Passando em frente a uma banca hoje, reparei que todos os jornais falavam numa certa Liana e num tal Felipe. Eu — que não leio jornais nem vejo TV e tenho orgulho de minha alienação — não sabia do que se tratava, então tratei de me informar. Ao que parece é a notícia da vez: um casal foi acampar e acabou assassinado. Bom, acho que todos já estão cansados de saber da história. Eu queria mesmo era comentar a capa do Jornal da Tarde de hoje:

Eu pergunto: como é que posso dar adeus a pessoas que nem conhecia? Eu sei que o caso é triste, e tento imaginar a dor e a revolta que as famílias e os amigos de ambos devem estar sentindo agora. É triste, sim. Mas não me afeta. A morte do rato em Green Mile, do Stephen King, me entristeceu mais do que esse caso. Por que eu seria hipócrita então?
Sou cruel? Não! Cruel é o JT, que usa a dor das famílias afetadas para vender jornal. Cruéis são as pessoas que compram o jornal loucas para acompanharem Passo a passo o roteiro da tragédia. Minha indiferença nesse caso é mais solidária às famílias que sofrem do que ficar lamentando a morte de Liana e Felipe, os quais jamais conheci. Lamentando, mas querendo saber detalhes, é claro. Qual dos dois morreu primeiro? Como eles foram mortos? Ela foi violentada? Mas de que forma? E quantas vezes?
Eu tenho nojo.
E agora as vozes que bradam a favor da pena de morte se levantam mais uma vez. Estranho que essa gente só se manifeste quando a imprensa faz esse jogo emocional com algum caso. Ninguém fala em pena de morte quando um favelado é morto. Policiais têm sido assassinados sistematicamente em São Paulo e nada de alguém se lembrar da pena capital. Engraçado, né? Querem pena de morte? Organizem-se, elejam deputados e senadores que defendam as mesmas idéias. Oras.
O problema é que nego quer ser mais cruel que o Javé do Velho Testamento: enquanto a Lei Mosaica pode ser resumida em “Olho por olho, dente por dente”, tem muita gente por aí que quer algo do tipo “Pisão no pé por olho” ou “Chamar de ‘seu bobo!’ por dente”. Gente que fala que o certo seria o exército bombardear favelas. Que seria bom a polícia sempre dar um jeito de fazer a mesma faxina que fez no Carandiru em 1992. Pessoas assim são a favor da barbárie, não da justiça.