De todos os santarrões hipócritas que empesteiam o mundo, os piores ainda são aqueles que ostentam no vidro do carro aquele adesivo “Em caso de arrebatamento, este carro ficará desgovernado”. Questão de lógica: se o cara acredita mesmo que Jesus Cristo vai abduzir seus seguidores de uma hora para outra, sem que seja possível determinar o momento com antecedência, então por que sai por aí dirigindo? Que cristão é esse, que mantém a vida dos outros em constante perigo? Não importa se os que vão ficar são os infiéis: o amor cristão é para todos, então ameaçar a vida dos incréus é um pecado muito sério.
Então chegamos a um paradoxo: se o sujeito for mesmo arrebatado, pode muito bem causar a morte de várias pessoas. Matar é um pecado e, como ele não teve tempo de se arrepender, vai para o inferno. Como é que fica a logística do Barbudão lá em cima? Será que tem que emitir nota fiscal de remessa para o capeta?

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Deus pode até não ser onipresente, mas o adesivo “Deus é fiel” é. E repare na distribuição socioeconômica: esse úbiquo adereço está sempre grudado ou em carros novos em folha (porque o proprietário acredita que o veículo foi uma dádiva dos céus) ou em latas velhas (porque o pobre dono acha que vai conseguir um carro novo se começar pelo adesivo). Pode procurar, você não vai encontrar essa frase em um Corsa 2003. Nós, que dirigimos carros “seminovos” (latas velhas que ainda pagam IPVA), somos a nata do ceticismo nacional.

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Dia desses, andando ali pelo Pacaembu, um carro emparelhou comigo. O motorista, coitado, estava entrando em desespero com aquelas ruas tortuosas que parecem terminar todas no mesmo lugar.
— Amigo, como é que eu chego na Angélica?
— Não é difícil, mas vai arrumar encrenca com o Luciano Huck.
— …
— Er… Vai direto aqui, vira à direita na Estrela de Davi, vai subindo que você sai lá.
— Obrigado.
— De nada. Desculpe a… Ah, porra.
Enquanto ele se afastava, vi no vidro traseiro o adesivo “Dirigido por mim, guiado por Jesus”. Bom, o guia não parece ser de muita ajuda em São Paulo, mas se um dia ele for para Jerusalém nem vai precisar pedir informações.

Dizem que escrever diálogos é um troço(ó) muito difícil. Eu acho fácil, mas isso não quer dizer nada: talvez meus diálogos sejam um troço(ô), e a arrogância me impeça de perceber isso. Talvez seja porque eu vá enfielirando as falas, enquanto a maioria das pessoas quebra a cabeça atrás de verbos dicendi originais a cada travessão. Os verbos dicendi, aliás, merecem um parêntese grandão.

(Aqui no Brasil, os jornalistas têm um problema sério com verbos dicendi. Leia uma notícia da gringolândia, qualquer notícia: eles usam o verbo “to say”, e só. Um ou outro arrisca um “declare”, mas é raro. Aqui é o cão: o sujeito diz, depois fala, depois declara, aí explica, então comemora, espanta-se, lembra, destaca, provoca, às vezes chega mesmo a regozijar-se. “‘Foi um resultado inesquecível’, mija-se todo fulano”. E no final, é claro, ele encerra, finaliza ou conclui, mesmo que não tenha concluído nada. O jornalista não sabe como terminar a matéria, então passa a responsabilidade para o entrevistado. “‘Eu gosto de sopa’, conclui, sorrindo, sicrano”. Reparem.)

Mas eu ia dizendo: se escrever é difícil, narrar um diálogo parece impossível. As pessoas se enrolam para contar uma conversa, mesmo a mais besta. Eu soluciono fazendo vozes diferentes — geralmente, a voz cheia de confiança, wit, aplomb e outras veadagens é minha, a voz de retardado é do interlocutor. Mas o povo por aí se perde. Prestem atenção quando ouvirem alguém contando um diálogo que teve ou testemunhou. “Aí eu peguei e falei assim”, “aí ela pegou e falou assimmmm…”, “aí eu virei pra ela e falei assim”, “aí, sabe o que ela fez? Pegou e virou pra mim e falou assim”. Meu Deus, o que esse povo tanto pega? Parece que essas conversas têm todo um protocolo: só fala quem pegar um negócio qualquer, um bastão, sei lá. “Aí eu peguei e falei assim, ei, cala a boca, o bastão está comigo, é minha vez!”. E o que tanto elas se viram? Deve ser cansativo conversar assim, se virando e pegando coisas a toda hora. Como conseguem se concentrar no diálogo?

“Eu, hein…”, finaliza Marco Aurélio.

Atrasado para o trabalho, trânsito recorde em São Paulo, sem café-da-manhã. Eu já estava fodido mesmo, e resolvi que seria melhor para meu humor parar em um lugar qualquer e comer minha refeição matinal predileta: misto quente e suco de laranja. Parei num boteco perdido na Mooca, numa paralela da Radial Leste, e quase dei meia-volta. O lugar era escuro e sujo, as donas eram meio assustadoras. Mas eu tinha fome, então fiz meu pedido. Má notícia: a chapa estava quebrada. Pedi uma coxinha feita na Copa de 2002 e um guaraná.
Enquanto comia (e pensava no estrago que aquela gororoba faria em minhas vísceras), observava uma das donas do boteco, que segurava um bebê no colo. O moleque tinha pedido maçã, lambido a fruta e não queria mais, então a mãe botou a maçã de volta na prateleira de frutas. Que beleza.
— Pediu tanto e agora não vai comer.
— Esse menino tá com quebrante — disse a que havia me servido.
— Eu também acho. Mas não tem nenhuma benzedeira por aqui.
— Ele está com esse olho triste, sei não. Melhor colocar uma fitinha vermelha no braço.
Olhei para a rua de paralelepípedos e fiquei esperando uma carruagem passar lá fora. Um Corolla me trouxe de volta à realidade: eu estava no século XXI, elas duas estavam erradas.
Meu primeiro pensamento foi de revolta. Aquele bebê (um ano de idade, no máximo) tinha algum problema, e elas queriam resolvê-lo com uma fita vermelha, já que não havia benzedeira disponível. Minha vontade era seqüestrar o moleque e levá-lo a um pediatra.
E então pensei melhor. Lembrei de uma ocasião na minha infância, uma crise de bronquite, uma cruz de metal gelado contra as costas, uma velha que murmurava rezas. Eu estava assustado, mas também aliviado. Em comparação com as injeções a que eu estava habituado, aquilo era um tratamento bastante agradável. Depois dos oito anos de idade, a bronquite sumiu.
Os pais e mães de hoje em dia são uns paranóicos, essa é que é a verdade. Uma tosse, um espirro, uma febrezinha, qualquer coisa é motivo para corridas ao médico. E tome-lhe antibiótico, antitérmico, analgésico, o capeta. Essa nova geração é um imenso laboratório de superbactérias e dores incuráveis: o uso indiscriminado de remédios causa microorganismos mais resistentes, que exigem medicamentos mais poderosos, e assim vai o ciclo.
O que é, então, mais perigoso: a ignorância inofensiva ou a informação paranóica? Eu sei lá. Só sei que amanhã levo uma fitinha vermelha pro moleque.

Esta noite assisti pela segunda vez ao filme Tropa de Elite. Limito-me a dizer duas coisas:

  1. O filme é bom. Eu vi duas vezes, bã.
  2. Capitão Nascimento é um bandido. É carismático, pai de família, bem intencionado? Hitler também era. Bandido. Se perdermos a noção de que um policial que asfixia pessoas com um saco plástico é um bandido, podemos abrir mão da civilização.

De resto, fica clara a falta de vocação comercial desse povo que faz cinema no Brasil. Antes de começar o filme, temos tela atrás de tela de logotipos de estatais e programas governamentais de incentivo. Ora, em vez de mamar nas tetas do governo, por que não aproveitar o sucesso do filme para licenciar produtos? Imagine que legal ter bonequinhos do BOPE para a molecada, ou um game baseado no filme, com invasão de favela, interrogatório, perseguições? Eu me ofereço para escrever o roteiro do game.
Sabe quem tem tino comercial? Eu tenho. Querem ver? Comprem Elite da Tropa Por R$ 29,90 em 2X de R$ 14,90 sem juros. Tá baratinho, e eu ainda ganho uma pequena comissão.

No escritório:
— Não, não tenho tempo. Manda o motoboy buscar.
— Hein? Não, eu preciso disso aqui em vinte minutos. Não quero saber. Manda pelo motoboy.
— Dona Armínia, vamos almoçar durante a reunião. Peça aquela pizza de sempre.
— Cadê o cara da moto? Ô, rapaz! O banco já está fechando. Corre lá que essas contas são urgentes.
— Puta que pariu, o moleque esqueceu os óculos justo no dia da prova? Tá, mando um motoboy aí, ele leva os óculos até o colégio. Que saco…
No trânsito:
— ESSES FILHOS DA PUTA DESSES MOTOBOYS SÃO UMA PRAGA! QUEM É QUE DÁ EMPREGO PRA ESSA GENTE?
Nós, paulistanos, somos uns hipócritas de merda.

A TV mostra o Dia do Trabalho no mundo todo. Em Istambul, na Cisjordânia, em Havana e Moscou, pessoas marchando nas ruas defendem esse ou aquele conjunto de idéias e direitos.
Enquanto isso, em São Paulo, as centrais sindicais brigam por audiência em seus shows de música popular. É maravilhoso viver num país sem problemas e ser parte de um povo de índole pacífica como o nosso. VAI, BRASIL!

“Chega de historinha!”. “Chega de DVD!”. “Chega de desenho!”. É assim que minha sobrinha Ana Julia demonstra sua exasperação diante da informação em excesso. Imitando-a, digo eu: chega de Second Life! Sim, sim, os mundos virtuais são fascinantes, abrem novas possibilidades, oferecem oportunidades e coisa e tal. Eu escrevi sobre isso em agosto do ano passado; foi (acho) a primeira matéria extensa sobre o assunto na imprensa brasileira. No final, eu escrevi:

Até o final do ano, segundo estudo da E-Consulting, o Brasil terá 4,1 milhões de usuários de internet banda larga. A consultoria prevê que esse número mais do que dobrará em dois anos: em 2008, serão 8,3 milhões. Uma parcela ainda pequena da população total do País, é verdade, mas um público consumidor altamente qualificado. São milhões de pessoas de classe média, portadores de cartão de crédito, internautas convictos, e-consumidores. Em outras palavras, um contingente pronto para conhecer a nova realidade dos mundos virtuais. Que empresas estarão a postos para recebê-los?

A resposta parece ser: TODAS! É um inferno. Todo dia alguma empresa anuncia sua chegada “pioneira” ao mundo sintético do Second Life. Lembro de quando a Internet chegou ao Brasil: todo mundo falava em www. Você corria para lá e para cá, abria outra revista, mudava de canal ou estação de rádio, e não adiantava: lá estava nego falando em arroba, em agatetepê, em dabliodabliodablio. Agora a onda é Second Life. Tomara que venha logo uma bolha como as da .com, que é pra neguinho aprender que não existe atalho milagroso para ganhar dinheiro, e que as regras da economia valem no mundo real, no virtual, no sintético, no inferno, na casa do caralho.

UPDATE: Paulo Vivan, o médium Nelson Moraes e o colega Alexandre Barbosa também andaram exibindo seus respectivos sacos cheios de Second Life. É a blogolândia se revoltando contra o último hype. Blogueiros acham que Second Life é coisa de nerd derrotado. Blogueiros! Pra vocês verem como a situação é grave.

Nessa conversa toda sobre arrogância (que descambou para uma discussão sobre espiritismo; deus-me-livre de falar mal do espiritismo), lembrei de um sujeito que trabalhava comigo. Bom, não exatamente: eu trabalhava numa empresa grande, o tal sujeito era da subsidiária carioca. Assim que nos conhecemos (juro, logo depois de apresentados) ele olhou para minha barriga e disse:
— Precisa se cuidar, hein, bicho? Jogar um futebolzinho, pedalar. Não pode ficar gordão assim na sua idade, rapá! Olha o coração, olha o coração!
Eu pensei em várias respostas, mas me contentei em mandá-lo tomar no cu mesmo. O que mais me espantou, porém, foi a falta de reação das outras pessoas presentes. Ninguém se mostrou minimamente constrangido diante daquela clara invasão.
Depois dessa, passei a considerar a possibilidade de começar a agir assim, partindo do princípio da igualdade de direitos. Da próxima vez em que ouvir alguém falando uma bobagem, ou que ler algo horrendamente escrito num blog (ou nos comentários deste blog, algo muito comum), ou qualquer coisa assim, terei o direito de comentar:
— Precisa se cuidar, hein? Ler um livro que não seja espírita, assistir a uns filmes, sei lá. Não pode ser burro assim não, mano! (sou paulista) Olha o cérebro, olha o cérebro!