eu usava a internet para uma atividade importantíssima:  jogar Counter Strike com os camaradas. No meio de uma manobra arrojada para atacar os terroristas — que terminou, como nas doze partidas anteriores, com minha morte precoce e patética — a internet entrou em coma. Já eram três da manhã, fui dormir. À tarde, quando acordei, tinha internet novamente. No domingo, ela não resistiu e entregou a alma ao Criador. Mas domingo é dia de ir visitar os pais e os sogros, encher o bucho e ver a eliminação d’A Fazenda. Nem me preocupei.
Só que ontem de manhã eu continuava sem internet. À noite também. Hoje de manhã, idem. Ligo para a Telefônica e fico meia hora ouvindo uma versão constrangedora de I Can’t Help Falling In Love With You enquanto espero a moça do call center terminar de lixar as unhas e contar para as caléga os detalhes do boquete que fez ontem no cobrador de ônibus (“… e agora eu não pago mais passagem no 669A, olha que beleza…. Telefônica, bom dia, em que posso ajudá-lo?”)
Bom, vocês sabem o resto: a moça pergunta se eu já desliguei e liguei de novo, se já tirei e coloquei os cabos de rede e de telefone, se já enfiei um dedo na placa de rede e outro no cu da mãe dela, essas coisas. No fim, diz que eu tenho que esperar de 24 a 72 horas pelo contato de um técnico. Eu digo que não posso esperar merda nenhuma, que preciso da conexão, que eu trabalho com essa porra, que ela trabalha numa empresinha de merda, que eu espero que ela pegue Aids do cobrador e morra. Ela pede para eu esperar um minutinho e eu fico mais meia hora ouvindo o diabo da música enquanto ela me xinga, faz vodu pra mim, liga para o cobrador do 669A para desabafar e dizer que passa na garagem “depois de largá do serviço”. Outra puta me atende, conta a mesma história, eu xingo tudo de novo. Ela diz que eu tenho que esperar e pede para eu anotar o protocolo. Eu mando ela enrolar o protocolo em volta de um cabo de enxada e socar no cu do pai dela. Ela desliga.
A Telefônica é a empresa mais safada que eu já vi. E só metade da culpa é dos espanhóis: a outra metade é da porra do Estado brasileiro, que privatizou monopólios, em vez de abrir para a concorrência. O resultado é que eu fico refém da Telefônica, e tomo bem gostoso no meu cu preto quando a merda da rede deles cai — o que agora acontece com tanta freqüência que já tem nego ligando lá pra reclamar quando a internet funciona.
E eu, que trabalhei uns anos com jornalismo de tecnologia, fico pensando: será possível que não tem UM puto dum jornalista investigando essa história? Procuro aqui e ali e tudo o que vejo são notas dizendo que o sinal da Telefônica caiu, seguidas de notas da empresa dizendo que sente muito e que está trabalhando constantemente para foder-nos com areia e nos ver sorrir. Sério, meu povo: não tem ninguém indo atrás dessa história? Nada, nada? Um dossiê, que seja?

Vocês não estão entendendo: eu preciso vender esse carro. Eu devo ao banco; o banco está impaciente. Ligo nas lojas de carro. Ninguém está comprando. Quem aceita um negócio que chamam de “troca com troco” me fala que meu carro vale tanto quanto um Monza 95. Uma sacanagem. Não estou tão desesperado assim.
(Dizem que é A Crise. Assim mesmo. A Crise, como se fosse um ente maligno, feito A Coisa, A Bolha Assassina. O que me irrita é que o monstrinho se autoalimenta: fala-se em crise, todo mundo pára o que está fazendo, esperando o que vai acontecer. Aí ninguém compra nada, ninguém consegue crédito, ninguém produz. A situação piora. Fala-se em crise. E por aí vai.)
A outra opção seria refinanciar o carro — em outras palavras, comprar o carro de mim mesmo. Trabalheira danada, juros, o escambau. Não quero. Mas acho que vou querer se não conseguir vender o carro em uma semana.
Então vocês façam o favor de falar do meu Corsa para seus pais, seus irmãos, seus amigos e vizinhos. A situação, meus caros, tá braba. Eu só penso nisso, só escrevo sobre isso, só falo nisso. Se vocês estão irritados com a monotonia do blog, imaginem a situação de minha pobre consorte.

O inferno começou na noite da última sexta-feira.
Eu moro no terceiro andar de um prédio da Vieira de Carvalho, reduto gay no centro de São Paulo. Não me importo com os veados — são tranqüilos, engraçados e não mexem com minha mulé. Mas na sexta-feira eu bem queria matar o pederasta desgraçado que parou o carro sob minha janela com o som num volume absurdo. A música que ele (e todo mundo) ouvia:
Solteira, sim
Sozinha, nunca
Sou Garota Melancia
E rebolo a minha bun-da!

Desde então a desgraça da música não sai da minha cabeça. Para piorar, fico pensando no pai de Andressa Soares, a Mulher Melancia. Procurei a música no YouTube; encontrei um trecho do programa da Luciana Gimenez. A Melancia dançava e esfregava a bunda na lente da câmera. Imaginem o desgosto do velho ao ver a filha na TV, cantando isso e rebolando a bunda nas quarenta e duas polegadas da tela de LCD (que ele só tem porque a filha rebola a bunda na TV).
Só matando.

Segura, que eu vou abrir meu coração. Sentaí, espie.
COMPLICAÇÃO

Depois de três semanas no emprego novo, escrevi minhas primeiras matérias para a revista. Eu vinha escrevendo notas para as newsletters semanais e entrevistando gente para essas matérias. Eu não gosto muito dessa fase de apuração, então foi um alívio chegar à parte que me dava prazer de verdade. Apurar envolvia interação com pessoas, pesquisa, conciliação de agendas. Escrever era um ato solitário: era só deixar a inspiração fluir, derramar fios de ouro pela tela do computador e me recostar para receber os elogios com modéstia fingida.

Só que quando comecei a escrever, percebi que tinha feito todas as perguntas erradas nas entrevistas, que tinha dedicado pouco tempo à apuração e que o texto ficaria capenga. Mas eu tinha um prazo a cumprir, então escrevi. Ao entregar as matérias, avisei logo ao chefe que não estavam lá essas coisas.

No dia seguinte, ele me chamou para conversar sobre os textos. De fato, ele disse, estavam ruins. Muito ruins. Iam sair assim mesmo, porque não dava mais tempo. Mas eu tinha produzido notas boas, era capaz de coisa muito melhor do que aquele negócio disforme.

O chefe é um cara bondoso, então depois me contou histórias de outros repórteres, passados e atuais, que entregaram coisa muito pior da primeira vez. Minha vaidade filtrou essa parte. Eu só conseguia pensar que estava no lugar errado, que nunca conseguiria o que aquela gente queria de mim. Eu queimava de vergonha, e queria sumir da sala, do prédio, da cidade, do mundo.
CRISE EVOLUÇÃO

1. Flashback
Tanto me chamaram de inteligente a vida toda, que eu acabei pensando que era algum tipo de gênio. Eu captava tudo de primeira, com a maior facilidade. Meu cérebro era uma esponja de absorver informação, um computador de processamento rápido, grande capacidade de armazenamento e conectado ao mundo. Não havia para mim pior ofensa do que “esforçado”. “Fulano é muito esforçado”, alguém dizia, e eu logo pensava que o cara era retardado.

Espie.

Eu tive uma bicicleta quando era criança. Tinha aquelas rodinhas atrás. Depois de um tempo, adquiri confiança para tirar as rodinhas, e me equilibrava bem em cima da danada. Então como é que até hoje, aos 33 anos de vida, eu não sei andar de bicicleta?

O negócio é que chegou a hora de aprender a fazer curvas, subir e descer ladeiras, essas coisas. Para isso, eu precisava sair do conforto do quintal dos fundos e ir pedalar na rua junto com as crianças normais. Mas isso implicaria em reconhecer para todo mundo que eu não sabia andar de bicicleta.

Anos depois, criei minha versão do motivo pelo qual não sei andar de bicicleta: um amigo gordo foi me visitar, sentou na bicicleta, ela quebrou. Justo na época em que eu estava começando a aprender de verdade. Meus pais não podiam comprar outra. Fim da história.

A verdade é que meu amigo nem era tão gordo assim, coitado. A verdade é que a bicicleta quebrou porque estava enferrujada, após mais de três anos de abandono.

A verdade é que eu não sei andar de bicicleta porque não suporto admitir minha ignorância.

E esse é só um de muitos casos.

Espie.

Lembro um dia, eu estava na segunda série. Cheguei em casa desolado depois de passar o dia tentando entender a divisão entre números de mais de dois algarismos. Depois de dominar sem problemas soma, subtração e multiplicação, sentia-me estúpido perante a divisão. Em casa, comecei a fingir que resolvia as contas passadas pela professora, sem conseguir fazer nada. Meu pai perguntou se estava tudo bem e eu desatei no choro. Demorei para contar a ele qual era o problema. Quando contei, foi com vergonha.

Ele me explicou, eu acabei aprendendo. Mas acho que até hoje ele não entendeu nada. E eu até hoje tenho medo de divisões.

Uma vez eu tive febre porque não conseguia fazer uma planilha fazer funcionar direito, e tinha gente esperando a planilha ficar pronta. Não era nada de trabalho. Na verdade, eu estava fazendo um favor para a pessoa. Fiquei com febre a noite inteira.

Eu desisti de duas faculdades e só tirei carteira de motorista aos 30 anos. Tinha uma historinha inventada para isso também. Mas adivinhem qual foi a razão principal?

2. Tentativa e erro
Muita coisa aconteceu no ano em que cheguei aos 30, aliás. Comecei a namorar minha menina, e ela me deu a coragem de que eu precisava para mudar. Aprendi a tratar bem minha família imitando a família dela. Aprendi a dirigir. Pedi demissão e fui ser jornalista.

Isso tudo foi há mais de três anos. Eu me sentia no topo do mundo. Já dirigia relativamente bem — sabia até fazer baliza. Colegas e leitores elogiavam meus textos. Até me casei, vejam vocês.

E então um negócio esquisito aconteceu. Comecei a me sentir dono da situação. O medo de mostrar minha ignorância voltou. Saí do emprego. Fui trabalhar em outro lugar, era muito ruim, saí também. Comecei na nova editora há um mês.

A nova editora é totalmente diferente de qualquer lugar por onde passei antes. O chefe acredita que devemos contar histórias (ou estórias), e nos enche de livros e teorias sobre o ofício de escrever. Eu anoto as lições em papeizinhos que grudo na parede.

Não conte, mostre.

Escada da abstração.

Complicação-crise-resolução.

Sempre pergunte o nome do cachorro.

Ação não é igual a movimento.

Espie.

Eu achava que vinha me saindo bem. A cada semana o chefe editava menos os meus textos, e eu via que estava evoluindo. Aí escrevi aqueles dois textos para a revista, os dois ficaram ruins, o chefe detestou e eu entrei em parafuso.

Mas resolvi que ia me dedicar ao máximo para escrever o próximo texto. Imprimi minhas entrevistas e fiz anotações nas margens. Liguei para os entrevistados mais uma, duas, cinco vezes. Espalhei as folhas das entrevistas pelo chão da redação, e ficava andando por cima delas, lendo, tomando notas e tentando extrair um eixo lógico daquele emaranhado de informações. Os colegas começaram a dizer que eu era o cara do filme Uma Mente Brilhante. Achavam que logo eu ia começar a escrever nas janelas e acusá-los de ligações com a KGB.

Nem liguei. Defini meu tema, Fiz meu esboço, liguei uma última vez para dois entrevistados e comecei a escrever. Pelo final, para assim saber para onde o texto se dirigia. Li, reli, cortei, inseri detalhes, melhorei as cenas, procurei no dicionário as palavras mais adequadas. Às oito da noite, disse ao chefe que estava pronto e fui pegar um café. Sentia-me realizado. Tomei o café, voltei para minha mesa e resolvi dar uma última lida no texto.

Estava uma bosta.

3. Eureka
Peguei o ônibus na intenção de ir para a faculdade; desci antes e peguei outro ônibus de volta para casa. Ir à faculdade para quê? No trabalho é como se eu começasse a fazer as primeiras escalas, solfejar feito um demente, arriscar um “Cai, cai, balão”. Na faculdade, os professores dizem: “O piano é de madeira. Toquem!”. Aí sai aquele monte de BOINK-SHINK-PFUÓIN e eles reclamam: “Que desastre é esse? Eu não disse que o piano é de madeira? Por que vocês não tocam?”. Na faculdade, destaca-se o cara que sabe fazer um acorde, que conhece as teclas, que decorou uma musiquinha e improvisa sobre esse mesmo tema o tempo todo. O cara que não é um ignorante total em termos de piano, mas que também nunca será um pianista.

Por muito tempo eu me conformei com o papel do pianista charlatão. Não mais. Se escrever é minha paixão e também paga minhas contas, eu tenho a dupla obrigação de dominar o ofício. No entanto, depois de um mês de aprendizado, lá estava eu sentado no último banco do ônibus na direção do centro da cidade, cabeça baixa, sem ânimo para ler, só pensando no fracasso de dois textos e na mediocridade de um terceiro. Talvez esse negócio de escrever não fosse para mim.

Mas cheguei em casa, jantei com minha menina, vimos um filme, rimos como sempre. E, assim como na eureka original de Arquimedes, a revelação me veio durante o banho — à uma da manhã.

Não havia nada de errado com o texto, com as frases, com a escolha de palavras. O problema todo era a estrutura. Os dois primeiros parágrafos eram uma enrolação sem-vergonha, uma falta de respeito com o leitor. Se eu movesse o terceiro parágrafo para o começo, já apresentaria logo de cara meus personagens e a situação em que se meteram, e os dois parágrafos vilões passariam a ter a virtude do pano-de-fundo e do flashback. Com a nova estrutura, eu teria como colocar informações dos outros personagens sem forçar sua entrada na história.

Arrá!

Saí correndo do banho e mandei um e-mail para o chefe. “Já leu a matéria? NÃO LEIA!”.
RESOLUÇÃO
Parece que esse negócio de inspiração existe mesmo, mas está longe de cair do céu. Só depois de muito estudar, de muito ler, de muito espremer o cérebro é que ela surge. E surge mais bela e completa ainda, porque é fruto do esforço consciente, e não de processo misterioso, além do meu conhecimento. Esse texto de que falei não vai ter nada de mais. Apenas um texto tecnicamente correto, ou quase. Quem ler, talvez não o classifique como “inspirado”. “Esforçado”, no máximo.

É isso que eu sou agora: um sujeito esforçado.

Estou numa encruzilhada.
(Galinha preta é a puta que o pariu)
Estou numa encruzilhada. Pois vejam: antes eu trabalhava num negócio nada a ver, tecnologia e coisa e tal, e escrevia como passatempo. Primeiro em folhas de papel datilografadas, depois no Wordstar (não perguntem), depois em jornaizinhos impressos na firma e distribuídos entre os amigos, depois por e-mail. Comecei este blog, depois outro, depois fui convidado para outro.
Aí eu fiz 30 anos e tudo mudou. Eu queria mudar de vida e resolvi que escrever ia ser o meu trabalho. Virei jornalista de tecnologia, que era para escrever sobre um assunto que eu conhecia. Isso foi em 2005, e durante a maior parte desses últimos três anos eu dividi meu tempo entre gerenciar projetos de web, manter conteúdo online com base em press releases requentados e escrever uma coisinha ou outra.
No começo deste mês, aconteceu o que eu tanto procurava: comecei a trabalhar em um lugar onde o texto é valorizado acima de tudo, onde se discute o tempo todo o ato de escrever e livros sobre as técnicas do ofício circulam de mão em mão. Estou aprendendo muito, apesar de às vezes me sentir soterrado de informações.
Muito bem. Para quem escreve apenas como trabalho, é uma situação perfeita. Mas eu sou um sujeito esquisito. Meu trabalho é meu hobby. O problema é que escrever para uma revista de tecnologia é algo muito diferente de escrever um blog de sátira da Bíblia. O último capítulo ficou burocrático que só a porra, eu sei disso. Foi escrito enquanto eu pensava o tempo todo nas técnicas: usar verbos de ação, evitar a voz passiva, colocar ênfase no final das frases, complicação-crise-resolução, o diabo aquático. (Esse último período, por exemplo: comecei com “Foi escrito”, daí troquei por “Escrevi” para fugir da voz passiva, aí fiquei puto com minha subserviência às regras e voltei atrás).
Eu percebo que muitas das técnicas que estou conhecendo agora eu já aplicava sem perceber. Mas pergunte à centopéia como ela faz para andar com tantos pés, e é claro que ela tropeça — se é que centopéia entende o que a gente fala.
O negócio é que um monte de gente falou das deficiências desse último capítulo e eu me fiz de besta. Mas aí um amigo próximo comentou, e eu não tive mais como ignorar. Ele tem razão, vocês têm razão. Eu deveria escrever sem pensar nessas técnicas todas que estou aprendendo, mas não consigo. Talvez eu devesse separar trabalho de hobby, mas isso é muito difícil quando os dois são tão parecidos. No fim das contas, talvez ter decidido transformar meu hobby em trabalho tenha sido um erro. Mas eu vejo tanta gente por aí com empregos detestáveis, chega a ser um pecado reclamar de fazer o que gosto.
Maldita encruzilhada.