— O que são aquelas coisas cor-de-rosa no tronco da árvore?
Olhei para onde minha marida apontava. Um punhado de cogumelos crescia na base um tronco à margem do lago no Parque Ecológico Tietê. Fomos até lá para tirar fotos (trabalho de faculdade), acabamos andando cinco quilômetros. Nos trechos mais desertos da trilha, ela falava em assassinos que matavam os caminhantes e os enterravam no lodo.
— São cogumelos — eu disse.
— Acho que não. São chicletes. As pessoas que morreram estavam mascando chicletes. Aí eles grudam os chicletes no tronco das árvores para saber quantas pessoas eles já mataram.
— Eles?
— ELES!
— Ah… E todas as pessoas assassinadas mascavam chicletes? Sempre do mesmo sabor?
— Eles dão chicletes para as pessoas. Depois matam.
— Ah…
Esse é o tipo de diálogo mais comum que temos: absurdos completos que nascem daquela cabecinha coberta de cabelos castanhos (naturais de fábrica!) e se desenvolvem até a loucura absoluta. Por exemplo: vocês sabem por que nunca foram encontrados restos mortais de nenhum pé-grande? Porque existe um ET que carrega os corpos dos pés-grandes que morrem.
O nome do ET é Abduze.
ABDUZE.
Assim são nossas piadas internas. Nada de coisinhas fofas e bonitinhas. Preferimos ETs como agentes funerários da família pé-grande. Ou assassinos que contam suas vítimas grudando chicletes no tronco das árvores. Ou um ET (ela gosta de ETs) que entrou em nosso apartamento, vindo do espaço através do aparelhinho do moço que instalou o telefone. Ou a Libéria, que é um país que foi fundado pelas libélulas (elas construíram uma cerca para não deixar mais ninguém entrar, e agora vivem por lá, libelulando).
Se eu soubesse que ia ser tão legal, tinha casado no primeiro mês de namoro.

Morando sozinho há duas semanas, depois de 33 anos no recôndito do lar paterno, tenho vivido dias de epifanias constantes. Por exemplo: eu tomo meu café de manhã, deixo a louça toda na pia e vou trabalhar. Depois vou à faculdade. Quando chego em casa de novo, está tudo exatamente no lugar onde eu havia deixado. Ao contrário do que acontecia na casa de meus pais: lá a louça voltava para os armários em algum momento no decorrer do dia. Acho que os duendes daqui não são tão eficientes. Ou não conseguem subir até o terceiro andar, porque suas perninhas são muito curtas para subir as escadas e eles são baixinhos demais para chamar o elevador. Sei lá.
Agora há pouco (sério, menos de uma hora) tive outra revelação dessas. Cheguei da faculdade, fui tomar um copo d’água e vi aquele anel cromado que envolve a base da torneira ali dependurado, como está desde o dia da instalação. Explicando: resolvida a papelada da locação, uma de minhas primeiras providências foi trocar a torneira da cozinha. A torneira original era muito xexelenta e não combinava com minha belíssima pia (comprada, não se esqueçam, no Mercado Livre a um preço ridículo). Então comprei uma torneira metida a besta, de aço inox com filtro acoplado, e tratei de efetuar a troca, sob o olhar entre temeroso e cético de Ana Carlota, minha conmuitasorte. Para decepção dela, a torneira foi instalada sem maiores percalços. Para minha decepção, o tal anel cromado, que deveria dar o acabamento entre a parede e a torneira, ficou dependurado. Bom, ficou um negócio esquisito, não vale a pena tentar explicar. Basta que vocês saibam que eu tenho problemas e aquele treco me incomodou por alguns dias. Mas a preguiça é a força que me move, então logo eu me esqueci do acabamento da torneira. Até hoje.
Entendam que o Marco Aurélio de hoje não é o mesmo de um mês atrás. Ah, de jeito nenhum! Sabem por quê? Porque semana passada eu e minha noiva, adultos que somos, instalamos um chuveiro. Sozinhos! Então hoje, como eu disse, tomei minha água, vi lá aquele negócio pendurado, balancei, dei descarga, voltei à cozinha e vi aquele outro negócio pendurado. Aquilo foi me dando um incômodo, que virou raiva, que virou desespero, e resolvi que hora de dar um basta à situação. Vim até o escritório, peguei o rolo de veda-rosca e fui resolver o problema.
Digo-lhes: uma torneira não é mecanismo tão simples quanto parece. É uma máquina ardilosa e cheia de manhas. Outra diferença para a casa de meus pais: lá as torneiras eram bem mais singelas em seu funcionamento. Aqui é uma complicação. Primeiro tentei tirar a desgraçada da parede e a rosca metálica trouxe junto uma outra, de plástico, que desempenhava o papel de adaptar a torneira ao cano. Toca procurar ferramenta para tirar a peça extra, e nada. Até que tive a idéia de enrolar a bicha (tem várias aqui na vizinhança, mas não é disso que estou falando, deixem de bestagem) em um pano de prato e arrancar com as mãos mesmo, técnica que eu já havia empregado para retirar o chuveiro antigo. Funcionou. Então envolvi as duas roscas, metálica e plástica, em voltas e mais voltas de fita veda-rosca. Meu raciocínio era simples: com o volume extra, a torneira não entraria tão fundo no cano da parede e o anel cromado do inferno ficaria em seu devido lugar.
Qual o quê! Ao tentar montar o esquema todo de novo percebi que a determinada altura a torneira girava em falso. Abri o registro e um fio de água começou a escorrer parede abaixo. Cocei a cabeça, fechei o registro, desmontei tudo, tirei a fita, remontei, abri o registro novamente. Tudo na mesma. Sorri, desmontei tudo de novo. Sim, sem fechar o registro. Um jato d’água fortíssimo (a caixa fica dez andares acima) espalhou água por toda a cozinha. Eu demorei para entender o que acontecia, e depois demorei mais para fechar o registro maldito com as mãos molhadas.
Olhei à minha volta e me senti como Noé. Sem desanimar, no entanto, fui até o banheiro pegar o rodo para livrar o chão da cozinha daquele dilúvio. Fiz o que pude (não muito) e resolvi vedar a torneira feladaputa com silicone. Abri o gabinete da pia e fiquei feliz por encontrar uma bisnaga intacta. Abri a embalagem, cortei o bico, furei onde tinha que furar e apertei. Nada. Apertei mais. Nada. Mais. O fundo da bisnaga estourou, jorrando silicone pra todo lado. Espalhei aquela porra de qualquer jeito, rosqueei a torneira como deu e fui tomar banho, na esperança que algum duende solidário e pernalta viesse resolver ao problema.
Ao voltar à cozinha, a situação ainda era a mesma. Nada de duende pernalta. Embrulhado em uma toalha, tratei de abrir as janelas e puxar toda aquela água para o ralo. Depois ainda fiquei uns bons cinco minutos procurando minha cueca. Estava sobre o espaldar de uma cadeira. Triste.
Agora estou aqui, ainda com resquícios de silicone seco nas mãos, esperando que a cozinha seque por si só e que a vedação porca seja ao menos eficiente. E lhes digo: torneira é um bicho muito temperamental. Se as de sua casa funcionam, deixe-as quietas.

Como disse minha futura esposa, temos vivido dias interessantes. Procurar apartamento. Negociar com imobiliária. Comprar móveis no estilo “família vende tudo” (pechinchando, sempre). Aceitar móveis e presentes de amigos e família. Procurar estacionamento na região. Comprar gabinete para a pia da cozinha. Contratar quem instale a pia. Planejar a mudança. Ir ao cartório dar entrada na papelada matrimonial. Comprar geladeira, sofás, vassouras, papel higiênico, lençóis, cabides, cestos de lixo. Contratar telefone, internet, TV a cabo.
Como é que meu pai fez tudo isso e sobreviveu? Essa vida de adulto é muito cheia de coisas, credo…

Mulheres falando alto, brincadeiras de mau gosto, castigos constrangedores, tudo isso em troca de um punhado de utensílios e utilidades domésticas. Quem já foi a um chá de cozinha ou chá-bar, sabe do que estou falando. Quem nunca foi, não sabe a sorte que tem.
Casal anti-social que somos, eu e Ana Cartola temos horror a essas ocasiões. Só que também queremos equipar nossa casa, é claro. Então resolvemos fazer um chá de cozinha virtual: a lista está no Submarino, é só entrar lá e comprar. Se o item não estiver disponível, pode comprar em outro lugar, não nos importamos. Fácil, não?

CLICA!

Em contrapartida, continuaremos a atualizar nossos blogs, para o deleite de nossa legião de fãs.
Bom negócio.

Update: Darlana Godoi, muito observadora (apesar do estado alterado), notou que a lista era inútil sem um endereço de entrega. Pois bem, incluímos o endereço lá. Agora Darlana pode comprar nosso presente. E vocês também. Mexam-se.

Dinheiro jogado na privada

Um bom destino para seu dinheiro


Eu e Ana Cartola, assim como outros amigos que planejam alugar um imóvel, já estamos acostumados à situação: começamos a falar da casa, da localização, das vantagens de cada região da cidade, do transporte, dos móveis, dos eletrodomésticos. Até que o assunto aluguel é mencionado e alguém arregala os olhos para perguntar por que não compramos um apartamento em vez de alugar. Se falamos do valor do aluguel, então, aí é que vem o desespero:
— Mas é o mesmo valor da parcela do financiamento! É besteira alugar!
Não culpo essas pessoas. Por muito tempo eu também pensei assim. Sou filho de baianos, e o sonho do baiano quando chega a São Paulo é comprar um terreno para construir sua casa. Desconfio que o sonho mesmo é encher uma laje, mas isso já é outro assunto. O fato é que minha cultura familiar é impregnada dessa necessidade de possuir um imóvel. Com o tempo, porém, fui percebendo que algumas das pessoas mais inteligentes que eu conhecia optavam por pagar aluguel. Outras pessoas, inteligentes e precavidas, guardavam dinheiro por bastante tempo e então compravam um apartamento à vista. Eu, como não sou lá muito poupador, comecei a desconfiar do milagre do crédito fácil e do financiamento camarada. Ao que parece, porém, muita gente ainda se escandaliza à mera menção da palavra “aluguel”.
Dia desses causei essa reação em duas pessoas (amigas muito queridas, aliás) simultaneamente. Eu, já cansado de argumentar contra tamanha sabedoria, quis cortar:
— Tá, eu não discuto esse assunto.
Uma delas fez cara de “então tá, né…”. A outra ainda resmungou:
— Ah, tudo bem. Quer dar dinheiro para os outros, problema seu.
Bom, para começar, é problema meu mesmo. As mesmas pessoas que se escandalizam com a resposta “sim” à pergunta “estou gorda?” não hesitam em meter o bedelho quando se trata de algo muito mais importante, como a escolha da moradia alheia. Façamos de conta que não é uma indelicadeza; vamos fingir por um momento que eu pedi a opinião dessas pessoas: quem foi que disse que dar dinheiro ao banco é melhor do que pagar ao proprietário de um imóvel pelo usufruto de sua propriedade?
Ah, mas aí é uma discussão sem fim. “Você gasta, mas gasta com o que é seu”, dizem. “Pelo menos não é dinheiro que vai pelo ralo”, argumentam. Não adianta brandir o bom senso contra essa gente, nem a matemática. Mas aqui no blog eu posso, mesmo porque meus leitores são gentis e, se têm alguma opinião contrária àquilo que eu e Ana Cartola estamos prestes à fazer, tiveram a delicadeza de guardá-la para si mesmos. Vamos lá.
Quando decidimos nos casar e alugar um apartamento, definimos um limite de mil reais entre aluguel e condomínio. Como o condomínio é pago por qualquer morador, seja ele proprietário ou inquilino, podemos ignorar esse valor em nossas contas. Vamos trabalhar, então, com 650 reais de aluguel, que é o valor cobrado pelo proprietário de um apartamento muito simpático no centro da cidade, do qual voltarei a falar em tempo propício. Dados: apartamento no centro, a uma quadra do metrô, 125 metros quadrados, dois dormitórios, aluguel de 650 reais. Valor de venda de apartamentos semelhantes na mesma rua: entre 170 e 200 mil reais. Digamos que o apartamento valha 150 mil, vá.
Tenho aqui comigo um panfleto de divulgação de um novo empreendimento. “Obras aceleradas”. “Visite apartamento decorado”. Essas coisas. Dados: apartamento na Zona Leste, 65 m², a 22 quilômetros do centro e pelo menos três quilômetros da estação de metrô mais próxima. Calcular o valor é difícil, porque são muitos pagamentos diferentes com periodicidades distintas: três parcelas de R$ 1.609 (no ato, 30 e 60 dias), 26 mensais de R$ 460, começando em julho deste ano até a entrega das chaves, R$ 2.512 em agosto de 2009 (mais os 460 que o feliz proprietário ainda estará pagando), R$ 7.719 em agosto de 2010 (sem esquecer os 460, só mais um pouquinho) e financiamento dos R$ 87.932 restantes, direto com o banco, em 240 meses, começando em agosto de 2010. Fui simular a brincadeira no site do banco: fica uma parcela de 989 reais. Multiplique 240 por 989 e você terá 237.362 reais, ou 2,7 vezes o valor que o banco emprestou. Como é bonzinho, o banco.
Fui ao site de outro banco ver o que aconteceria se, em vez de fazer esse financiamento tão mais inteligente do que o aluguel para ter um lar para chamar de meu, eu resolvesse ir pagando aluguel e guardando algum dinheiro. Quanto eu teria que guardar por mês em um investimento que renda 1% a.m. (meu irmão me falou que existe) para ter 88 mil reais em vinte anos? O mesmo valor do aluguel, pensei. Surpresa: guardando R$ 107,17 por mês, em vinte anos eu terei esse valor corrigido pela expectativa de inflação no período, ou seja, uns 106 mil reais. Eita! Pouco mais de cem reais por mês! Tem gente que gasta isso com cigarro!
Agora suponhamos que, na hora que minhas amigas se espantaram, o crônon alternativo (leia aqui minha teoria dos crônons) correspondesse a um Marco Aurélio decidido a se submeter a essa coisa toda e financiar seu apartamento. Esse careca alternativo perguntaria:
— Mas e a entrada?
E elas:
— Vende o carro!
Então o Marcurélio alternativo venderia seu Corsa alternativo para arcar com as várias despesas prévias e, em agosto de 2010, estaria feliz da vida, a pé, mas de apartamento novo. Além de precisar comprar um carro (o apartamento fica na rua Crubixá, em Cangaíba, não tem como ser perto), ele e a Ana Cartola alternativa precisariam se preocupar em reformar, mobiliar e equipar o apartamento. No fim da tarde, fariam as contas na sacada exígua, sorrindo um para o outro seus sorrisos amarelos, alternativos e desesperados. Mas estariam firmes no propósito de, com tudo isso, ainda pagar quase mil reais até que se tornassem um feliz casal de cinqüentões donos de seu próprio imóvel. Maravilha!
Vamos agora comparar a vida desse casal feliz e vitorioso com o casal real, pobres e miseráveis inquilinos. Suponhamos que nós dois resolvêssemos investir essa diferença entre a parcela (989 reais) e o aluguel (650 reais) pelos próximos vinte anos (a começar em agosto de 2010, porque antes vamos comprar coisas para o apartamento, sem pressa): qual seria nossa situação em 2030?
Voltei lá ao simulador para verificar o que acontece com 339 reais aplicados mensalmente por vinte anos. Um problema: o sistema só deixa simular com uma aplicação inicial mínima de mil reais. Tudo bem, acho que conseguimos juntar mil reais até agosto de 2010. A partir daí, guardando aqueles 339 mensalmente, em vinte anos teríamos R$ 346.250. O suficiente para comprar dois apartamentos nesse prédio do Centro. Ou três na rua Crubixá.
Durante esse tempo todo, em vez de dar dinheiro ao banco, eu pagaria a seres humanos para morar em seus domínios. Nada mais justo.
Mas vou fazer o quê? Tem gente que prefere jogar dinheiro pelo ralo, comprando um apartamento e dando dois ao banco. Paciência.

— Marco!
Ao ouvir meu nome, pensei…
Nah, mentira. Eu tenho o ego maior do que a barriga, mas começar o terceiro post quase seguido com alguém chamando meu nome já seria demais.  Né nada disso. Estou aqui ensaiando para escrever sobre o show de Roberto Carlos, o Compasso Humano. Talvez hoje, talvez não.
Mas, vejam: amanhã de manhã eu e Ana Cartola vamos sair por aí procurando apartamento para alugar. Torçam por nós. Com esse negócio de caçar moradia, já começo a me sentir como aquelas solteironas que vivem a se queixar que os homens que não são casados são veados: os apartamentos que não estãoão alugados estão… Er… Na Vieira de Carvalho.