Roberto (11:21 AM) :
marco vc conseguiria me emprestar uns 400 ou 500 reais até sexta feira?
Marcurélio (11:22 AM) :
Não. Tô sem nada e ainda vou pra Curitiba.
Marcurélio (11:25 AM) :
Faz uns boquetes na Rua Aurora.
Roberto (11:26 AM) :
hehehehehhe mas boquete demora muito
vou raspar a bunda e por uma placa : “Bunda até sexta na promoção , mas só até sexta”
Categoria: Família
Poema
Estou ouvindo (pela quarta vez hoje) o CD Olhos de Farol do Ney Matogrosso. O CD é muito bom, mas a música que eu mais ouço é Poema. Em 1974, aos 16 anos, Cazuza escreveu um poema para a avó. Quando ela morreu (anos depois da morte do neto), a família encontrou o poema e Lucinha Araújo, mãe do Cazuza, deu de presente para o Ney Matogrosso. Ele pediu ao Frejat que o musicasse e gravou.
Tenho esse CD desde 99. E sempre ouço essa música pensando na minha avó, a quem eu devo tudo.
“Poema”
Eu hoje tive um pesadelo e levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo e procurei no escuro
Alguém com seu carinho e lembrei de um tempo
Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo
Hoje eu acordei com medo mas não chorei
Nem reclamei abrigo
Do escuro eu via um infinito sem presente
Passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim, que não tem fim
De repente a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua
Que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio mas também bonito
Porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu
Há minutos atrás
Para o meu irmão
Tá no sangue
Meu irmão veio me perguntar o que significava sarcasmo. Expliquei e tal, e ele: “Vixe, então eu sou sarcasmado toda hora”. Tão vendo? Sarcasmado é uma palavra melhor ainda que sarcasmo.
Eu sou ridículo
Acordei tarde hoje, perdi o fretado e tive que encarar mais de uma hora e meia de transporte público. Quando isso acontece, boto um CD no discman, aumento o volume e vou ouvindo música. Já no terminal Bandeira, esperando o ônibus dentro do qual gastaria 40 minutos até o Brooklin, estava ouvindo Tim Maia. E vocês sabem como é a música do Tim, não tem como não dançar e cantar junto. Não ligo pra isso: Canto alto e fico balançando a cabeça em público mesmo, já que ninguém me conhece. Só que hoje aconteceu que eu estava protagonizando essa cena ridícula quando adivinhem quem apareceu na minha frente? Maconhado! Digo, meu cunhado! Coitado, não sabia o tipo de genes que estava enfrentando quando se casou com minha irmã…
CARALHO!
Como eu sou derrotado na vida! Até meu irmão me chama de filho-da-puta!
Dona Donata
Talvez eu ainda não tenha falado dela aqui. Apesar de ateu, há coisas que são sagradas para mim, e não gosto de ficar falando nelas. Acho que é pra não desgastar, sei lá. Só sei que dentre essas coisas ocupa lugar de maior destaque a lembrança da minha avó materna, Dona Donata. Todo esse negócio que eu tenho, de contar histórias de um jeito meio engraçado, meio triste, eu herdei dela. E ela contava histórias bíblicas assim também: A versão dela para a história de Salomão e as duas mulheres que brigavam por um bebê era muito mais legal e engraçada que a original, com Salomão jogando a criança pra cima e tudo mais.
E sonhei com ela esse fim-de-semana. Ela dava um jeito de entrar em contato comigo através de uns aparelhos parecidos com modems, e as mensagens vinham numa espécie de código morse. Começou a me explicar que toda pessoa, depois de morta, vai para onde passou a vida acreditando que iria. Então o cara que acha que vai prum lugar cheio de anjinhos tocando harpa, vai prum lugar cheio de anjinhos tocando harpa. Um cara que acredita que vai passar a eternidade com muitas mulheres e cerveja, vai para o céu da putaria. Minha avó estava num lugar muito bonito, tinha praia lá, e ela conversava muito com Nossa Senhora, não rezando nem nada, mas como velhas comadres. E Deus (em maiúscula aqui por respeito à minha avó, não a ele) passava às vezes pra ouvir umas histórias dela também, e ria, ria muito.
Então perguntei para ela o que me estava reservado depois de morrer. E ela respondeu que eu iria para o inferno. Não por ser um descrente, mas por trabalhar com máquinas, e passar tanto tempo com estes seres sem espírito.
Antes que perguntem: Não, eu não acredito que minha avó tenha falado comigo em sonho. Mas acho meu subconsciente precisava encontrar um modo contundente de gritar por socorro, de avisar que estou afundando. Nada melhor do que fazer isso através da voz de Dona Donata, a melhor contadora de histórias que já habitou esse planeta.

