
A felicidade do CPAP
Esse trambolho no meio da cara do gordão aí do lado é a melhor invenção do mundo — embora a cara do gordão faça parecer que não. O nome do troço é aparelho de CPAP (Continuous Positive Airway Pressure, ou pressão positiva contínua das vias aéreas). O que vai na cara aí do sujeito é só a máscara; um tubo liga a máscara a um aparelho que fica soprando dentro do nariz do infeliz.
Logo depois da minha primeira
polissonografia, que constatou um
recorde mundial de apnéia, eu já sabia que ia precisar usar o aparelho. Pesquisei na internet, achei fotos como essa aí e fiquei preocupado: como é que eu ia dormir com essa tromba na minha cara? O que faria minha esposa ao acordar no meio da noite e dar de cara com o Darth Vader?
Então foi com pensamentos sombrios que cheguei anteontem de mala e cuia ao hospital Rubem Berta para a segunda polissonografia. Dessa vez, o exame teria uma diferença: eu ia dormir com o CPAP para determinar a pressão correta do aparelho que vou usar.
Bom, o Rubem Berta tem algumas vantagens em relação ao CEMA, onde eu fiz o primeiro exame. O atendimento é mais rápido, as pessoas são mais simpáticas e as enfermeiras são mais gostosas. Tem TV a cabo, então fiquei assistindo Discovery Channel enquanto não vinham me botar eletrodos pelo corpo. Quando eu começava a ficar fascinado com a vida empolgante dos
estromatólitos, duas enfermeiras — uma morena e uma loira que nem te conto — chegaram para me amarrar, amordaçar e surrar por ser um menino mau, muito mau.

Olá, enfermeira!
Tá, mentira. Elas mal falaram comigo. Me mandaram sentar numa cadeira, grudaram eletrodos na minha cabeça, no peito, na barriga, nas pernas. Mandaram deitar na cama de novo e saíram. Minutos depois (vocês sabiam que os estromatólitos foram a forma dominante de vida na Terra durante dois bilhões de anos?) a loira voltou com a máscara do CPAP e eu me preparei para uma noite insone.
A máscara era mais trambolhuda do que a do gordão ali em cima. “Segura a máscara no nariz pra ir se acostumando”, disse a loira, “daqui a pouco eu volto pra te amarrar, digo, pra amarrar a máscara.” Eu, obediente, fiquei segurando a tromba contra a cara, aquele negócio assoprando dentro do meu nariz, fios pelo corpo todo. Quarto estranho, cama estranha, travesseiro estranho. Suspirei de resignação.
Logo a loira voltou para prender a máscara. Perguntei a ela o que faria se precisasse ir ao banheiro — longe de mim passar pelo vexame do papagaio de novo. “Aperta o botão”. Ela disse “boa noite”, apagou a luz e saiu. Sozinho no quarto, deitado de barriga para cima, pensei: “Nem fodendo que eu vou conseguir dormZZZZZZZZzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz…”
Eu não sei descrever o que aconteceu em seguida. Bom, se você respira durante a noite deve achar a coisa mais normal do mundo. Mas eu, que sempre precisei escolher entre dormir ou respirar, tive a melhor noite de sono da minha vida.
Porque, vejam, o sono é como uma sessão de mergulho. Você começa na superfície, vai afundando, afundando, afundando. Depois você volta, chega perto da superfície, e começa tudo de novo. O sono tem fases mais superficiais e mais profundas, e elas se sucedem em ciclos. As pessoas normais mergulham de escafandro: por mais que afundem, têm sempre algum oxigênio vindo da superfície. Quem sofre de apnéia fica o tempo todo perto da superfície, de pés-de-pato e snorkel, saindo à tona toda hora para respirar.
Com o CPAP, parecia que tinham me dado um cilindro de oxigênio. Eu comecei a sonhar que estava em Santos, jogando futebol na praia, e depois ia para um bar. Numa noite normal, o sonho terminaria aí: eu acordaria desesperado por oxigênio, resfolegando e com a boca seca. Levantaria para tomar um copo d’água. Depois do segundo copo, eu começaria a levantar de hora em hora para mijar e beber mais água.
Com o CPAP, meu inconsciente endoidou. Eu saí do bar e não acordei, então o inconsciente botou o Thunderbird (sim, aquele VJ da MTV) para me seguir e dizer que eu tinha saído sem pagar. Voltei para o bar, paguei e o inconsciente ficou lá esperando. Nada aconteceu, então ele foi inventando: fui seqüestrado, minha família toda foi seqüestrada, meu irmão fugiu, meu irmão voltou, os seqüestradores me levaram para um ponto de ônibus, o Romeu Tuma estava lá e prendeu os caras, eu voltei para onde estava (um hospital) para procurar minha família…

Nem é tão ruim assim, vá.
Só acordei porque meu celular tocou. Fiquei preocupado, toquei a campainha, veio a loira. Ela tirou a minha máscara e eu pedi o telefone. Achei que fossem quatro da manhã. Ainda não era meia-noite. Ana Cartola tinha telefonado por engano.
Voltei a dormir, vieram outros sonhos com falhas de continuidade. Depois de muito tempo, a loira veio me acordar. Eram cinco e meia da manhã; eu sentia como se tivesse dormido doze ou catorze horas seguidas.
Agora é esperar o resultado do exame, passar pelo médico e decidir que tipo de CPAP vou usar. Porque isso já está decidido: eu vou usar o trambolho. Para o resto da vida, se for necessário.