Acordei hoje às sete e meia da manhã, na mesmíssima posição em que tinha ferrado no sono, pouco depois da meia-noite. Para muitos de vocês isso deve não ter nada de mais. Eu os invejo. Minha rotina ultimamente era dormir pouco, levantar de duas em duas horas e acordar com o despertador berrando na minha orelha. Obrigava-me a levantar da cama, agia como um zumbi por algumas horas, e o resto do dia era uma briga danada para não dormir — no ônibus, no trabalho, na faculdade.
Agora são oito da manhã e eu me sinto como se tivesse dormido dezesseis horas seguidas. Tudo graças à melhor invenção do mundo, esse simpático apetrecho:

Tira o olho da minha tromba!

Tira o olho da minha tromba!


Só foi um pouco assustador pra Ana Cartola, tadinha…

A felicidade do CPAP


Esse trambolho no meio da cara do gordão aí do lado é a melhor invenção do mundo — embora a cara do gordão faça parecer que não. O nome do troço é aparelho de CPAP (Continuous Positive Airway Pressure, ou pressão positiva contínua das vias aéreas). O que vai na cara aí do sujeito é só a máscara; um tubo liga a máscara a um aparelho que fica soprando dentro do nariz do infeliz.
Logo depois da minha primeira polissonografia, que constatou um recorde mundial de apnéia, eu já sabia que ia precisar usar o aparelho. Pesquisei na internet, achei fotos como essa aí e fiquei preocupado: como é que eu ia dormir com essa tromba na minha cara? O que faria minha esposa ao acordar no meio da noite e dar de cara com o Darth Vader?
Então foi com pensamentos sombrios que cheguei anteontem de mala e cuia ao hospital Rubem Berta para a segunda polissonografia. Dessa vez, o exame teria uma diferença: eu ia dormir com o CPAP para determinar a pressão correta do aparelho que vou usar.
Bom, o Rubem Berta tem algumas vantagens em relação ao CEMA, onde eu fiz o primeiro exame. O atendimento é mais rápido, as pessoas são mais simpáticas e as enfermeiras são mais gostosas. Tem TV a cabo, então fiquei assistindo Discovery Channel enquanto não vinham me botar eletrodos pelo corpo. Quando eu começava a ficar fascinado com a vida empolgante dos estromatólitos, duas enfermeiras — uma morena e uma loira que nem te conto — chegaram para me amarrar, amordaçar e surrar por ser um menino mau, muito mau.
Olá, enfermeira!

Olá, enfermeira!


Tá, mentira. Elas mal falaram comigo. Me mandaram sentar numa cadeira, grudaram eletrodos na minha cabeça, no peito, na barriga, nas pernas. Mandaram deitar na cama de novo e saíram. Minutos depois (vocês sabiam que os estromatólitos foram a forma dominante de vida na Terra durante dois bilhões de anos?) a loira voltou com a máscara do CPAP e eu me preparei para uma noite insone.
A máscara era mais trambolhuda do que a do gordão ali em cima. “Segura a máscara no nariz pra ir se acostumando”, disse a loira, “daqui a pouco eu volto pra te amarrar, digo, pra amarrar a máscara.” Eu, obediente, fiquei segurando a tromba contra a cara, aquele negócio assoprando dentro do meu nariz, fios pelo corpo todo. Quarto estranho, cama estranha, travesseiro estranho. Suspirei de resignação.
Logo a loira voltou para prender a máscara. Perguntei a ela o que faria se precisasse ir ao banheiro — longe de mim passar pelo vexame do papagaio de novo. “Aperta o botão”. Ela disse “boa noite”, apagou a luz e saiu. Sozinho no quarto, deitado de barriga para cima, pensei: “Nem fodendo que eu vou conseguir dormZZZZZZZZzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz…”
Eu não sei descrever o que aconteceu em seguida. Bom, se você respira durante a noite deve achar a coisa mais normal do mundo. Mas eu, que sempre precisei escolher entre dormir ou respirar, tive a melhor noite de sono da minha vida.
Porque, vejam, o sono é como uma sessão de mergulho. Você começa na superfície, vai afundando, afundando, afundando. Depois você volta, chega perto da superfície, e começa tudo de novo. O sono tem fases mais superficiais e mais profundas, e elas se sucedem em ciclos. As pessoas normais mergulham de escafandro: por mais que afundem, têm sempre algum oxigênio vindo da superfície. Quem sofre de apnéia fica o tempo todo perto da superfície, de pés-de-pato e snorkel, saindo à tona toda hora para respirar.
Com o CPAP, parecia que tinham me dado um cilindro de oxigênio. Eu comecei a sonhar que estava em Santos, jogando futebol na praia, e depois ia para um bar. Numa noite normal, o sonho terminaria aí: eu acordaria desesperado por oxigênio, resfolegando e com a boca seca. Levantaria para tomar um copo d’água. Depois do segundo copo, eu começaria a levantar de hora em hora para mijar e beber mais água.
Com o CPAP, meu inconsciente endoidou. Eu saí do bar e não acordei, então o inconsciente botou o Thunderbird (sim, aquele VJ da MTV) para me seguir e dizer que eu tinha saído sem pagar. Voltei para o bar, paguei e o inconsciente ficou lá esperando. Nada aconteceu, então ele foi inventando: fui seqüestrado, minha família toda foi seqüestrada, meu irmão fugiu, meu irmão voltou, os seqüestradores me levaram para um ponto de ônibus, o Romeu Tuma estava lá e prendeu os caras, eu voltei para onde estava (um hospital) para procurar minha família…

Nem é tão ruim assim, vá.


Só acordei porque meu celular tocou. Fiquei preocupado, toquei a campainha, veio a loira. Ela tirou a minha máscara e eu pedi o telefone. Achei que fossem quatro da manhã. Ainda não era meia-noite. Ana Cartola tinha telefonado por engano.
Voltei a dormir, vieram outros sonhos com falhas de continuidade. Depois de muito tempo, a loira veio me acordar. Eram cinco e meia da manhã; eu sentia como se tivesse dormido doze ou catorze horas seguidas.
Agora é esperar o resultado do exame, passar pelo médico e decidir que tipo de CPAP vou usar. Porque isso já está decidido: eu vou usar o trambolho. Para o resto da vida, se for necessário.

Ahab tinha Moby Dick, Batman tem o Coringa, eu tinha a Periplaneta americana. Com seu formato aerodinâmico, sua velocidade e capacidade de fuga, seu habilidade de vôo e sua lendária resistência, a barata de esgoto era meu oponente de todas as horas, o ser que eu mais detestava e que mais queria varrer da face do planeta. Vez em quando, durante surtos dessa obsessão, encontrava em meu caminho baratinhas minúsculas. Eram tão lentas e estúpidas que eu por muito tempo as considerei filhotes de minhas inimigas. Só depois de me mudar para o apartamento gigante eu fui descobrir que se tratava de outra espécia, Blatella germanica, e que sua aparente incapacidade era na verdade um disfarce sob o qual se escondia um ser muito mais inteligente do que as baratonas e, confesso, do que eu.
Comparar as duas espécies é comparar um hipopótamo a um puma. As baratas de esgoto só têm tamanho e rapidez, enquanto as baratinhas têm inteligência e estratégia definida. Devido a seu tamanho, podem se enfiar em qualquer buraco (por isso durmo sempre vestido). A fêmea não deposita seus ovos por aí: anda carregando sua ooteca até perto da hora da eclosão. Cada ovo gera várias ninfas, que vão desse estado até a maturidade sexual em pouco tempo. Com um ciclo de reprodução tão rápido, a velocidade de adaptação da espécie para resistência aos inseticidas é uma covardia.
Um dia antes da mudança, minha mãe foi a portadora de más notícias: havia encontrado uma baratinha no apartamento. Antes de matá-la, insistiu em saber sobre os outros membros da família. Ela, porém, limitava-se a fornecer número e patente. Maldita.
Após a mudança, comecei a encontrar as pequeninas eventualmente, sempre matando-as sem grandes problemas. Depois do casamento, outro problema: Ana Cartola ainda não viu barata nenhuma, e pensa que eu ando tento alucinações.
A gota d’água veio na semana passada. Os leitores fiéis hão de lembrar de minha paixão por pão sovado e Amendocrem. Pois então: após muito bater perna pelo arouche, finalmente encontrei minhas iguarias no mercado do japonês secreto (não perguntem). Na noite seguinte, encontrei uma blatella desgraçada tentando burlar os complexos mecanismos de segurança (dois nós na embalagem de plástico) para ter acesso ao pão feito do suor do meu rosto (eca). Era demais para mim: declarei guerra.
Desde esse dia, tenho tentado de tudo. Esvaziei três latas de inseticida e as baratinhas continuam aparecendo. Ontem eu e minha espôusa ficamos até de madrugada limpando a casa e distribuindo gotas de um certo gel baraticida. Hoje de manhã, as gotas de gel estavam intactas (a não ser por uma: esbarrei numa gaveta e destruí a isca das baratas, que naquela hora provavelmente assistiam à cena na segurança de uma das muitas fendas entre os azulejos, rindo da minha cara).
Não estranhem, portanto, se eu não aparecer mais por aqui. Prevejo que essa obsessão por minha nêmesis vai me tomar todo o tempo.

Começo a achar que aqui no centro da cidade tudo é um tanto diferente. Hoje mesmo saí em busca de uma casa de ferragens aberta (tentei instalar um varal de teto usando uma bucha 6 em um furo feito com broca 8, vocês podem imaginar o resultado depois que pendurei a primeira calça jeans molhada) e vi andando logo à minha frente um casal que me lembrou o de Estrangeiro, do Caetano Veloso. O velho devia mesmo ter cabelos nas narinas, não reparei. A menina, uma mulatinha gorducha, não era quase adolescente e nem muito linda. Mas a diferença de idade e a forma como andavam abraçadinhos me fez sorrir, sei lá por quê.
Trechos ocasionais da conversa me chegavam às orelhas. Ele contava alguma história de amor antigo, ela só ria. Imaginei a história toda enquanto chegava mais perto dos dois: ele narrava um romance marcante, talvez a história de como conheceu a esposa com quem ficou casado por 40 anos. Achei bonito aquilo, o velho empolgado com um novo amor contando à namorada tão mais jovem uma história de tempos passados, de quando ela nem era nascida.
Emparelhei com os dois e reduzi o ritmo da caminhada para ouvir melhor as doçuras que o ancião sussurrava ao ouvido da amada risonha. E o que escutei me fez reformular a história toda:
— Aí eu estourei o cabaço dela e rebentei minha fimose também!

Comecei a escrever um capítulo novo, mas o varal tornou-se prioridade. Tenho um bacião cheio de roupas molhadas. É dura a vida de dono-de-casa.

Morando sozinho há duas semanas, depois de 33 anos no recôndito do lar paterno, tenho vivido dias de epifanias constantes. Por exemplo: eu tomo meu café de manhã, deixo a louça toda na pia e vou trabalhar. Depois vou à faculdade. Quando chego em casa de novo, está tudo exatamente no lugar onde eu havia deixado. Ao contrário do que acontecia na casa de meus pais: lá a louça voltava para os armários em algum momento no decorrer do dia. Acho que os duendes daqui não são tão eficientes. Ou não conseguem subir até o terceiro andar, porque suas perninhas são muito curtas para subir as escadas e eles são baixinhos demais para chamar o elevador. Sei lá.
Agora há pouco (sério, menos de uma hora) tive outra revelação dessas. Cheguei da faculdade, fui tomar um copo d’água e vi aquele anel cromado que envolve a base da torneira ali dependurado, como está desde o dia da instalação. Explicando: resolvida a papelada da locação, uma de minhas primeiras providências foi trocar a torneira da cozinha. A torneira original era muito xexelenta e não combinava com minha belíssima pia (comprada, não se esqueçam, no Mercado Livre a um preço ridículo). Então comprei uma torneira metida a besta, de aço inox com filtro acoplado, e tratei de efetuar a troca, sob o olhar entre temeroso e cético de Ana Carlota, minha conmuitasorte. Para decepção dela, a torneira foi instalada sem maiores percalços. Para minha decepção, o tal anel cromado, que deveria dar o acabamento entre a parede e a torneira, ficou dependurado. Bom, ficou um negócio esquisito, não vale a pena tentar explicar. Basta que vocês saibam que eu tenho problemas e aquele treco me incomodou por alguns dias. Mas a preguiça é a força que me move, então logo eu me esqueci do acabamento da torneira. Até hoje.
Entendam que o Marco Aurélio de hoje não é o mesmo de um mês atrás. Ah, de jeito nenhum! Sabem por quê? Porque semana passada eu e minha noiva, adultos que somos, instalamos um chuveiro. Sozinhos! Então hoje, como eu disse, tomei minha água, vi lá aquele negócio pendurado, balancei, dei descarga, voltei à cozinha e vi aquele outro negócio pendurado. Aquilo foi me dando um incômodo, que virou raiva, que virou desespero, e resolvi que hora de dar um basta à situação. Vim até o escritório, peguei o rolo de veda-rosca e fui resolver o problema.
Digo-lhes: uma torneira não é mecanismo tão simples quanto parece. É uma máquina ardilosa e cheia de manhas. Outra diferença para a casa de meus pais: lá as torneiras eram bem mais singelas em seu funcionamento. Aqui é uma complicação. Primeiro tentei tirar a desgraçada da parede e a rosca metálica trouxe junto uma outra, de plástico, que desempenhava o papel de adaptar a torneira ao cano. Toca procurar ferramenta para tirar a peça extra, e nada. Até que tive a idéia de enrolar a bicha (tem várias aqui na vizinhança, mas não é disso que estou falando, deixem de bestagem) em um pano de prato e arrancar com as mãos mesmo, técnica que eu já havia empregado para retirar o chuveiro antigo. Funcionou. Então envolvi as duas roscas, metálica e plástica, em voltas e mais voltas de fita veda-rosca. Meu raciocínio era simples: com o volume extra, a torneira não entraria tão fundo no cano da parede e o anel cromado do inferno ficaria em seu devido lugar.
Qual o quê! Ao tentar montar o esquema todo de novo percebi que a determinada altura a torneira girava em falso. Abri o registro e um fio de água começou a escorrer parede abaixo. Cocei a cabeça, fechei o registro, desmontei tudo, tirei a fita, remontei, abri o registro novamente. Tudo na mesma. Sorri, desmontei tudo de novo. Sim, sem fechar o registro. Um jato d’água fortíssimo (a caixa fica dez andares acima) espalhou água por toda a cozinha. Eu demorei para entender o que acontecia, e depois demorei mais para fechar o registro maldito com as mãos molhadas.
Olhei à minha volta e me senti como Noé. Sem desanimar, no entanto, fui até o banheiro pegar o rodo para livrar o chão da cozinha daquele dilúvio. Fiz o que pude (não muito) e resolvi vedar a torneira feladaputa com silicone. Abri o gabinete da pia e fiquei feliz por encontrar uma bisnaga intacta. Abri a embalagem, cortei o bico, furei onde tinha que furar e apertei. Nada. Apertei mais. Nada. Mais. O fundo da bisnaga estourou, jorrando silicone pra todo lado. Espalhei aquela porra de qualquer jeito, rosqueei a torneira como deu e fui tomar banho, na esperança que algum duende solidário e pernalta viesse resolver ao problema.
Ao voltar à cozinha, a situação ainda era a mesma. Nada de duende pernalta. Embrulhado em uma toalha, tratei de abrir as janelas e puxar toda aquela água para o ralo. Depois ainda fiquei uns bons cinco minutos procurando minha cueca. Estava sobre o espaldar de uma cadeira. Triste.
Agora estou aqui, ainda com resquícios de silicone seco nas mãos, esperando que a cozinha seque por si só e que a vedação porca seja ao menos eficiente. E lhes digo: torneira é um bicho muito temperamental. Se as de sua casa funcionam, deixe-as quietas.

Resolvida minha situação, eu tinha cinco horas para gastar no aeroporto internacional de Miami, o famoso MIA. Comprei uma coca-cola (gosto diferente, dizem que a coca-cola brasileira tem canela), tomei um café (um dedinho de espresso da Starbucks, uma merda) e fiquei zanzando com minha mala nas costas.
Enquanto andava, ia reparando nos americanos. Nunca tinha visto tantos deles juntos, e me sentia como um nativo da Judéia dos tempos de Cristo visitando Roma pela primeira vez. Os romanos de hoje em dia são adeptos dos extremos: os magros são esqueléticos, os gordos são imensos; os brancos são lagartixas, os pretos são azuis; os bonitos são belíssimos, os feios são disformes. Quem usa chapéu escolhe os modelos mais estapafúrdios, quem tem bigode o tem imenso, quem tem mullets cultiva essa hediondez até o meio das costas. As mulheres se vestem ou como freiras, com saias que arrastam no chão, ou como putas, com shortinhos e microssaias que revelam nacos de bunda. Nesse caso, a escolha entre os dois extremos nada tem a ver com a aparência: vi belas moças vestidas de forma comportada e barangas metidas a sexy. Uma mulher cujas coxas tinham a circunferência da minha cintura, com textura de estrada de terra depois da chuva, exibia suas carnes sem pudor, cruzando e descruzando as pernas. Acho que a auto-estima das americanas é inabalável.
Essa moça do pernil estava próxima ao portão de onde sairia meu vôo. Sairia. Uma grega de cabelos de mola chamada Kalypso me disse que minha passagem estava duplicada, que o assento marcado já estava ocupado. Eu não tinha nada com isso, mas não adiantou dizer. A mulher foi grossa, como se eu fosse responsável pela cagada, e não o sistema da empresa dela. Ao que tudo indica, esse negócio de relacionamento com o cliente ainda não chegou às terras civilizadas.
A boa notícia é que a grega me mandou de volta ao portão onde atendiam minhas amigas Raquel e Johan-MIA. Raquel não estava, mas Johan abriu um sorriso quando me viu.
— Oh, you are back!
Expliquei o causo todo, ela ficou brava. Eu disse que até teria reclamado, mas a mulher que me atendera parecia o Jabba The Hut. Ela teve um frouxo de riso, enquanto o colega se segurava para parecer sério. O quê, aliás, merece um breve parêntese.

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Excentricidades à parte, os americanos parecem manter o tempo todo um grande esforço para não saírem de seu papel de superiores e sérios. Depois de ir à gringolândia, comecei a pensar que se trata de um teatro para estrangeiros e que, quando estão sozinhos, eles são pessoas normais. Essa impressão foi reforçada enquanto eu aliviava a bexiga em um banheiro do aeroporto. Um negão entrou e foi para o mictório do outro lado. Em seguida, ouvi a voz dele dizendo “Where is my damn penis?!”.

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Mas eu estava lá esperando que a situação se resolvesse. Parecia mais complicado do que eu esperava, porque Johan pediu que eu me sentasse; ela chamaria assim que encontrasse um lugar no vôo. Cinco minutos depois, o outro atendente me chamou.
— Tudo certo. O senhor embarca no próximo vôo, às 13h25min.
— Se eu não estivesse noivo, pedia vocês dois em casamento.
Dessa vez o colega de Johan juntou-se a ela no riso. Menos mal.

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Menos de uma hora depois eu desembarcava em Orlando. Após meia hora na fila, consegui pegar um táxi. Descobri que o hotel ficava longe ao ver o preço cobrado: 58 dólares. O motorista dirigiu no mais absoluto silêncio até metade do caminho. Então virou-se para trás para perguntar de onde eu era.
— Brasil? Lulá? President Lulá?
Era haitiano e parecia felicíssimo por transportar um brasileiro. Falamos de futebol, do vexame do Ronaldo, do jogo da seleção brasileira no Haiti.
No caminho, fui reparando nas diferenças. O mais estranho para mim eram as árvores. Nenhuma delas era familiar; até as palmeiras tinham aparência alienígena. Os passarinhos também eram esquisitos e cantavam em dialetos desconhecidos. Os carros eram imensos e luxuosos: Montecarlos com rodas de capistrânio, Zungaris com teto lunar, Panderos com motor de 25 válvulas, Javoteres com pintura eletrostática.
Tá, é tudo inventado.
Entendo nada de carro.
Mas acreditem, eram uns monstros. Quando eu via algum carro conhecido, um Corolla ou Civic, ficava com dó da pobreza do motorista. Voltei ontem e até agora estou achando que meu Corsa é um brinquedo.

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Foram dias de estranhamento, de café horrível, comida gordurosa e pessoas excêntricas. De tanto se esforçarem para ser diferentes, os americanos acabam conseguindo parecer apenas uma coisa: americanos.
Falei dos extremos lá no começo. Pois bem: nesses quatro dias, me deparei com grosserias em diversos níveis. Mas também encontrei pessoas muito simpáticas e prestativas (sem contar as garçonetes, essas só querem mesmo a gorjeta). Johan-MIA foi um exemplo. Na madrugada de quarta para quinta-feira, o oficial de alfândega no aeroporto de Orlando foi outra surpresa agradável. Para começar, falava um português impecável. Olhou meu passaporte, olhou para minha cara, para o passaporte de novo.
— É uma pena…
Gelei.
— Não vamos nos ver na próxima semana.
— …
— Então… Feliz aniversário.
— P-puxa. Obrigado. Muito obrigado.
— Fica com Deus.
Somando-se tudo, minha impressão final dos gringos pode se resumir na imagem da gentileza desse homem.

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Chegando em casa, meu pai me fez uma pergunta típica dele:
— E os americanos? São mesmo tudo aquilo que falam?
Pois são. Para o melhor e para o pior, eles são.

Cheguei ao aeroporto de Miami ontem, pouco depois das cinco da manhã. Após oito horas espremido na classe econômica, eu já antecipava o conforto de um banho quente, uma boa cama. O vôo para Orlando só sairia às sete, e depois disso eu só precisaria enfrentar mais uma hora de sardinha e pronto.

Inocente que sou, não estava contando com a alfândega. Um negão (por aqui os negões são negões mesmo) me mandou para outra fila, separando-me dos dois colegas brasileiros. É claro que a fila deles andou mais rápido e, para resumir a história toda, perdi o vôo. Fui remarcar e ainda precisei esperar quinze minutos enquanto um brasileiro esperto tentava salivar a moça da American Airlines para que o deixasse entrar no avião que já se preparava para decolar. Quando chegou minha vez, elogiei a paciência da funcionária, disse que estava na mesma situação. Ela foi muito gentil e me informou o horário de partida do próximo vôo para Orlando: 12h10min. Sua colega de balcão entrou na conversa, reclamou dos passageiros mal educados que vivem a pedir que se abra exceções, essas coisas. Pedi desculpas pelo compatriota, expliquei que nem todos os brasileiros são assim (mentirinha à toa).

Bem, eu tenho o costume de chamar as pessoas pelo nome. É uma gentileza besta, que não me custa nada, e que geralmente tem bom efeito. Para isso, estou sempre de olho no crachá de quem me atende. “RAQUEL”, dizia o crachá da primeira, “MIA”, informava o da segunda. Então me despedi de ambas:

— Thank you, Raquel. Thank you, Mia.

Em Raquel, o efeito foi o esperado, e ela abriu um sorriso. Mia me pareceu mais surpresa do que encantada. Nem liguei: saí satisfeito comigo mesmo, com minha gentileza, maturidade e estoicismo.

Ah, mas é claro que eu não vivo sem presepadas. Passeando pelo aeroporto, já preparado para quatro horas de bundagem, reparei que uma parede ostentava a inscrição “MIA” em letras enormes. “Que coincidência…”, pensei, mas lá no fundo uma voz já me dizia que eu tinha feito alguma besteira. Quanto mais eu andava pelo saguão, mais eu via a inscrição por todo canto. Comecei a me sentir um completo idiota, e resolvi tirar a prova. Entrei em uma banca, comprei uma latinha de Altoids, e perguntei à atendente se MIA significava o que eu começava a achar que significava.

— Sim. Miami International Airport.

Olhei para o crachá dela. “MIA”. Do lado esquerdo, o nome dela, Mirza.

— Eu sou um idiota, Mirza. Acabo de chamar uma funcionária da American Airlines de Mia.

A mulher teve uma tal crise de riso que já ia se esquecendo de me cobrar pelas balas. Eu me senti envergonhado e fiquei pensando no que fazer. Depois de vagar por um tempo, resolvi voltar ao balcão e pedir desculpas. “Mia”, que na verdade se chamava Johan, disse que não era necessário, que estava tudo bem. “How sweet…”, disse Raquel. E eu me senti mais idiota ainda.

Mais tarde, após outra confusáo com vôos, essa interação toda se mostrou bastante útil. Mas isso eu conto depois. Por enquanto eu só queria compartilhar com vocês mais este capítulo patético de minha triste vida.

— Marco!
Ao ouvir meu nome, pensei…
Nah, mentira. Eu tenho o ego maior do que a barriga, mas começar o terceiro post quase seguido com alguém chamando meu nome já seria demais.  Né nada disso. Estou aqui ensaiando para escrever sobre o show de Roberto Carlos, o Compasso Humano. Talvez hoje, talvez não.
Mas, vejam: amanhã de manhã eu e Ana Cartola vamos sair por aí procurando apartamento para alugar. Torçam por nós. Com esse negócio de caçar moradia, já começo a me sentir como aquelas solteironas que vivem a se queixar que os homens que não são casados são veados: os apartamentos que não estãoão alugados estão… Er… Na Vieira de Carvalho.

— Marco Aurélio!
Saindo do estacionamento próximo ao emprego novo (e longe dos lugares por onde costumo circular), fiquei surpreso ao ouvir meu nome. Era uma moça ruiva, bonita, quem me saudava de forma tão efusiva. Estava visivelmente apressada, e não reduziu o ritmo do passo. Apenas tirou o fone de uma das orelhas.
— Oi… — eu disse, buscando desesperadamente no banco de dados da memória capenga o nome da ruiva.
Jesus, me chicoteia!, Emotionrélio… Sou fã — e fez um gesto de “a luta continua, companheiro”, ainda caminhando em passo acelerado.
— Puxa… Obrigado… Er…
Ela já ia longe, mas ainda se virou para trás para um último comentário:
— Sou esposa do… — e aí não entendi mais nada.
Digo-lhes uma coisa: pensem o que quiserem de minha vaidade, mas começar o dia sendo reconhecido na rua é bom como o diabo.