Sessenta anos atrás essa canção mudou a música brasileira para sempre.

Ela começa em ré menor, parecendo ser mais uma daquelas músicas de dor-de-cotovelo da época: “Vai, minha tristeza, e diz a ela que sem ela não pode ser…” Mas lá pela metade vem a mudança, o tom muda para maior e a música fica otimista: “Mas se ela voltar, se ela voltar, que coisa linda! Que coisa louca!”. E no final ela fica assertiva: “Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim”. A revolução começa aí, na música de Tom Jobim e na letra de Vinicius de Moraes. Mas a verdadeira reviravolta está no baiano que gravou a música tocando violão e cantando como nunca antes se tinha visto.

No selo do compacto que tinha “Bim Bom” do outro lado, de 1958, “Chega de Saudade” era identificada como chorinho. Podia até ser quando Tom Jobim a compôs. Mas depois de passar pelo violão e pela voz de João Gilberto, “Chega de Saudade” nunca mais foi a mesma, a música nunca mais foi a mesma, o Brasil nunca mais foi o mesmo.

Em 1959, quando a música saiu no LP “Chega de Saudade”, Caetano Veloso e Gilberto Gil tinham 17 anos. Gal Costa, 14. Chico Buarque tinha 15. Edu Lobo, 16. Roberto Carlos, 18. Todos esses e muitos outros contam da mudança que aconteceu na vida deles, ainda adolescentes, quando ouviram “Chega de Saudade”. Essa influência sobre artistas tão diferentes fica clara no começo da carreira. Ouça o primeiro disco de Caetano e Gal, os primeiros do Chico, os primeiros compactos do Roberto, e você vai notar que é uma molecada imitando João Gilberto.

Os grandes compositores e intérpretes do Brasil nasceram de João. E não só isso: ele deu uma nova vida à música brasileira antiga. Todos os grandes compositores dos anos 30 e 40 estão presentes na discografia de João. É como se toda a informação musical do Brasil se condensasse num só ponto, João, que então explode para todos os lados, dando origem a um novo universo musical aqui e no mundo.

João Gilberto é o Big Bang.

João não foi só “uma pessoa conhecida”, como disse o imbecil-mor quando da morte dele, em julho. João Gilberto é a visão de um Brasil ideal, capaz de beleza, de perfeição, de poesia.

Eu conheci João em 1991, aos 16 anos. Fiquei obcecado por ele. Decidi aprender a tocar violão só para ver se um dia conseguia tocar “Chega de Saudade”. Consegui.

Quatro anos depois de começar as aulas de piano, eu ainda não estava pronto para tocar “minha” música. Sei o quanto ela é complicada. Mas aí João fez essa besteira de morrer, e eu precisava homenageá-lo. Então escolhi “Chega de Saudade” para tocar na audição de fim de ano.

Foi a primeira vez nesses quatro anos que a professora Cristina Simalha ficou com dó de mim. Ela foi escrevendo o arranjo e entregando pra mim aos poucos, quase que pedindo desculpas.

(Era muito, muito difícil. Eu sentava na frente do piano, olhava para a partitura e desistia. Quando tentava tocar, não saía nada. Eu me irritava, saía, ia dormir. Contei isso, e a Cris: “Será que você não está com depressão?” Fui investigar e, de fato, estava com depressão. Comecei a me cuidar. Depois disso, a música foi saindo. Vejam vocês: a paixão por João Gilberto e a sensibilidade da minha professora fizeram eu me tratar. Isso fez — e tem feito — toda a diferença.)

Bom, ontem foi dia de tocar a música em público. Ela estava saindo muito melhor do que isso em casa, mas ponho na conta do nervosismo. Errei muito, mas não ligo. Fiz o que aprendi com João: o melhor que eu podia.

Obrigado, Cris. Obrigado, João.

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A ansiedade é uma bicha histérica que mora dentro de mim e tenta o tempo inteiro tomar o poder dentro da minha cabeça. Qualquer coisinha que aconteça desperta a bicha. Bastou um comentário que não entendi, um olhar meio torto, um rumor sem comprovação e pronto: lá vai a bicha dar piti. “VAI PERDER O EMPREGO, BOFE! O QUE VOCÊ VAI FAZER SEM EMPREGO?” “GENTE, E ESSAS MANCHA NAS SUAS CANELA? É CÂNCER, ISSO AÍ! VAI MORRER DE CÂNCER NA CANELA!” “TÁ TODO MUNDO MORRENDO E VOCÊ É O PRÓXIMO, BI!” “TRINTA E SETE ANOS! TRINTA E SETE! CREDO!” E por aí vai.
Quando a bicha começa a dar piripaque é um inferno. Ela grita, ela sapateia, rodopia, e eu não consigo pensar, não consigo trabalhar, não consigo dormir. Ano passado a tresloucada conseguiu me paralisar de vez: tive uma crise de pânico, fui atrás de especialistas, me deram remédio pra tomar. No começo desse ano, percebi que o remédio me deixava estranho. A solução do médico foi dobrar a dose, o que me deixou duplamente estranho.
Porque, vejam, o remédio não exorciza a bicha. Na verdade a merda do remédio nem cala a boca da bicha. O que ele faz é envolver a bicha em algodão, plástico bolha e plumas (o último item só para agradar a feladaputa) e abafar a voz dela. Ela continua tendo suas crises, só que eu estou como que longe dela, alheio a ela, não consigo ouvi-la direito. Mas ela está lá e passa sua mensagem de alguma forma. Quando algo que seria perturbador me acontece, eu penso: “putz, se não fosse o remédio eu ia estar arrancando os cab… as unhas agora”. Só que eu passo o dia desconfortável (sem nem estar menstruado) e durmo mal. É a bicha lá, toda embrulhada, dando um jeito de mandar sua mensagem com mímica, código Morse, sei lá.
Eu até nem acharia tão ruim se fosse só a bicha. O problema é que o remédio não faz isso só com a ansiedade. É meio que a mesma coisa com qualquer sentimento, emoção, sensação ou veadagem. “Olha, uma pizza.” “Olha, uma frase de um livro.” “Puxa, uma música.” “Uia, Scarlett Johansson pelada em cima da mesa dançando Cara-Caramba-Cara-Cara-Ô.” Tudo parece alheio a mim, tudo está longe, e eu também não me importo. Estou feliz. Olha como sorrio, estou feliz. Muito feliz. Nossa, que alegria. Jeová me segure, que assim eu não agüento tanta alegria. Vou rir. Tô avisando que eu vou rir, hein? Tô sentindo a risada vindo. Prepara aí. Prepaaaaaaaaaaaraaaaaaaaaa…
Rá.
É muita alegria. Uau.
Então por minha própria conta (porque o médico é só um emissor de receitas cor-de-rosa mesmo) voltei à dose original do remédio. Comecei ontem, deve levar um tempo ainda pra fazer alguma diferença. E espero que faça diferença, porque nem eu me agüento mais. Tem horas que dá até saudade da bicha histérica.
 

Eu vou contar um negócio, mas vocês não podem me chamar de bicha. Ok?
Estou fazendo terapia…
 

EU FALEI PRA NÃO ME CHAMAR DE BICHA, CARALHO!

 
Então. Tô fazendo terapia. Acontece que morreu um monte de gente, aí aconteceram coisas no trabalho e eu acabei tendo um piripaque. Fui pro pronto-socorro, diagnosticaram crise de pânico (“Ué, doutor, mas eu trabalho no CQC…”, uma piadoca sem graça que me rendeu olhares estranhos). Deram lá um remedinho e falaram que eu precisava procurar um psiquiatra. Fui à psiquiatra e ela me receitou antidepressivos e terapia.
Logo de cara, achei a idéia uma merda. Sou a favor das pílulas da alegria, mas psicanálise sempre me cheirou a charlatanismo. Só que aí falei com um, falei com outro, muita gente me falou que era legal e eu pensei: “Tá, vamos tentar saporraê”. A psiquiatra me indicou uma amiga dela, marquei a consulta e fui lá.
Já na primeira consulta eu fiquei com vontade de não voltar mais. Contei o que estava acontecendo e falei que estava especialmente indignado por meu pai ter morrido tão novo, aos 66 anos. Os pais dele viveram até os 85. Alguns dos meus bisavós passaram dos cem. E aí ela bota a mão no queixo e comenta:
— Nossa, que família longilínea
Longilínea.
LONGILÍNEA.
Não consegui prestar atenção em nada mais do que ela disse aquele dia. Sempre que ela abria a boca, eu ouvia “Nossa, que família longilínea” e respondia mentalmente: “É LONGEVA, PORRA!”
Mesmo assim, voltei na semana seguinte. Falei dos meus interesses, falei do quanto gostava da Bíblia e tal. No final da sessão, ela disse:
— E agora você está chegando no seu Muro das Lamentações.
(eu olhando com cara de nada)
— Que é uma das passagens mais lindas, né?
(eu olhando com cara de “hein?”)
— Quando Cristo chega no Muro das Lamentações…
(eu olhando com cara de “calabocapelamordedeus”)
— Ele sofre, mas é o momento em que ele se encontra consigo mesmo.
— É… — (olhando com cara de “Pai, perdoai-a…”)
Com coisas assim eu fui perdendo o interesse pela terapia. Inventei desculpas para não ir. Quando ia, falava só de questões comezinhas (comezinhas!): problemas no trabalho, planos para o fim de semana, a castração do cachorro. E sempre qualquer coisa que eu dizia ela transformava numa analogia e esticava essa analogia até não poder mais. Uma vez eu contei uma história pra ela que eu não posso contar pra vocês porque prometi segredo à protagonista. Basta dizer que envolvia uma catota que acidentalmente caiu do nariz dessa pessoa no banco do meu carro. Essa pessoa ficou com medo de levar bronca e eu fiquei mal por isso. Contei essa história e depois entrei em outros assuntos. A cada coisa que eu dizia, ela comentava:
— Está vendo? Essas são as melecas que vão caindo no seu caminho. Você se envergonha, mas talvez fosse melhor admitir, “Olha, derrubei essa meleca aqui”.
Na semana seguinte, contei pra ela o que estava me incomodando na terapia. Falei da família longilínea, do Muro das Lamentações, das analogias levadas longe demais. Ela riu, pediu desculpas, ficou com vergonha. Só que tudo continuou mais ou menos a mesma coisa, então há três semanas eu liguei para avisar que não ia mais.
— Você não vem hoje ou não vem nunca mais? — perguntou a recepcionista.
— Não vou nunca mais.
— E você quer que a doutora ligue para conversar com você?
— Se ela quiser…
Ela não quis. A única reação dela foi depositar os últimos dois cheques (além de tudo, a mulher era desorganizada e deixava meus cheques dando bobeira na gaveta).
Bom, então fui procurar alternativas. Um velho amigo me recomendou muito a terapeuta dele, então telefonei, marquei, fui. Que diferença! Essa nova é uma japonesa miudinha, sorridente, que fala pelos cotovelos.   Ao final da primeira sessão, ela se despediu dizendo:
— Se você resolver continuar mesmo, semana que vem eu quero que você me traga sonhos.
Fiquei olhando para ela durante dois segundos. Por um instante, achei que ela estivesse me pedindo para passar na padaria e comprar sonhos pra ela. Achei que era muita cara-de-pau, então refiz os cálculos e concluí que ela estava falando de sonhos mesmo. Contei isso, ela riu. Pessoas que riem são legais.
Amanhã é a terceira sessão com a japa. Ela escuta o que eu falo, parece que entende e diz coisas que fazem sentido. É quase como se eu tivesse, sei lá… amigos.
(Ai, gente, tô dramática)
Então é isso: estou tomando antidepressivos, fazendo terapia e gostando. Só falta agora comprar um iPhone, começar a me interessar por rapazes e pronto: estou enturmado aí com a geração de vocês (Y, Z, N… sei lá que letra que vocês são agora).

 
 
 
 

Como vocês sabem, perdi muita gente ano passado. Perdi meu pai, minha sogra, meu tio. Não, eu não sou tão distraído assim. Não saio perdendo gente no ônibus. Eles morreram mesmo.
Dias depois da morte da minha sogra, eu estava na produtora do CQC escrevendo piada. Mesma coisa quando meu pai morreu. Meu tio morreu numa segunda-feira; eu passei o dia pensando em piadas e saí da produtora direto para o velório. É minha profissão, vou fazer o quê?
Essa situação toda me fez lembrar de um livro de contos edificantes que eu lia e relia na casa de uma vizinha, a Maria José. Maria José é quase da família, eu entrava na casa dela sem bater palma (poucas casas da rua tinham campainha) e ia direto pra estante. Ela vivia se assustando comigo: entrava na sala e tava lá aquele moleque deitado no tapete da sala com a cara enfiada num livro. Pois bem: um desses contos edificantes contava a história de um palhaço que fazia muito sucesso, toda noite lotava o circo. Um dia a família dele se envolveu num acidente, a mulher e a filha morreram. Na mesma noite ele estava com a cara pintada no picadeiro, e todos concordaram que tinha sido seu melhor desempenho em anos.
Não é que eu concorde com aquele clichê besta, “o palhaço é a figura mais triste do circo”. Duvido que ele seja mais triste que a mulher barbada, por exemplo. O que eu acho é que quem vive de fazer graça o faz muito melhor quando está triste. Pelo menos eu sou assim.
E por que eu estou contando esse leriado todo pra vocês? Porque o pessoal da produtora do Selton Mello me mandou um e-mail perguntando se eu podia divulgar aqui no blog o novo filme dele, “O Palhaço”. Como eu não sei fazer essas coisas sem ter um contexto, fiz esse nariz de cera enorme aí em cima.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=H5qReKA8sD0&w=480&h=270]

Não estou ganhando nada pela divulgação (não que vocês tenham alguma coisa a ver com isso). Achei legal terem lembrado do JMC para isso. Os tempos de glória deste blog, se um dia existiram, já foram para o caralho. Além disso, gosto do Selton Mello. É um bom ator e parece ser uma boa pessoa. Além de divulgar o filme em blogs decadentes, o Selton Mello também fez uma página do filme no Facebook. É ele mesmo quem atualiza. Diz a moça da produtora: “Nesse filme ele coloca em questão a crise existencial que todo mundo passa durante uma etapa da vida e relata isso de uma forma bem leve, doce, quase poética”. O que isso quer dizer? Não faço idéia. O filme, escrito, dirigido e estrelado pelo Seltinho (não perguntem), estréia dia 28 de outubro. Acho que vou assistir. Não só porque gosto do Selton Mello, mas porque gosto de ver o que os cineastas brasileiros andam fazendo com o dinheiro dos meus impostos.
Ai, gente, com eu sou revoltz.
 
 

Depois de 35 anos de vida (que completo hoje [os 35 anos, não a vida]), resolvi tratar de um dilema antigo. Eu preciso de um nome menor. Esse Marco Aurélio Gois dos Santos aí ocupa um espaço danado, parece um trem (isso sem falar nesse Gois errado, sem acento). Nas revistas em que trabalhei, só eu ocupava duas linhas do expediente. E agora meu nome leva horas para passar nos créditos finais do CQC: é como se fosse eu mesmo passando, largo e pesadão. Tem vinhetas no meio do programa que são mais rápidas do que a passagem do meu nomão. Marco Aurélio Gois dos Santos. Dava pra tatuar esse nome em volta da minha cabeça, de tão grande que é.
O nome comprido sempre foi um problema. Quando eu trabalhava com coisas de informática, o pessoal que mandava fazer os cartões de visita não tinha dó: sapecava lá um Marco Santos ou Marco Aurélio Gois, e pronto. Adotei o Marco Aurélio dos Santos por muito tempo. Aqui dentro da minha cabeça, era uma questão de justiça. Meus dois irmãos sempre usaram só o Gois. Eu achava isso uma injustiça, então adotei o sobrenome paterno . E estava muito feliz com isso, até inventar de ir a Estância, terra de minha avó materna, e conhecer todos os Gois e Góes de lá (a família não decidiu até hoje a grafia do nome). Por questão de identidade com aquele povo todo, reincorporei o sobrenome materno.
Foi difícil convencer os chefes a botar meu nome completo no expediente e nas matérias que eu escrevia. Então inventei uma desculpa metida a engraçadinha: dizia aos chefes de redação que eu queria ser o maior nome do jornalismo de TI do Brasil. Eles achavam graça e deixavam. Tentei aplicar essa piadinha manjada na produtora quando entrei lá — “É que eu quero ser o maior nome da televisão brasileira” — e fui brindado com olhares de gelado desprezo. Devem ter pensado que era sério, sei lá.
Então, como já disse, eu precisava de um nome menor. Mas como? Essa “questão de justiça” com os dois sobrenomes pode ser só sintoma de TOC (quem convive comigo diz que eu tenho isso aí), mas e daí? Eu continuo precisando dos nomes todos. Às vezes eu penso em espremer tudo em um pseudônimo metido a besta, e invento monstruosidades como Maurélio Gossan, que soa meio armênio, ou Aurélio Goissanti, que tem um jeitão de italiano meio bicha.
E eu sei lá por que estou escrevendo isto. Fiquem aí com minha foto do braço quebrado:

Tamãe da moringa...


Tchau.

Calma. Já explico.
Eu sei, por exemplo, que quando eu tenho mais certeza do que falo é justamente quando estou errado. Eu, sabendo disso, já devia ter aprendido a suspeitar dessas ocasiões. Mas não. Tem um Marcurélio perfeitinho e chato dentro da minha cabeça, que fica o tempo todo me criticando. Acho que é o que os psicoisas chamam de superego. Pois esse Marcurélio bonzão aí, que nunca me dá um segundo de sossego, resolve tirar um ronco nessas horas. Aí eu bato no peito, cheio de razão, até  que algo prove o contrário. Algo prova o contrário sempre, e eu ouço um fuén-fuén-fuéeeeeeeeeeein na minha cabeça.
Passei por isso no fim-de-semana. Estava arrumando aqui minha mesa e achei perdida no meio da bagunça uma conta de 360 reais já vencida e intacta (eu bem que estava estranhando aqueles 400 reais dando sopa na minha conta). Entrei no site do Santander para pagar a maldita. Digitei lá os numerinhos de agência e conta e, em vez de aparecer meu nome de usuário na tela, apareceu a palavra “Usuário”. Acima dela, a seguinte mensagem:

Importante

Clique no seu nome. Se não estiver correto não continue e entre em contato

Então o que eu fiz? Continuei, claro. Cliquei no “Usuário” e apareceu uma outra tela com aquele tecladinho que tem no site dos bancos pra gente digitar a senha. Só que o tecladinho não era o mesmo de sempre. O atual é um teclado completo, com letras, números, beregudegos. O que apareceu era uma coisinha chinfrim, só com números, que o banco usava antigamente. Então o que eu fiz? Eu, que trabalhei 13 anos na área de informática, que fui consultor de segurança da informação na PricewaterhouseCoopers, que em cinco anos como jornalista escrevi incontáveis matérias alertando para as armadilhas que nego apronta pra roubar o dinheiro do leitor? O que eu, esse mestre em segurança, fiz?
Digitei a senha, claro.
Entrou outra tela, essa pedindo o número de identificação do meu cartão de senhas. Só aí me veio à mente o único pensamento inteligente do dia: “epa”. Então liguei para o banco pra reclamar.
Uma moça muito simpática me atendeu. Bruna, acho. Sei lá, e também nem importa, acho que esse povo nem usa o nome de verdade. Fica sendo Bruna, então. Expliquei pra Bruna o que estava acontecendo e perguntei se tinham mudado o sistema de internet banking. Ela pediu um minutinho, depois voltou, confirmou uns dados, pediu outro minutinho, fez barulhos de teclado e voltou com o diagnóstico:
— Senhor Marco, o seu computador está com vírus.
E foi aí que entrou o dono da razão. Especialista em segurança, ex-jornalista etc.
— Meu computador não está com vírus nenhum.
— O senhor passou um antivírus?
— Eu sei que não tem vírus nenhum. Eu trabalho com isso.
(“Uuui, santa! Mentindo na cara-dura!” — era o Marcurélio Bonzão acordando.)
— Pela situação que o senhor me descreveu, tudo indica um ataque de vírus. O banco recomenda que o senhor leia a cartilha de segurança que está no site.
— Eu não vou ler cartilha nenhuma! Eu conheço o assunto!
E aí expliquei pra ela que meu computador tem firewall, antivírus e anti-spyware atualizados, que eu não clico em links suspeitos de e-mails que prometem aumentar meu saldo bancário e meu pinto — embora fique muito tentado nos dois casos. Só não disse que meu firewall era aquele do Windows e que meu antivírus/anti-spyware era o Microsoft Security Essentials.
— Senhor Marco, é vírus…
— Não é! Espera aí, que eu vou tentar acessar de outro computador.
Fui até o Mac de Ana Cartola, pelejei um tanto pra lidar com o bicho, entrei no site do banco e digitei meus dados. Na tela seguinte, meu nome apareceu. Cliquei nele e lá veio o tecladão normal.
Fuén-fuén-fuéeeeeeeeeeein
Olhei para o telefone. Do outro lado, a Bruna esperava minha resposta. Então eu fiz o que qualquer homem maduro e honrado faria nessa hora: desliguei o telefone.
Dois segundos depois, o telefone toca. Atendo, é a Bruna.
— Boa tarde. O Sr. Marco Aurélio, por favor.
— Er… Sou eu?
— Sr. Marco, é a Bruna, do atendimento Santander.
— Oi, Bruna! Já estava ligando de novo. A linha caiu.
— Caiu, né?
Nessa hora meu tom de voz já era outro, claro. E o da Bruna também: mais seco, superior.
— Olha, Bruna, eu acessei aqui do Mac da minha esposa e entrou normalmente. Acho que o meu PC pode estar com um problema mesmo.
— Bom. O senhor pode fazer um teste? Tente entrar novamente pelo seu computador e digite um número qualquer no lugar da senha.
Fiz o que ela me mandou (ela já tinha parado de pedir) e, claro, o site foi para a tela seguinte sem reclamar. Coloquei um número qualquer na identificação do cartão de segurança e apareceu uma tela nova, me pedindo todas as senhas do cartão. “Que tipo de imbecil ia cair nessa?”, eu pensei, e o Bonzão respondeu de bate-pronto: “você, caralho”. Digitei um monte de números aleatórios, cliquei no “confirma” e veio uma mensagem de erro. A essa altura, algum banco de dados da Rússia já tinha todos esses números errados — além dos dados e da senha correta, gentilmente fornecidos por mim antes.
— Bom. Nós vamos bloquear o seu acesso ao internet banking. Depois que o senhor passar um antivírus, resolver o problema e ler a cartilha de segurança no site do banco, entre em contato novamente, por favor, para desbloquear o acesso. Tudo bem?
— Tudo bem. Obrigado.
— O acesso está bloqueado a partir de agora. Posso ajudá-lo em mais alguma coisa?
— Não, não. Mas peço desculpas a você, Bruna. Fui arrogante e isso não se faz — a cara ficando quente, uma vontade crescente de me jogar pela janela.
— Não tem problema, senhor Marco. O banco Santander agradece, tenha uma boa tarde.
— Boa tarde.
Desliguei o telefone e, todo murchinho e humilde, tratei de baixar um antivírus decente — o Microsoft Security Essentials, como eu descobri, é tão eficiente quanto amarrar uma fita vermelha no HD pra espantar mau-olhado. Depois de muito brigar com o trojan que insistia em reencarnar, resolvi a parada e desbloqueei meu acesso ao internet banking.
Depois dessa, fica minha sugestão para vocês: se algum dia me virem dizendo coisas do tipo “Eu sei do que estou falando”, me mandem tomar no cu. Será merecido.

2009 foi o ano em que cheguei mais perto do meu objetivo.
Sim, eu tenho um objetivo. Não parece, eu sei, mas tenho. Há muitos anos. Quando comecei a trabalhar, há quase 18 anos, já tinha esse objetivo em mente. Fui estagiário de estatais, “menino da informática” em colégio de padres e loja de móveis, suporte técnico em empresas obscuras, programador Clipper em uma financeira. Fiz suporte técnico em uma multinacional de software (foi nessa época que criei este blog, também pensando no futuro) e especialista em segurança da informação numa grande consultoria. Larguei tudo, virei jornalista de tecnologia. Mas ainda não era meu objetivo: era apenas um passo na direção certa. Meu objetivo exigia presença na mídia, contatos, e a vida de jornalista me deu isso. Fiquei no jornalismo de tecnologia por quatro anos, trabalhei para três editoras.
Então, quando eu já me preparava para dar o próximo passo rumo ao meu objetivo, a sorte me apareceu na forma de um convite de Mestre Palito (não perguntem) para ser roteirista do CQC. Aceitei, é lógico. Agora estou em posição privilegiada, e certo de que 2010 será um ano de outras conquistas no rumo certo. Nunca estive tão próximo do meu objetivo, do sonho de uma vida, da meta traçada com tanto cuidado por tantos anos. Há quem diga ser impossível, há quem ria, mas eu sei que vou conseguir. Com muito trabalho, dedicação e treino, atingirei meu objetivo: ser bailarina do Faustão.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=MF006sr0ElA&hl=pt_BR&fs=1&&w=425&h=344]

Que 2010 seja um ano de conquistas para todos vocês também.

Acordei hoje às sete e meia da manhã, na mesmíssima posição em que tinha ferrado no sono, pouco depois da meia-noite. Para muitos de vocês isso deve não ter nada de mais. Eu os invejo. Minha rotina ultimamente era dormir pouco, levantar de duas em duas horas e acordar com o despertador berrando na minha orelha. Obrigava-me a levantar da cama, agia como um zumbi por algumas horas, e o resto do dia era uma briga danada para não dormir — no ônibus, no trabalho, na faculdade.
Agora são oito da manhã e eu me sinto como se tivesse dormido dezesseis horas seguidas. Tudo graças à melhor invenção do mundo, esse simpático apetrecho:

Tira o olho da minha tromba!

Tira o olho da minha tromba!


Só foi um pouco assustador pra Ana Cartola, tadinha…